Angústias (Cemitério das) 1Origem e construção do cemitério
Angústias (Cemitério das)
História do cemitério das Angústias, no Funchal, desde o pequeno cemitério da Misericórdia, de 1818, até ao cemitério municipal benzido em 1838, incluindo a sua capela, sepulturas de figuras notáveis, a disputa em torno do interdito de 1877 e o monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão.
No estrangeiro
1Origem e construção do cemitério
Diogo da Costa Quintal fundou em terras do seu morgadio em 1662, a capela de Nossa Senhora das Angústias, que deu o nome á rua que lhe passava próximo e ainda ao sítio das suas imediações. Não podemos hoje precisar se a capela de N. S. das Angústias que existe na quinta do mesmo nome (Quinta Lambert) é a reconstrução da antiga ermida de igual denominação e se porventura era ali que ficava a propriedade vinculada de Diogo da Costa Quintal. Estamos, no entretanto, pela afirmativa. Foi neste sítio das Angústias que o bispo desta diocese D. Joaquim de Meneses e Ataíde, quando provedor da Santa Casa da Misericórdia á qual prestou os mais relevantes serviços, mandou construir em 1818 um pequeno cemitério exclusivamente destinado á inumação dos cadaveres das pessoas falecidas no hospital de Santa Isabel, em terreno pertencente a João de Carvalhal e que ele gratuitamente cedera para este fim. Quando uma lei proibiu os enterramentos nos templos, a Câmara Municipal do Funchal obteve da Santa Casa da Misericórdia a cedência do pequeno cemitério das Angústias e pediu a João de Carvalhal, já então conde, a venda dos terrenos contíguos para o alargamento do mesmo cemitério, tendo este titular pronta e generosamente oferecido ao município todos os terrenos que fossem necessários para este projectado alargamento, o que comunicou á câmara em carta datada de 8 de Julho de 1836.
Começaram desde logo os trabalhos da construção do novo cemitério, que ficaram concluídos em Maio de 1838. A 8 de Julho deste ano, procedeu-se á bênção solene do cemitério, lançada pelo vigário capitular e governador do bispado Antonio Alfredo de Santa Catarina Braga, que revestiu o maior brilho e imponência. A capela foi construída alguns anos depois. Concluíram-se os trabalhos de construção e ornamentação em Novembro de 1844 e foi benzida a 15 de Dezembro desse ano pelo bispo diocesano D. José X. Cerveira e Sousa.
Os arruamentos do cemitério foram sendo construídos posterior e sucessivamente, tendo os mais recentes sido feitos ainda ha poucos anos. O mais antigo que foi primitivamente delineado, é o que ladeia todo o cemitério e fica contíguo ás paredes de vedação, excepção feita ao passeio central, que é da construção primitiva. A porta de Madeira, que fecha a entrada interior do cemitério, pertencia ao convento de S. Francisco.
2Jazigos, interdito e monumento
A igreja deste convento era a verdadeira necrópole da antiga nobreza madeirense. Muitas famílias tinham ali os seus jazigos, alguns deles de belos e ricos mármores. Quando em 1865 se demoliu o convento e a igreja, para ali se levantar um edifício destinado aos paços do concelho, foi removida do interior do templo a lápide sepulcral que cobria os restos mortais do fundador e colocada no cemitério das Angústias, e sob ela se depositaram muitas ossadas que tinham sido exumadas por ocasião daquela demolição. No centro da pedra tumular foi escrito este epitáfio: - Jazigo dos ossos exumados do extinto convento e igreja de S. Francisco (a que a inscripção primitiva se refere) trasladados a 2 de Maio de 1865.- A primitiva inscrição gravada em torno da lápide diz assim:-Aqi JÁS LOIS ALVARES DA COSTA Q~ FUNDOU ESTA CASA NA ERA de 1473 E SEV Fº FRANCISCO ALVARES DA COSTA PR° OVIDOR E VEDOR DA FAZENDA NESTAS ILHAS DA MADEIRA. Ha neste cemitério muitos jazigos e mausoléus particulares, entre os quais sobressai o que pertence á família Carvalhal. Tendo-se suicidado um indivíduo nesta cidade no dia 4 de Março de 1877, foi-lhe negada sepultura eclesiástica pela autoridade episcopal que era então o prelado D. Manuel Agostinho Barreto, que poucos dias antes chegara ao Funchal e assumira o governo da diocese. A Câmara Municipal, a pesar da determinação do prelado, ordenou o enterramento do suicida no recinto destinado aos católicos, tendo então o bispo diocesano lançado o interdito no cemitério por provisão de 16 de Março de 1877. O prelado ocupou-se do assunto com notável desassombro no púlpito da Se Catedral num veemente discurso que ficou imemorável. O caso foi trazido para a imprensa, que dele se ocupou com largueza ao sabor das opiniões de cada um. Sôbre este assunto publicou-se no Porto um interessante opúsculo intitulado A Sepultura Eclesiástica e os Suicidas, escrita pelo Dr. Cassiano Neves, que se propôs rebater principalmente as afirmações do jornal A Lei, que então se publicava no Funchal.
