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Elucidário Madeirense Início
Artigo Nº 2994 Acontecimento histórico Vol. III · pp. 232–240 19 min de leitura

Povoamento e Colonização

O povoamento e a colonização da Madeira a partir de cerca de 1425: a divisão nas capitanias de Machico e do Funchal, a chegada de colonos, condenados e escravos, a desflorestação pelo fogo, as levadas, as sesmarias e os morgadios, e as primeiras freguesias. Descreve-se a jurisdição quase absoluta dos capitães-donatários, bem como os documentos fundadores: o Regimento e o Foral do Infante D. Henrique, as cartas régias de 1433 e as cartas de doação de 1440–1450.

Povoamento e Colonização

1Os primeiros povoadores

No artigo Descobrimento do Arquipélago, dedicámos algumas páginas ao debatido problema do primeiro encontro ou «reconhecimento» destas afastadas ilhas, que aguarda ainda uma segura e definitiva solução no que particularmente se refere á época em que se realizou esse auspicioso acontecimento, aos arrojados navegadores que o empreenderam e ás circunstancias ocasionais que o acompanharam.

O que parece indubitável é que, reconhecida a veracidade do sucesso e assinalada a posição geográfica desse inesperado encontro, não teria decorrido largo tempo para uma activa exploração e um imediato povoamento, embora sejam pormenorizadamente ignoradas as primeiras e frutuosas tentativas empregadas para esse fim.

Apesar da densissima vegetação florestal que inteiramente cobria o solo madeirense e do inverosímil acidentado das suas vertentes e encostas, procederam sem demora os primitivos povoadores a uma rápida exploração através do litoral e efectuaram alguns desembarques nos pontos de mais fácil acesso, como indispensável preparação do movimento colonizador que iria desde logo iniciar-se.

Muitas elevações montanhosas, lombas e alcantis, vales e despenhadeiros, ribeiras, portos e saliências da costa marítima, receberam então o seu baptismo, ficando os seus nomes para sempre inscritos na toponímia madeirense. E assim os vocábulos Seixo, Oliveira, Garajau, Cruz, Formosa, Socorridos, Espirito Santo, Girão, Vera-Cruz, etc., etc., convertidos em nomes próprios, passaram a designar cousas e lugares, que através de cinco séculos ainda ao presente inalteravelmente se conservam.

Com o extraordinário desenvolvimento das diversas industrias e com os prestimosos meios de acção de que hoje largamente dispomos, mal podemos calcular o que seria a colonização de uma ilha ignorada e perdida na vastidão do oceano, a quinhentas milhas de distancia do Continente e que apenas na quadra estival mantinha comunicações com a metrópole, lendo-se em um antigo manuscrito «que el-rei e o infante D. Henrique tinham noticias da Madeira de ano a ano pelo verão porque naqueles princípios se não navegava no inverno».

Os antigos povoadores, além do valor inato da raça e do seu afincado amor ao trabalho, contavam apenas com a excelente amenidade do clima e com a ubérrima fertilidade do solo. Quais outros predecessores de um lendário Robinson, isolados em uma deserta e abandonada ilha, praticavam verdadeiros milagres de heroísmo no arroteamento das glebas virgens, na construção das suas desconfortaveis habitações e na formação de pequenos aldeamentos, a que ficaram chamando «fazendas povoadas».

Ao iniciar-se a auspiciosa colonização, foi esta ilha dividida, para o efeito da sua administração pública, em duas zonas distintas, demarcados os seus limites por uma linha divisória, que se estendia desde a ponta da Oliveira (Caniço) e a ponta do Tristão (Porto do Moniz) constituindo toda a costa setentrional e ainda uma parte da meridional a capitania de Machico, e o restante a capitania do Funchal, respectivamente dirigidas por Tristão Vaz e João Gonçalves Zargo, como já ficou referido nos artigos Capitanias e Donatários.

