Camara (Simão Gonçalves da) 1Origem e campanhas de África
Camara (Simão Gonçalves da)
Biografia de Simão Gonçalves da Câmara, «o Magnífico», terceiro capitão-donatário do Funchal e neto do descobridor da Madeira. Ficou conhecido pelas suas campanhas em Marrocos e pelas suas ofertas sumptuosas, entre elas uma escultura do Sacro Colégio feita de açúcar e oferecida ao papa Leão X. Governou durante o período de grande prosperidade da Madeira.
1Origem e campanhas de África
Simão Gonçalves da Camara, 3º. capitão-donatario do Funchal, nasceu na antiga vila do mesmo nome e era filho do segundo donatario João Gonçalves da Camara e de Maria de Noronha, e neto do ilustre descobridor da Madeira. Sendo filho segundo e tomando o apelido materno, era conhecido pelo nome de Simão de Noronha, que mudou para Simão Gonçalves da Camara quando assumiu o govêrno da capitania, sob pena de a perder, segundo a expressa determinação do monarca. Nos nobiliarios e antigas crónicas madeirenses, é comummente chamado Simão Gonçalves da Camara, o Magnifico, pela sua liberalidade, vida faustosa que levava e generosidade com que galardoava os serviços que lhe prestavam.
A exemplo de seu pai e avô, deu provas do mais estremado valor e coragem nas nossas aturadas campanhas de Marrocos, e foi por certo o madeirense que mais notavelmente se distinguiu nos frequentes e encarniçados recontros com os mouros. A sua acção não se limitava a encorporar-se nas expedições e a tomar parte activa nos combates e refregas, mas armando muitos navios, reunindo numerosa gente armada de pé e de cavalo, enviando abundantes petrechos de guerra, viveres e outros socorros, tudo á sua custa, contribuíu, como talvez nenhum outro vassalo de então, para manter o prestigio do nome português em Africa.
Merecem especial referencia algumas das acções em que se notabilizou pela sua bravura e genio guerreiro e os socorros que prontamente prestou a varias praças africanas, que se encontravam em perigo de cair em poder dos mouros. Foi no desempenho destes assinalados serviços que nove vezes esteve no norte de Africa, sempre com o maior desinteresse e abnegação, sem querer nem exigir qualquer mercê ou recompensa, como era tão usual naquelas épocas. D. João II e D. Manuel, diz Pinho Leal, lhe deveram em grande parte a conservação das praças portuguesas em Africa.
Ainda em vida de seu pai, encontrando-se no reino, pediu-lhe D. João II que socorresse a praça de Arzila, acudindo prontamente com um troço de trezentos homens armados, equipados e sustentados á sua custa durante os seis meses que permaneceram em Africa. Outro importante socorro foi o que prestou a Diogo de Azambuja, governador de Safim, quando, depois de ter tomado esta praça, se viu em iminente risco de a perder. Recorrendo a Simão Gonçalves, logo este dentro de três dias lhe enviou trezentos homens armados e pouco depois foi pessoalmente, á frente de outros novecentos, aos quais manteve e sustentou nos três meses que ali se demoraram. Foi também consideravel o auxilio que prestou na tomada de Azamor. Para esta grande expedição que teve como comandante D. Jaime, duque de Bragança, enviou Simão Gonçalves o seu filho João Gonçalves da Camara com 600 homens de pé e 200 de cavalo, contando-se entre estes um numero crescido de fidalgos madeirenses, que foram dos que mais se distinguiram na celebrada acção da tomada de Azamor.
Longe iriamos, se nos quisessemos referir detalhadamente aos diversos combates em que Simão Gonçalves da Camara entrou nos campos de Marrocos, com grandes feitos de bravura e heroismo que ali praticou. Frutuoso e varios outros cronistas, contam minuciosamente algumas dessas acções gloriosas. Apenas diremos que em Safim, Azamor, Arzila, Castelo Real, Cabo de Gué, Mazagão, Ceuta e Tanger, mostrou sempre denodadamente o valor do seu braço e a coragem inquebrantavel de seu animo.