No cemitério das Angústias repousam os despojos mortais de muitos distintos madeirenses e ainda de outros indivíduos nascidos fora da Madeira, entre os quais podemos mencionar Marceliano Ribeiro de Mendonça, deão Antonio Joaquim Gonçalves de Andrade, Dr. Antonio da Luz Pita, José Antonio Monteiro Teixeira, Conde do Canavial, Viscondessa das Nogueiras, Condes do Carvalhal, bispo D. Manuel Agostinho Barreto, cónego Dr. Augusto Frederico Castilho etc., etc.
No recinto deste cemitério, erigiu-se há pouco um belo monumento, destinado a comemorar o bárbaro atentado cometido pelos submarinos alemães, bombardeando a cidade do Funchal, e dum modo muito especial consagrado a perpetuar a memória das dezenas de vitimas da ferocidade germânica, que ali repousam e que uma feliz e piedosa iniciativa não quis tornar esquecidas para as gerações vindouras. No dia 3 de Dezembro de 1917, primeiro aniversário do luctuoso e trágico acontecimento, depois duma solenidade religiosa celebrada na Sé Catedral, realizou-se a inauguração do monumento, que revestiu particular brilhantismo, tendo vários oradores proferido eloquentes e patrióticos discursos alusivos á homenagem que ali se ia tributar àquelas pobres vitimas da barbaridade alemã. O monumento, que se ergue á direita da entrada no cemitério, é devido ao cinzel do laureado escultor Francisco Franco de Sousa e á louvável iniciativa do banqueiro Henrique Vieira de Castro, que não só abriu a subscrição destinada ao seu custeamento com um avultado donativo, como também promoveu todos os trabalhos iniciais da construção até á sua inauguração definitiva. O tumulo-monumento, que foi entregue á guarda e conservação da Câmara Municipal do Funchal, custou aproximadamente dois contos de reis (V. Bombardeamento do Funchal).
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
Luís Álvares da Costa fundou, com o filho, o convento franciscano de São Francisco, no Funchal.
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Diogo da Costa de Quintal construiu a capela de Nossa Senhora das Angústias, no Funchal.
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O bispo D. Joaquim de Meneses e Ataíde construiu um pequeno cemitério para o hospital de Santa Isabel.
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João da Câmara de Carvalhal cedeu terreno para ampliar o cemitério das Angústias.
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Foi concluída a construção do novo cemitério municipal das Angústias.
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O cemitério das Angústias, no Funchal, foi solenemente benzido.
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A capela do cemitério das Angústias, no Funchal, foi construída e benzida pelo bispo Cerveira e Sousa em 15 de dezembro de 1844.
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Ossadas e a lápide do fundador do demolido convento de São Francisco, no Funchal, foram trasladadas para o cemitério das Angústias.
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Após ter sido recusada sepultura eclesiástica a uma pessoa que se suicidou no Funchal, mas que foi sepultada no cemitério das Angústias, o bispo Barreto colocou o cemitério sob interdito; Cassiano das Neves publicou no Porto um opúsculo sobre o caso.
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Foi inaugurado no cemitério das Angústias o monumento às vítimas do bombardeamento alemão do Funchal em 1916.
Lugar
Lugares mencionados · 09- Cemitério das Angústias · Assunto
Funchal
Cemitério municipal do Funchal, que teve origem num pequeno espaço de enterramento da Misericórdia, de 1818, e foi construído em 1836–1838. Tem um pórtico de basalto lavrado, um necrotério e um monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão. Entre os ali sepultados contam-se o 2.º Conde de Carvalhal e o Deão Andrade.
- Angústias · Assunto
Funchal. Localidade onde foi construído o cemitério.
Angústias é um sítio do Funchal cujo nome deriva da capela de 1662, onde foi construído o cemitério municipal, benzido em 1838. O asilo infantil ali iniciado em 1837, mas não concluído, tornou-se mais tarde o Asilo da Mendicidade, e a Câmara Municipal ocupou o edifício em 1843–1845 e 1846–1848. O cemitério alberga um monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão.