Entre os companheiros e contemporaneos do último destes capitães-donatários, conhecem-se os nomes de Gonçalo Aires Ferreira, Francisco Carvalhal, João Lourenço, Rui Pais, João Afonso, Antonio Gago, Lourenço Gomes, Francisco Alcoforado, Vasco Delgado, Alvaro Afonso, Aires Lordelo, Vasco Esteves, Manuel Afonso de Sanha e João de Prado, conservados em antigas cronicas e diversos nobiliários. Obtiveram todos terras de sesmaria, que em grande parte foram vinculadas pelos seus herdeiros e sucessores, tornando-se estes os troncos das mais antigas e nobres familias madeirenses. Vid. Sesmarias e Instituições Vinculares.

Investidos os capitães-donatários nas largas atribuições que as «cartas de doação» lhes conferiam e assumindo a superior direcção de todos os negócios de administração pública, logo se tornaram os mais qualificados povoadores da incipiente colonização madeirense, adquirindo o maior prestígio e a mais preponderante influência, que alguns conseguiram traduzir de futuro na concessão de altas distinções nobiliárquicas e na aquisição de avultados domínios territoriais.

São bem escassas as noticias que nos deixaram as antigas crónicas acerca do primitivo povoamento no que particularmente respeita ao número, posição social, qualidades pessoais e terras de origem dos primeiros colonizadores.

Vagamente se sabe que entre eles se contavam indivíduos de nobre ascendência, outros das classes populares, mecânicos e cultivadores das terras, e também alguns criminosos que cumpriam suas penas nas prisões, informando-nos Gaspar Frutuoso que João Gonçalves Zargo «recusara trazer os culpados por causa da fé, ou traição, ou por ladrão». Não se sabe o número aproximado desses individuos e também se desconhece a proporção em que as diversas camadas sociais se encontrariam na formação dessas primeiras levas de povoadores. Com fundamento se conjectura que não seriam poucos, crescendo breve e rapidamente esse número com a vinda frequente de outros colonos e especialmente com a grande legião de escravos mouros e negros, tornada logo uma avultada multidão. Assim o exigiam os largos e penosos trabalhos do arroteamento das glebas virgens estimulados os activos cultivadores pela exuberante fertilidade do solo e pela excelente benignidade do clima.

Foi, porém, no período posterior àquele de que nos estamos ocupando, isto é, na segunda metade do século XV, que o povoamento tomou um mais largo incremento, tanto de povoadores vindos do continente português e de inúmeros escravos africanos, como ainda de muitos estrangeiros de vários países europeus, alguns dos quais oriundos de antiga família, que vinham procurar nesta nova terra da promissão o que a própria pátria não pode dar-lhes.

O povoamento tem seu principio dentro do perímetro em que hoje se levanta a cidade do Funchal e simultaneamente em diversos pontos considerados mais apropriados para esse fim, como foram Machico, Santa Cruz, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol, Calheta e ainda em outros lugares situados na costa meridional da ilha.

2Arroteamento, levadas e sesmarias

A maior dificuldade que obstava a um imediato e eficaz povoamento, era o superabundante e gigantesco arvoredo que revestia toda a superfície das terras consideradas próprias para as primeiras explorações agrícolas. Veio um violento incêndio, talvez imprudentemente ateado, mas também necessariamente imposto pela força imperiosa das circunstâncias, abrir vastas clareiras propícias ao arroteamento desses largos tratos de terreno até então improdutivos. Qual fosse a área da acção destruidora desse incêndio e as suas imediatas consequências, não é hoje fácil dizê-lo, oferecendo particular interesse o que a tal respeito se pode ler nas «Saudades da Terra» e respectivas anotações e ainda nas páginas do «Elucidário Madeirense». Vid.(Incêndios).

Sem demora se pôde reconhecer a notável fertilidade do solo madeirense, mas também se verificou sem esforço que as mais remuneradoras culturas agrícolas não poderiam atingir um grau de larga e compensadora prosperidade se não á custa de um difícil e dispendioso sistema de irrigação. Apareceram então as primeiras «Levadas».

