Camara (Simão Gonçalves da) 1Nascimento e socorro de Santa Cruz
Camara (Simão Gonçalves da)
Biografia de Simão Gonçalves da Câmara (1512–1580), quinto capitão-donatário do Funchal e primeiro Conde da Calheta, conhecido por ter socorrido a fortaleza portuguesa de Santa Cruz do Cabo de Gué em 1533.
1Nascimento e socorro de Santa Cruz
Foi Simão Gonçalves da Camara o 5º. capitão-donatario do Funchal e nasceu nesta vila a 2 de Setembro de 1512, sendo filho do 4º. donatario João Gonçalves e de D. Leonor de Vilhena, filha de D. João de Meneses, conde de Tarouca.
Antes de assumir o govêrno da sua capitania, praticou varios feitos de armas, de que falam com louvor as cronicas do tempo, merecendo menção especial o socorro que em 1533 prestou á nossa fortaleza de Santa Cruz, no Cabo de Gué em Africa.
Achando-se esta cercada pelos mouros e em perigo de ser tomada, pediram os seus defensores que da Madeira lhes fôssem enviados alguns prontos socorros, ao que logo Simão Gonçalves, com autorização de seu pai, convidou os principais fidalgos da ilha e organizou um corpo expedicionario de 600 homens, embarcando-se sem demora em seis navios com todos os apetrechos de guerra e mantimentos que pôde rapidamente reunir, o que tudo fêz á sua propria custa e sem exigir remuneração alguma. Estava a praça no ultimo extremo quando Simão Gonçalves da Camara ali chegou, conseguindo desbaratar os mouros e infligir-lhes uma completa derrota. Não se limitou a isso a sua estada na fortaleza, pois mandou também proceder aos reparos das muralhas e outras importantes obras de defesa, prevenindo futuros assaltos dos mouros. O rei D. João III escreveu uma carta muito honrosa a Simão Gonçalves, agradecendo-lhe os relevantes serviços que ele prestou e elogiando-o pelo feito de armas que tinha praticado na defesa do castelo de Santa Cruz.
2Capitania, côrte e condado
Pouco depois da morte de seu pai e de ter herdado a donataria, partiu Simão Gonçalves da Camara para Lisboa, onde se demorou alguns anos, regressando á Madeira já casado e com o filho primogenito, ainda de tenra idade e que foi o sucessor na capitania. Acêrca do casamento, conta Gaspar Frutuoso que só quis contrair matrimonio a contento do monarca, o que realizou com D. Izabel de Mendonça, da casa da Rainha D. Catarina. E acrescenta “que no dia derradeiro de Setembro se fizeram os contratos, e com ela foi hum grande dote estimado em oitenta mil cruzados, que el-rei lhe deu em juro e em dinheiro de contado e em officios, e alem disso a casa do dito capitão fóra da lei mental duas vezes, cousa que raramente se concede, e aos quatro dias do mez de outubro foi o capitão recebido com ella, e trouxe-a para sua casa, acompanhada de toda a côrte, vindo-lhe o infante D. Luiz á parte direita e o arcebispo de Lisboa á esquerda, com todos os fidalgos do reino que estavam presentes”. Em 1555 voltou ao reino, acompanhado de tôda a sua familia “por certos motivos que a isso moveram, no dizer do citado cronista, deixando seu tio Francisco Gonçalves da Camara como capitão-donatario do Funchal.
Foi durante o govêrno interino deste capitão-donatario que os corsarios franceses assaltaram e saquearam a cidade do Funchal em 1566, causando a terrivel carnificina de que falam com tanto horror as antigas cronicas madeirenses. Simão Gonçalves da Camara mandou imediatamente seu filho e sucessor á Madeira com prontos socorros, acompanhando a esquadra que o govêrno da metropole enviou em perseguição dos franceses, mas quando chegaram ao Funchal já os corsários haviam partido, levando dezasseis navios carregados com as mais ricas preciosidades que aqui encontraram.
Simão Gonçalves viveu o mais do tempo na côrte, onde era muito benquisto, e em 1574 acompanhou D. Sebastião na sua primeira jornada á Africa. Por alvará regio de 20 de Agôsto de 1576, foi agraciado com o titulo de conde da Calheta, não somente em atenção aos seus serviços, mas principalmente aos serviços prestados pelos seus maiores, e por ser também o representante duma tão grande e importante casa. Intitulava-se ele: O Conde Simão Gonçalves da Camara, do Conselho de El-Rei Nosso Senhor, Capitão e Governador da Justiça na ilha da Madeira e na jurisdição do Funchal, Vedor da sua fazenda em toda a ilha e na do Porto Santo, Senhor das ilhas Desertas, etc. Dizem as Saudades da Terra, que, além de varios direitos e isenções, tinha quatro contos de renda, o que, passados quatro seculos, corresponderia hoje a uma avultadissima quantia.