- Capela de Nossa Senhora das Angústias
Funchal. Capela de 1662 que deu nome à rua, ao sítio e ao cemitério.
A Capela de Nossa Senhora das Angústias situa-se na freguesia de São Pedro, Funchal, e foi fundada em 1662 por Diogo da Costa Quintal. Deu nome à rua, ao sítio e ao cemitério das Angústias. Uma capela com a mesma invocação na Quinta Lambert poderá ser uma reconstrução da ermida original.
- Convento de São Francisco
Funchal. Convento demolido cuja porta, lápide e ossadas foram transferidas para o cemitério.
O Convento de São Francisco foi um convento franciscano fundado no Funchal em 1473 e assinalava o limite ocidental da cidade em 1508. A sua igreja foi demolida em 1865, e os seus objetos, livros, lápides e ossadas foram para o cemitério das Angústias, o museu e a Biblioteca Municipal. Os edifícios albergaram presos durante um breve período, até 1836, e a polícia em 1857.
- Funchal
Cidade onde se situa o cemitério, bombardeada por submarinos alemães.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Hospital de Santa Isabel
Funchal. Hospital cujos falecidos foram sepultados no cemitério de 1818.
Hospital da Misericórdia no Funchal, cuja construção começou depois de 1686 e que deu nome à Rua do Hospital Velho. Foi utilizado durante 240 anos e vendido à Junta Geral em 1933. Foi criticado num folheto de 1874, e os seus regulamentos foram impressos em 1819 e 1840.
- Porto
Portugal. Cidade onde foi publicado o opúsculo de Cassiano Neves.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- Quinta Lambert
Funchal. Quinta com uma capela da mesma invocação, possivelmente a capela original reconstruída.
A Quinta Lambert é uma propriedade notável na freguesia de São Pedro, no Funchal, com uma capela de Nossa Senhora das Angústias, possivelmente a ermida de 1662 reconstruída. D. Maria Amélia ali permaneceu e morreu em 1853. O vapor Valente foi arrastado para a costa abaixo da quinta e ficou destruído. A Avenida do Doutor José António de Almada passa a norte da propriedade.
- Sé do Funchal
Funchal. Sé Catedral onde o bispo pregou sobre o caso de 1877 e onde se realizou a cerimónia de 1917.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 18-
Benzeu o novo cemitério em 8 de julho de 1838.
- António da Luz Pita1802–1870
Madeirense ilustre sepultado no cemitério das Angústias.
- António Joaquim Gonçalves de Andrade1795–1868
Deão da Sé Catedral sepultado no cemitério das Angústias.
- António Teixeira1795–1876
Figura notável sepultada no cemitério das Angústias.
- Augusto Frederico de Castilho1802–1840
Cónego sepultado no cemitério das Angústias.
-
Autor de um opúsculo sobre a sepultura eclesiástica de suicidas, escrito em resposta à disputa de 1877.
- D. Joaquim de Meneses e Ataíde1765–1828
Bispo do Funchal que, na qualidade de provedor da Misericórdia, construiu aqui o primeiro pequeno cemitério em 1818.
- D. Manuel Agostinho Barreto1835–1911
Bispo que colocou o cemitério sob interdito em 1877 devido à sepultura de uma pessoa que se suicidou, e que também aí está sepultado.
- D. Matilde Isabel de Sant'Ana e Vasconcelos Moniz de Bettencourt, Viscondessa das Nogueiras1805–1888
Viscondessa sepultada no cemitério das Angústias.
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Fundou a capela de Nossa Senhora das Angústias em 1662, em terras do seu morgadio.
+ 8 mais
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Filho de Luís Álvares da Costa e magistrado régio na Madeira, mencionado na lápide trasladada.
- Francisco Francom. 1916
Escultor do monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento.
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Banqueiro que financiou e promoveu o monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento.
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Proprietário, mais tarde conde, que cedeu terrenos para o cemitério de 1818 e para a sua ampliação em 1836.
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Nobre com título sepultado no cemitério das Angústias.
- José Xavier de Cerveira e Sousa1797–1862
Bispo que benzeu a capela do cemitério em 15 de dezembro de 1844.
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Fundador, em 1473, do convento de São Francisco, cuja lápide foi trasladada para o cemitério.
- Marceliano Ribeiro de Mendonça1805–1866
Figura notável sepultada no cemitério das Angústias.