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Moura (D. Patrício Xavier de) 1O codilho e o bispado de Cabo Verde
Artigo Nº 2476 Clero e religiosos Vol. II · pp. 777–779 6 min de leitura

Moura (D. Patrício Xavier de)

Biografia de D. Patrício Xavier de Moura, frade natural de Setúbal que se tornou bispo de Cabo Verde, alegadamente após ganhar uma aposta ao gamão, e, mais tarde, bispo do Funchal (1859–1872). O seu episcopado no Funchal foi marcado por conflitos com o Cabido e os políticos locais.

Moura (D. Patrício Xavier de)

1O codilho e o bispado de Cabo Verde

Pinho Leal, no vol. XI do seu dicionário Portugal Antigo e Moderno, diz, a pág. 872, falando de José Joaquim Januario Lapa, 1.° visconde de Vila Nova de Ourém, o seguinte, que textualmente transcrevemos:

«Deu-se um facto notável entre o 1.° visconde de Villa Nova de Ourem e o padre Patrício de Moura e Brito, natural de Setúbal. Quando aquelle titular, antes de o ser, residia em Villa Franca, estando a jogar o gamão com o referido padre, que ali era prior, afirmava este que havia de dar um codilho ao Lapa, o qual por sua parte afirmava o contrario, accrescentando que faria daquelle prior um bispo, se delle recebesse um codilho e viesse algum dia a ser ministro, dando às suas palavras um tom de puro gracejo. O tempo correu, e Lapa, da modesta posição que então ocupava como administrador das Lezírias do Tejo, passou a elevar-se na escala social pelos seus méritos e pelos successos da política, e chegou a ser ministro de estado. O prior de Villa Franca, seguindo-lhe, por assim dizer, os movimentos, e advertido por um feliz pressentimento, logo que o visconde foi nomeado ministro, se lhe apresentou, dando-lhe os parabéns e reclamando o cumprimento da promessa. O ministro, que a princípio se não lembrava da promessa, recordou-se perfeitamente della, por fim, e deu ao prior de Villa Franca a mitra de Cabo Verde. Abençoado codilho!»

Este facto é confirmado pelo deão da Sé de Cabo Verde Francisco Ferreira da Silva, que, no seu livro Diocese de Cabo Verde, acrescenta os seguintes interessantes pormenores.

«D. Frei Patrício Xavier de Moura era frade graciano, e quando freire fora nomeado por D. João VI cónego da Bemposta e capellão particular da infanta D. Isabel Maria, depois de lhe ter ouvido a magnífica voz de que era dotado. Sendo legitimista, retirou-se para a sua terra natal, exercendo o ministério do púlpito até que foi mandado parochiar a freguesia de Vila Franca de Xira, onde travara conhecimento com o visconde de Villa Franca Nova de Ourem, que lhe prometera fazel-o bispo quando fosse ministro, promessa que foi cumprida. Na sua partida para Cabo Verde, fez-se acompanhar de D. João de Noronha, que tinha jà 70 annos, apresentado arcediago, e de três famulos-Fernandes de Aguiar, que, ha pouco falleceu em Cabo Verde, legando uma fortuna de mais de 80:000$000 reis, José Silvestre Teixeira, que pouco tempo viveu, e José Maria Pinto, que aos 18 annos fora provido no logar de cónego e que esteve até 1880 em Cabo Verde, deixando um nome respeitável como professor. D. Patrício ainda que mais disposto para se cobrir do capacete e desembainhar a espada do que para pôr a mitra e empunhar o báculo, foi um prelado trabalhador e zeloso. Ao mesmo tempo que reprehendia em publico e com acrimonia o famulo que em jantar de festa levantava um brinde sem ter pedido licença, como também mandava levantar o presbytero que na sua presença se sentava sem a devida vénia, exaltava e galardoava generosamente os que cumpriam com o seu dever e não tinham aquellas ousadias. Mal contido nas reprimendas, apenas viu o deão da Sé uma vez, que nunca mais là voltou, em quanto este prelado esteve na diocese.» Estabeleceu a sua residência na ilha do Fogo, mas fazia constantes visitas com bastante demora às ilhas Brava e São Tiago. Sustentou lutas com o governador geral, principalmente por motivo da nomeação dos párocos encomendados, tendo o governo da metrópole confirmado ao prelado o direito que a este assistia de fazer tais nomeações. Havendo uma grande crise alimentícia no arquipélago, cedeu a favor dos famintos dezoito contos de réis de rendimentos da mitra, que lhe pertenciam. Administrou o bispado de Cabo Verde cerca de dez anos, tendo, por motivo de doença, pedido a sua apresentação na Sé do Funchal.

2Bispo do Funchal

No mes de Julho de 1858, saiu desta diocese em direcção à Guarda, para onde fora transferido, o prelado D. Manuel Martins Manso. A 20 de Abril do ano seguinte, era por Pio IX confirmada a transferência de D. Patrício Xavier de Moura do bispado de Cabo Verde para a diocese do Funchal, tendo tomado posse do cargo, por procuração, a 28 de Maio de 1859. A 26 do seguinte mes de Agosto chegou ao Funchal, tendo feito a sua entrada solene na Sé Catedral a 18 do imediato mês de Setembro.

