Alçadas 1Natureza das alçadas
Alçadas
Descreve as alçadas, tribunais especiais ou magistrados com poderes extraordinários enviados à Madeira para investigar e julgar crimes políticos e abusos, enumerando as alçadas do período filipino até ao início do século XVIII.
1Natureza das alçadas
Acontecimentos extraordinários, geralmente de caracter político, que se consideravam atentatórios das leis ou das instituições vigentes, determinaram a criação de tribunais especiais, que, munidos de poderes por vezes discricionários, procediam a devassas rigorosas e proferiam as suas sentenças nos próprios lugares em que se tinham dado os abusos ou os factos incriminados. Á Madeira vieram várias vezes esses improvisados mas terríveis tribunais e em algumas circunstancias apenas magistrados com poderes mais latos do que os ordinários, para sindicar e julgar acerca de crimes ou acontecimentos considerados pelo poder central como dignos de mais eficaz e exemplar castigo. Nas Saudades da Terra fazem-se menção dalgumas dessas alçadas e de vários magistrados que aqui vieram investidos de poderes extraordinários para o julgamento de certas causas e já a isso nos referimos no artigo Administração Judicial.
Parece que até o domínio filipino, não era tão latitudinaria a esfera de acção desses magistrados nem os seus poderes eram tão ilimitados, porque os tolhiam e embaraçavam as extraordinárias prerrogativas e privilégios quasi majestáticos de que gozavam os donatarios, que muitas vezes impunham despoticamente a sua interferência, cerceando com violências e vexames a jurisdição das alçadas. É certo que o poder real e outras circunstancias, como já fizemos sentir, diminuíra gradual e consideravelmente o poder dos capitais donatarios, mas os usos e costumes tradicionais, os antigos privilégios e talvez mais ainda a distancia a que ficava o governo central, favoreciam o abuso de autoridade, que de quando em quando se manifestava.
Daremos rápida noticia de algumas alçadas ou magistrados que, com iguais poderes, vieram a este arquipelago, a partir do jugo espanhol, detendo-nos particularmente nas ominosas alçadas que em 1823 e 1828 praticaram entre nós os maiores vexames e as mais inqualificaveis represálias.
2Alçadas do domínio filipino a 1702
O desembargador João Leitão (V. este nome), o primeiro governador da Madeira no domínio filipino, veio com poderes discricionários para julgar das pessoas que se tivessem mostrado desafectas a Filipe 2.º, mas ignoramos como procedeu no desempenho dessa missão e que sentenças chegou por ventura a proferir. Noutro lugar alguma cousa diremos acerca do governo filipino nesta ilha, que é um período muito interessante da nossa historia, mas é certo que escasseiam os elementos para um estudo completo sobre o assunto, a começar pelos actos da alçada de que foi encarregado o Dr. João Leitão.
Ainda por motivo de manifestações hostis ao governo dos Filipes, foi enviado ao Funchal em 1611 o desembargador Francisco Cardoso, ignorando-se o resultado da alçada de que veio investido. Sabe-se apenas que foi superiormente repreendido o governador-geral de então, por se intrometer nas atribuições da alçada.
Em 1614 e já anteriormente foram feitas serias acusações contra a má administração das cousas públicas nesta ilha, de alguns casos de morte e ainda de outros graves abusos e escândalos, o que determinou Filipe III, por carta regia de 29 de Novembro daquele ano, a nomear o Dr. Gonçalo de Sousa, desembargador da Casa da Suplicação, para vir á Madeira, com o poder de alçada, a fim de julgar e sentenciar acerca daquelas acusações e castigar os criminosos. Baldado foi o trabalho da devassa, porque os atingidos por ela fugiram e homiziaram-se, subtraindo-se á acção da justiça.
Parece que estes crimes eram da maior gravidade, porque tendo ficado impunes, veio uma nova alçada a esta ilha, passados 13 anos, para dar cumprimento ás sentenças proferidas pelo desembargador Gonçalo de Sousa. Desta alçada foi encarregado, por carta régia de 13 de Outubro de 1627, o Dr. Estevão Coelho de Meireles, que também veio sindicar de outros crimes praticados posteriormente ao ano de 1614. Tinha este magistrado poderes muito latos, devendo apenas as sentenças de morte ser homologadas pela Casa da Suplicação. No processo da devassa teve como ajudante o juiz dos resíduos deste arquipélago. Desconhecemos a natureza das sentenças proferidas e se chegaram a ser executadas.
