São Pedro (Freguesia de) 1Origem da freguesia
São Pedro (Freguesia de)
Entrada sobre São Pedro, a mais populosa das quatro freguesias urbanas do Funchal, onde Zarco estabeleceu o primeiro povoado. Aborda a criação da freguesia em 1566, a sua extinção em 1579 e o restabelecimento em 1587, as côngruas do clero, a construção da igreja, as capelas, as instituições notáveis e os limites da freguesia.
1Origem da freguesia
É a mais populosa e a mais importante das quatro freguesias urbanas do Funchal. Foi dentro da sua área que começou a primitiva colonização e povoamento, porque o próprio descobridor Gonçalves Zargo fez ali o seu primeiro assentamento, no alto que depois se chamou de Santa Catarina. No dia em que as caravelas demandaram pela vez primeira a baia que teria o nome do Funchal, foram elas procurar abrigo nos ilhéus que ficavam a oeste da mesma baía, por ser hora já adiantada do dia, havendo resolvido o capitão que ali passassem os descobridores aquela noite. Quando, pela segunda vez, voltaram do Reino a esta ilha, para se iniciar definitivamente o trabalho da colonização, foi ainda ao abrigo dos mesmos ilhéus que fundearam as embarcações e a elas se recolheram por alguns dias os primeiros povoadores, quando o incêndio que lavrava intensamente nos arvoredos os obrigava a deixar a terra calcinada pelo fogo. Esses ilhéus tiveram mais tarde o nome de ilhéus da Pontinha e ficam dentro da área da freguesia de São Pedro.
«A freguesia de São Pedro, da cidade do Funchal, diz o Dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo, teve sua origem na capela de São Paulo (V. este nome), fundada por João Gonçalves Zargo, a qual era servida por frades franciscanos, e, depois, pelos curas da Sé, até que desta foi separada e constituída freguesia sobre si, pelo alvará de D. Sebastião, de 20 de Junho de 1566, tendo por limites, a leste, a ribeira de Santa Luzia, e a oeste, a dos Socorridos. Foi extinta pelo alvará de 3 de Março de 1579, do cardeal-rei D. Henrique, ficando a parte urbana novamente encorporada na da Sé, e da parte suburbana foram creadas, por este mesmo alvará, as freguesias de S. Roque e de S. Martinho; mas, poucos anos depois, por alvará de D. Filippe I, de 14 de Agosto de 1587, foi reinstaurada com os limites que ainda agora tem.»
2Clero, colegiada e igreja
O tantas vezes citado Índice do Registo da antiga Provedoria dá a criação desta paróquia como feita pelo alvará régio de 20 de Julho e não de 20 de Junho de 1566, como diz o anotador das Saudades. O seu primeiro pároco foi Gaspar Teixeira, a quem o referido alvará de 20 de Julho de 1566 fixa a côngrua anual de 15.000 réis em dinheiro, um moio de trigo e meia pipa de vinho, que pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1572 foi elevada a 25.000 réis, um moio de trigo e uma pipa de vinho. Os alvarás régios de 8 de Maio de 1591, 17 de Maio de 1600, 19 de Agosto de 1609 e 10 de Junho de 1749 elevaram respectivamente os vencimentos anuais a 26.700 réis, dois moios de trigo e uma pipa de vinho, 29.700 réis, dois moios de trigo e uma pipa de vinho, 30.000 réis, dois moios de trigo e duas pipas de vinho, e 60.000 réis, dois moios de trigo e duas pipas de vinho.
O curato desta freguesia foi criado pelo alvará régio de 27 de Agosto de 1589, que arbitrou ao cura a côngrua anual de 20.000 réis, a que foi acrescentada uma pipa de vinho pelo alvará de 19 de Agosto de 1609.
Teve esta paróquia uma colegiada, que foi criada pelo alvará de 26 de Maio de 1589, com dois beneficiados, além do vigário e do cura. O alvará de 23 de Março de 1590 deu mais um beneficiado a esta colegiada, e o de 24 de Julho do mesmo ano criou ainda um quarto beneficiado, tendo cada um de ordenado anual, pelo ultimo diploma, a quantia de 6.000 réis em dinheiro e um moio de trigo. Também teve esta colegiada um tesoureiro, um pregador e um organista.