2A embaixada a Leão X e a prosperidade da ilha
Entre as manifestações de fausto e grandeza que esmaltaram a vida ostentosa de Simão Gonçalves, destaca-se, não tanto pelo seu valor intrínseco, como principalmente pela sua particular originalidade, o presente que fêz ao Papa Leão X. Este ilustre pontifice, que deu o nome ao seu seculo, teve como secretario particular o bispo D. Manuel de Noronha, filho de Simão Gonçalves da Camara, que em Roma gozou de grande prestigio e influencia. A oferta podia considerar-se como uma embaixada, e foi apresentada ao pontifice por D. Manuel de Noronha. O embaixador ou portador do presente foi um fidalgo madeirense por nome João de Leiria, que ia acompanhado pelo conego da Sé do Funchal Vicente Martins, o qual sendo profundo conhecedor da lingua latina, proferiu uma brilhante oração nessa lingua, na presença do grande pontifice. Outros individuos, e muitos criados vestindo trajes á portuguesa de veludo preto, faziam parte desta singular comitiva.
A oferta, além de um cavalo pérsico de grande prêço, de “muitos mimos e brincos da ilha” e de outros objectos, era principalmente constituída pelo Sacro Colegio, todo feito de alfenim e em tamanho natural, o que causou na capital do orbe catolico a mais extraordinaria admiração. Não podemos averiguar agora com inteira exactidão o numero de cardiais de que então se compunha o Sacro Colegio, que presentemente e desde os fins do seculo XVI é de 72. No tempo da embaixada de Simão Gonçalves, que se realizou no primeiro quartel do mesmo seculo, não devia ser muito inferior àquele numero. A industria do açucar tinha então atingido entre nós um grandissimo desenvolvimento e parece também que uma notavel e rara perfeição, o que permitiu a Simão Gonçalves o fabrico de tão numerosas e esbeltas figuras, que, dizem as crónicas, não sofreram o menor dano e chegaram “sem quebrar até dentro de Roma”.
Foi no govêrno deste terceiro capitão-donatario que a Madeira atingiu um elevado grau de prosperidade, tornando-se um notavel emporio comercial e agricola, atraindo aqui muitos forasteiros, que em avultado numero fixaram residencia nesta ilha e nela constituíram familia e se enriqueceram. A importancia e desenvolvimento da então vila do Funchal, fizeram-na elevar á categoria de cidade, privilegio que lhe foi concedido pelo alvará régio de 17 de Agôsto de 1508, sendo também criada a diocese em 1514, pela bula de 12 de Junho do mesmo ano.
Foi nesta época que o rei D. Manuel mandou construir o magnifico templo da Sé, hoje monumento nacional, e ao qual ofereceu a preciosa cruz que nele ainda se conserva, e também, por mandado do mesmo monarca, se levantou o edifício da nossa alfandega, que no seu pavimento inferior ostenta as linhas características da arquitectura manuelina.
Tendo o rei mandado á Madeira o corregedor Diogo Taveira sindicar de algumas irregularidades cometidas no governo da capitania, julgou-se Simão Gonçalves da Camara gravemente ferido nos privilegios e isenções de que gozava como donatario do Funchal, e resolveu sair do país e estabelecer residencia em terras de Espanha. Arribando ao Algarve, obrigado pelos azares da viagem, soube ali do arriscado apêrto em que se encontrava a nossa praça africana de Arzila, e logo acudiu em socorro dela, forçando os sitiantes a levantar o cêrco. Quando se preparava a tomar a direcção do seu destino, recebeu do monarca as satisfações que a sua dignidade ofendida exigiam e voltou sem demora ao govêrno da sua donataria. Este facto, explanado em grandes detalhes, serviu de assunto a um dos capitulos do interessante livro de Vilhena Barbosa, intitulado
Virtudes Civicas e Domesticas.
