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Administração Judicial 1Donatários e corregedores
Artigo Nº 0054 Justiça e tribunais Vol. I · pp. 33–36 7 min de leitura

Administração Judicial

Percorre a história da administração judicial na Madeira, desde a ampla jurisdição dos capitães-donatários, passando pelos corregedores régios e pela criação dos cargos de corregedor e juiz de fora em 1767, até às comarcas oitocentistas do Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e São Vicente.

Administração Judicial

1Donatários e corregedores

Na Madeira, ao menos nos tempos primitivos da colonização, toda a jurisdição civil e criminal residia nos donatários. Eram muito latitudinárias as suas atribuições na administração de todos os negócios públicos e ainda no julgamento das causas crimes, a não ser que se tratasse de delitos graves de morte ou atalhamento de membro, que então pertencia ao rei ou aos tribunais superiores da corte a aplicação da respectiva pena. Essas amplas faculdades foram-se a pouco e pouco cerceando com o decorrer dos tempos. Os reis avocando a si os privilégios que neste arquipélago tinha a Ordem de Cristo, a criação dos municípios, a instituição das sesmarias e dos morgadios, as diversas leis agrárias, sobretudo acerca de águas, madeiras, gados e açucares, e ainda outras medidas do poder central contribuíram poderosamente para o gradual cerceamento das atribuições civis militares e judiciais de que os capitães donatários largamente gozavam neste arquipélago. Os abusos de jurisdição cometidos pelos donatários, que às vezes iam até a invasão do poder real, não eram raros, o que, em muitas ocasiões, determinou a vinda a esta ilha de ouvidores e corregedores, investidos de poderes quasi discricionários, que tinham por missão especial o sindicarem e julgarem desses excessos de jurisdição. Eram estes magistrados, enviados primitivamente em casos extraordinários e depois em circunstâncias mais normais, os que atenuavam e corrigiam aquelas invasões de poder, levantando-se por vezes conflitos entre eles e os capitães donatários, a que sempre vinha por termo o governo central nos recursos interpostos perante a coroa.

Temos disso vários exemplos, especialmente o da vinda à Madeira no último quartel do século XV, do corregedor Álvaro Fernandes com “alçada por el rei em toda a ilha” e mais tarde a do bacharel Rui Pires, também com jurisdição judicial em todo o arquipélago.

No primeiro quartel do século XVI, mandou D. Manuel a esta ilha o corregedor Dr. Diogo Taveira, “por certas razões que a isso o moveram, em respeito ao capitão Simão Gonçalves”, diz Gaspar Frutuoso, o que em extremo irritou o capitão donatário, a ponto de que resolveu abandonar a capitania, chegando a embarcar em duas caravelas com sua família e o melhor móvel da sua casa em direcção a Espanha, o que não realizou por ter arribado ao Algarve e lhe ter sido dada por el rei satisfação da afronta, “por que, como afirma o citado cronista, pelos serviços que tinha feito a el rei lhe não merecia meter corregedor”.

Mais tarde, pelos anos de 1579, o cardeal rei cerceou consideravelmente o poder e jurisdição dos donatários, determinando especialmente que os ofícios e empregos de Justiça fossem de apresentação régia, o que antes pertencia aos capitães donatários. Com a dominação filipina, ainda mais se restringiu o poder dos donatários. O governo espanhol criou os cargos de governadores gerais para a administração das nossas possessões e enviou para este arquipélago o desembargador Dr. João Leitão, que vinha também encarregado de proceder a uma devassa acerca dos acontecimentos políticos ocorridos nesta ilha por ocasião da proclamação de Filipe II. Desde então, os capitães donatários deixaram de residir entre nós e exerciam as suas faculdades jurisdicionais por intermédio dos seus ouvidores, que eram da sua nomeação e aos quais outorgavam todas as atribuições de que gozavam. É fácil, porém, de presumir que a ausência dos donatários das suas capitanias e a autoridade exercida com verdadeiro despotismo pelos representantes do governo espanhol, teriam imensamente concorrido para reduzir a proporções mesquinhas o poder dos mesmos donatários no governo destas ilhas. A pesar de serem quasi meramente honoríficas, a partir desta época, as atribuições dos donatários na administração local e na aplicação da justiça, continuavam, no entretanto, a receber importantes rendas dos diversos impostos cobrados no arquipélago, tendo, por meados do século XVIII, sido largamente indemnizados da perda, que então começaram a sofrer, dessas mesmas rendas e impostos.