A sede desta paróquia foi estabelecida na capela de São Paulo, da qual já demos noticia, e sem dúvida que, por ocasião de ser restaurada a freguesia em 1587, seria a mesma capela que serviria de igreja paroquial, apesar das suas acanhadas dimensões. Desconhecemos o ano em que se faria a mudança da sede da freguesia da capela de São Paulo para a actual igreja paroquial. Também ignoramos a época da construção do novo templo, dando a esse respeito o anotador das Saudades as seguintes informações, que são as mesmas fornecidas pelo Índice da Provedoria: «A fabrica da igreja tinha, pelo alvará de 15 de Junho de 1598, 4.000 reis, e, por diversos mandados do Conselho da Fazenda, foram nella dispendidas as seguintes verbas: em 1688, com obras do templo, 900$000 reis; desde 1737 até 1739, com a obra da nova igreja, feita por arrematação, 6:742$000 reis; em 1742, para a fundição dos sinos, 217$000 reis; e em 1757, para repairos das ruínas causadas pelo terremoto de 1 de Abril de 1748, 3:029$730 reis. Também no ano de 1742 foram pelo mesmo Conselho mandados fazer o adro ou lageado em frente do templo, e o retábulo do altar-mór, mas não consta o quanto dispendido nisto.»
O actual chefe do Estado (1921) Sr. M. Teixeira Gomes, quando há anos esteve na Madeira, descobriu com a sua grande cultura e refinado gosto artístico, revelando-os depois ao grande publico, no seu livro Cartas sem moral nenhuma, os maravilhosos quadros existentes na sacristia da igreja de S. Pedro e que até então haviam passado despercebidos para todos.
3Capelas, estabelecimentos e limites
Nesta freguesia, encontram-se a igreja de Santa Clara, onde se acha o túmulo de João Gonçalves Zargo, e as capelas de São João da Ribeira, São Paulo, Santa Catarina, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora das Angustias (V. Lambert (Quinta)), S. Lazaro, Nossa Senhora da Piedade, (V. Moradias de Zargo), Nossa Senhora da Piedade (V. Cemitério das Angústias), Nossa Senhora das Dores (V. Hospício da Princesa D. Maria Amelia); Nossa Senhora da Conceição e Almas (Vid. estes nomes). Já não existem as capelas de Nossa Senhora das Maravilhas, Nossa Senhora da Piedade (Igrejinha), São Francisco das Furnas, Nossa Senhora da Salvação, Santa Brígida, Nossa Senhora da Vida, Nossa Senhora da Boa Hora e Nossa Senhora da Conceição. As capelas de Nossa Senhora da Saúde e a de São João, na fortaleza do Pico, estão há muito profanadas. Em outro lugar nos referimos mais de espaço a todas estas capelas.
Na área desta freguesia, ficam o Hospício da Princesa D. Maria Amelia, o Asilo da Mendicidade e Orfãos, o cemitério das Angústias, o Paço Episcopal com a Câmara Eclesiástica, o Lactário, o Auxilio Maternal, o Teatro, o Jardim Municipal, o Palácio de São Pedro, a Fortaleza do Pico, o cemitério britanico, a igreja anglicana, a Estação Telegráfica Inglesa, o Orfanato D. Maria Amelia, o molhe e estrada da Pontinha, as quintas Vigia, Lambert, Bianchi, Cruzes, Favila, São João, etc., etc.
