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Convento de Santa Clara 1Fundação do mosteiro
Artigo Nº 1038 Convento ou seminário Funchal Vol. I · pp. 597–601 10 min de leitura

Convento de Santa Clara

História do Convento de Santa Clara, no Funchal, fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima: da comunidade de freiras de famílias nobres aos usos posteriores à extinção das ordens religiosas.

Convento de Santa Clara

No estrangeiro

Mapa: Madeira (8)

1Fundação do mosteiro

Este convento foi edificado junto da igreja da Conceição de Cima, mandada construir por João Gonçalves Zarco, que tinha então sua residencia nas imediações da mesma igreja. Foi João Gonçalves da Camara, filho do descobridor, e segundo capitão-donatario do Funchal, que tomou a iniciativa da fundação deste mosteiro, não só para recolhimento de suas filhas, como de outras pessoas que desejavam seguir a vida monastica, o que então não podiam fazer no Funchal, por falta de casa religiosa destinada a esse fim.

A construção do convento começou em 1492, mas as primeiras religiosas somente deram ali entrada no ano de 1497. Foi por escritura de 11 de Setembro de 1480 que o fundador João Gonçalves da Camara comprou a Rui Teixeira e Branca Ferreira, moradores no Campanario, a propriedade do Curral, que depois passou a chamar-se Curral das Freiras, pela importancia “de 23$500 reis de cinco ceitis ao real e 50 cruzados de ouro... a sua area era desde o Passo da Cruz e Ribeira dos Socorridos até onde ela nasce de arrife a arrife, de uma a outra banda”. Foi este predio rustico, o mais vasto e importante que este convento chegou a possuir, que o fundador doou ao mosteiro por ocasião de nele serem admitidas as suas filhas como religiosas. Já anteriormente tinha o infante D. Manuel, duque de Beja e depois rei, inculcado e feito sentir a necessidade da fundação dum convento de religiosas nesta ilha, na carta que, na qualidade de grão-mestre da Ordem de Cristo, a que este arquipelago pertencia, dirigira aos seus habitantes a 17 de Julho de 1488. Diz nesse curioso documento, que pela primeira vez encontrámos no jornal O Reclame de 26 de Novembro de 1890, que o Sumo Pontifice lhe escrevera pedindo a fundação dum mosteiro na igreja da Conceição de Cima, acrescentando que “tanto que esta birdes bos ajumtees logo Em camara Com ho capitam E pratiquees todo muy bem E bos praza De Se asi fazer... me prazera de fazer para yso aquella esmola que bem me parecer e ao diamte para mamtemça Das freyras folgarey Sempre De fazer toda a esmola que bem podeer...”. Ignoramos se foi o pedido do grão-mestre que determinou João Gonçalves da Camara a fundar o convento quatro anos depois, e menos ainda sabemos se D. Manuel, que ascendeu ao trono em 1495, contribuiria para a edificação do mesmo mosteiro.

Como já se disse, os trabalhos de construção começaram em 1492, mas só foram dados por concluídos no ano de 1497, devendo em parte atribuir-se esta lentidão no prosseguimento desses trabalhos á ausencia do fundador e capitão-donatario, que, ordenando e dispondo tôdas as cousas para a edificação, e talvez ainda iniciando-a, se ausentou depois para o continente do reino, onde a permanencia era sempre demorada, devido principalmente á dificuldade das comunicações. O edificio foi posteriormente e varias vezes acrescentado, á medida que ia crescendo o numero de religiosas. Ao longo do claustro, para satisfação da devoção das freiras e ainda de outras pessoas, se construíram muitas capelas e oratorios, perfeitamente dispensaveis para o serviço religioso da cumunidade. A igreja primitiva, que tinha a invocação de Nossa Senhora da Conceição e que era conhecida pelo nome de Conceição de Cima, passou a ser dedicada a Santa Clara (V. este nome), que foi a padroeira do mosteiro. Esta igreja também sofreu notaveis modificações com o decorrer dos tempos, tendo sido quasi totalmente reconstruída na primeira metade do seculo XVII.

