Costumes antigos
Breve panorama dos antigos costumes madeirenses, que destaca os hábitos feudais, a violência, o luxo e a ociosidade da primeira nobreza e o modo como os morgadios e o contrato de colonia moldaram a vida na ilha, com mudanças a partir do final do século XVI.
Influência das conquistas de Marrocos
Os antigos costumes e velhas usanças madeirenses exigem um demorado e cuidadoso estudo que deve merecer a nossa particular atenção em diversos artigos deste Elucidario. Neste logar vamos apenas fazer a rapida enumeração de alguns factos, que caracterizam muitos desses costumes e que de modo especial nos mostram os claros vestigios do velho feudalismo, que durante largo tempo, em algumas das suas nuances, perdurou entre a antiga fidalguia deste arquipelago. As nossas conquistas em Marrocos e a conservação das cidades e praças conquistadas exerceram uma grande influencia nos costumes do nosso país e na vida intima dos seus habitantes, produzindo uma tendencia exagerada para as emprêsas arriscadas, para as aventuras desconhecidas e imprevistas, que se manifestam na expansão territorial e alargamento dos dominios de além-mar, demandando ignotas regiões e mares nunca dantes navegados, na frase consagrada do nosso epico. Na proporção do meio, nenhuma terra portuguesa contribuíu para as nossas lutas do norte de Africa como o arquipelago madeirense, organizando os donatarios grandes expedições em frotas de dezenas de navios e muitos centenares de homens e de cavalos, em que tomava parte muito activa um numero consideravel de fidalgos e cavaleiros, tudo á custa dos proprios expedicionarios e sem o menor encargo para a metropole, e isto muitas vezes durante meses consecutivos em que praticavam os mais esforçados actos de valor, que iam até ao heroismo e á temeridade. A nobreza madeirense criava foros de valente e audaciosa, ao mesmo tempo que se enfatuava das suas origens fidalgas e da independencia que gozava nas suas terras solarengas, praticando desmandos e excessos, a que o poder quasi ilimitado dos donatarios não conseguira por côbro e que até a propria autoridade do monarca não alcançava corrigir e moderar, pela distancia que se interpunha entre esta ilha e o continente do reino. Tudo isso teve uma influencia decisiva nos costumes locais, de que são um testemunho eloquente alguns dos factos que vamos citar e de que fazem menção as antigas cronicas deste arquipelago: o solar acastelado que o turbulento Garcia Homem de Sousa, genro de Zarco, levantou nas suas terras de Santo Antonio, de que ainda restam vestigios, para as lutas sangrentas que sustentou com os seus cunhados: a barbara e cruel vingança que o primeiro donatario de Machico, Tristão Vaz, exerceu contra Diogo Barradas para desagravar-se de uma afronta feita á sua casa; a tragica morte de D. Aldonça Delgado, assassinada por seu marido Bartolomeu Perestrelo, quarto capitão-donatario do Pôrto Santo, para casar com sua prima D. Solanda, com quem mantinha relações amorosas; o assassinato cometido por Garcia Perestrelo, sendo por isso degolado; o rapto violento e aparatoso de D. Isabel de Abreu por Antonio Gonçalves da Camara e as lutas e contendas que se lhe seguiram; e os casos de assassinio e escandaloso estupro que o dr. Alvaro de Azevedo narra na nota XXIV ás Saudades da Terra, acrescentando «que cá houve também curiosos typos de pimpões fidalgos, cujas aventuras lubricas, brutais brinquedos e crimes impudentes a tradição ainda não esqueceu”. Constituem também uma caracteristica desses velhos costumes as cavalgatas, jogos de canas e escaramuças aparatosas de Lançarote Teixeira, a coutada de João Teixeira e as suas faustosas caçadas, as aventuras e provas de fôrça muscular de Marcos Braga e Antonio de Carvalhal, os despiques e desafios entre Pedro Ribeiro e Domingos de Braga, etc. Os donatários do Funchal, parecendo querer ombrear com o luxo e magnificencia da côrte, viviam com requintado fausto e aparatosa grandeza, organizando dispendiosas expedições guerreiras, enviando riquissimos presentes a monarcas e pontifices, como fêz Simão Gonçalves da Camara o Magnifico, na embaixada a Leão X, apresentando-se nas festas do paço real e casamentos de principes com tal luxo e aparato que a todos deslumbravam etc. Na fidalguia madeirense reflectiu-se este amor excessivo de luxo e de grandeza, levando-a a uma vida inutil e ociosa passada no Funchal ou na côrte, abandonando assim as suas terras e solares ao cuidado e administração de pouco escrupulosos feitores. São disso um frisante exemplo os jogos caçadas e cavalgadas, as escaramuças, despiques e lutas, as festas aparatosas caracterizadas pelo banquete no casamento de Antonio Gonçalves da Camara e Isabel de Abreu, etc., etc. A breve tempo uma grande parte das casas estavam arruinadas e os seus rendimentos empenhados, conduzindo muitos a uma existencia vergonhosa e miseravel. Como em nenhuma outra região do país teve a Madeira um numero consideravel de vinculos e morgadios, multiplicando-se deste modo o numero de familias que levavam uma vida quasi inutil e sempre improdutiva, chegando a afirmar-se que dois terços das terras deste