Será hoje difícil e talvez mesmo impossível determinar com precisão a esfera das atribuições, na época em que começou a ocupação castelhana, tanto dos capitães donatários, como dos diversos magistrados enviados a este arquipélago pelos monarcas. O mesmo diremos acerca do período da dominação espanhola e da época decorrida desde 1640 até o tempo do marquês de Pombal.

2Juiz de fora, julgados e comarcas

O decreto de 2 de Agosto de 1766 criou para os Açores os cargos de corregedor e de juiz de fora, e, no ano seguinte, teve esse decreto aplicação à Madeira, sendo para eles respectivamente nomeados o Dr. Francisco de Matos Correia e o Dr. Luiz António Tavares de Abreu, que tomaram posse dos seus lugares a 15 de Outubro de 1767. Com a nomeação desses magistrados, entrou a administração judicial neste arquipélago num período regular e normal, quando até então, o exercício das funções de corregedor e juiz de fora, acumuladas num só indivíduo, era bastante irregular e principalmente destinado a atender às circunstâncias de ocasião. Durante 68 anos, contados de dia a dia, se manteve deste modo a administração da Justiça até o dia 15 de Outubro de 1835.

A reforma judiciária de 16 de Maio de 1832 só teve execução na Madeira em 1835, e, assim, a pesar da proclamação do governo constitucional nesta ilha a 5 de Junho de 1834, continuou a justiça a ser administrada pelo juiz de fora e corregedor ou seus substitutos legais, até que, em 15 de Outubro de 1835, foram instalados os dois julgados judiciais, ambos com sede no Funchal.

O Dr. Manuel Cirilo Esperança Freire, que foi o último juiz de fora efectivo, serviu até o dia 14 de Junho de 1834, e o Dr. Francisco António Rodrigues Nogueira, que foi também o último corregedor efectivo, deixou o cargo a 23 do mês e anos referidos foram interinamente substituídos pelos membros mais velhos do senado, segundo as disposições legais vigentes, até que o governador e capitão general Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque nomeou a 13 de Outubro de 1834, em virtude de ordens superiores, juiz de fora e corregedor os bacharéis Daniel de Ornelas e Vasconcelos e João Jose Vitorino Duarte e Silva.

A 15 de Outubro de 1835, como já fica dito, terminou o antigo regimen judicial e foram instalados os dois julgados com sede no Funchal. Em 1838, uma nova reforma judicial dividiu o arquipélago em duas comarcas, ocidental e oriental, ambas com sede nesta cidade, e que foram estabelecidas a 7 de Maio daquele ano.

O primeiro magistrado que serviu no julgado e comarca oriental foi o Dr. Domingos Olavo Correia de Azevedo e igualmente o primeiro juiz que serviu no julgado e comarca ocidental foi o Dr. José Pereira Leite Pita Ortigueira Negrão.

O decreto de 12 de Novembro de 1875 alterou a divisão comarca neste arquipélago, ficando deste então existindo as comarcas do Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e S. Vicente.

A comarca de Santa Cruz instalou-se a 17 de Junho de 1876, dia em que tomou posse o seu primeiro juiz, o Dr. Manuel Inácio Rum do Canto, sendo seu primeiro delegado do procurador régio o Dr. Bernardo Vieira Pinto de Andrade, que foi nomeado por decreto de 17 de Fevereiro de 1876.

A instalação da comarca de S. Vicente realizou-se a 16 de Novembro de 1876. Neste mesmo dia, tomaram posse o mesmo juiz e o primeiro delegado, o Dr. João Pereira dos Ramos e Silveira, e o Dr. Aníbal Correia Taborda. Instalou-se a comarca da Ponta do Sol no dia 28 de Abril de 1876. Foi seu primeiro juiz seu primeiro delegado, respectivamente, o Dr. Martinho da Rocha Guimarães Camões e o Dr. António Augusto Freire Ribeiro de Campos, que tomaram posse dos seus cargos no dia e por ocasião da instalação da comarca.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 10
  1. O corregedor Álvaro Fernandes chegou à Madeira com jurisdição sobre toda a ilha.

  2. O cardeal-rei D. Henrique tornou os cargos judiciais de nomeação régia, limitando os poderes dos donatários.

  3. Um decreto criou os cargos de corregedor e juiz de fora para os Açores, posteriormente alargados à Madeira.

  4. O decreto de 1766 foi aplicado à Madeira, e entraram em funções o primeiro corregedor e o primeiro juiz de fora permanentes e com cargos distintos, regularizando a administração da justiça na ilha.

