Sesmarias 1Origem das sesmarias
Sesmarias
Explica as concessões de terras em sesmaria pelas quais os capitães-donatários da Madeira distribuíram terras aos povoadores e defende que a sesmaria evoluiu gradualmente para o contrato de colonia característico da ilha.
1Origem das sesmarias
As leis das sesmarias precederam neste arquipélago o contrato de colónia (volume I, página 290), ou talvez com mais propriedade e acerto se possa dizer que a sesmaria evolucionando e adaptando-se ás condições do meio, se transformou no contrato de colonia. Pela exposição que faz Gama Barros na sua monumental Historia da Administração Publica em Portugal acerca das leis de sesmaria criadas no reinado de D. Fernando, vê-se que essas leis tinham principalmente em vista tornar produtivas as terras que os seus proprietários conservavam abandonadas, não perdendo eles, no entretanto, o direito de propriedade. Na Madeira, sabe-se que os donatarios, conforme lhes fôra permitido pelas cartas de doação do infante D. Henrique, concediam os terrenos em sesmaria, o que se praticou em grande escala em toda a ilha, além das doações que foram feitas directamente pelos monarcas, mas ignora-se se as terras eram concedidas sem a tributação de alguma renda, pensão ou foro, e portanto com o domínio absoluto do sesmeiro sôbre a terra, ou se esta ficaria sujeita ao pagamento de quaisquer contribuições que revertessem a favor da coroa, dos donatarios ou da ordem de Cristo. Se essa tributação porventura existiu, não temos hoje conhecimento dela, e somente se teria dado nos tempos primitivos da colonização, porque a partir das primeiras instituições vinculares, que datam dos fins do século XV, o sesmeiro era considerado um senhor absoluto dos seus dominios territoriais, dispondo deles livremente na criação de inúmeros morgadios e na alienação e aforamento das terras.
Diz Gaspar Frutuoso «que chegado João Gonçalves ao Funchal, começou a traçar a villa, e dar as terras de sesmaria, como tinha por regimento do Infante D. Henrique. . ., e, conforme o dito regimento, deo por cinco anos as terras que não eram lavradas, dentro dos quaes se obrigavam a aproveitalas e lavralas, sob pena de, não cumprindo neste termo lhas tirar e dalas a quem as aproveitasse». Não se alude aqui a qualquer ónus que pesasse sôbre as terras concedidas em sesmaria, e apenas se sabe, além do que fica dito, que, se as terras depois de terem sido aproveitadas fossem abandonadas pelos seus cultivadores, poderiam passar á posse de terceiros, quando esse abandono se desse por espaço superior a cinco anos.
2Da sesmaria à colonia
Como já ficou dito noutro lugar, foi aos nobres nacionais e estrangeiros, e a alguns notáveis mercadores estrangeiros, que os donatarios concederam as terras, tendo eles encontrado no escravo africano o seu principal auxiliar no arroteamento dos terrenos. Muitos desses sesmeiros, tornando-se ricos, transformaram as suas terras em morgadios, e, contratando a cultura das mesmas terras com colonos livres, mediante a dimídia, foram deixando a estes o amanho e cultura das propriedades, indo desfrutar na cidade ou na corte o rendimento dos seus campos e herdades. Os colonos libertando-se a pouco e pouco da tutela dos proprietários, cultivando por conta própria as terras de sesmaria, sobrecarregando-as com casas, paredes e outras benfeitorias, a que depois se juntou a posse das próprias árvores e plantas, criaram uma situação especial, dando-lhes quasi foros de co-proprietário dos terrenos que amanhavam, ficando em boa parte na dependência deles os antigos sesmeiros, verdadeiros donos das terras. Nisto está a verdadeira origem do contrato de colonia, que, como atrás dissemos, é uma simples transformação das antigas sesmarias. V. Colonia, Costumes antigos e Instituições vinculares.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 01- Funchal
Povoação traçada por João Gonçalves, onde começou a conceder terras em sesmaria.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05-
Historiador português cuja História da Administração Pública em Portugal é citada a propósito das leis das sesmarias.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista citado a propósito da forma como João Gonçalves traçou o Funchal e concedeu terras em sesmaria.
-
Rei de Portugal em cujo reinado foram criadas as leis das sesmarias.
- Infante D. Henrique1394–1460
Infante D. Henrique, cujas cartas de doação e normas permitiam aos capitães-donatários conceder terras em sesmaria.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, que distribuiu terras em sesmaria com a condição de serem cultivadas num prazo de cinco anos.