Os descendentes do fundador, que foram os capitãis-donatarios do Funchal, e depois os condes e marqueses de Castelo Melhor, sempre se consideraram não só como padroeiros desta igreja e convento, como também os seus legitimos senhores e proprietarios, e ainda em Outubro de 1867 revindicaram a sua posse e propriedade, registando-os na conservatoria desta comarca, depois dum pleito judicial intentado em 1862, em que demonstraram o direito que lhes assistia á propriedade do mesmo convento. Por ocasião da morte da ultima freira, podiam os marqueses de Castelo Melhor ter-se legitimamente apossado do edificio, o que não fizeram, por motivos que desconhecemos.

2Religiosas e vida do convento

A primeira abadessa do convento de Santa Clara foi D. Isabel de Noronha, filha do referido João Gonçalves da Camara, a qual sendo freira do mosteiro da Conceição, em Beja, foi transferida para o Funchal com outras quatro religiosas professas, depois de obtidas as necessarias licenças do pontifice. Com estas madres entraram no novo mosteiro D. Elvira e D. Constança, igualmente filhas do donatario, e que mais tarde foram professas, e depois da morte deste, ocorrida em 1501, também ali foi admitida outra sua filha de nome D. Constança, a qual segundo diz Frutuoso, “sempre viveu santamente, não querendo ser freira professa porque sempre era enferma”.

Das filhas do terceiro capitão-donatario Simão Gonçalves da Camara, foram ali religiosas D. Beatriz, D. Isabel e D. Maria de Noronha, “onde as meteo seu pay com boas rendas que para isso lhes aplicou e viveram sempre mui virtuosamente e santamente”. Os outros donatarios e os mais ricos e nobres fidalgos da Madeira tiveram muitas de suas filhas como religiosas deste convento.

Constituíu-se primitivamente a comunidade com um numero reduzido de freiras, que foi aumentando sensivelmente, tendo cêrca de setenta nos fins do seculo XVI. Por meados do seculo XVIII o numero de religiosas subia a 130, sendo 70 supranumerarias, muitas das quais não eram professas nem tinham feito votos. No primeiro quartel do seculo XIX, estava este numero reduzido a cêrca de 70. O dote com que cada religiosa entrava por ocasião da sua admissão era de 800$000 réis, além de outras despesas, o que tudo se computava aproximadamente num conto de réis, não sendo facil ás pessoas pouco abonadas em meios de fortuna fazer parte desta comunidade religiosa.

O primitivo fervor na observancia das regras monasticas e a antiga austeridade de vida das freiras deste mosteiro foram a pouco e pouco esfriando, e graves e repreensiveis abusos se introduziram, tendo-se até praticado actos verdadeiramente escandalosos, em que a autoridade eclesiastica se viu forçada a intervir com a aplicação das mais severas penas canonicas. Por meado do seculo XVIII havia no convento trinta criadas, e varias religiosas havia que tinham uma criada só para seu serviço privativo, o que numa casa de vida apertada e austera, como deve ser um mosteiro, constituía um imperdoavel abuso. Tempo houve em que o viver das freiras não se diferençava do do resto da sociedade a que pertenciam, senão apenas na clausura que guardavam, vivendo encerradas dentro das paredes dum mosteiro. E até uma vez tôda a comunidade em pêso rompeu momentaneamente a propria clausura, que é o ponto mais apertado e mais grave da disciplina das casas monasticas, tendo o prelado diocesano e o Sumo Pontifice fulminado contra as monjas as mais rigorosas penas da Igreja. Deram-se graves abusos, que depois severamente se coibiram, mas são no entretanto destituídos de fundamento os factos narrados no romance Angela Santa Clara, de Henrique Read Cabral.

Um dos acontecimentos mais importantes na historia deste convento, foi o que ali ocorreu por ocasião do saque que os corsarios franceses deram a esta cidade em 1566. As freiras viram-se forçadas a abandonar o seu convento para não serem vitimas daquela horda de selvagens e, como diz G. Frutuoso, “sahiram por entre os cannaviais, e se acolheram e não pararam até ao seu Curral, que dista bom pedaço da cidade, e assim se foram, sem salvar nenhum ornamento, deixando tudo no mosteiro, salvo a custodia do Santissimo Sacramento. . . . Os franceses permaneceram no Funchal, na sua faina de destruição e de matança, de 3 a 17 de Outubro e logo depois da sua saída desta ilha deixaram as religiosas o Curral, recolhendo-se ao seu convento na cidade. Os corsarios fizeram ali a maior pilhagem e causaram grandes estragos na igreja e convento, praticando tôda a sorte de vandalismos.

