Patriota Funchalense 1Origem do jornal
Patriota Funchalense
O Patriota Funchalense foi o primeiro jornal publicado na Madeira. Fundado pelo médico liberal Nicolau Caetano Bettencourt Pita, saiu duas vezes por semana, de 2 de julho de 1821 a 16 de agosto de 1823.
1Origem do jornal
Das terras mais importantes do nosso país, não foi o Funchal a derradeira em que pela primeira vez saíu a lume uma publicação periódica. Quando em 1830 apareceu na ilha Terceira o primeiro jornal açoreano, já anteriormente a essa epoca tinham visto a luz da publicidade oito jornais madeirenses. O mesmo se deu com respeito ás outras localidades, fora de Lisboa, Porto e Coimbra. Havendo os portugueses iniciado neste arquipélago o seu grande movimento colonizador, que sem demora se alargou até os confins do universo, pareceria também natural que a mais poderosa alavanca da moderna civilização fôsse aqui primeiramente introduzida do que nas restantes terras descobertas ou conquistadas. E assim veio a suceder.
Um grande acontecimento político ocorrido no continente português, que teve sua repercussão em todos os dominios insulares e ultramarinos, foi a causa próxima da publicação do mais antigo jornal da Madeira, que tomou o nome de Patriota Funchalense. O avanço das chamadas ideias liberais, que determinou a Revolução do Porto e a consequente Constituição de 1822, fêz-se logo sentir nesta ilha, mas somente alguns meses depois dos acontecimentos que se deram na capital do norte é que no Funchal se verificou a proclamação solene dos principios politicos, que vieram implantar o sistema representativo em Portugal. A 28 de Janeiro de 1831, realizou-se a consagração oficial desses principios, tendo o facto sido comemorado, no dia do aniversário do ano seguinte, com o lançamento da primeira pedra dum monumento erguido á Constituição, em frente do adro da Sé Catedral, havendo essa comemoração revestido uma extraordinária e notável imponencia.
Era então um dos mais fervorosos adeptos daquelas ideias o dr. Nicolau Caetano Betencourt Pita, médico abalizado e distinto madeirense, que no nosso meio social gozava de grande prestigio e larga influencia, postos entusiasticamente ao serviço duma causa, que êle julgava ser das mais proveitosas para o engrandecimento e prosperidade da nação. Para a propaganda dos novos principios politicos e consolidação do sistema governativo que se iniciara, empreendeu êle a publicação duma fôlha periódica, tendo para isso que lutar com dificuldades quasi insuperaveis, que a sua tenacidade e dedicação sem limites souberam inteiramente vencer e dominar. Dirão muitos e talvez com alguma razão que a natureza dessa causa não era merecedora de tão grandes sacrificios, mas a sinceridade das suas convicções bastará para o absolver das atitudes porventura exageradas, que nessa conjuntura tivesse tomado.
Comprada em Lisboa uma Imprensa, como então se dizia, que era uma modesta oficina tipográfica, veio para a Madeira, acompanhada pelo tipógrafo e impressor Alexandre Gervásio Ferreira, que durante dois anos, aproximadamente, dirigiu a composição e impressão do Patriota Funchalense, sendo substituído, a partir do n.° 179, pelo tipógrafo Inácio S. de Abreu. A oficina, administração e redacção instalaram-se numa casa à rua dos Ferreiros, que tinha o número 7 de policia e que ficaria situada em local não muito afastado da antiga redacção do «O Jornal» (1921).
2Publicação e matérias
No dia 2 de Julho de 1821, considerado como o do aniversário do descobrimento da Madeira, apareceu o primeiro número do Patriota Funchalense, que era uma publicação bi-semanal, saindo regularmente ás quartas-feiras e sábados. Tinha quatro páginas de composição, mas muitos numeros eram acompanhados de «aditamentos», de duas e por vezes de quatro páginas. Era de pequeno formato, não excedendo a composição tipográfica 23 por 16 centimetros. Publicaram-se 214 números, sendo o último a 16 de Agosto de 1823.
Acerca do plano das materias versadas no jornal e da sua distribuição pelos assinantes, lê-se no seu primeiro número esta curiosa informação: «O plano do Patriota Funchalense é o seguinte: Será publicada esta fôlha duas vezes na semana (quartas e sabados), conterá as noticias mais interessantes das Gazetas Nacionais e Estrangeiras–Reflexões sobre a Economia interna, e Relações externas da Madeira–Politica–Variedades–Entrada e sahida de navios, Preços correntes, etc. Os senhores assinantes e os que o quizerem ser, mandarão nos mencionados dias da tarde pela folha».
Em todos os números e no alto da primeira página destacavam-se as armas reais, tendo como legenda estes versos de Almeida Garrett:
O grande escritor, rendendo graças pela homenagem que lhe fôra prestada, dirigiu uma interessante carta ao redactor do Patriota Funchalense, que termina por estas inflamadas e hiperbólicas palavras: «Recebei, Senhor, os meus agradecimentos, como Poeta não, como Cidadão sim – Tanto me preso, e honro desta qualidade, quanto menoscabo aquela, quando desta desligada.»
A pag. 142 e seg. do volume I desta obra, deixámos os principais traços biográficos do dr. Nicolau Caetano Bettencourt Pita fundador do Patriota Funchalense.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
O primeiro número de O Patriota Funchalense, o primeiro jornal da Madeira, saiu no Funchal no aniversário da descoberta da ilha.
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O Patriota Funchalense deixou de ser publicado no número 214.
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O primeiro periódico açoriano surgiu na Terceira, quando já tinham sido publicados oito no Funchal.
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Os princípios constitucionais liberais foram oficialmente proclamados no Funchal, segundo a data indicada pelo Elucidário.
Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Funchal
Cidade onde o jornal foi publicado.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde foi comprada a tipografia.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Porto
Portugal. Cidade onde eclodiu a revolução liberal.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- Rua dos Ferreiros
Funchal. Rua onde se situavam a tipografia e a redação do jornal, no n.º 7.
A Rua dos Ferreiros é uma antiga rua do Funchal, já existente em 1508, cuja metade ocidental integra o limite entre as freguesias da Sé e de São Pedro. Dava acesso às Aulas do Pátio, onde funcionou o liceu até 1914, e o jornal Patriota Funchalense tinha a tipografia e a redação no n.º 7. Ali ocorreu o primeiro caso suspeito de peste em 1905.
- Sé do Funchal
Funchal. O monumento à Constituição começou a ser construído em frente ao seu adro.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
- Terceira
Portugal. Ilha dos Açores onde surgiu o primeiro jornal açoriano, em 1830.
Ilha açoriana que serviu de base aos liberais, onde se reuniu a expedição de D. Pedro e de onde partiu a força que ocupou Porto Santo. Nicolau Pita foi ali desterrado, João Bettencourt de Vasconcellos foi ali executado e Acursio Garcia Ramos nasceu na ilha.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 04-
Tipógrafo que veio de Lisboa com a prensa e dirigiu a impressão de O Patriota Funchalense durante cerca de dois anos.
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Tipógrafo que assumiu a impressão do Patriota Funchalense a partir do n.º 179.
- Nicolau Caetano de Bettencourt Pita1788–1857
Médico madeirense e liberal convicto que fundou o Patriota Funchalense para promover os princípios constitucionais.
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Escritor português cujos versos serviram de divisa ao jornal; escreveu ao editor para lhe agradecer.