Nenhum madeirense ignora o que sejam esses aquedutos formados por estreitos e extensos canais abertos no solo e geralmente construídos na sólida alvenaria, que conduzem a preciosa linfa que dá á terra o sangue que a fertiliza e ás plantas a seiva e a vida que as fazem abundantemente produzir.

No artigo levadas (II-235, 269), inserimos um desenvolvido estudo acerca deste importante assunto, que tão de perto interessa á economia do arquipélago.

Esses aturados trabalhos empregados na exploração agrícola das terras eram regularmente compensados com as concessões feitas aos cultivadores pelos capitães-donatários, em virtude das instruções recebidas do infante D. Henrique e pela aplicação do sistema das sesmarias já em uso no continente português. E essas primeiras concessões foram posteriormente modificadas com mais amplas regalias, estabelecendo-se o direito á propriedade das «bemfeitorias», com a faculdade de aforar e até de vender as terras mediante a observancia de certas cláusulas, que não eram tidas por muito onerosas nem vexatórias.

Foi relativamente avultado o número dos mais antigos povoadores vindos do Continente, mas insuficiente para uma larga exploração agrícola, sobretudo pelo acidentado dos terrenos, densidade florestal, trabalho penoso da irrigação e ainda outras circunstancias de carácter local.

Como acima se diz, foi o solo da Madeira regado pelo suor dos escravos negros, mouros e mulatos, que, cruzando-se com os sesmeiros continentais, tão profundamente abastardou a genuidade nativa da raça. Nos fins do século XV, havia nesta ilha o número aproximado de dois mil escravos, que era bastante avultado ao lado da população europeia, que então orçaria por quinze a dezoito mil habitantes.

O já citado sistema das sesmarias na vantajosa distribuição das terras favoreceu o estabelecimento de muitas «fazendas povoadas», em que os primitivos povoadores viviam com as suas famílias e escravos, tornando-se em breve os proprietários das mesmas terras e deixando o cultivo delas aos colonos e escravos. Veio depois a vinculação dos terrenos e os sesmeiros ricos e os colonos mais favorecidos da sorte abandonaram a indústria agrícola e procuraram nos centros de mais densa população uma vida despreocupada das canseiras os antigos povoadores. Nasceu o chamado «contrato de colonia» e três quartas partes dos terrenos aráveis desta ilha estavam convertidos em vínculos e morgadios.

Para se determinar com verdadeira exactidão o ano em que começou o povoamento desta ilha, necessário seria que se pudesse precisar a época do seu descobrimento, o que ainda se não conseguiu averiguar com inteira verdade. Na carta de doação do infante Henrique á Ordem de Cristo, datada de 18 Setembro de 1460 e a que se refere a publicação que tem por titulo Alguns documentos do Archivo Nacional da Torre do Tombo acerca das navegações e conquistas dos portuguezes, lê-se: «comecei de povoar a minha ilha da Madeira averá ora trinta e cinco anos e mesmo a do Porto Santo...» Destas palavras se conclui que a colonização se iniciou pelos anos de 1425, isto é, poucos anos depois da descoberta, o que concorda com as indicações de diversos cronistas.

3As primeiras freguesias

Foram os religiosos franciscanos, vindos na frota que conduzia os mais antigos povoadores, os primeiros sacerdotes que desempenharam funções eclesiásticas nas diversas capelas que em breve se fundaram e teriam sido as de Santa Catarina, São Paulo e São Sebastião, e talvez mesmo em rústicas e improvisadas ermidas que temporariamente se houvessem adaptado aquele fim.

