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Elucidário Madeirense Início
Artigo Nº 1098 Costumes e folclore Vol. I · pp. 631–632 5 min de leitura

Costumes antigos

Breve panorama dos antigos costumes madeirenses, que destaca os hábitos feudais, a violência, o luxo e a ociosidade da primeira nobreza e o modo como os morgadios e o contrato de colonia moldaram a vida na ilha, com mudanças a partir do final do século XVI.

Costumes antigos

Influência das conquistas de Marrocos

Os antigos costumes e velhas usanças madeirenses exigem um demorado e cuidadoso estudo que deve merecer a nossa particular atenção em diversos artigos deste Elucidario. Neste logar vamos apenas fazer a rapida enumeração de alguns factos, que caracterizam muitos desses costumes e que de modo especial nos mostram os claros vestigios do velho feudalismo, que durante largo tempo, em algumas das suas nuances, perdurou entre a antiga fidalguia deste arquipelago. As nossas conquistas em Marrocos e a conservação das cidades e praças conquistadas exerceram uma grande influencia nos costumes do nosso país e na vida intima dos seus habitantes, produzindo uma tendencia exagerada para as emprêsas arriscadas, para as aventuras desconhecidas e imprevistas, que se manifestam na expansão territorial e alargamento dos dominios de além-mar, demandando ignotas regiões e mares nunca dantes navegados, na frase consagrada do nosso epico. Na proporção do meio, nenhuma terra portuguesa contribuíu para as nossas lutas do norte de Africa como o arquipelago madeirense, organizando os donatarios grandes expedições em frotas de dezenas de navios e muitos centenares de homens e de cavalos, em que tomava parte muito activa um numero consideravel de fidalgos e cavaleiros, tudo á custa dos proprios expedicionarios e sem o menor encargo para a metropole, e isto muitas vezes durante meses consecutivos em que praticavam os mais esforçados actos de valor, que iam até ao heroismo e á temeridade. A nobreza madeirense criava foros de valente e audaciosa, ao mesmo tempo que se enfatuava das suas origens fidalgas e da independencia que gozava nas suas terras solarengas, praticando desmandos e excessos, a que o poder quasi ilimitado dos donatarios não conseguira por côbro e que até a propria autoridade do monarca não alcançava corrigir e moderar, pela distancia que se interpunha entre esta ilha e o continente do reino. Tudo isso teve uma influencia decisiva nos costumes locais, de que são um testemunho eloquente alguns dos factos que vamos citar e de que fazem menção as antigas cronicas deste arquipelago: o solar acastelado que o turbulento Garcia Homem de Sousa, genro de Zarco, levantou nas suas terras de Santo Antonio, de que ainda restam vestigios, para as lutas sangrentas que sustentou com os seus cunhados: a barbara e cruel vingança que o primeiro donatario de Machico, Tristão Vaz, exerceu contra Diogo Barradas para desagravar-se de uma afronta feita á sua casa; a tragica morte de D. Aldonça Delgado, assassinada por seu marido Bartolomeu Perestrelo, quarto capitão-donatario do Pôrto Santo, para casar com sua prima D. Solanda, com quem mantinha relações amorosas; o assassinato cometido por Garcia Perestrelo, sendo por isso degolado; o rapto violento e aparatoso de D. Isabel de Abreu por Antonio Gonçalves da Camara e as lutas e contendas que se lhe seguiram; e os casos de assassinio e escandaloso estupro que o dr. Alvaro de Azevedo narra na nota XXIV ás Saudades da Terra, acrescentando «que cá houve também curiosos typos de pimpões fidalgos, cujas aventuras lubricas, brutais brinquedos e crimes impudentes a tradição ainda não esqueceu”. Constituem também uma caracteristica desses velhos costumes as cavalgatas, jogos de canas e escaramuças aparatosas de Lançarote Teixeira, a coutada de João Teixeira e as suas faustosas caçadas, as aventuras e provas de fôrça muscular de Marcos Braga e Antonio de Carvalhal, os despiques e desafios entre Pedro Ribeiro e Domingos de Braga, etc. Os donatários do Funchal, parecendo querer ombrear com o luxo e magnificencia da côrte, viviam com requintado fausto e aparatosa grandeza, organizando dispendiosas expedições guerreiras, enviando riquissimos presentes a monarcas e pontifices, como fêz Simão Gonçalves da Camara o Magnifico, na embaixada a Leão X, apresentando-se nas festas do paço real e casamentos de principes com tal luxo e aparato que a todos deslumbravam etc. Na fidalguia madeirense reflectiu-se este amor excessivo de luxo e de grandeza, levando-a a uma vida inutil e ociosa passada no Funchal ou na côrte, abandonando assim as suas terras e solares ao cuidado e administração de pouco escrupulosos feitores. São disso um frisante exemplo os jogos caçadas e cavalgadas, as escaramuças, despiques e lutas, as festas aparatosas caracterizadas pelo banquete no casamento de Antonio Gonçalves da Camara e Isabel de Abreu, etc., etc. A breve tempo uma grande parte das casas estavam arruinadas e os seus rendimentos empenhados, conduzindo muitos a uma existencia vergonhosa e miseravel. Como em nenhuma outra região do país teve a Madeira um numero consideravel de vinculos e morgadios, multiplicando-se deste modo o numero de familias que levavam uma vida quasi inutil e sempre improdutiva, chegando a afirmar-se que dois terços das terras deste arquipelago estavam sujeitos a uma tão larga e nociva vinculação. A primitiva sesmaria evolucionou e transformou-se no conhecido contrato de colonia, que deu aos costumes madeirenses uma feição muita caracteristica, sobretudo na vida intima dos colonos e caseiros. O antigo sesmeiro tornou-se senhor da terra e fêz-se morgado, adquirindo, numa forçada ociosidade, habitos e tendencias que não abonavam as suas prosapias avoengas. Por fins do seculo XVI começa a operar-se uma transformação na vida e costumes madeirenses. As comunicações mais frequentes com a metropole e com o estrangeiro, o desenvolvimento do comercio com a permanencia de muitos forasteiros nesta ilha, a ida de inumeros fidalgos e homens do povo para as guerras e vida aventureira da India e do Brasil, regressando com profundas modificações no modo do seu viver intimo, a influencia do dominio espanhol e ainda outras causas, contribuíram notavelmente para essa transformação, que mais se acentuou no decorrer dos seculos XVII e XVIII.