  5. Foi decretada uma reforma judicial nacional que extinguia os corregedores, aplicada na Madeira apenas em 1835.

  6. O governo constitucional (liberal) e a Carta Constitucional foram proclamados no Funchal, pacificamente na cidade, embora com violência em algumas freguesias, estabelecendo as instituições liberais na Madeira.

  7. O governador Mousinho de Albuquerque nomeou um novo juiz de fora e um novo corregedor na Madeira.

  8. A reforma judicial de 1832 entrou em vigor na Madeira, pondo fim ao antigo regime dos corregedores e instituindo dois julgados com juízes de direito no Funchal.

  9. Os dois julgados foram convertidos nas comarcas oriental e ocidental, ambas sediadas no Funchal.

  10. Um decreto reorganizou a administração judicial da Madeira em quatro comarcas — Funchal, Ponta do Sol, Santa Cruz e São Vicente —, tornando São Vicente sede de comarca.

  11. Foi instalada a comarca da Ponta do Sol.

  12. Foi instalada a comarca de Santa Cruz.

  13. Na reorganização judicial, foi instalada a comarca de São Vicente, e a comarca única do Funchal, dividida em nove julgados, substituiu as comarcas ocidental e oriental.

Lugar

Lugares mencionados · 07

No estrangeiro

Mapa: Madeira (7)
  1. Açores

    Portugal. O decreto de 1766 criou primeiro para os Açores os cargos de corregedor e de juiz de fora.

  2. Algarve

    Portugal. Região onde Simão Gonçalves aportou, interrompendo a viagem para Espanha.

  3. Espanha

    Spain. Destino pretendido pelo donatário, ofendido com a nomeação.

  4. Funchal

    Sede dos julgados de 1835 e das comarcas de 1838.

  5. Ponta do Sol

    Sede de comarca desde 1876.

  6. Santa Cruz

    Sede de comarca desde 1876.

  7. São Vicente

    Sede de comarca desde 1876.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 25
  1. Bacharel nomeado em 1834 para o cargo de juiz de fora ou de corregedor.

  2. Corregedor enviado à Madeira no final do século XV, com jurisdição sobre toda a ilha.

  3. Primeiro delegado do procurador régio na comarca de São Vicente.

  4. Primeiro delegado do procurador régio na comarca da Ponta do Sol.

  5. Primeiro juiz de fora da Madeira, que tomou posse em 15 de outubro de 1767.

  6. Primeiro delegado do procurador régio na comarca de Santa Cruz.

  7. D. Manuel I enviou o corregedor Diogo Taveira à Madeira no início do século XVI.

  8. Corregedor cujo despacho ofendeu de tal modo o capitão Simão Gonçalves que este quase abandonou a sua capitania.

  9. Primeiro juiz do julgado oriental e da comarca oriental.

  10. Rei de Espanha cuja proclamação na Madeira levou João Leitão a realizar uma investigação.

+ 15 mais
  1. Último corregedor efetivo, que deixou o cargo em 23 de junho de 1834.

  2. Primeiro corregedor ao abrigo do decreto de 1766, que tomou posse em 15 de outubro de 1767.

  3. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Cronista citado a propósito do caso Taveira.

  4. Cardeal-rei D. Henrique, que em 1579 tornou os cargos judiciais de nomeação régia, limitando os poderes dos donatários.

  5. Bacharel nomeado em 1834 para o cargo de juiz de fora ou de corregedor.

  6. Desembargador enviado pelo governo espanhol para investigar os acontecimentos ocorridos aquando da proclamação de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal).

  7. Primeiro juiz da comarca de São Vicente, em 16 de novembro de 1876.

  8. Primeiro juiz do julgado ocidental e da comarca ocidental.

  9. Governador e capitão-general que nomeou um novo juiz de fora e um novo corregedor em 13 de outubro de 1834.

  10. Último juiz de fora efetivo, exerceu funções até 14 de junho de 1834.

  11. Primeiro juiz da comarca de Santa Cruz, empossado em 17 de junho de 1876.

  12. Ministro cuja época marcou o fim do período de jurisdições mal definidas.

  13. Primeiro juiz da comarca da Ponta do Sol, em 28 de abril de 1876.

  14. Magistrado letrado a quem foi posteriormente atribuída autoridade judicial sobre todo o arquipélago.

  15. Capitão-donatário do Funchal que partiu para Espanha em protesto contra a nomeação do corregedor, mas aportou ao Algarve e obteve satisfação do rei.

Na folha A

Vistos recentemente

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