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Ordem de Cristo 1A Ordem e o Infante
Artigo Nº 2672 Instituição religiosa Vol. III · pp. 23–26 6 min de leitura

Ordem de Cristo

História da Ordem de Cristo, sucessora dos Templários, cujos recursos, sob o mestrado do Infante D. Henrique, apoiaram os descobrimentos portugueses. A Ordem exerceu jurisdição espiritual e recebeu certas rendas na Madeira desde 1433 até à incorporação do seu mestrado na Coroa e à criação da diocese do Funchal (1514).

Ordem de Cristo

1A Ordem e o Infante

A ordem dos Templários havendo prestado os mais assinalados serviços na formação e consolidação da nacionalidade portuguesa e ainda depois nas lutas que foi necessário sustentar com os mouros e castelhanos, transmitiu á sua sucessora o mesmo entusiástico ardor e a mesma heróica abnegação na defesa da pátria, encontrando sempre nela os monarcas o seu melhor e mais poderoso auxiliar para o alargamento dos nossos domínios e engrandecimento e prosperidade do nosso país.

Foi o infante D. Henrique o primeiro príncipe português que assumiu o mestrado da Ordem de Cristo, afirmando-se que procurara nesse poderoso organismo o principal ponto de apoio para a realização da grandiosa empresa que concebera. Diogo Lopes de Sousa, seu antecessor no mestrado da Ordem, tinha deixado esta num elevado grau de prosperidade e rodeada do maior prestigio e influencia, o que notavelmente se ajustava aos projectos que o infante tentaria levar a cabo.

Era uma ordem rica e poderosa. Os seus membros cheios de fé e de audácia, desejosos do alargamento e do triunfo dos seus ideais religiosos, ávidos de aventuras e atraídos irresistivelmente para o mistério e para o desconhecido, não podiam mais conter-se nos apertados limites das fronteiras continentais. Foram a Ceuta em 1415, numa primeira e frutuosa tentativa, e iriam depois aos confins do universo.

O infante D. Henrique não poderia encontrar em outra parte mais activos e dedicados colaboradores. Não há dúvida de que os recursos materiais de que dispunha a Ordem e a falange aguerrida e heróica dos seus membros, todos vinculados por votos religiosos, constituíram o principal factor na realização da sua obra gigantesca.

O infante, e sobretudo os membros mais graduados da Ordem, não esqueceram os serviços prestados, exigindo a supremacia espiritual e religiosa nos novos domínios conquistados aos mares e aos continentes. Os monarcas fizeram diversas doações á Ordem de Cristo, concedendo-lhe a superintendência nos serviços religiosos, que ela exercia especialmente por meio dos sacerdotes que contava entre os seus membros.

2O espiritual da Madeira

É de 26 de Setembro de 1433 a Carta Regia em que D. Duarte doou no espiritual o arquipélago da Madeira «pera todo sempre» á Ordem de Cristo. No artigo Doações (vol. I, pág. 368) já tratámos, embora sumariamente, deste assunto e para lá remetemos o leitor, podendo ali ver-se como aquela Ordem perdeu a breve trecho o seu predomínio e as regalias de que gozava, principalmente por causa da incorporação do mestrado da mesma Ordem na Coroa (C. R. de 27 de Abril de 1497) e pela criação da diocese do Funchal (Bula de 12 de Junho de 1514).

Não é hoje fácil determinar com precisão até onde chegavam neste arquipélago os privilégios e regalias usufruídos por essa Ordem. Além da superintendência nas coisas de carácter espiritual e religioso, cobrava determinados impostos e impunha a tributação de certas rendas, de que apenas temos um conhecimento vago, escasseando-nos elementos para uma apreciação segura e detalhada sobre o assunto.

Quanto ao espiritual, procurou sempre a direcção religiosa da Ordem que especialmente residia no vigário de Tomar, manter a sua supremacia neste arquipélago, enviando sacerdotes que aqui exercessem as funções eclesiásticas e superintendessem em todos os serviços religiosos.

