Saltar para o conteúdo
Elucidário Madeirense Início
Convento de São Francisco do Funchal 1Origem e fundação
Artigo Nº 1041 Convento ou seminário Funchal Vol. I · pp. 603–606 7 min de leitura

Convento de São Francisco do Funchal

História do Convento de São Francisco do Funchal, desde o primeiro estabelecimento dos frades em São João e a fundação do convento na cidade em 1473 até à sua secularização em 1834 e demolição na década de 1860. O local é hoje ocupado pelo Jardim Municipal e pelas ruas vizinhas.

Convento de São Francisco do Funchal

No estrangeiro

Mapa: Madeira (14)

1Origem e fundação

Os religiosos franciscanos instalaram-se primitivamente num modesto alojamento e numa pequena ermida adjunta, que levantaram no local onde hoje fica a capela de São João, na margem direita da ribeira do mesmo nome. Aí permaneceram alguns anos, até que por 1459 abandonaram o sitio e partiram para o continente do reino, onde estabeleceram uma comunidade em Xabregas, nos arredores de Lisboa. (V. Ordem Serafica).

Por 1476 chegaram ao Funchal o franciscano Fr. Rodrigo de Arruda e alguns companheiros, que ocuparam o hospicio de São João e ali organizaram uma pequena comunidade religiosa, em virtude dum breve do papa Sixto IV, concedido em 1476. Fr. Rodrigo, aproveitando as boas disposições dos habitantes da vila, tratou de levantar um convento no centro da povoação, sôbre terreno pertencente a Clara Esteves, que em testamento o havia vinculado a favor de João do Porto, seu parente, cedendo os religiosos, em troca, o seu hospicio de São João e obrigando-se ainda a celebrar uma missa cantada anual em dia de Todos os Santos, o que tudo foi autorizado pela infanta D. Beatriz, como tutora de seu filho o duque D. Diogo, grão-mestre da Ordem de Cristo, a que esta ilha pertencia. Dizem as Saudades da Terra que a causa da mudança foi “porque o logar era ermo e nelle um frade, por induzimento do Demonio, que sempre urde semelhantes teyas se enforcou, estes religiosos ordenaram huma casa em baixo, na villa do Funchal, em chãos e terras defronte de Santa Catharina, alem da ribeira, onde hora (1590) está fundada uma das melhores casas desta ordem que a Provincia tem em Portugal; o qual convento he de observância, tão sumptuoso como fresco, em que sempre estão perto de cincoenta frades, muito letrados, religiosos de virtude e exemplo, quanto se pode achar no mundo”.

Não foi Clara Esteves a fundadora deste convento, como alguns têm erradamente suposto, pois que já era falecida á data da fundação, e foi o primeiro administrador do vinculo por ela instituído que fêz a transacção da troca com os franciscanos, o qual também em cousa alguma contribuíu para a dita fundação. Os verdadeiros fundadores desta casa monastica, modesta na sua origem e que só mais tarde se tornou um importante mosteiro, foram Luiz Alvares da Costa e seu filho Alvaro da Costa no ano de 1473, como se vê da inscrição em letras goticas, que se encontra na respectiva lapide tumular, removida em 1865 para o cemiterio das Angustias (V. este nome), onde ainda hoje se acha. Nesta pedra sepulcral lê-se: Aqi JAS LOIS ALVARES DA COSTA Q- FVNDOU ESTA CASA NA ERA de 1473 E SEV F1 FRANCISCO ALVARES DA COSTA PR1 OVIDOR E VEDOR DA FAZENDA NESTAS ILHAS DA MADEIRA.

O terreno que pertencia a Clara Esteves foi acrescentado com uma grande horta que Maria de Atouguia, neta do fundador, doara em testamento aos religiosos franciscanos.

2A igreja

Teve primitivamente o convento uma pequena igreja, que foi depois acrescentada e reconstruída, sendo esta sagrada a 4 de Março de 1554 pelo bispo espanhol D. Sancho Truxillo, que viera temporariamente exercer funções episcopais nesta ilha. O convento e igreja sofreram ainda grandes reparos e novos acrescentamentos pelos anos de 1578, sendo guardião o franciscano Fr. Diogo Nabo. A esta epoca se referem as seguintes palavras de Frutuoso: “... tem uma egreja muito lustrosa... em a qual ha outo capellas mui ricas e... grande cerca... ”.

