Bettencourt Pita (Nicolau Caetano) 1Formatura e primeiros escritos
Bettencourt Pita (Nicolau Caetano)
Biografia de Nicolau Caetano de Bettencourt Pita (1788–1857), médico natural do Funchal formado em Edimburgo, autor de uma das primeiras descrições da Madeira em inglês e fundador do Patriota Funchalense, o primeiro jornal madeirense. Liberal convicto, foi desterrado para a Terceira em 1823, onde trabalhou como médico militar e civil até à morte.
1Formatura e primeiros escritos
Nicolau Caetano de Bettencourt Pita, doutor em medicina pela universidade de Edimburgo, sócio da Real Sociedade Física e da Real Sociedade Medica e de Historia Natural da mesma cidade e cavaleiro professo na ordem de Cristo, nasceu no Funchal em 6 de Dezembro de 1788.
Destinando-se à carreira medica, dirigiu-se à capital da Escossia em cuja universidade se matriculou, recebendo o grau de doutor em medicina em 24 de Junho de 1812.
Tão brilhantes foram os actos académicos que precederam a recepção do grau, diz o Dr. Rodrigues de Gusmão nas Memórias biográficas dos médicos e cirurgiões portugueses, que para galardoar seu mérito distincto, foi eleito presidente, n'esse anno, da Real Sociedade Physica. É uma justa e respeitosa homenagem, que por louvável e antigo uso se presta na universidade de Edimburgo ao talento do sócio d'aquella Real Sociedade que sobreleva na ostentação aos demais doutorandos”.
Naquele mesmo ano de 1812 publicou o Dr. Nicolau Pita, na cidade de Londres, um escrito em inglês a que deu o seguinte título: Account of the Island of Madeira. Eis como se expressa, referindo-se a este trabalho, o conceituado medico português Dr. F. A. Barral: “Esta producção dum talento novo, que depois devia figurar na profissão por um modo distincto, era uma narração descriptiva do clima da ilha e da sua geographia physica, era a obra mais importante que se tinha escripto até esse tempo sobre a ilha da Madeira, que podesse servir como princípio da sua topografia medica. O Investigador Português do mês de Setembro de 1813 também falou com elogio desta obra.
Regressando o Dr. Pita ao país, o príncipe regente D. João, depois D. João VI, atendendo ao seu talento e merecimentos, concedeu-lhe por carta regia de 8 de Março de 1814 todos os privilégios, foros e honras que nesse tempo só eram concedidos aos médicos formados na Universidade de Coimbra.
2Liberalismo e degredo
Proclamados no Funchal em 28 de Janeiro de 1821, os princípios liberais da revolução do Porto de 24 de Agosto de 1820, o Dr. Pita foi um dos primeiros a abraça-los, e desde então mostrou-se sempre adversário acérrimo das antigas instituições. Entendendo que o jornal era o melhor meio de difundir as ideias constitucionais entre os seus conterrâneos, fez vir de Lisboa uma tipografia, e no dia 2 de Julho de 1821 começou a publicação do Patriota Funchalense, que foi o primeiro periódico que na Madeira houve e onde colaboraram os homens mais conhecidos na terra pelas suas opiniões avançadas.
Restaurado em 1823 o regímen do absolutismo, um dos primeiros actos do governo foi enviar à Madeira uma alçada destinada a julgar e punir os indivíduos implicados numa conjuração, verdadeira ou suposta, cujo fim era, segundo consta da sentença proferida contra os réus compreendidos na devassa da mesma alçada, reduzir a effeito o audacioso projecto de restabelecer a proscripta constituição nesta ilha.
O Dr. Pita, bastante conhecido pelas suas opiniões rasgadamente liberais e redactor, além disso, dum periódico constitucional, não podia deixar de inspirar desconfianças aos terríveis juízes da alçada. Culpado ou não, foi, pois, encerrado nas prisões da fortaleza de S. Tiago, onde jazeu durante algum tempo sendo finalmente condenado por sentença de 24 de Outubro de 1823 a quatro anos de degredo para a ilha Terceira e em 50:000 réis aplicados para o fisco e câmara real.
Passando o nosso patrício àquela ilha, foi ali bem recebido, e logo depois era-lhe confiado o cargo de medico do hospital militar de Angra, o qual exerceu até 1834. Como remuneração dos seus serviços como medico militar, concedeu-lhe a infanta regente D. Isabel Maria, por carta regia de 19 de Julho de 1827, a patente e graduação de major.
Foi o Dr. Pita um dos redactores do periódico O Liberal, que começou a ser publicado em Angra em 29 de Março de 1835. Era este jornal orgão da política chamada então reformista, depois setembrista e finalmente progressista, e sustentou constante polémica com a Sentinella, que representava o partido conservador, chamado devorista, e com o Angrense.
Naquela cidade desempenhou o nosso patrício ainda os cargos de medico do hospital civil e do partido da Câmara, e o de delegado do Conselho de Saúde Publica do Reino. O seu nome figura entre os dos cidadãos que assinaram em Angra o auto de aclamação de D. Pedro IV e D. Maria no dia 22 de Junho de 1828. Faleceu em 20 de Maio de 1857, contando 69 anos incompletos de idade.
Foi sócio efectivo da antiga Sociedade dos Amigos das Sciencias e Artes do Funchal e um dos cidadãos eleitos em 1820 para a primeira câmara constitucional desta cidade. Dele partiu a ideia de se erigir no Funchal um monumento para comemorar o dia da proclamação dos princípios liberais na Madeira. A primeira pedra desse monumento chegou a ser lançada com grande solenidade e pompa, no largo em frente da Sé, no dia 28 de Janeiro de 1822, mas a obra não passou dos alicerces, sendo estes mesmos destruídos no primeiro de Setembro de 1823, depois de restabelecido o governo absoluto nesta ilha.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
Nicolau Caetano de Bettencourt Pita nasceu no Funchal.
