Abreu (D. Isabel de) 1Família e primeira tentativa
Abreu (D. Isabel de)
D. Isabel de Abreu, viúva abastada do Arco da Calheta, foi raptada duas vezes por António Gonçalves da Câmara no século XVI, num episódio dramático registado pelos primeiros cronistas. O caso terminou num casamento forçado, numa investigação régia e em condenações.
1Família e primeira tentativa
D. Isabel de Abreu era filha de João Fernandes do Arco e de D. Beatriz de Abreu, que foram dos primeiros colonizadores do Arco da Calheta e ali tiveram muitas terras de sesmaria. Eram naturais do continente e tinham foros de fidalgos, que transmitiram a seus descendentes.
As antigas crónicas madeirenses ocupam-se de D. Isabel de Abreu, por haver sido a principal protagonista dum drama que na época deveria ter causado a mais extraordinária sensação, para que os contemporâneos e ainda os vindouros se tenham referido a ele com tanta largueza. Eis o caso: D. Isabel de Abreu, que era viúva de João Rodrigues de Noronha, filho do terceiro capitão donatário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, vivia na sua casa do Arco da Calheta, possuidora duma avultada fortuna, quando António Gonçalves da Câmara, sobrinho do mesmo capitão donatário e que ali morava próximo, se introduziu violentamente e a deshoras nas casas de D. Isabel com o fim de a levar a contrair casamento com ele. D. Isabel conseguiu convencer António Gonçalves da Câmara da inconveniência duma proposta de casamento em tais condições, e convidou-o a comparecer no dia seguinte, para se tratar então das formalidades do matrimónio, a que ela de boa mente acederia. Fez-se António da Câmara acompanhar duma comitiva de cerca de cinquenta cavaleiros da Ponta do Sol e Ribeira Brava e dirigiu-se, a casa de D. Isabel, que, no dizer dum cronista, se fez “forte em suas casas com sua gente que muita tinha e achando-se António Gonçalves zombado, injuriado e afrontado se tornou para sua fazenda, embarcando-se dali a poucos dias para Lisboa”.
2O rapto e o cerco
Decorridos alguns anos, voltou António Gonçalves da Câmara à sua casa da Madeira sem perder de vista o velho intento de casar com D. Isabel de Abreu. Dirigindo-se esta à vila da Calheta, em companhia de alguns parentes, e passando em frente da moradia de António Gonçalves, tomou este as rédeas do cavalo em que ela montava, e, auxiliado por gente armada, obrigou-a a entrar violentamente em sua casa. Dado conhecimento do estranho caso ao ouvidor do Funchal, por estar ausente o capitão donatário, compareceu este com uma numerosa força armada, tendo esta que defrontar-se com a resistência que ia opor-lhe António Gonçalves, pois se preparava para desobedecer às ordens do ouvidor, conservando D. Isabel de Abreu presa em sua casa. Estava iminente uma encarniçada luta, em que de ambas as partes havia partidários, parentes e amigos, quando António Gonçalves da Câmara e Isabel de Abreu, assomando a uma varanda da residência, declararam que tinham chegado a um amigável acordo e que podiam retirar-se o ouvidor e a força que o acompanhava.
Quando estes se dispunham a partir, fez D. Isabel de Abreu sentir ao seu prometido esposo que, “vindo com o Ouvidor muitos parentes seus e amigos, não era razão que sem comer se tornassem por tão comprido caminho e, já que tudo estava em paz, os convidasse”. Acatando os desejos de D. Isabel de Abreu, mandou António Gonçalves, que “entrasse o ouvidor com a sua gente, alcaides, meirinhos e juízes de todas as vilas e logares daquela capitania na sala, e arremeteu D. Isabel e apegou-se a ele dizendo e queixando-se que António Gonçalves forçosamente a tinha naquela casa e que lhe valesse com justiça”. Na companhia do ouvidor e dos cento e cinquenta homens que compunham a força armada, seguiu D. Isabel de Abreu para o Funchal, indo, porém, pelo adiantado da hora, pernoitar nas casas de seu cunhado João Esmeraldo, que eram na Lombada da Ponta do Sol, sede do morgadio do mesmo Esmeraldo.
António Gonçalves da Câmara não era homem para se resignar a sofrer um novo ludíbrio, que ele considerava a maior das afrontas, por parte da mulher que queria conquistar, levado pela violência do amor, pelo orgulho ofendido ou pela ambição de possuir a sua fortuna logo se preparou para a desforra, e desta vez resolvido às mais extremas violências. Reuniu imediatamente vários parentes e amigos e muitos homens armados das freguesias visinhas, sem exclusão de ladrões e assassinos, que por ali andavam homiziados, preparado também com dois falcões, que eram peças de artilharia do tempo, afim de atacar as casas onde se encontrava D. Isabel de Abreu com os oficiais de justiça. Pôs-lhe apertado cerco, até que, no fim de oito dias, considerando os parentes de D. Isabel os males que podiam resultar desta luta sangrenta, resolveram que o casamento se realizasse, pondo-se deste modo termo a uma contenda em que entravam, além de muitos outros, quatro irmãos, dois de cada lado, prestes talvez a mutuamente se darem a morte.
3Bodas, devassa e fontes
Chegados D. Isabel de Abreu e António Gonçalves da Câmara, diz Gaspar Frutuoso, à sua fazenda, e recebendo-se ambos, foram feitas grandes festas e bodas, em que comeram todas aquelas pessoas que os acompanharam. Estavam na sala primeira dos seus passos quatro potes de prata fina em quatro cantos dela, que levaria cada hum delles três almudes d'água, com quatro púcaros de prata, cada pote com o seu, presos com cadeyas do mesmo: e toda aquela gente honrada que se achou naquelle banquete, que seriam mais de duzentas pessoas, fora outras, e servidores que eram mais de outros tantos, comeram todos em baixella de prata, sem se entremeter no serviço cousa de barro, nem estanho, onde se gastaram ricos e exquesitos manjares de toda a sorte, como os sabem fazer as delicadas mulheres da Ilha da Madeira, que além de serem muito bem assombradas, mui fermosas, e discretas, e virtuosas, são extremadas na perfeição delles, e em todas as invenções de ricas cousas que fazem, não tão somente em pano com polidos lavores, mas também em assúcar com delicadas fructas”.