Nas chamadas «fazendas povoadas», estabelecidas em vários pontos da ilha, construíram-se muitas capelas, que tiveram seus capelães privativos, transformando-se na sua maioria em «curatos» e «capelanias» com foros de paróquia e que foram as sedes das futuras freguesias legalmente constituídas. É por isso que, em virtude dos elementos que nos fornecem as antigas crónicas, não se torna fácil determinar com inteira precisão a data da criação de algumas paróquias organizadas nos séculos XV e XVI, tomando o significado desses agrupamentos de habitantes no sentido que modernamente se lhes atribui. «Capelania», «curato», e «freguesia» são termos empregados, por vezes indistintamente, para designar o que hoje com tôda a propriedade chamamos paróquia. E, assim, nessas crónicas se afirma, e se repete nas anotações das «Saudades da Terra», que as freguesias de Camara de Lôbos e da Calheta foram criadas no ano de 1430 e que a de Machico, capital da capitania e lugar sujeito a um intenso povoamento desde o início da colonização, tivera a sua criação no ano de 1450, sabendo-se que esta localidade chegou a ombrear com o Funchal quanto á sua expansão e desenvolvimento, embora apenas nos primeiros tempos dessa colonização.

Foi pelo ano de 1430 que no Funchal, e compreendendo uma vasta área, se estabeleceu a primeira freguesia, tendo o seu centro em uma das capelas que ficam citadas, militando, porém, algumas razões a favor da pequena ermida de São Sebastião. Em 1438, fixou-se a sua sede na igreja de Santa Maria ou da «Conceição de Baixo», mandada edificar pelo Infante D. Henrique na margem esquerda da ribeira de João Gomes e a pequena distancia da praia, tomando o nome de Nossa Senhora do Calhau.

No ano de 1508, passou a ter a sua nova sede na chamada «Igreja Grande», ainda em estado de atrasada construção. Cinquenta anos depois, isto é, em 1558, foi a cidade do Funchal com os seus arredores dividida em duas freguesias com as respectivas sedes na Igreja da Sé e na de Santa Maria Maior.

Até os fins do meado do século XV, período a que particularmente nos vimos referindo, havia já neste arquipélago dez freguesias autónomas, em que funcionavam regularmente todos os serviços religiosos das paroquias independentes, as quais tiveram as suas sedes nas capelas mais centrais existentes nesses povoados.

Convém recordar que, além de serviço religioso obrigatório, exercido nas sedes paroquiais, mantinha-se em varias capelas, como acima ficou referido, o desempenho de muitos actos do culto dirigidos por outros sacerdotes e a que prestavam prestimoso auxílio vários membros da ordem seráfica espalhados nos seus modestos e dispersos cenobios.

Nos fins deste período (1425-1450), tinham já os trabalhos do povoamento atingido um notável desenvolvimento, pois que um ou dois anos depois, isto é, em 1451 ou 1452, era a povoação do Funchal elevada á categoria de vila com os privilégios e regalias inerentes aos Municípios, como pela mesma época aconteceu com as sedes das capitanias de Machico e do Porto Santo.

No entretanto, é forçoso confessar que, somente na segunda metade do século XV e na primeira metade do século seguinte, revestiu o povoamento madeirense o seu maior desenvolvimento com os progressos sempre crescentes da agricultura e das industrias dela derivadas, como foram o largo fabrico do açúcar e do vinho, a exportação das madeiras, da urzela, do «pastel» e de muitos outros produtos agrícolas. A este progresso, andava correlativamente ligado uma grande expansão dos povoados e foram-se sucessivamente criando novas paroquias e em breve foi a vila do Funchal elevada á categoria de cidade e nela se estabeleceu poucos anos depois a sede de uma diocese, a primeira que se fundou nos nossos domínios ultramarinos.

4Poderes dos capitães-donatários

Embora datem respectivamente dos anos de 1440, 1446 e 1450 as doações oficiais feitas a Tristão Vaz, Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zargo das capitanias de Machico, Porto Santo e Funchal, é certo que esses três primeiros capitães-donatários foram desde logo investidos na administração directa dos seus cargos e privilégios, ao iniciar-se o povoamento do arquipélago madeirense pelos anos de 1425.

Afirma-se que, por essa ocasião, o infante D. Henrique, a quem estas ilhas foram doadas pelo monarca e ainda como grão-mestre da Ordem de Cristo a que elas «pertenciam no espiritual», dera aos donatários as necessárias instruções destinadas a regular os diversos serviços de administração pública, fixando a esfera das suas atribuições e discriminando, porventura, as faculdades de que poderiam servir-se no exercício e aplicação da justiça. A haverem existido, como supõe Gaspar Frutuoso e nos inclinamos a acreditar, não ficaram arquivadas em qualquer documento conhecido ou perdeu-se a noticia delas com a promulgação de outras disposições relativas a essa mesma matéria.

