Bettencourt (Nicolau Anastacio de) 1Nascimento e campanhas liberais
Bettencourt (Nicolau Anastacio de)
Biografia de Nicolau Anastácio de Bettencourt (1810–1874), natural do Funchal, voluntário liberal na guerra civil e governador civil de vários distritos, sobretudo de Angra do Heroísmo, onde fundou uma caixa económica e um asilo de infância.
1Nascimento e campanhas liberais
Nasceu este distinto madeirense na freguesia de São Pedro desta cidade a 7 de Fevereiro de 1810, sendo filho do Dr. Anastacio Moniz de Bettencourt e D. Ana Rosa Bettencourt.
O pai do conselheiro Nicolau Anastacio foi um medico muito distinto e literato bastante conhecido e apreciado no seu tempo. O autor da Zargueida dedica-lhe um soneto na introdução do seu poema Georgeida, que, a pesar do que possa haver de hiperbólico nesses versos, mostra no entretanto o apreço em que era tido e o bom nome de que gozava entre os seus contemporâneos.
O nosso biografado herdou de seu pai um brilhante talento, que revelou em bem verdes anos e de que depois deu evidentes provas como aluno da Universidade de Coimbra.
Tendo perdido seu pai em tenra idade, foi para Coimbra em 1825, acompanhado de sua mãe, a fim de matricular-se na faculdade de filosofia e seguir depois o curso medico.
Em 1827 abandonou os trabalhos escolares para alistar-se no batalhão académico sob o comando do conde de Vila Flor, e combatendo contra as forças realistas entrou heroicamente nas acções da Cruz de Alvoroços e Ponte de Vouga. Seguindo a sorte dos seus companheiros de armas, teve de sair de Portugal, emigrando para Inglaterra em 1828. Foi ali que recebeu a noticia da morte de sua mãe, que feriu rudemente o seu coração de filho estremecido.
A 14 de Fevereiro de 1829 chegava à ilha Terceira, encorporado no batalhão de voluntários da rainha, e em 11 de Agosto do mesmo ano tomava parte na acção que se deu na vila da Praia entre uma esquadra miguelista e os liberais, e em que estes ficaram vitoriosos.
A expedição preparada na Terceira para libertar as outras ilhas açoreanas ainda sujeitas ao jugo do absolutismo não o deixou indiferente e nela se encorporou voluntariamente, portando-se sempre com valentia e assistindo à acção da Ladeira Velha, em S. Miguel, a 2 de Agosto de 1831.
Achava-se Nicolau Anastacio de Bettencourt na ilha Terceira, quando ali aportou D. Pedro, imperador do Brasil, a 3 de Março de 1832, a fim de organizar o exército liberal, que devia combater as forças absolutistas e implantar depois entre nós o sistema constitucional.
O exército libertador desembarcou nas praias do Mindelo a 8 de Julho de 1832, fazendo parte dele o nosso ilustre biografado, que no imemorável cerco do Porto deu provas do seu grande denodo e valentia. Sobretudo na celebre acção da Serra do Pilar, a 13 de Agosto de 1832, mostrou Nicolau Anastacio a sua coragem e valor, tendo um destacamento de voluntários a que pertencia merecido os maiores elogios do general Torres, que recomendou ao governo, para serem recompensados, esses arrojados voluntários. Ali combateu com verdadeiro heroísmo ao lado de José Estevão Coelho de Magalhães, Julio Maximo de Oliveira Pimentel, José Silvestre Ribeiro e outros, que depois tanto se distinguiram entre nós em vários ramos da actividade humana.
2Carreira administrativa
Estabelecido o governo constitucional, foi Nicolau Bettencourt nomeado secretario geral da prefeitura de Angra e depois transferido para idêntico lugar no distrito de Ponta Delgada, onde também exerceu durante sete anos o lugar de administrador geral e de governador civil, captando ali a mais profunda estima dos seus administrados, pela maneira como desempenhou as funções do seu elevado cargo.
Depois de ter servido algum tempo como governador civil de Aveiro, para que havia sido nomeado por decreto de 23 de Novembro de 1843, foi colocado à frente do distrito de Angra do Heroísmo a 1 de Dezembro de 1844, tendo prestado á ilha Terceira, que considerava a sua segunda pátria, os mais assinalados e relevantes serviços.