Diz o padre António Cordeiro «que João Gonçalves Zargo, logo que fundou a Villa do Funchal, e viu não tinha ainda sacerdotes seculares com jurisdição paroquial, escreveu ao Infante D. Henrique, pedindo que lh'os mandasse, e o Infante, como mestre da Ordem de Christo, ordenou a D. Frei Pedro Vaz, Prior então de Tomar, que provesse aquella falta; e o dito Prior remeteo logo á Madeira hum sacerdote com o titulo de vigario e outros com titulo de beneficiados; e da mesma sorte proveu com outros semilhantes a Villa de Machico». João Garcia, vigario de Machico, era cavaleiro de Cristo e veio para esta ilha por mandado da sua Ordem, superintendendo nos serviços religiosos da capitania de Machico, no segundo quartel do século XV, ignorando-se o nome do eclesiastico que então teria a direcção das cousas eclesiasticas na capitania do Funchal. Nuno Cao, que era membro graduado da Ordem, veio para esta ilha no ultimo quartel do século XV, dirigir superiormente os negocios religiosos na capitania do Funchal e talvez em todo o arquipélago, tendo sido o primeiro deão da nossa Sé, no ano de 1514. No ano de 1508, mandou a Ordem de Cristo a esta ilha o bispo D. João Lôbo, de quem já nos ocupámos a pag. 277 do 2.° Volume desta obra. Em 1514 é criada esta diocese, que foi provida em D. Diogo Pinheiro, vigario de Tomar, perdendo assim a Ordem de Cristo neste arquipélago a supremacia espiritual de que gozava.

3Direitos temporais e comendas

Já noutro lugar (vol. I, pág. 225) demos uma desenvolvida noticia acerca do Campo do Duque, que pertenceu ao grão-mestrado da Ordem de Cristo e que conservou aquele nome pelo facto dos seus grãos-mestres terem sido o duque de Viseu D. Henrique, o duque D. Fernando, os duques de Viseu D. João e D. Diogo, e o duque de Beja D. Manuel, depois rei.

Eram estes duques e grãos-mestres que pelos seus representantes exerciam neste arquipélago os direitos pertencentes á Ordem e parece que para si próprios arrecadavam os diversos impostos que eram usufruto da mesma Ordem. Possuíam o Campo do Duque e nele fizeram diversas concessões para a construção do curral do concelho, das casas da Câmara e da Sé Catedral, não se sabendo se seriam possuidores de quaisquer outros terrenos. Foi a Ordem que promoveu a criação da alfandega desta cidade, especialmente destinada á arrecadação dos direitos que recaíam sobre a exportação do açúcar, tendo sido a infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho menor D. Diogo, grão-mestre, que mandou a esta ilha Luís de Atouguia proceder ao estabelecimento daqueles serviços alfandegários.

Como já dissemos, não podemos determinar precisamente a extensão dos privilégios temporais de que a Ordem usufruía neste arquipélago, mas parece que não eram muito reduzidos, a avaliar pela relação das comendas que o dr. Rodrigues de Azevedo transcreve das Definições e Estatutos da Ordem, numa das notas das Saudades:

«A Commenda dos dizimos dos pescados e meunças da Capitania de Machico, e Ilha do Porto Santo.

Quarenta moyos de pão, convem a saber, vinte de trigo, e vinte de cevada, que se dão com o Habito, na Ilha do Porto Santo.

A Comenda dos dízimos de todas as rendas do pão da Ilha da Madeira, e das dos Açores.

A Comenda dos dízimos dos pescados, e meunças da Capitania de Machico, e Ilha do Porto Santo, em trinta e cinco mil reis no ano de 1555.

A Comenda de quarenta moios de pão meado da Ilha do Porto Santo, em sessenta e quatro mil reis no ano de 1545.

A Comenda dos dízimos, que rendem as moendas de pão da Ilha da Madeira, e Ilhas dos Açores, em cento e quarenta mil reis no ano de 1600.»

Quando o grão-mestre D. Manuel, duque de Beja, sucedeu na coroa a D. João II, ficaram pertencendo ao monarca os principais direitos e privilégios de que gozava a poderosa Ordem nesta ilha, consumando-se deste modo uma obra já iniciada pelos reis seus antecessores. A Ordem de Cristo não foi inteiramente despojada dalguns dos tributos que aqui arrecadava, mas, tornado realengo este arquipélago, reduziram-se a proporções muito limitadas os direitos e isenções de que gozava.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 08
  1. Portugal conquistou Ceuta, a sua primeira conquista em África, com a participação de membros da Ordem de Cristo.