O que, porém, se sabe é que se tornaram verdadeiramente discricionários os poderes dos donatários em todos os ramos de administração, não somente porque muitos factos o comprovam, mas ainda porque as próprias cartas de doação o confirmam, dizendo-se nelas expressamente que ele (o capitão-donatário) tenha em toda esta sobredita terra a jurisdiçam por mim e em meu nome do civel e do crime resalvando morte ou talhamento de membro. Vê-se que, além da aplicação da «pena ultima» e da do «talhamento de membro», reservados ao poder real, a acção governativa dos capitões-donatários se estendia a todos os serviços do Estado e ainda aos que diziam respeito á arrecadação das diversas contribuições e impostos, à distribuição de terras incultas e à nomeação dos diversos cargos públicos, etc.

Nas localidades mais importantes, tinham os capitães-donatários os seus representantes na direcção dos negócios públicos, que eram os ouvidores e alcaides, especialmente encarregados dos serviços de carácter administrativo e da arrecadação de diversas contribuições e impostos. A exemplo dos seus chefes, dos quais recebiam as respectivas nomeações nos princípios do povoamento, não raro abusavam das faculdades de que se achavam investidos e eram, por vezes, cegos instrumentos das prepotências dos mesmos capitães-donatários.

É sabido que, somente a partir do ano de 1834, em que se estabeleceu o sistema do governo constitucional, começou a Madeira a ser inteiramente administrada pelas mesmas leis que estavam em pleno vigor no continente português. Até essa época, eram as ilhas adjacentes consideradas como províncias ultramarinas, e a sua administração pública fazia-se em geral por leis privativas, que muitas vezes diferiam essencialmente das que vigoravam na metrópole.

Não é de estranhar que, ao iniciar-se o povoamento, ainda mais se acentuasse essa discrepância, atentas as imprevistas e extraordinárias circunstancias que então se davam e sem mesmo contar com as arbitrariedades e excessos cometidos pelos capitães-donatários e seus representantes nas diversas localidades, como já atrás fizemos notar.

5Regimentos, forais e doações

Motivos ponderosos persuadem que o infante D. Henrique tivesse dado aos três primeiros donatários as indispensáveis instruções, ao investi-los na direcção dos trabalhos da primitiva colonização, referindo-se particularmente o historiador das ilhas ao «Regimento» que regulava a divisão das duas capitanias desta ilha e á concessão das terras aráveis por meio do sistema das sesmarias. São estas as mais antigas providencias governativas de que há noticia.

Quanto á distribuição das glebas, adoptou-se o já conhecido sistema das sesmarias (Vid. Gama Barros III, pág. 699 e ss.), embora talvez com as modificações que as circunstancias do meio aconselhavam. O sesmeiro que, dentro de cinco anos, não fizesse um conveniente aproveitamento dos terrenos, perdia o direito a eles. Estas disposições foram posteriormente modificadas, concedendo-se mais amplas regalias aos cultivadores das terras, como o direito á propriedade das «bemfeitorias», a faculdade de poderem aforar e até vender essas mesmas terras, observadas certas clausulas, que não eram então consideradas onerosas ou vexatórias, como já deixamos dito em artigo precedente.

Não conhecemos a data precisa da redacção concessão do «Regimentos» e instruções a que nos vimos referindo, mas devem ser anteriores ás cartas régias do rei D. Duarte, de 26 de Setembro de 1433, em que é feita a doação deste arquipélago ao infante D. Henrique e da jurisdição espiritual á Ordem de Cristo, de que o mesmo infante era grão-mestre. Julgamos que as mencionadas cartas régias serão a plena confirmação de doações anteriormente feitas, talvez por D. João I, estando o infante na posse do inteiro senhorio destas ilhas desde o início do povoamento.