A freguesia de São Pedro estende-se, pelo lado ocidental, até o Ribeiro Seco, e, pelo lado norte, até a azinhaga dos Ausentes, no caminho de Santo Antonio, e a travessa da Figueira Canhota, no caminho da Achada. São ainda limites da freguesia de São Pedro uma parte da margem direita da ribeira de Santa Luzia situada acima do largo do Torreão, a metade ocidental da rua dos Ferreiros ou do Comercio, compreendida entre o mesmo largo e a rua dos Netos, a parte norte desta ultima rua limitada pela dos Ferreiros e a das Mercês, a rua de São Pedro, a rua das Pretas ou de Câmara Pestana, mas somente dos prédios com os n.° 70 e 47 em diante (1921), a metade ocidental da rua de São Francisco e a calçada de São Lourenço. É o ponto onde desemboca a rua de São Francisco que estabelece na rua da Carreira ou do Dr. Vieira a separação da freguesia de S. Pedro da da Sé. A população da freguesia de S. Pedro é de 7061 habitantes (1921).
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
Uma carta de D. Sebastião criou a freguesia de São Pedro, no Funchal, com sede na Capela de São Paulo, pondo fim ao serviço dos franciscanos nesse local (20 de julho, segundo o índice da Provedoria).
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A côngrua do vigário de São Pedro foi aumentada para 25 000 réis.
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Uma carta régia do Cardeal-Rei extinguiu a freguesia de São Pedro, no Funchal, e autorizou o bispo D. Jerónimo Barreto a criar as freguesias de São Roque e São Martinho.
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A freguesia de São Pedro, no Funchal, foi restabelecida por Filipe I.
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Foi criada uma colegiada com dois beneficiados na freguesia de São Pedro.
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Cartas régias criaram curatos em várias freguesias, incluindo Porto Santo (20 000 réis por ano), Calheta, Santa Cruz, Santa Maria Maior e São Pedro.
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Foi contratada a construção de uma nova igreja paroquial de São Pedro, no Funchal.
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Na noite de 31 de março para 1 de abril de 1748, um violento sismo atingiu a Madeira, causando poucas mortes, mas grandes danos em edifícios, incluindo a Sé, o paço episcopal, a alfândega, a Igreja do Monte, a casa do Mosteiro Novo e numerosas capelas e igrejas paroquiais.
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A côngrua do vigário de São Pedro foi aumentada para 60 000 réis.
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O censo de 1921 registou a população das freguesias da Madeira, incluindo 4 083 habitantes na Sé, 3 107 em Santana e 7 061 em São Pedro.
Lugar
Lugares mencionados · 21- São Pedro · Assunto
Funchal
São Pedro é a mais populosa das quatro freguesias urbanas do Funchal e o local onde Zarco estabeleceu o primeiro povoado. A freguesia foi criada em 1566, extinta em 1579 e restabelecida em 1587. O Elucidário aborda as côngruas do clero, a construção da igreja, as capelas, as instituições notáveis e os limites da freguesia.
- Capela de São Paulo
Funchal. Capela fundada por Zarco, da qual teve origem a freguesia e que foi a sua primeira sede.
Capela construída por Zarco no Funchal, junto da sua casa de pedra. Deu origem à freguesia de São Pedro e foi a sua primeira sede. O primeiro hospital foi construído ao seu lado, cerca de 1469. Deu nome ao largo, à travessa e ao sítio de São Paulo.
- Cemitério das Angústias
Funchal. Cemitério situado na freguesia.
Cemitério municipal do Funchal, que teve origem num pequeno espaço de enterramento da Misericórdia, de 1818, e foi construído em 1836–1838. Tem um pórtico de basalto lavrado, um necrotério e um monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão. Entre os ali sepultados contam-se o 2.º Conde de Carvalhal e o Deão Andrade.
- Fortaleza do Pico
Funchal. Fortaleza da freguesia onde se encontra a capela profanada de São João.
Fortaleza acima do Funchal, na freguesia de São Pedro, começada durante o domínio filipino (espanhol) e concluída após a Restauração, que contém a capela profanada de São João. Foi estabelecida como marco dos limites da cidade em 1809 e serviu durante muito tempo como local de reclusão: ali estiveram detidos o governador deposto em 1668, 16 presos da Alçada de 1828 e os presos trazidos do cúter Andorinha em 1844. Foi cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para servir de cadeia, mas o custo dessa utilização levou à transferência do projeto para São Lázaro.