arquipelago estavam sujeitos a uma tão larga e nociva vinculação. A primitiva sesmaria evolucionou e transformou-se no conhecido contrato de colonia, que deu aos costumes madeirenses uma feição muita caracteristica, sobretudo na vida intima dos colonos e caseiros. O antigo sesmeiro tornou-se senhor da terra e fêz-se morgado, adquirindo, numa forçada ociosidade, habitos e tendencias que não abonavam as suas prosapias avoengas. Por fins do seculo XVI começa a operar-se uma transformação na vida e costumes madeirenses. As comunicações mais frequentes com a metropole e com o estrangeiro, o desenvolvimento do comercio com a permanencia de muitos forasteiros nesta ilha, a ida de inumeros fidalgos e homens do povo para as guerras e vida aventureira da India e do Brasil, regressando com profundas modificações no modo do seu viver intimo, a influencia do dominio espanhol e ainda outras causas, contribuíram notavelmente para essa transformação, que mais se acentuou no decorrer dos seculos XVII e XVIII.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Brasil
Brazil. Destino de madeirenses cujo regresso alterou os costumes locais.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Funchal
Sede dos faustosos donatários e da vida ociosa da nobreza.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Índia
India. Destino de madeirenses cujo regresso alterou os costumes locais.
A Índia é referida como o lugar onde serviram vários madeirenses, entre eles Lopo de Abreu, Pedro da Silva e o vice-rei João Saldanha da Gama. A fama dos construtores de levadas madeirenses chegou até lá. É a região de origem de plantas cultivadas na Madeira, entre as quais a mangueira, a Hedychium gardnerianum, a balsamina e a maioria dos bambus.
- Machico
Capitania de Tristão Vaz.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Marrocos
Morocco. Cenário de conquistas portuguesas para as quais a Madeira contribuiu com grandes expedições.
Marrocos é referido como o local das praças portuguesas onde madeirenses, entre eles Zarco, combateram os mouros e onde Zarco recebeu o título de cavaleiro. Cativos mouros trazidos da sua costa levaram os seus relatos à Madeira. Era também o país de origem das princesas marroquinas.
- Porto Santo
Capitania de Bartolomeu Perestrelo.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Santo António
Funchal. Local onde Garcia Homem de Sousa construiu a sua casa senhorial fortificada.
Santo António é uma freguesia do concelho do Funchal, na Madeira, onde nasce a ribeira de São João e onde os Jesuítas tinham a sua residência do Pico do Cardo. A igreja possui uma inscrição latina de 1783, e na freguesia encontram-se as capelas da Madalena, de São João e Santana e do Pópulo; a freguesia dá também nome a uma elevação de cerca de 400 metros perto da igreja.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 19-
Mulher assassinada pelo marido, Bartolomeu Perestrelo, para que este pudesse casar com a prima.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador de Saudades da Terra, que registou relatos de crimes de nobres na nota XXIV.
- António do Carvalhalm. 1598
Recordado pelas suas aventuras e proezas de força.
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Nobre que raptou Isabel de Abreu, desencadeando rivalidades, e ofereceu um sumptuoso banquete de casamento.
- Bartolomeu Perestrelom. 1457
Quarto capitão-donatário de Porto Santo, que matou a mulher, Aldonça Delgado.
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Nobre raptada com violência por António Gonçalves da Câmara, com quem mais tarde casou.
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Homem castigado por Tristão Vaz por uma afronta à sua casa.
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Conhecido pelas rivalidades e desafios com Pedro Ribeiro.
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Genro turbulento de Zarco, que construiu uma casa senhorial fortificada em Santo António para combater os cunhados.
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Decapitado por um homicídio que cometeu.
+ 9 mais
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, referido como sogro de Garcia Homem de Sousa.
- João Maneio Teixeiran. 1839
Nobre conhecido pela sua coutada de caça e pelas caçadas sumptuosas.
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Nobre conhecido pelas cavalgadas, jogos de canas e escaramuças vistosas.
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Papa que recebeu a faustosa embaixada de Simão Gonçalves da Câmara.
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Recordado pelas suas aventuras e proezas de força.
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Conhecido pelas rivalidades e desafios com Domingos de Braga.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Capitão-donatário do Funchal, «o Magnífico», que enviou ricos presentes numa embaixada ao Papa Leão X.
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Prima e amante de Bartolomeu Perestrelo.
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Primeiro capitão-donatário de Machico, recordado pela cruel vingança contra Diogo Barradas.