Neste artigo

Lugar

Lugares mencionados · 07

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (7)
  1. Brasil

    Brazil. Destino de madeirenses cujo regresso alterou os costumes locais.

  2. Funchal

    Sede dos faustosos donatários e da vida ociosa da nobreza.

  3. Índia

    India. Destino de madeirenses cujo regresso alterou os costumes locais.

  4. Machico

    Capitania de Tristão Vaz.

  5. Marrocos

    Morocco. Cenário de conquistas portuguesas para as quais a Madeira contribuiu com grandes expedições.

  6. Porto Santo

    Capitania de Bartolomeu Perestrelo.

  7. Santo António

    Funchal. Local onde Garcia Homem de Sousa construiu a sua casa senhorial fortificada.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 19
  1. Mulher assassinada pelo marido, Bartolomeu Perestrelo, para que este pudesse casar com a prima.

  2. Anotador de Saudades da Terra, que registou relatos de crimes de nobres na nota XXIV.

  3. Recordado pelas suas aventuras e proezas de força.

  4. Nobre que raptou Isabel de Abreu, desencadeando rivalidades, e ofereceu um sumptuoso banquete de casamento.

  5. Quarto capitão-donatário de Porto Santo, que matou a mulher, Aldonça Delgado.

  6. Nobre raptada com violência por António Gonçalves da Câmara, com quem mais tarde casou.

  7. Homem castigado por Tristão Vaz por uma afronta à sua casa.

  8. Conhecido pelas rivalidades e desafios com Pedro Ribeiro.

  9. Genro turbulento de Zarco, que construiu uma casa senhorial fortificada em Santo António para combater os cunhados.

  10. Decapitado por um homicídio que cometeu.

+ 9 mais
  1. Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, referido como sogro de Garcia Homem de Sousa.

  2. Nobre conhecido pela sua coutada de caça e pelas caçadas sumptuosas.

  3. Nobre conhecido pelas cavalgadas, jogos de canas e escaramuças vistosas.

  4. Papa que recebeu a faustosa embaixada de Simão Gonçalves da Câmara.

  5. Recordado pelas suas aventuras e proezas de força.

  6. Conhecido pelas rivalidades e desafios com Domingos de Braga.

  7. Capitão-donatário do Funchal, «o Magnífico», que enviou ricos presentes numa embaixada ao Papa Leão X.

  8. Prima e amante de Bartolomeu Perestrelo.

  9. Primeiro capitão-donatário de Machico, recordado pela cruel vingança contra Diogo Barradas.

Na folha C

Vistos recentemente

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