- Funchal
Cidade de que São Pedro é uma freguesia urbana.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de Santa Clara
Funchal. Igreja da freguesia onde se encontra o túmulo de Zarco.
A Igreja de Santa Clara, no Funchal, foi originalmente a Capela de Nossa Senhora da Conceição de Cima, construída por João Gonçalves Zarco como sepultura da sua família e mais tarde integrada no Convento de Santa Clara. O Elucidário aborda a localização incerta dos restos mortais de Zarco, as sepulturas de capitães-donatários posteriores aí encontradas em 1919, o papel da igreja como destino da peregrinação do quinto centenário e o projétil que a atingiu durante a missa, no bombardeamento de 1917.
- Ilhéus da Pontinha
Funchal. Ilhéus onde as caravelas dos descobridores encontraram o primeiro abrigo.
Os Ilhéus da Pontinha são dois ilhéus rochosos no Funchal e deram ao sítio da Pontinha o seu primeiro nome. As caravelas dos descobridores abrigaram-se ali pela primeira vez.
- Jardim Municipal
Funchal. Jardim público situado na freguesia.
O Jardim Municipal é um jardim público do Funchal, criado a partir de 1880 nos terrenos do antigo convento franciscano, na freguesia de São Pedro. É delimitado pela Rua do Conselheiro a oeste e pela Rua Hermenegildo Capelo a sul, e situa-se junto à igreja escocesa. Nele se encontram o monumento aos primeiros aviadores da ligação Lisboa–Madeira e o busto de João Fernandes Vieira; foi atingido nos dois bombardeamentos do Funchal.
- Largo do Torreão
Funchal. Largo que marca parte do limite da freguesia.
Praça que assinala parte do limite.
- Palácio de São Pedro
Funchal. Palácio situado na freguesia.
O Palácio de São Pedro é o antigo solar dos Condes de Carvalhal, onde o infante D. Luís foi recebido com um jantar e um baile. A partir de 1933, albergou a biblioteca municipal, o museu de história natural e o Arquivo Histórico da Madeira. Miss Mary Jane Wilson também ali instalou o Colégio de São Jorge.
- Quinta Lambert
Funchal. Quinta da freguesia onde se encontra a capela de Nossa Senhora das Angústias.
A Quinta Lambert é uma propriedade notável na freguesia de São Pedro, no Funchal, com uma capela de Nossa Senhora das Angústias, possivelmente a ermida de 1662 reconstruída. D. Maria Amélia ali permaneceu e morreu em 1853. O vapor Valente foi arrastado para a costa abaixo da quinta e ficou destruído. A Avenida do Doutor José António de Almada passa a norte da propriedade.
- Quinta Vigia
Funchal. Quinta situada na freguesia.
Quinta pertencente ao Estado, na freguesia de São Pedro, no Funchal, conhecida pelas suas árvores exóticas raras. Serviu de residência à rainha Adelaide, à imperatriz da Áustria (1860–1861) e ao príncipe de Oldenburgo. Mais tarde, tornou-se quartel da Guarda Republicana, teve um casino que emitiu fichas em 1901 e foi atingida por um projétil no bombardeamento de 1916.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito das origens da freguesia e das despesas com a igreja.
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Rei de Portugal cuja carta de 1566 criou a freguesia de São Pedro.
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Rei que restabeleceu a freguesia de São Pedro em 1587.
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Primeiro pároco de São Pedro, cuja côngrua foi fixada em 1566.
- Infante D. Henrique1394–1460
Cardeal-rei cuja carta de 1579 extinguiu a freguesia e criou as de São Roque e São Martinho.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira que estabeleceu o primeiro povoado na zona de São Pedro e fundou a capela de São Paulo; foi sepultado em Santa Clara.
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Presidente de Portugal em 1921 que descobriu e divulgou as pinturas da sacristia de São Pedro no seu livro Cartas sem moral nenhuma.