A pesar deste templo não ser pequeno, foi considerado de acanhadas dimensões para o movimento religioso da comunidade, que havia aumentado consideravelmente, para a grande frequencia dos fiéis e ainda para a construção de novos mausoléus e jazigos particulares, tendo sido demolido em 1780, levantando-se no mesmo local uma nova e vasta igreja.

O templo era um grande edificio de bela e sólida construção, cujo interior não havia sido ainda inteiramente acabado. Tinha apenas três quartos de seculo de existencia, quando o camartelo demolidor o lançou á terra, e estava ainda em excelente estado de conservação, á parte as danificações que as intemperies e o abandono em que ficara desde 1834, inevitavelmente lhe causariam.

A sua conservação impunha-se. Se não havia necessidade de aplicá-lo ao exercicio do culto, devera ter sido destinado ao nosso museu de arte. Pequenas terras de provincia, muito inferiores á nossa em população e em importancia de tôda a ordem, o têm. Modesto sim, mas seria o pequeno museu duma ilha perdida no meio do oceano. Inumeros objectos se têm extraviado e perdido, que ali poderiam e deveriam figurar. A igreja de S. Francisco era, como se sabe, o verdadeiro panteon de grande parte das mais distintas e antigas familias deste arquipélago. Quasi tôdas tinham ali os seus carneiros e mausoléus, alguns deles de ricos e belos mármores. Causa-nos hoje verdadeiro espanto e também uma legitima indignação que os representantes dessas familias e, portanto, proprietarios desses sarcofagos, deixassem arrasar essa, que, para eles, deveria ser uma necropole sagrada.

3Demolição e paços do concelho

O convento, que era antigo e estava muito arruinado, e o templo anexo, serviram de hospital, de prisão, de quartel, de tribunal e de asilo, sendo, por decreto de 7 de Novembro de 1844, cedidos á Camara Municipal do Funchal para a construção dum edificio destinado á instalação dos tribunais. Nem tentativas se fizeram então para levar a cabo a realização dessa ideia.

Em 1864, a Camara do Funchal deliberou abrir concurso para a apresentação dum projecto e orçamento de um edificio destinado a acomodar os tribunais judiciais, os paços do municipio, a administração e a recebedoria do concelho, tendo escolhido a cêrca do convento de S. Francisco, como o local mais apropriado para a sua construção.

Revestiu a maior solenidade o lançamento da primeira pedra dos novos paços do concelho. No dia 11 de Março de 1866, saíu da Sé Catedral um luzido cortejo, presidido por D. Patricio Xavier de Moura, prelado diocesano, e em que se encorporaram a camara municipal, as autoridades superiores do distrito, funcionarios publicos e outras entidades oficiais, dirigindo-se todos á cêrca do convento de S. Francisco e ali se procedeu, no meio dum enorme concurso de povo, ao assentamento da pedra angular do edificio, cuja construção não passaria nunca dos alicerces. Na pedra angular, além das moedas do tempo, foi lançada uma placa de metal, que tinha gravada a seguinte inscrição: Senatus Funchalensis Hanc Sibi Curam Suis Sumptibus Aedificavit Qua in Eademn et Jus Dicatur Hunc Lapidem in Hujus Optatissimi Operis Auspicium D. Patritius Xavier de Moura regnante Ludovic. I Die Quinto Idus Martius Anno MDCCCLXVI Adstante Eodem Senatu et omnibus Provinciae Magistra Magnae Civium Corona Deum Rite Precatus

Posuit.

A igreja e o convento foram demolidos. A população da Madeira não viu com bons olhos o arrasamento da igreja, e por vezes os partidos se serviram desta circunstancia, agitando-a como bandeira politica contra os seus adversarios.

Como já dissemos e todos sabem, os projectados paços do Concelho não passaram dos alicerces, tendo-se ali inutilmente enterrado alguns contos de réis.

Podia ter-se levantado a casa da camara, que ficaria nas imediações da igreja, e esta poderia também ter-se conservado para servir de templo catolico ou de museu, pois havia espaço de sobra para estas e ainda outras construções.

Como se sabe, o antigo convento e igreja de S. Francisco ocupavam os terrenos que actualmente formam o Jardim Municipal, as ruas de Hermenigildo Capelo, Serpa Pinto, Conselheiro José Silvestre Ribeiro e o espaço onde se levanta o Teatro Manuel de Arriaga. As ruas que ladeiam o Jardim Municipal, com excepção da de S. Francisco, são de construção posterior á extinção das ordens religiosas, isto é ao ano de 1834.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 11
  1. Os primeiros frades franciscanos deixaram o hospício de São João, no Funchal, e partiram para Xabregas, perto de Lisboa.