3Morte e sepultura
Simão Gonçalves, achando-se velho e cansado, abandonou o govêrno da sua capitania, que declinou no seu filho e sucessor João Gonçalves da Camara, e retirou-se para o logar de Matozinhos, nas proximidades do Pôrto, onde morreu no principio do ano de 1530, determinando nas suas disposições testamentarias que os seus restos mortais fôssem trasladados para esta ilha e depositados em Santa Clara, no jazigo de seus pais e avós. “Não passaram muitos anos, diz um antigo livro de cousas historicas madeirenses, que se não cumprisse esta verba do seu testamento, e quando o caixão dos ossos desembarcou no Funchal, se lhe fez um solenissimo enterro da praia até o dito Mosteiro, acompanhando-o o cabido dos conegos, clerezia e religiosos que havia na terra, e se lhe fizeram exequias com a maior solenidade, acompanhando-o e assistindo-o todo o povo com muitas lagrimas, porque de todos foi muito amado.
Foram os despojos mortais de Simão Gonçalves depositados na capela-mor da igreja de Santa Clara, onde em Março de 1919, no lado da epistola, se descobriu a pedra tumular que os cobre e onde no centro do marmore escuro se lê este epitáfio: Sepultura de Simão Gonçalves da Camara.......3º. capitão desta ilha. Aqui jaz Simão Gonçalves da Camara conde da Calheta e quinto capitão desta ilha.
Pela inscrição se vê que sob esta laje sepulcral se encontram os restos do 3º. capitão-donatario Simão Gonçalves da Camara e também os do 5º. capitão do mesmo nome e 1º. conde da Calheta, de quem nos ocupamos neste Elucidário. Devemos notar que no epitáfio transcrito se encontram aspadas duas linhas, de cuja circunstancia não sabemos dar uma cabal explicação.
O 2º. e 3º. capitãis-donatarios do Funchal figuram como personagens importantes no romance historico A Filha de Tristão das Damas e no drama Guiomar Teixeira, do escritor madeirense major J. Reis Gomes.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
Por carta régia, D. Manuel I elevou o Funchal à categoria de cidade, a primeira dos domínios ultramarinos de Portugal.
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A bula Pro excellenti praeeminentia, do Papa Leão X, criou a diocese do Funchal, pondo fim à supremacia espiritual da Ordem de Cristo; a igreja tornou-se catedral, D. Diogo Pinheiro foi nomeado primeiro bispo e Frei Nuno Cão primeiro deão.
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Simão Gonçalves da Câmara, capitão do Funchal, morreu quase na miséria em Matosinhos, e o seu filho João Gonçalves da Câmara assumiu pessoalmente o governo da capitania.
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O levantamento do pavimento da capela-mor da igreja de Santa Clara, no Funchal, revelou as lápides do segundo, terceiro e quinto capitães-donatários, mas não a de Zarco.
Lugar
Lugares mencionados · 16No estrangeiro
- Alfândega do Funchal
Funchal. Alfândega manuelina construída no seu tempo.
Alfândega manuelina do Funchal, cuja construção foi ordenada em 1508, com arcadas e uma capela de Santo António no pátio, construída em 1714 e hoje dessacralizada. Esteve sob a direção do provedor até 1775 e foi reparada após o terramoto de 1748. Foi cercada por tropas amotinadas em 1626 e invadida em 1641; o motim de 1868 ocorreu na praia próxima. Mais tarde, acolheu os serviços e o arquivo do Governo Civil.
- Algarve
Portugal. Região onde desembarcou a caminho do exílio voluntário.
O Algarve é uma região de Portugal Continental de onde vieram muitos dos primeiros povoadores da Madeira, nomeadamente de Boliqueime, e provavelmente gado. Zarco vigiou a sua costa como capitão, e Bartolomeu Perestrelo morreu ali. Simão Gonçalves da Câmara aportou ao Algarve durante a sua viagem interrompida para Espanha.
- Arzila
Morocco. Praça marroquina que socorreu por duas vezes.
Arzila é uma praça-forte marroquina conquistada por D. Afonso V, com a participação de D. Nuno de Aguiar. Vários madeirenses combateram nos seus cercos e na sua tomada, entre eles membros da família Câmara, os irmãos Leme e António Correia. Simão Gonçalves da Câmara socorreu-a por duas vezes, e o Padre João Soares prestou serviço ali.