Nas cartas de doação das três capitanias aos primeiros donatários, faz o infante menção de um «Foral» que não sabemos se teria sido um documento distinto das instruções a que nos havemos referido. É no entretanto certo que ele existiu, porque, no «Foral» concedido no ano de 1515 pelo rei D. Manuel aos Municípios do Funchal, Ponta do Sol e Calheta, se encontra uma expressa referencia ao foral concedido pelo infante D. Henrique, como pode ver-se a paginas 494 das anotações ás «Saudades da Terra». Em outro lugar fazemos mais larga referencia aos documentos que ficam citados e á acção do infante na grandiosa empresa da primitiva colonização deste arquipélago, para onde encaminhamos a atenção do paciente leitor.

Depois do «Regimento» e do «Foral», outorgados pelo infante e cujas datas se ignoram, e dos Alvarás Régios de D. Duarte do ano de 1433, confirmados por D. Afonso V, são as cartas de doação de D. Henrique aos primeiros donatários, datadas de 1440, 1446 e 1450 os mais antigos documentos de carácter governativo, que se conhecem respeitantes á primitiva administração pública neste arquipélago e que encerram uma noticia de importantes disposições legais a observar, além de enumerar os altos privilégios de que podiam usar os mesmos donatários e as diversas contribuições e impostos que tinham direito a cobrar.

No arquivo da Camara do Funchal, acham-se registados vários «capitulos» emanados do infante D. Henrique e do mestrado da Ordem de Cristo, datados do ano de 1450, e seguintes, já no declinar do período de que temos tratado nestes artigos, acerca da nomeação de alcaides, arrecadações de impostos e outras medidas de carácter administrativo, que nos levaria longe se deles quiséssemos fazer pormenorizada menção.

Foi, porém, na segunda metade do século XV e primeira metade do século seguinte que se «promulgaram» muitos alvarás régios respeitantes a diversos assuntos de carácter governativo, mas de que agora não fazemos menção por se acharem fora do período em que enquadramos os factos que ficam rapidamente referidos.

Interessando particularmente a este assunto, publicámos em «O Jornal» dos meses de Julho e Agosto de 1943 uma série de artigos subordinados ao titulo de «Comêço do Povoamento Madeirense – 1425-1450», dos quais ficam acima transcritos apenas alguns trechos, na impossibilidade de os trasladar integralmente nestas páginas.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 14
  1. O povoamento da Madeira começou sob os primeiros capitães-donatários, com colonos de Portugal Continental, alguns dos quais se abrigaram inicialmente nos Ilhéus do Funchal.

  2. Foi criada a freguesia de Câmara de Lobos, aparentemente a primeira fora do Funchal, com sede na Capela do Espírito Santo.

  3. D. Duarte concedeu o arquipélago ao Infante D. Henrique, impondo a circulação da moeda do reino, e atribuiu a jurisdição espiritual à Ordem de Cristo.

  4. Foi construída a igreja de Nossa Senhora do Calhau, que se tornou sede de Santa Maria Maior, a primeira freguesia do Funchal.

  5. Cartas de 1440, 1446 e 1450 concederam as capitanias de Machico, Porto Santo e Funchal aos seus primeiros capitães.

  6. O Infante D. Henrique doou a Capitania de Machico a Tristão Vaz.

  7. O Infante D. Henrique doou por carta a Capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo.

  8. Foram registados no arquivo da Câmara Municipal do Funchal capítulos do Infante D. Henrique e da Ordem de Cristo relativos a alcaides e impostos.

  9. O Infante D. Henrique doou a João Gonçalves Zarco a Capitania do Funchal.

  10. D. Afonso V elevou o Funchal à categoria de vila; Machico e a Baleira (Porto Santo) terão sido elevadas a vilas e concelhos por volta da mesma época.

  11. O Infante D. Henrique emitiu uma carta de doação que concedia à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual sobre as ilhas e fazia referência ao início do povoamento.

  12. O bispo D. João Lobo benzeu a Igreja Grande do Funchal, ainda inacabada e mais tarde convertida em Sé, para onde foi transferida a sede da freguesia.