Águeda de Abreu, irmã de Isabel de Abreu, não se conformando com o casamento nem com as violências que o precederam, apresentou suas queixas ao monarca, que mandou à Madeira o desembargador Gaspar Vaz sindicar do estranho caso, resultando disso serem alguns condenados à morte e outros a desterro. António Gonçalves da Câmara homiziou-se e fugiu depois para Canárias, enquanto sua mulher se recolhia ao convento de Santa Clara. Das Canárias se dirigiu à África e aí prestou valiosos serviços, assinalando-se pela sua bravura e coragem. Isto, e mais ainda, por certo, a interferência de sua mãe, D. Joana de Eça, que era camareira mor da rainha, junto do monarca, alcançaram-lhe o perdão e pode voltar à pátria, onde ainda viveu alguns anos com sua mulher D. Isabel de Abreu.
Quem quiser ter mais detalhado conhecimento deste caso, que muito sumariamente deixamos narrado, leia a descrição que dele fazem as Saudades da Terra, a pags. 197 e seguintes.
O facto tem sido aproveitado para várias narrativas, destacando-se uma do apreciado escritor Silva Leal, publicada no volume 71 do Panorama, com o título de “Bem querer e mal querer”.
Sobre o assunto, leia-se o opúsculo A Lombada dos Esmeraldos na Ilha da Madeira pelo Pe. Fernando Augusto da Silva, coautor deste Elucidário.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 10No estrangeiro
- África
Africa. Onde António prestou serviço com bravura antes de ser perdoado.
África é referida como destino de expedições madeirenses, soldados e condenados ao exílio, e como mercado de exportação da manteiga madeirense. Os exploradores Capelo e Ivens atravessaram o continente, e o Norte de África é apontado como região de origem da tamareira.
- Arco da Calheta
Calheta. Local de residência de Isabel de Abreu e da sua família de povoadores.
O Arco da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás, cuja igreja conserva pinturas do século XVI. O Elucidário aborda os seus primeiros povoadores, como os Andrade, as propriedades açucareiras, as capelas, os morgadios, os tumultos de 1834 e 1887 e a irrigação pelas levadas do Rabaçal e do Pico da Urze.
- Calheta
Localidade para onde Isabel se dirigia quando foi raptada.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Canárias
Spain. Local para onde António fugiu.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Convento onde Isabel se recolheu enquanto o marido esteve escondido.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Funchal
Sede da capitania cujo ouvidor interveio.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade para onde António partiu após a primeira tentativa falhada.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Lombada da Ponta do Sol
Ponta do Sol. Sede do morgadio dos Esmeraldos, onde Isabel foi cercada.
A Lombada da Ponta do Sol é uma localidade da freguesia e do concelho da Ponta do Sol. Foi a grande propriedade de Rui Gonçalves da Câmara, arrendada a João Esmeraldo em 1473 e cultivada por oitenta escravos. Tornou-se a sede do morgadio do Santo Espírito, com a capela dos Esmeraldo, e foi ali que D. Isabel de Abreu esteve cercada; as notas registam ainda um deslizamento de terras da propriedade em direção ao mar em 1804 e uma questão jurídica relativa à propriedade estudada em 1927.
- Ponta do Sol
Local de origem de cavaleiros que acompanhavam António.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Ribeira Brava
Local de origem de cavaleiros que acompanhavam António.
A Ribeira Brava é uma das freguesias mais antigas da Madeira. Deve o nome à sua ribeira impetuosa e possui vila, porto e cais. O Elucidário aborda a sua igreja colegiada e as respetivas pinturas, o convento franciscano e as capelas, bem como a festa de São Pedro, com barco e dança das espadas. Regista também tumultos contra o sistema métrico e as mortes causadas por disparos das tropas sobre a população durante as eleições de 1884.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 13-
Viúva abastada do Arco da Calheta, obrigada a casar com António Gonçalves da Câmara; é a figura central desta entrada.
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Irmã de Isabel, que apresentou queixa ao rei pelo casamento forçado.
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Sobrinho do terceiro capitão-donatário, que raptou Isabel de Abreu e a obrigou a casar consigo; foi mais tarde perdoado após prestar serviço em África.
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Mãe de Isabel de Abreu e uma das primeiras povoadoras do Arco da Calheta.
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Coautor do Elucidário Madeirense e autor de um opúsculo sobre a Lombada dos Esmeraldos em que aborda o caso.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista e autor de Saudades da Terra, citado pela sua descrição do banquete de casamento.
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Juiz régio enviado à Madeira para investigar o caso, do qual resultaram condenações à morte e ao desterro.
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Mãe de António Gonçalves da Câmara e camareira-mor da rainha, que ajudou a obter o perdão do filho.
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Cunhado de Isabel, cuja casa na Lombada da Ponta do Sol foi cercada por António.
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Pai de Isabel de Abreu e um dos primeiros povoadores do Arco da Calheta.
+ 3 mais
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Primeiro marido de Isabel de Abreu e filho do terceiro capitão-donatário do Funchal.
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Escritor que se inspirou neste episódio para escrever «Bem querer e mal querer», publicado em O Panorama.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Terceiro capitão-donatário do Funchal, sogro de Isabel e tio do homem que a raptou.