- Azamor
Morocco. Cidade tomada com a participação de tropas madeirenses.
Azamor é uma cidade marroquina tomada pelos portugueses com a participação de tropas madeirenses. João Gonçalves da Câmara ajudou na sua conquista, e Diogo de Barros, os irmãos Barros e Pedro Afonso de Aguiar distinguiram-se nessa campanha.
- Cabo de Gué
Morocco. Um dos locais onde combateu em Marrocos.
Cabo de Gué é uma fortaleza marroquina defendida por madeirenses, entre os quais Simão Gonçalves da Câmara.
- Castelo Real
Morocco. Um dos locais onde combateu em Marrocos.
Um dos locais onde combateu em Marrocos.
- Ceuta
Spain. Um dos locais onde combateu.
Ceuta é uma cidade-fortaleza no Norte de África, conquistada em 1415 com a participação da Ordem de Cristo. O Elucidário regista que João Gonçalves Zarco ali combateu e foi armado cavaleiro, e que membros da família Câmara participaram na sua defesa durante um cerco. Foi também sede episcopal de Nuno de Aguiar.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Local de sepultura da família onde repousam os seus restos mortais.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Espanha
Spain. País onde tencionava estabelecer-se após o conflito.
Espanha surge como destino do exílio voluntário que o donatário Simão Gonçalves da Câmara planeou, mas não concretizou, e como o país para o qual se pediu à Madeira que enviasse 1 000 soldados durante o domínio castelhano. Foi o país de origem de muitos frades eremitas que vieram para a Madeira e onde ocorreu a revolução fracassada de 1866.
- Funchal
Sede da sua capitania e sua terra natal; foi elevado a cidade em 1508.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Matosinhos
Portugal. Local onde se retirou e morreu.
Localidade de Portugal Continental, muito provavelmente o lugar de nascimento de Zargo. O seu neto Simão Gonçalves da Câmara, terceiro donatário, retirou-se para lá e ali morreu em 1530.
- Mazagão
Morocco. Um dos locais onde combateu em Marrocos.
Mazagão é uma praça portuguesa na costa de Marrocos, a norte do Cabo Cantim. João Gonçalves da Câmara enviou-lhe auxílio e Simão Gonçalves da Câmara combateu ali. Os bispos D. José de Sousa Castelo Branco (em 1698) e D. Manuel Coutinho exerceram ali funções episcopais.
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Pessoas
Pessoas mencionadas · 17- Simão Gonçalves da Câmaram. 1530
Terceiro capitão-donatário do Funchal, chamado «o Magnífico», que combateu em Marrocos e morreu em Matosinhos em 1530.
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Mãe de Simão Gonçalves da Câmara, cujo apelido este usou na juventude.
- António Manuel de Noronham. 1569
Filho de Simão Gonçalves e secretário particular de Leão X; apresentou a oferta.
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Rei de Portugal que pediu a Simão Gonçalves que socorresse Arzila.
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Rei de Portugal que mandou construir a Sé Catedral e a alfândega do Funchal.
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Governador de Safim, socorrido pelas tropas enviadas por Simão Gonçalves.
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Corregedor régio cuja investigação ofendeu o donatário.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista que descreveu pormenorizadamente os feitos do donatário.
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Autor de Virtudes Cívicas e Domésticas, obra que relata o episódio de Arzila.
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Escritor madeirense cujas obras abordam o segundo e o terceiro donatários.
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Comandante da expedição que tomou Azamor.
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Fidalgo madeirense que levou a oferta a Roma.
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Segundo capitão-donatário do Funchal e pai de Simão Gonçalves da Câmara.
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Papa que recebeu de Simão Gonçalves a representação do Sacro Colégio feita de açúcar.
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Autor citado a propósito do papel do donatário na conservação das praças portuguesas em África.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Quinto capitão-donatário e primeiro Conde da Calheta, sepultado no mesmo túmulo.
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Cónego que proferiu uma oração em latim perante Leão X.