  2. D. Duarte concedeu o arquipélago ao Infante D. Henrique, impondo a circulação da moeda do reino, e atribuiu a jurisdição espiritual à Ordem de Cristo.

  3. Uma carta de D. Manuel tornou a Madeira território da Coroa a título perpétuo e inalienável, juntamente com o mestrado da Ordem de Cristo, atingindo gravemente os privilégios dos donatários.

  4. A Ordem de Cristo enviou o bispo D. João Lobo à Madeira. Foi o primeiro bispo a visitar a ilha, antes da criação da diocese.

  5. A bula Pro excellenti praeeminentia, do Papa Leão X, criou a diocese do Funchal, pondo fim à supremacia espiritual da Ordem de Cristo; a igreja tornou-se catedral, D. Diogo Pinheiro foi nomeado primeiro bispo e Frei Nuno Cão primeiro deão.

  6. A comenda do cereal de Porto Santo, da Ordem de Cristo, foi avaliada em 64 000 réis.

  7. A comenda dos dízimos do pescado de Machico e Porto Santo, da Ordem de Cristo, foi avaliada em 35 000 réis.

  8. A comenda dos dízimos dos moinhos da Madeira e dos Açores foi avaliada em 140 000 réis.

Lugar

Lugares mencionados · 08

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (8)
  1. Açores

    Portugal. Os dízimos dos Açores integravam as mesmas comendas.

  2. Campo do Duque

    Funchal. Terreno no Funchal pertencente aos grão-mestres, cedido para a construção da Sé e dos Paços do Concelho.

  3. Ceuta

    Spain. Conquistada em 1415 com a participação da Ordem.

  4. Funchal

    Vila fundada por Zarco que recebeu clérigos da Ordem.

  5. Machico

    Vila e capitania às quais a Ordem também enviou clérigos.

  6. Porto Santo

    Origem de dízimos e cereais destinados às comendas da Ordem.

  7. Sé do Funchal

    Funchal. Construída num terreno cedido do Campo do Duque.

  8. Tomar

    Portugal. Sede da direção religiosa da Ordem.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 18
  1. Anotador das Saudades da Terra que transcreveu a lista das comendas da Ordem.

  2. Cronista citado a propósito do envio dos primeiros clérigos pela Ordem para o Funchal e Machico.

  3. Mãe e tutora de D. Diogo, que enviou Luís de Atouguia para instituir a alfândega do Funchal.

  4. Duque de Viseu e grão-mestre; a mãe exerceu a tutela em seu nome.

  5. Vigário de Tomar nomeado primeiro bispo do Funchal em 1514.

  6. Rei que, em 1433, concedeu à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual sobre a Madeira.

  7. O Infante D. Henrique, primeiro mestre da Ordem de Cristo pertencente à família real, que utilizou os recursos da Ordem nos descobrimentos.

  8. Rei a quem sucedeu D. Manuel.

  9. Bispo enviado à Madeira pela Ordem de Cristo em 1508.

  10. Grão-mestre que se tornou rei, passando para a Coroa os principais direitos da Ordem na Madeira.

+ 8 mais
  1. Antecessor do Infante D. Henrique como mestre, que deixou a Ordem próspera.

  2. Membro destacado da Ordem que dirigiu os assuntos religiosos no Funchal e se tornou o primeiro deão da Sé em 1514.

  3. Grão-mestre da Ordem a cujos duques se deve o nome do Campo do Duque.

  4. Duque de Viseu e grão-mestre da Ordem.

  5. Cavaleiro da Ordem de Cristo e vigário de Machico, responsável pelos assuntos religiosos nessa capitania no século XV.

  6. Capitão do Funchal que pediu ao Infante D. Henrique sacerdotes para a nova vila.

  7. Oficial enviado para estabelecer a Alfândega do Funchal, encarregada dos direitos sobre o açúcar.

  8. Prior de Tomar que enviou à Madeira o primeiro vigário e os primeiros clérigos beneficiados.

Na folha O

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