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Nicolau Caetano de Bettencourt Pita publicou em Londres a sua Account of the Island of Madeira, que incluía uma descrição do clima da ilha.
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Nicolau Caetano de Bettencourt Pita doutorou-se em Medicina em Edimburgo.
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Uma carta régia concedeu a Nicolau Caetano Bettencourt Pita os privilégios dos médicos formados em Coimbra.
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A Madeira aderiu à revolução liberal e o regime constitucional foi solenemente proclamado no Funchal, passando a praça a chamar-se Praça da Constituição.
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O primeiro número de O Patriota Funchalense, o primeiro jornal da Madeira, saiu no Funchal no aniversário da descoberta da ilha.
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O Funchal celebrou o primeiro aniversário da proclamação da Constituição com festejos, um sermão de ação de graças proferido por Freitas Branco na Sé e o lançamento, pelo governador D. Rodrigo António de Melo, da primeira pedra de um monumento constitucional no Terreiro da Sé.
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As autoridades absolutistas destruíram os alicerces do monumento constitucional liberal no Funchal e mandaram esmagar e vender a sua medalha.
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A alçada de 1823 condenou 24 pessoas, na sua maioria das classes altas, incluindo Pita a quatro anos de degredo na Terceira e a uma multa, e Medina a oito anos de degredo em Angola.
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Foi concedida a Nicolau Caetano Bettencourt Pita a patente de major pelos seus serviços como médico militar.
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Nicolau Caetano Bettencourt Pita assinou em Angra a aclamação de D. Pedro IV e D. Maria.
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Começou a publicar-se em Angra O Liberal, de que Nicolau Caetano Bettencourt Pita era um dos redatores.
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Nicolau Caetano de Bettencourt Pita morreu na Terceira.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Angra do Heroísmo
Portugal. Cidade onde Pita trabalhou como médico e jornalista e onde morreu.
Angra do Heroísmo é uma cidade, porto e sede de distrito na ilha Terceira, nos Açores. Foi a terra natal de António Cordeiro, o local onde se publicou o Almanach para os Açores e Madeira em 1873 e onde Nicolau Anastácio de Bettencourt governou durante doze anos e morreu; deu também o nome ao título de marquês de Stuart.
- Edimburgo
United Kingdom. Cidade onde Pita estudou e se formou em Medicina.
Edimburgo é uma cidade escocesa. Foi aí que o Dr. Robert Reid Kalley morreu em 1888, que Lourenço José Moniz e Nicolau Caetano Bettencourt Pita estudaram Medicina e que foram publicadas obras como as de C. Piazzi Smyth. O manuscrito das Saudades da Terra pertencente a Azevedo foi vendido a uma biblioteca da cidade.
- Fortaleza de São Tiago
Funchal. Fortaleza onde Pita esteve preso em 1823.
Fortaleza na frente marítima do Funchal, no extremo oriental da praia de desembarque, datada de 1614, durante o domínio espanhol, e reconstruída em 1767; albergou mais tarde uma bataria de artilharia de montanha. Ali foram detidos presos em 1823 e 1828, hasteou-se a bandeira republicana em 7 de outubro e a fortaleza disparou durante o bombardeamento do Funchal em 1916.
- Funchal
Cidade natal de Pita, onde lançou o primeiro jornal madeirense.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Largo da Sé
Funchal. Local previsto para o monumento liberal cuja primeira pedra foi lançada em 1822.
Largo do Funchal onde se situava a casa de D. Guiomar, utilizada pela Câmara a partir de 1802 e, mais tarde, como cadeia. Ali foi construído, a partir de 1686, o hospital da Misericórdia; em 1822, foi lançada a primeira pedra de um monumento liberal, e ali foram queimados documentos constitucionais.
- Londres
United Kingdom. Cidade onde foi publicado Account of the Island of Madeira, em 1812.
Capital britânica onde foram publicadas muitas obras inglesas sobre a Madeira, incluindo as dos du Cane, de Embleton e de Bloxam. Mason comparou a sua humidade com a do Funchal, e de lá veio artilharia para a Fortaleza de São Tiago. Acolheu o congresso de química aplicada de 1909.
- Terceira
Portugal. Ilha dos Açores para a qual Pita foi desterrado.
Ilha açoriana que serviu de base aos liberais, onde se reuniu a expedição de D. Pedro e de onde partiu a força que ocupou Porto Santo. Nicolau Pita foi ali desterrado, João Bettencourt de Vasconcellos foi ali executado e Acursio Garcia Ramos nasceu na ilha.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07- Nicolau Caetano de Bettencourt Pita1788–1857
Médico natural do Funchal, formado em Edimburgo, e jornalista liberal que fundou o primeiro jornal madeirense e morreu em Angra, onde passou a residir após o desterro.
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Infanta regente de Portugal que, em 1827, concedeu a Pita a patente de major pelos seus serviços como médico militar.
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Rainha aclamada em Angra em 1828 num documento assinado por Pita.
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Rei cuja aclamação, juntamente com a de D. Maria, Pita assinou em Angra em 1828.
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Médico português que considerou Account of the Island of Madeira, de Pita, a obra mais importante até então publicada sobre a ilha.
- João VIm. 1826
Príncipe regente, mais tarde D. João VI, que em 1814 concedeu a Pita os privilégios dos diplomados em Medicina por Coimbra.
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Autor das Memórias biográficas dos médicos e cirurgiões portugueses, citado a propósito da distinção académica de Pita.