Foi ali que se revelou brilhantemente o seu tino administrativo e o seu génio empreendedor, de que são exemplos elequentissimos a Caixa Económica e Asilo da Infância, que fundou na capital daquele distrito.
Acerca dessas duas instituições dizia um jornal açoreano, por ocasião da sua morte: “O seu nome é hoje abençoado pelos benefícios e utilissimos efeitos que em geral d'ali derivam, a tal ponto que, ha poucos meses, a Caixa Económica d'Angra ofereceu ao hospital da Misericórdia cerca de dois contos de reis para uma enfermaria modelo, que deverá ter o nome d'aquelle benemérito, ao passo que o município dava o mesmo nome a uma das ruas da cidade, pelo imperioso dever de o recomendar à gratidão e respeito públicos.
Bastaria a fundação d'aquella casa de caridade e d'aquelle estabelecimento de credito para tornal-o inolvidável, podendo avaliar-se o trabalhoso empenho para esse fim empregado, sabendo-se que na época da sua instituição (1844-53) mal se compreendia ainda o alcance da assistência publica, das associações de caridade e de socorros, e das moralizadoras e populares caixas económicas.
Durante o período de doze anos, que quasi ininterruptamente administrou o distrito de Angra, não deixou de trabalhar dedicada e persistentemente pelo engrandecimento e prosperidades da sua pátria adoptiva. Deu grande impulso à instrução, fundando escolas, concorrendo muito para a organização do liceu nacional e animando com a sua palavra evangelizadora todos os que se dedicavam às lides literárias.
Foi durante o seu governo e devido à sua influencia que se estabeleceu devidamente a alfândega, liceu nacional, paços da justiça, cadeias publicas, etc.
Um dos padrões imorredouros da sua glória é a fundação do Asilo da Infância Desvalida, a que deixou indissoluvelmente ligado o seu nome, dotando a cidade de Angra com um importantíssimo estabelecimento de caridade, que ali espalha apreciáveis e inúmeros benefícios.
Foi depois governador civil do distrito da Horta, e eleito por ali deputado em 1853, como reconhecimento dos serviços que prestou aos seus habitantes.
Recusando o mandato, aceitou no entretanto o cargo de governador civil de Aveiro, deixando vinculado ao seu governo a criação duma caixa económica, que é instituição florescente e tem prestado relevantes serviços àquela cidade.
Ainda foi governador civil de Portalegre e ali terminou a sua carreira administrativa, obtendo a aposentação em Julho de 1862 e indo fixar a sua residência em Angra do Heroísmo.
Anastacio Bettencourt sem ser um escritor de nomeada, teve, porém, apreciáveis qualidades de literato, que revelou brilhantemente em diversos escritos que deixou dispersos pelos jornais e nos seus discursos, que ficaram inéditos, e que primavam pela pureza e elegância de linguagem. Também se sabe que foi apreciado poeta, escrevendo inspirados e formosos versos. Publicou em 1848 uma colecção de vários escritos administrativos, e Inocencio atribue-lhe o volume que se publicou em 1857 com o título de Esposição de factos que se deram no districto de Angra do Heroísmo etc.
Tinha a carta de conselho, era fidalgo cavaleiro da casa real e comendador de diversas ordens. Faleceu na cidade de Angra do Heroísmo a 7 de Março de 1874.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
Nicolau Anastácio de Bettencourt nasceu no Funchal.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt alistou-se no batalhão académico liberal.
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Em fuga à perseguição miguelista, liberais como a família Moniz, Caetano Alberto Soares e António Gil Gomes partiram para o Brasil, enquanto Bettencourt se dirigiu a Inglaterra.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt combateu na vitória liberal na Praia, na Terceira.
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O exército liberal de D. Pedro, com 7 500 homens, entre os quais madeirenses como D. Jorge da Câmara Leme, desembarcou no Mindelo.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt tornou-se governador civil de Angra do Heroísmo.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt foi eleito deputado pela Horta, mas recusou o mandato.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt retirou-se do serviço administrativo.
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Nicolau Anastácio de Bettencourt morreu em Angra do Heroísmo.
Lugar
Lugares mencionados · 10No estrangeiro
- Angra do Heroísmo
Portugal. Distrito que governou durante doze anos e onde morreu.