3Morte e sucessão
Voltou á Madeira, não se sabe em que ano, e achava-se no Funchal em 1578, quando foi acometido dum insulto apopletico, vindo a falecer a 4 de Março de 1580. Foi sepultado na capela-mor da igreja de Santa Clara, como se vê na pedra sepulcral há pouco descoberta: Sepultura de Simão Gonçalves da Camara.......3º. capitão desta ilha. Aqui jaz Simão Gonçalves da Camara, conde da Calheta e quinto capitão desta ilha.
João Gonçalves da Camara, que seu pai mandou á Madeira por ocasião do saque dos corsarios franceses, foi o 2º. conde da Calheta, mas pouco tempo gozou desta honraria, porque veio a falecer três meses depois de seu pai herdando o condado e as honras de donatario do Funchal o seu filho Simão Gonçalves da Camara, setimo capitão-donatario e 3º. conde da Calheta. Casou este com D. Maria de Vasconcelos e Meneses, dama da rainha e filha herdeira de Rui Mendes de Vasconcelos, I. conde de Castelo Melhor. Desta maneira se encorporou o condado da Calheta na casa Castelo Melhor.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 07-
Simão Gonçalves da Câmara nasceu no Funchal.
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Simão Gonçalves da Câmara chefiou uma expedição madeirense que socorreu Santa Cruz do Cabo de Gué, cercada pelos mouros.
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Simão Gonçalves da Câmara partiu para o reino, deixando o tio Francisco Gonçalves da Câmara como capitão-donatário interino do Funchal.
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Corsários huguenotes franceses comandados por Montluc, guiados por Gaspar Caldeira, desembarcaram na Praia Formosa e saquearam o Funchal. Tomaram de assalto a fortaleza de São Lourenço e profanaram a Sé e o convento de Santa Clara, cujas freiras fugiram para o Curral; Gaspar de Braga morreu a resistir-lhes. O ataque, ocorrido durante a capitania de Francisco Gonçalves da Câmara, levou à construção de novas fortificações costeiras.
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Simão Gonçalves da Câmara acompanhou D. Sebastião na sua primeira expedição a África.
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Uma carta régia de D. Sebastião concedeu a Simão Gonçalves da Câmara, quinto capitão-donatário do Funchal, o título de Conde da Calheta, o primeiro título nobiliárquico conhecido na Madeira.
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O quinto capitão-donatário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, morreu no Funchal após um ataque de apoplexia sofrido em 1578.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Calheta
Deu nome ao título de conde do biografado.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Igreja em cuja capela-mor o biografado foi sepultado.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Desertas
Santa Cruz. Ilhas de que o biografado se intitulava senhor.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Funchal
Local de nascimento do biografado e sede da sua capitania, saqueado por corsários franceses em 1566.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde o biografado viveu na corte e casou.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Porto Santo
Incluído no título de vedor da fazenda usado pelo biografado.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Santa Cruz do Cabo de Gué
Morocco. Fortaleza portuguesa em Marrocos socorrida pelo biografado em 1533.
Fortaleza portuguesa em Marrocos a que o biografado prestou socorro em 1533.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 15- Simão Gonçalves da Câmara1512–1580
Quinto capitão-donatário do Funchal e primeiro Conde da Calheta, biografado nesta entrada.
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Rainha de Portugal em cuja casa serviu a mulher do biografado.
- D. João de Meneses1854–1649
Conde de Tarouca e avô materno do biografado.
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Rei de Portugal que escreveu ao biografado para lhe agradecer o socorro prestado a Santa Cruz.
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Rei de Portugal que o biografado acompanhou a África em 1574.
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Tio do biografado e capitão-donatário interino do Funchal a partir de 1555, durante o saque francês de 1566.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista e autor de Saudades da Terra, citado a propósito do casamento do biografado.
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Primeiro Conde de Castelo Melhor e pai de D. Maria de Vasconcelos e Meneses.
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Dama da casa da rainha D. Catarina que casou com o biografado, recebendo um avultado dote régio.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Quarto capitão-donatário do Funchal e pai do biografado.
+ 5 mais
- João Gonçalves da Câmara1541–1580
Filho do biografado, enviado à Madeira após o saque de 1566; sexto donatário e segundo Conde da Calheta, morreu três meses depois do pai.
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Mãe do biografado e filha do Conde de Tarouca.
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Infante D. Luís, que acompanhou o biografado no seu casamento.
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Mulher do terceiro Conde da Calheta, por cujo casamento o condado passou para a casa de Castelo Melhor.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Neto do biografado, sétimo capitão-donatário e terceiro Conde da Calheta.