As autoridades civis e eclesiasticas deste arquipelago tentaram por vezes reunir numa só as duas comunidades de Santa Clara e da Incarnação, com o fundamento de ter a primeira abundantes recursos para se manter e de ser a segunda um convento pobre e de escassos rendimentos, mas nunca conseguiram realizar a projectada reunião dos dois mosteiros, a pesar de terem obtido um breve pontificio que a autorizava, devido certamente a poderosas influencias que se interpuseram e que a isso obstaram inteiramente.

3Extinção e destinos do edifício

O convento de Santa Clara tinha, por meado do seculo XVIII, mais de sete contos de rendimento anual, e no ano de 1821 ascenderam a 14 contos as suas rendas tendo neste ano um saldo negativo de dois contos de réis, devido á falta duma administração cuidada e zelosa. Em virtude das leis de desamortização, foram vendidos pela fazenda publica todos os bens deste convento, que eram avultados, ignorando-se o quantitativo do resultado dessa venda. Por ocasião da extinção das ordens religiosas, tinha este convento pouco mais de sessenta religiosas, sendo a ultima sobrevivente Maria Amalia do Patrocinio, que faleceu no mês de Novembro de 1890.

Por decretos de 26 de Outubro de 1912 e 17 de Dezembro de 1914 foram o convento, igreja e cêrca de Santa Clara concedidos á Camara Municipal do Funchal, á Santa Casa da Misericordia e ao Auxilio Maternal, a fim destas entidades construírem uma avenida, um hospital e uma “crèche”, ficando a camara de posse da igreja e coros destinados a um museu regional.

Pelo decreto de 12 de Março de 1896 foi o velho convento cedido á Congregação das Franciscanas Missionarias de Maria a fim de ser ali estabelecido um instituto de preparação do pessoal feminino destinado ás missões religiosas das nossas colonias e também para a instalação dum colegio de ensino elementar e secundario para raparigas, de que havia grande falta no nosso meio. Os acontecimentos politicos ocorridos no nosso país em 1910, provocaram a expulsão daquelas religiosas, que imediatamente sairam da Madeira, ficando interrompidos os excelentes serviços que aqui estavam prestando.

Os decretos de 31 de Outubro de 1912 e 22 de Setembro de 1913 concederam os edificios do convento á Camara Municipal do Funchal, á Santa Casa da Misericordia e á associação de beneficencia, “Auxilio Maternal”, para os fins indicados nos mesmos decretos, chegando-se a demolir uma parte consideravel do antigo mosteiro e praticando-se então actos de verdadeira destruição e vandalismo em todos os edificios. Voltaram estes á posse do Estado, por não se haverem realizado as obras projectadas e não se ter preenchido o fim especial da concessão.

O decreto de 25 de Janeiro de 1927 e a portaria de 12 de Junho do mesmo ano autorizaram o Ministerio das Finanças a ceder ao Ministerio das Colonias as diversas dependencias do extinto convento a favor da Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas, com o destino especial de estabelecer-se nele um colegio de formação missionaria para as religiosas que houvessem de prestar serviço nas missões das nossas colonias ultramarinas. A direcção desse colegio foi entregue ás referidas Irmãs Franciscanas, que além disso criaram no mesmo convento uma crèche, em que cêrca de 400 crianças são recolhidas, alimentadas e educadas durante o dia, prestando-se deste modo um dos mais assinalados serviços que entre nós se está dispensando á pobreza da Madeira.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 13
  1. Rui Teixeira e Branca Ferreira venderam a propriedade do Curral ao capitão-donatário João Gonçalves da Câmara; mais tarde, foi doada ao Convento de Santa Clara.

  2. D. Manuel escreveu aos madeirenses, incentivando-os a fundar um convento de freiras.

  3. O capitão-donatário fundou o Convento de Santa Clara no Funchal, cuja construção começou em 1492; as primeiras freiras entraram em 1497.

