Saltar para o conteúdo
Elucidário Madeirense Início
Alçada de 1823 1Chegada da alçada
Artigo Nº 0114 Justiça e tribunais Vol. I · pp. 63–65 3 min de leitura

Alçada de 1823

Relato da alçada enviada à Madeira em 1823, após a restauração do absolutismo, para investigar e punir os apoiantes do governo constitucional; condenou 24 pessoas, na sua maioria pertencentes às classes dirigentes da ilha.

Alçada de 1823

1Chegada da alçada

A revolução que rebentou no Porto a 24 de Agosto de 1820 arvorou o sistema de governo representativo, tendo as cortes constituintes, que funcionaram de 1821 a 1822, organizado e decretado a chamada Constituição de 1822. No arquipélago da Madeira proclamou-se o novo governo a 28 de Janeiro de 1821. Em Junho de 1823 foram dissolvidas as cortes, derrogada a Constituição e restabelecido o governo absoluto. No dia 26 de Agosto de 1823, chegou á Madeira a fragata de guerra Amazonas, conduzindo o novo governador deste arquipélago D. Manuel de Portugal e Castro, que era acompanhado pelo regimento de infantaria n.° 7, por um destacamento de artilharia e por uma alçada composta de seis magistrados, a qual vinha sindicar dos actos das pessoas que se tinham mostrado desafectas ao governo absoluto e aderido ao governo constitucional.

O governador e as tropas desembarcaram no próprio dia da sua chegada, mas os juízes da alçada, receando qualquer manifestação hostil por parte da população, aguardaram para o dia imediato o seu desembarque. Sucede, porém, que, na noite daquele dia, se desencadeou uma repentina tempestade que obrigou a fragata a levantar ferro, regressando ao porto três dias depois.

A alçada era composta pelo desembargador Dr. José de Melo Freire, que servia de presidente, e dos juízes Drs. José Fernandes da Silva Geraldes Quelhas, Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio e Mendonça, José Freire de Andrade, Francisco Antonio de Castro e José Peixoto Sarmento de Queiroz, que tinham como auxiliares o juiz de fora e o corregedor da comarca. Instalaram o seu tribunal nos paços do concelho e aqui permaneceram no exercício do seu rigoroso inquérito de 30 de Agosto até os primeiros dias do mês de Novembro de 1823.

2A devassa e a sentença

Na larga devassa a que procederam, foi envolvido um numero considerável de pessoas, tendo o medo avassalado o espírito publico e receando muitos uma severa condenação. Depuseram muitas dezenas de testemunhas, formando-se um longo e volumoso processo. A sentença foi proferida a 26 de Outubro, sendo condenado 24 indivíduos, na sua quasi totalidade pertencentes ás classes mais categorizadas da sociedade madeirense. Foram aplicadas várias penas, salientando-se os castigos de degredo e de desterro para as nossas possessões ultramarinas.

Entre as pessoas sentenciadas por esta alçada, mencionaremos o ilustre autor da Zargueida, Francisco de Paula Medina e Vasconcelos condenado a oito anos de degredo para Angola, o abalizado medico Nicolau Caetano Betencourt Pita, redactor do Patriota Funchalense, o primeiro jornal que se publicou no Funchal, condenado a quatro anos de desterro para a ilha Terceira, tendo ali falecido em 1857, o distinto advogado e cónego da nossa Sé Dr. Gregorio Nazianzeno de Medina e Vasconcelos condenado a dez anos de degredo para Angola, o corregedor da comarca Dr. Francisco de Assis Saldanha condenado a prisão no castelo de São Jorge, em Lisboa, o vigário do Campanário Tomé Pestana Homem de el-rei, os capitais Joaquim M. Gonçalves, João José de Sá Betencourt e Antonio João Favila condenados a diversas penas, além de outros indivíduos.

A sentença da alçada, que é documento extenso, foi publicada num folheto e vem também inserta no Archivo de Marinha e Ultramar, vol. II, pag. 98 e seguintes.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 04
  1. A Revolução Liberal portuguesa eclodiu no Porto em 24 de agosto de 1820, acontecimento mais tarde evocado na medalha do Monumento Constitucional, no Funchal.

  2. A Madeira aderiu à revolução liberal e o regime constitucional foi solenemente proclamado no Funchal, passando a praça a chamar-se Praça da Constituição.

  3. A revolução da Vila-Francada, de 27 de maio de 1823, levou D. João VI a dissolver as Cortes e a restaurar o governo absoluto em Portugal em 3 de junho.

  4. Uma alçada régia absolutista chegou ao Funchal para investigar os acontecimentos constitucionais de 1821. Funcionou nos Paços do Concelho até ao início de novembro de 1823, dispersou os maçons e condenou muitos liberais ao degredo, entre eles Joaquim Melchior Gonçalves para Cabo Verde e outros para Angola.

  5. A fragata Amazonas chegou ao Funchal com o novo governador D. Manuel de Portugal e Castro, o regimento de infantaria n.º 7, artilharia e a alçada judicial.

  6. A alçada de 1823 condenou 24 pessoas, na sua maioria das classes altas, incluindo Pita a quatro anos de degredo na Terceira e a uma multa, e Medina a oito anos de degredo em Angola.

  7. Nicolau Caetano de Bettencourt Pita morreu na Terceira.

Lugar

Lugares mencionados · 06

No estrangeiro

Mapa: Madeira (6)
  1. Angola

    Colónia para onde foram degredados vários condenados.

  2. Campanário

    Ribeira Brava. Freguesia cujo vigário foi condenado.

  3. Castelo de São Jorge

    Portugal. Castelo de Lisboa onde o corregedor foi preso.

  4. Funchal

    Cidade onde foi publicado o primeiro jornal madeirense e onde funcionou o tribunal.

  5. Porto

    Portugal. Cidade onde eclodiu a revolução liberal de 1820.

  6. Terceira

    Portugal. Ilha açoriana para onde Nicolau Pita foi degredado.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 15
  1. Capitão condenado pela alçada.

  2. Novo governador da Madeira, que chegou em agosto de 1823 acompanhado de tropas e da alçada.

  3. Corregedor da comarca, condenado a prisão no Castelo de São Jorge, em Lisboa.

  4. Juiz da alçada de 1823.

  5. Autor da Zargueida, condenado pela alçada a oito anos de degredo em Angola.

  6. Advogado e cónego da Sé Catedral do Funchal, condenado a dez anos de degredo em Angola.

  7. Capitão condenado pela alçada.

  8. Capitão condenado pela alçada.

  9. Desembargador que presidiu à alçada de 1823.

  10. Juiz da alçada de 1823.

+ 5 mais
  1. Juiz da alçada de 1823.

  2. Juiz da alçada de 1823.

  3. Juiz da alçada de 1823.

  4. Médico e redator de O Patriota Funchalense, degredado por quatro anos para a Terceira, onde morreu em 1857.

  5. Vigário do Campanário, entre os condenados pela alçada.

Na folha A

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.