  13. D. Manuel I concedeu um foral comum ao Funchal, à Ponta do Sol e à Calheta, que fixava os dízimos, o quinto dos açúcares, as receitas da alcaidaria, os preços do sabão e outros tributos.

  14. Uma carta régia dividiu a única freguesia do Funchal nas freguesias da Sé e de Santa Maria Maior (Calhau) e instituiu uma colegiada na igreja.

  15. O governo constitucional (liberal) foi estabelecido na Madeira, sujeitando a ilha à legislação do continente e pondo fim à antiga organização municipal, às milícias e à bandeira branca da cidade.

  16. Foi publicada em O Jornal uma série de artigos sobre o início do povoamento da Madeira, entre 1425 e 1450.

Lugar

Lugares mencionados · 17
Mapa: Arquipélago da Madeira (17)
  1. Calheta

    Povoação antiga; diz-se que a sua freguesia foi criada em 1430.

  2. Calheta

    Concelho ao qual foi concedido o foral de 1515.

  3. Câmara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Povoação antiga; diz-se que a sua freguesia foi criada em 1430.

  4. Capela de São Sebastião

    Ponta do Sol. Possível primeira sede da freguesia do Funchal, cerca de 1430.

  5. Funchal

    Sede de capitania onde começou o povoamento; elevada a vila por volta de 1451–1452.

  6. Igreja de Nossa Senhora do Calhau

    Funchal. Construída pelo Infante D. Henrique; sede da freguesia a partir de 1438.

  7. Igreja de Santa Maria Maior

    Funchal. Sede de uma das duas freguesias do Funchal a partir de 1558.

  8. Machico

    Sede de uma capitania e povoação antiga; freguesia criada em 1450.

  9. Ponta da Oliveira

    Santa Cruz. Extremo sul da linha divisória das duas capitanias.

  10. Ponta do Sol

    Local de povoamento antigo.

  11. Ponta do Sol

    Concelho a que foi concedido o foral de 1515.

  12. Ponta do Tristão

    Porto Moniz. Extremo norte da linha divisória entre as capitanias.

+ 5 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 15
  1. Primeiro capitão-donatário de Porto Santo, cuja capitania lhe foi concedida em 1446.

  2. Rei que confirmou os decretos de D. Duarte de 1433 relativos à Madeira.

  3. Rei de Portugal cujas cartas de 26 de setembro de 1433 concederam o arquipélago ao Infante D. Henrique e a jurisdição espiritual à Ordem de Cristo.

  4. Infante D. Henrique, senhor da Madeira, que emitiu os primeiros regimentos, o foral e as cartas de doação aos primeiros capitães.

  5. Rei que concedeu em 1515 um foral ao Funchal, à Ponta do Sol e à Calheta, no qual se faz referência ao foral anterior do Infante D. Henrique.

  6. Um dos primeiros colonos, a quem, juntamente com Zarco, foram concedidas terras de sesmaria.

  7. Um dos primeiros colonos, a quem, juntamente com Zarco, foram concedidas terras de sesmaria.

  8. Historiador citado pela sua descrição do regime de sesmarias.

  9. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Autor de Saudades da Terra, citado a propósito dos primeiros colonos e das instruções dadas aos donatários.

  10. Companheiro de Zarco e um dos primeiros colonos a receber terras de sesmaria.

+ 5 mais
  1. Infante D. Henrique, senhor da Madeira, que dirigiu o seu povoamento a partir de cerca de 1425.

  2. Primeiro capitão-donatário do Funchal, cuja capitania lhe foi concedida em 1450 e que se recusou a trazer determinados condenados.

  3. Rei de Portugal que, segundo sugere o autor, poderá ter feito doações anteriores das ilhas ao Infante D. Henrique.

  4. Um dos primeiros colonos, a quem, juntamente com Zarco, foram concedidas terras de sesmaria.

  5. Primeiro capitão-donatário de Machico, cuja capitania lhe foi concedida em 1440.

Na folha P

Vistos recentemente

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