D. Patrício de Moura não teve um episcopado feliz. Os motivos apontados pelo deão Ferreira da Silva, a interferência do prelado na política local, a especial predilecção e favores dispensados a alguns sacerdotes, com prejuízo e desconsideração de outros, levantaram-lhe grandes dificuldades e criaram-lhe sérios atritos, que nunca de todo se desvaneceram até a sua morte. Ainda não tinha decorrido um ano após a sua entrada na diocese e jà saíra a lume um folheto de 70 paginas intitulado Chronica do Bispado do Funchal nos primeiros seis meses de governo do Snr. D. Patrício Xavier de Moura, que é um verdadeiro libelo acusatório contra a administração episcopal do prelado, estando redigido com manifesta parcialidade e até por vezes com requintada ma fé. Alguns membros turbulentos do cabido e certos elementos preponderantes da política local fizeram ao bispo D. Patrício uma acintosa e encarniçada guerra, que ele valorosamente sustentou, apesar dos seus velhos anos e conhecidos achaques. D. Patrício Xavier de Moura foi um prelado zeloso não só pela integridade dos privilégios e regalias da igreja, e especialmente pela observância da disciplina canónica, mas ainda pela propaganda da doutrina católica, pela austeridade de vida do seu clero e pelo exacto cumprimento das leis eclesiásticas.

Numa das suas ausências desta ilha, nomeou o prelado a Junta Governativa do Bispado, a que já noutro logar nos referimos e que, exorbitando das faculdades que lhe foram conferidas, provocou os reparos da Santa Sé e a publicação do folheto Breves Reflexões acerca da circular de 26 de Janeiro de 1870 do presidente da Junta Governativa do Bispado do Funchal aos parochos desta diocese.

Em 1870, pediu D. Patrício de Moura um coadjutor e futuro sucessor, sendo o deão Dr. Aires de Ornelas de Vasconcelos nomeado bispo titular de Gerasa em Março de 1871, com sucessão na diocese do Funchal.

D. Patrício Xavier de Moura morreu a 19 de Setembro de 1872 na cidade de Lisboa, para onde se tinha retirado alguns anos antes, tendo entregue ao seu sucessor D. Aires de Ornelas e Vasconcelos a administração deste bispado.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. O bispo D. Manuel Martins Manso deixou o Funchal para assumir a diocese da Guarda.

  2. Pio IX confirmou a transferência de D. Patrício Xavier de Moura de Cabo Verde para o Funchal; tomou posse por procuração em 28 de maio, chegou em 26 de agosto e fez a sua entrada solene na Sé do Funchal em 18 de setembro de 1859.

  3. O bispo D. Patrício Xavier de Moura pediu um coadjutor com direito de sucessão.

  4. A Junta Governativa do Bispado dirigiu aos párocos uma circular que condenava várias práticas piedosas, causou escândalo e suscitou críticas da Santa Sé.

  5. Aires de Ornelas de Vasconcelos foi nomeado e confirmado bispo titular de Gerasa e coadjutor com direito de sucessão na diocese do Funchal.

  6. O bispo D. Patrício Xavier de Moura morreu em Lisboa.

Lugar

Lugares mencionados · 10

No estrangeiro

Mapa: Madeira (10)
  1. Brava

    Cape Verde. Ilha de Cabo Verde que Moura visitava frequentemente.

  2. Cabo Verde

    Cape Verde. Diocese que Moura governou durante cerca de dez anos.

  3. Fogo

    Cape Verde. Ilha de Cabo Verde onde Moura residiu.

  4. Funchal

    Sede da diocese que Moura governou a partir de 1859.

  5. Guarda

    Portugal. Diocese para a qual o seu antecessor foi transferido.

  6. Lisboa

    Portugal. Cidade para onde Moura se retirou e onde morreu.

  7. Santiago

    Cabo Verde. Ilha de Cabo Verde que Moura visitava frequentemente.

  8. Sé do Funchal

    Funchal. Sé Catedral onde Moura fez a sua entrada solene em 1859.

  9. Setúbal

    Portugal. Terra natal de Moura, para onde se retirou como legitimista.

  10. Vila Franca de Xira

    Portugal. Freguesia onde Moura foi prior e conheceu o futuro visconde.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 13
  1. Frade agostiniano (graciano) natural de Setúbal, bispo de Cabo Verde e, depois, do Funchal, de 1859 até à sua morte em 1872.

  2. Deão nomeado coadjutor com direito de sucessão em 1871, que assumiu a administração da diocese do Funchal em lugar de Moura.

  3. Infanta portuguesa de quem Moura foi capelão particular.

  4. Antecessor de Moura como bispo do Funchal, transferido para a Guarda em 1858.

  5. Um dos acompanhantes de Moura em Cabo Verde, onde morreu e deixou mais de 80 contos.

  6. Deão da Sé de Cabo Verde e autor de Diocese de Cabo Verde, obra que confirma e pormenoriza o percurso de Moura.

  7. Arcediago de setenta anos que acompanhou Moura a Cabo Verde.

  8. João VIm. 1826

    Rei de Portugal que nomeou Moura cónego da Bemposta e capelão da infanta D. Isabel Maria.

  9. Ministro que, segundo a anedota, cumpriu a promessa feita em tom de brincadeira de tornar Moura bispo, atribuindo-lhe a diocese de Cabo Verde.

  10. Acompanhante de Moura, nomeado cónego aos 18 anos, que permaneceu em Cabo Verde até 1880 como professor respeitado.

+ 3 mais
  1. Acompanhante de Moura em Cabo Verde que viveu pouco tempo.

  2. Autor do dicionário Portugal Antigo e Moderno, fonte da anedota sobre o jogo de gamão aqui citada.

  3. Papa que confirmou a transferência de Moura para o Funchal em 1859.

Na folha M

Vistos recentemente

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