  2. Luís Álvares da Costa fundou, com o filho, o convento franciscano de São Francisco, no Funchal.

  3. Os franciscanos dirigidos por Frei Rodrigo de Arruda chegaram ao Funchal, um breve pontifício autorizou a comunidade e os frades mudaram-se de São João para o Convento de São Francisco.

  4. O bispo D. Sancho Truxillo, em visita à Madeira, consagrou a igreja reconstruída do Convento de São Francisco, no Funchal (uma entrada data a sua visita de 1548).

  5. O convento franciscano do Funchal foi alvo de grandes obras de reparação e ampliação durante o mandato do seu guardião, Frei Diogo Nabo.

  6. A antiga igreja do Convento de São Francisco, no Funchal, foi demolida e iniciou-se a construção de outra maior.

  7. Um decreto extinguiu as ordens religiosas e os conventos; o convento franciscano do Funchal foi abandonado.

  8. Um decreto cedeu à Câmara Municipal o terreno e o edifício do Convento de São Francisco, no Funchal, para a instalação dos tribunais; o local deu mais tarde lugar ao Jardim Municipal.

  9. A Câmara Municipal do Funchal abriu um concurso de projetos para novos Paços do Concelho e tribunais no local do Convento de São Francisco.

  10. Ossadas e a lápide do fundador do demolido convento de São Francisco, no Funchal, foram trasladadas para o cemitério das Angústias.

  11. Foi lançada a primeira pedra de uns novos Paços do Concelho do Funchal no local do Convento de São Francisco, mas o edifício nunca passou dos alicerces.

Lugar

Lugares mencionados · 14
  1. Convento de São Francisco do Funchal · Assunto

    Funchal

  2. Capela de Santa Catarina

    Funchal. Capela em frente da qual foi construído o convento.

  3. Capela de São João da Ribeira

    Funchal. Local do primeiro alojamento e da primeira ermida dos frades.

  4. Cemitério das Angústias

    Funchal. Cemitério para onde a lápide do fundador foi trasladada em 1865.

  5. Funchal

    Cidade onde se situava o convento.

  6. Jardim Municipal do Funchal

    Funchal. Jardim que ocupa hoje o local do convento.

  7. Ribeira de São João

    Calheta. Ribeira em cuja margem direita se situava o primeiro estabelecimento dos frades.

  8. Rua Conselheiro José Silvestre Ribeiro

    Funchal. Rua aberta nos terrenos do convento.

  9. Rua de São Francisco

    Funchal. Única rua junto ao jardim anterior a 1834.

  10. Rua Hermenegildo Capelo

    Funchal. Rua aberta nos terrenos do convento.

  11. Rua Serpa Pinto

    Funchal. Rua aberta nos terrenos do convento.

  12. Sé do Funchal

    Funchal. Ponto de partida da procissão de 1866.

+ 2 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 14
  1. Proprietária do terreno onde foi construído o convento, que vinculou por testamento; alguns consideraram-na erradamente a fundadora.

  2. Infanta que, como tutora do filho, o duque Diogo, autorizou a troca de terrenos.

  3. Duque e grão-mestre da Ordem de Cristo, à qual a Madeira pertencia então.

  4. Rei de Portugal mencionado na inscrição da primeira pedra, de 1866.

  5. Bispo espanhol que consagrou a igreja reconstruída em 4 de março de 1554.

  6. Guardião do convento durante as obras de cerca de 1578.

  7. Filho de Luís Álvares da Costa e cofundador do convento, identificado na lápide como primeiro ouvidor e vedor da fazenda da Madeira.

  8. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Cronista e autor de Saudades da Terra, citado pela sua descrição da igreja.

  9. Parente de Clara Esteves em cujo benefício o terreno foi vinculado.

  10. Verdadeiro fundador do convento em 1473, segundo a inscrição na sua lápide.

+ 4 mais
  1. Neta do fundador que legou aos frades uma grande horta.

  2. Bispo do Funchal que lançou a primeira pedra dos Paços do Concelho em 1866.

  3. Frade franciscano que chegou ao Funchal cerca de 1476 e promoveu a construção do convento na cidade.

  4. Papa cujo breve de 1476 autorizou a comunidade franciscana no Funchal.

Na folha C

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.