  4. D. Manuel subiu ao trono e pediu à Câmara do Funchal que o aclamasse e celebrasse as exéquias de D. João II.

  5. João Gonçalves da Câmara, filho mais velho de Zarco, segundo capitão-donatário do Funchal e fundador do Convento de Santa Clara, morreu no Funchal aos 87 anos (as fontes indicam 25 ou 26 de março).

  6. Corsários huguenotes franceses comandados por Montluc, guiados por Gaspar Caldeira, desembarcaram na Praia Formosa e saquearam o Funchal. Tomaram de assalto a fortaleza de São Lourenço e profanaram a Sé e o convento de Santa Clara, cujas freiras fugiram para o Curral; Gaspar de Braga morreu a resistir-lhes. O ataque, ocorrido durante a capitania de Francisco Gonçalves da Câmara, levou à construção de novas fortificações costeiras.

  7. As receitas do Convento de Santa Clara atingiram 14 contos, com um défice de dois contos.

  8. A família Castelo Melhor reivindicou judicialmente e registou a propriedade do Convento de Santa Clara.

  9. Morreu Maria Amália do Patrocínio, a última freira do Convento de Santa Clara.

  10. O Convento de Santa Clara foi cedido às Franciscanas Missionárias de Maria para a instalação de um instituto missionário e de uma escola de raparigas.

  11. Após a revolução republicana, as irmãs franciscanas foram expulsas do Convento de Santa Clara e do Asilo dos Velhinhos, cujo financiamento passou para a Junta Geral.

  12. Decretos atribuíram o Convento de Santa Clara ao município, à Misericórdia, para um hospital, e ao Auxílio Maternal; parte do edifício foi demolida.

  13. Os edifícios foram cedidos para um colégio missionário dirigido pelas irmãs franciscanas, que também abriram uma creche.

Lugar

Lugares mencionados · 08
  1. Convento de Santa Clara · Assunto

    Funchal

  2. Beja

    Portugal. Local do Convento da Conceição, de onde veio a primeira abadessa.

  3. Campanário

    Ribeira Brava. Local de residência dos vendedores da propriedade do Curral.

  4. Curral das Freiras

    Câmara de Lobos. Propriedade doada ao convento, cujo nome deriva das suas freiras e para onde estas fugiram em 1566.

  5. Funchal

    Cidade onde se situa o convento.

  6. Igreja de Santa Clara

    Funchal. Igreja construída por Zarco, junto da qual foi fundado o convento e mais tarde dedicada a Santa Clara.

  7. Passo da Cruz

    Câmara de Lobos. Um dos limites da propriedade do Curral.

  8. Ribeira dos Socorridos

    Câmara de Lobos · Funchal. Ribeira que delimita a propriedade do Curral.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 14
  1. Filha de Simão Gonçalves da Câmara e freira do convento.

  2. Filha de Simão Gonçalves da Câmara e freira do convento.

  3. Vendeu com Rui Teixeira a propriedade do Curral em 1480.

  4. Filha do fundador e uma das primeiras a entrar no convento; outra filha com o mesmo nome viveu ali sem professar.

  5. Enquanto grão-mestre, incentivou os madeirenses, em 1488, a fundar um convento de freiras; tornou-se rei em 1495.

  6. Filha do fundador, que entrou no convento e aí professou.

  7. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Cronista citado a propósito das filhas do fundador e da fuga das freiras em 1566.

  8. Autor do romance Ângela Santa Clara, cuja descrição do convento o Elucidário considera infundada.

  9. Filha do fundador, transferida de Beja para ser a primeira abadessa do convento.

  10. Filho de Zarco e segundo capitão-donatário do Funchal, fundou o convento e dotou-o com a propriedade do Curral.

+ 4 mais
  1. Descobridor da Madeira que mandou construir a igreja da Conceição de Cima perto da sua residência.

  2. Última freira sobrevivente do convento, morreu em novembro de 1890.

  3. Morador no Campanário que vendeu a propriedade do Curral ao fundador em 1480.

  4. Terceiro capitão-donatário, cujas filhas entraram como freiras neste convento com bons dotes.

Na folha C

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