Morreu assassinado nesta ilha, pouco depois da libertação de Portugal do jugo castelhano, o corregedor da Comarca Gaspar Mousinho, sendo para nós desconhecidas quaisquer circunstancias pormenorizadas deste triste acontecimento. Por tal motivo veio em devassa á Madeira no ano de 1644 o desembargador Jorge da Costa Osorio, que proferiu sentença, mas que desconhecemos qual fosse.
A sedição popular que em 1668 depôs o governador e capitão general D. Francisco de Mascarenhas, o prendeu e o sujeitou aos maiores vexames, determinou a vinda a esta ilha duma alçada investida de poderes extraordinários, presidida pelo Dr. João de Menezes Coutinho, que no ano de 1669 procedeu aos trabalhos da devassa. Para evitar escusadas repetições, remetemos o leitor para o artigo Sedição de 1668, onde este assunto vem mais largamente esplanado.
Com jurisdição especial, em forma de alçada, esteve na Madeira em 1683 o desembargador Domingos de Matos Cerveira, que veio devassar acerca das graves acusações feitas ao provedor e outros oficiais de fazenda.
Deram-se graves conflitos entre o prelado diocesano D. Fr. José de Sousa Castelo Branco e o governador e capitão general João da Costa e Ataíde e o provedor da Fazenda Manuel Mexia Galvão, tendo o governo central mandado sindicar do caso em 1702 pelo desembargador Diogo Sálter de Macedo, que proferiu sentença, ordenando que o provedor fosse «asperamente repreendido» em câmara, na presença dos oficiais dela, e mandado depois para fora da cidade, por tempo que não podemos precisar.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
O desembargador Francisco Cardoso foi enviado ao Funchal devido à oposição ao domínio filipino.
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Filipe III encarregou o Dr. Gonçalo de Sousa de realizar uma alçada na Madeira para punir crimes.
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O Dr. Estêvão Leitão (ou Coelho) de Meireles foi nomeado juiz de uma alçada para punir crimes na Madeira e fazer cumprir sentenças anteriores.
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Jorge da Costa Osório investigou o assassínio do corregedor Gaspar Mousinho.
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Eclodiu no Funchal uma sedição popular e eclesiástica, durante a qual nobres atacaram o governador D. Francisco de Mascarenhas, que foi deposto, preso e enviado para fora da ilha.
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Uma alçada presidida por João de Menezes Coutinho investigou a sedição de 1668 contra Mascarenhas.
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Domingos de Matos Cerveira investigou acusações contra funcionários da Fazenda na Madeira.
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Diogo Sálter de Macedo investigou os conflitos entre o bispo, o governador e o provedor na Madeira.
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Uma alçada régia absolutista chegou ao Funchal para investigar os acontecimentos constitucionais de 1821. Funcionou nos Paços do Concelho até ao início de novembro de 1823, dispersou os maçons e condenou muitos liberais ao degredo, entre eles Joaquim Melchior Gonçalves para Cabo Verde e outros para Angola.
Lugar
Lugares mencionados · 02- Funchal
Cidade para onde Francisco Cardoso foi enviado em 1611.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 15- D. Francisco de Mascarenhasm. 1699
Governador e capitão-general deposto e preso durante a sedição popular de 1668.
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Bispo do Funchal cujos conflitos com o governador e o provedor levaram à investigação de 1702.
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Desembargador enviado em 1702 para investigar os conflitos entre o bispo, o governador e o provedor.
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Desembargador que, em 1683, investigou acusações contra o provedor e funcionários da Fazenda.
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Magistrado nomeado em 1627 para fazer cumprir as sentenças de Gonçalo de Sousa e investigar crimes posteriores.
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Rei de Espanha e de Portugal cujos opositores na Madeira João Leitão devia julgar.
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Rei que, em 1614, nomeou Gonçalo de Sousa para realizar uma alçada na Madeira.
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Desembargador enviado ao Funchal em 1611 devido à oposição ao domínio filipino.
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Corregedor da comarca assassinado na Madeira pouco depois de 1640, o que motivou a investigação de 1644.
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Desembargador da Casa da Suplicação enviado em 1614 para julgar casos de má administração e homicídios, embora os acusados tenham fugido.
+ 5 mais
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Governador e capitão-general em conflito com o bispo por volta de 1702.
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Presidiu à alçada de 1669 que investigou a sedição de 1668.
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Desembargador e primeiro governador da Madeira sob o domínio filipino, enviado com poderes discricionários para julgar os opositores de Filipe I.
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Desembargador que investigou o assassínio de Mousinho em 1644.
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Provedor da Fazenda condenado em 1702 a receber uma severa repreensão e a ser afastado da cidade.