Angra do Heroísmo é uma cidade, porto e sede de distrito na ilha Terceira, nos Açores. Foi a terra natal de António Cordeiro, o local onde se publicou o Almanach para os Açores e Madeira em 1873 e onde Nicolau Anastácio de Bettencourt governou durante doze anos e morreu; deu também o nome ao título de marquês de Stuart.
- Aveiro
Portugal. Distrito que governou por duas vezes e onde fundou uma caixa económica.
Aveiro é uma cidade e um distrito portugueses, terra natal de Feliciano Soares e sede do jornal O Povo de Aveiro. Nicolau Anastácio de Bettencourt governou o distrito por duas vezes e fundou ali uma caixa económica. O vapor Duque da Terceira naufragou nas proximidades em 1854.
- Coimbra
Portugal. Cidade universitária onde estudou.
Cidade universitária de Portugal continental onde muitos madeirenses estudaram Direito ou Medicina e onde o Padre Luís Gonçalves da Câmara lecionou e foi reitor do colégio dos Jesuítas. Acolheu o campeonato académico de ténis de mesa de 1921, e os seus dados de dormência e pluviosidade são comparados com os do Funchal.
- Horta
Portugal. Distrito que governou e pelo qual foi eleito deputado em 1853.
Porto açoriano na ilha do Faial, terra natal do Dr. Manuel de Arriaga, comparado com o porto do Funchal. Nicolau Anastácio de Bettencourt governou o seu distrito e foi eleito deputado por ele em 1853.
- Mindelo
Cape Verde. Praias onde o exército liberal desembarcou em 1832.
Mindelo é uma localidade estrangeira em cujas praias desembarcou a expedição liberal de D. Pedro em 1832. Vários madeirenses participaram nesse desembarque.
- Ponta Delgada
Portugal. Distrito onde foi secretário-geral e governador civil.
Ponta Delgada é uma cidade, distrito e porto dos Açores, cujo porto ocupava o segundo lugar entre os das Ilhas Adjacentes; a sua alfândega teve outrora uma delegação no Funchal. Foi a terra natal de Gaspar Frutuoso, conserva o exemplar corrigido de Saudades da Terra e o manuscrito genealógico de Agrela, e está ligada a várias figuras que ali estudaram ou exerceram cargos.
- Portalegre
Portugal. Último distrito que governou.
Cidade, distrito e diocese de Portugal Continental, citados pela baixa densidade populacional. Foi a terra natal de Eduardo Grande, o círculo eleitoral escolhido por Gromicho Couceiro em 1858 e o último distrito governado por Nicolau Anastacio de Bettencourt.
- Porto
Portugal. Cidade em cujo cerco combateu.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- São Pedro
Funchal. Freguesia do Funchal onde nasceu o biografado.
São Pedro é a mais populosa das quatro freguesias urbanas do Funchal e o local onde Zarco estabeleceu o primeiro povoado. A freguesia foi criada em 1566, extinta em 1579 e restabelecida em 1587. O Elucidário aborda as côngruas do clero, a construção da igreja, as capelas, as instituições notáveis e os limites da freguesia.
- Terceira
Portugal. Base liberal nos Açores onde prestou serviço e que mais tarde governou.
Ilha açoriana que serviu de base aos liberais, onde se reuniu a expedição de D. Pedro e de onde partiu a força que ocupou Porto Santo. Nicolau Pita foi ali desterrado, João Bettencourt de Vasconcellos foi ali executado e Acursio Garcia Ramos nasceu na ilha.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 10- Nicolau Anastácio de Bettencourt1810–1874
Voluntário liberal madeirense e governador civil de vários distritos, biografado nesta entrada.
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Mãe do biografado; acompanhou-o a Coimbra e morreu enquanto ele se encontrava em Inglaterra.
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Médico e homem de letras distinto, pai do biografado.
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Comandante do batalhão académico liberal em que o biografado se alistou em 1827.
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Imperador do Brasil que chegou à Terceira em 1832 para organizar o exército liberal.
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Bibliógrafo que atribui ao biografado o volume sobre a exposição de Angra de 1857.
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Companheiro de armas liberal do biografado no cerco do Porto.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Companheiro voluntário liberal no cerco do Porto, que mais tarde se distinguiu na vida pública.
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Companheiro voluntário liberal no cerco do Porto.
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General liberal que elogiou o destacamento de voluntários do biografado na Serra do Pilar.