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Elucidário Madeirense Início
Artigo Nº 2718 Outro edifício Funchal Vol. III · pp. 57–60 8 min de leitura

Paços do Concelho

História dos Paços do Concelho do Funchal: o palácio setecentista da Rua do Comércio, comprado pela Câmara Municipal em 1883, e os muitos edifícios que a Câmara ocupou desde o século XV. Termina com breves notas sobre os Paços do Concelho dos restantes concelhos madeirenses.

Paços do Concelho

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (29)

1O palácio actual

O palácio da rua do Comercio, outrora dos Ferreiros, onde estão instaladas a Câmara Municipal, a Administração do Concelho, a Policia, a Conservatória, etc. (1921), pertenceu á casa vinculada do Conde de Carvalhal e é um dos mais vastos edifícios da ilha. Foi edificado no ano de 1758 e havia nele benfeitorias, que fizeram parte dos bens livres do morgado João Agostinho Figueiroa de França e Albuquerque. A parte do mesmo palácio que pertencia ao Conde de Carvalhal foi cedida por este á firma comercial Freitas & Macedo para pagamento de dívidas, e as demais partes, de que eram possuidores Afonso de Freitas Albuquerque, o Conde da Calçada, Francisco Roque de Albuquerque, o dr. Luís Vicente de Afonseca e outros, adquiriu-as a mesma firma por meio de compras feitas em diferentes épocas.

A Câmara tomou de arrendamento o dito palácio, ao Conde de Carvalhal em 1868, comprando-o em 4 de Agosto de 1883 a Freitas & Macedo por 25 contos, pagos em obrigações da Companhia Geral de Credito Predial Português, que, reduzidas á cotação oficial, produziram a quantia de 22:423$900 réis. Antes disso, podia a mesma Câmara ter adquirido o edifício por 12 contos, mas não soube aproveitar o ensejo que se lhe oferecia de realizar um negócio bastante proveitoso para o Município.

No edifício actual dos Paços do Concelho, estiveram acomodados outrora a casa comercial inglêsa Blackburns & Comp.ª e mais tarde o cônsul britânico George Stoddart. O conde de Carvalhal tinha a sua residência no Palácio de S. Pedro.

2Antigos paços do concelho

Antes da aquisição do magnifico edifício em frente do largo do Município ou do Colégio, esteve a Câmara em vários pontos do Funchal, tendo o primeiro prédio que ela possuiu, mas que não foi o primeiro em que fez as suas reuniões, sido construído em virtude duma ordem do duque D. Manuel, datada de 1486, determinando que se fizesse «praça, câmara, paço dos tabeliães & picota» no campo chamado do Duque, que era o terreno onde está a Catedral e largos e ruas anexos. Já em 1470 aparecera uma carta do infante D. Fernando, dirigida ao donatario João Gonçalves da Câmara, pedindo-lhe que se encarregasse «de fazer a casa da camara & ho corral do concelho» do dinheiro das penas do juiz houuidor & delle Joam Gonçalves», tendo o mesmo infante mandado dar terras junto á igreja grande para essa construção, que foi orçada em 213:096 réis.

Até 1784, estiveram os Paços do Concelho no prédio levantado ao Campo do Duque, mas nesse ano passou a Câmara a fazer as suas reuniões na Casa da Saude, á Entrada da Cidade, visto aquele prédio se achar em muito mau estado de conservação. O prédio do Campo do Duque ficava no local ocupado hoje (1921) pela casa n.° 61 á rua do capitão-tenente Carvalho de Araújo, outrora do Aljube, e as suas ruínas avaliadas em 432:000 réis, foram arrematadas pelo dr. Antonio José Monteiro por 432:250 réis, em 30 de Março de 1805.

Em 1796, alugou a Camara, por 500:000 réis anuais um prédio pertencente a Fernando José Correia Brandão, mas só o ocupou até 10 de Março de 1798, visto os seus diminutos rendimentos lhe não permitirem pagar renda tão elevada, passando-se novamente para a casa da Saúde, onde realizou a sua primeira sessão em 31 do mesmo mês e ano.

Em 7 de Janeiro de 1797, reunida a Câmara com a nobreza e o povo nos Paços do Concelho, foi resolvido por unanimidade solicitar do Governo um subsidio que permitisse á mesma Câmara levantar um prédio onde instalar os diferentes serviços a seu cargo, sendo lembrado que esse prédio poderia ser edificado na rua do Cotife, que era a parte da actual rua da Sé, compreendida entre as ruas do Sabão e dos Capelistas. Como a representação da Câmara ficasse sem resposta, não pode ser levada a efeito a referida construção.

A 13 de Novembro de 1802, realizou a Câmara a sua primeira sessão na casa ao largo da Sé, que em nossos dias serviu de cadeia da Comarca, e em 30 de Junho de 1803 tomou posse da mesma casa, tendo-a havido de «arrematação à Junta da Real Fazenda, a qual a executara ao casal de D. Guiomar Madalena Acciaioly, por dividas á Fazenda Nacional.» Em 20 de Dezembro de 1813, propôs um dos mesteres que se vendesse a casa do largo da Sé para se aplicar o produto da venda á construção de novos Paços do Concelho e duma nova cadeia, mas tal proposta foi rejeitada pelos restantes membros da Câmara.

Como em 1824 se fizessem diferentes obras aos Paços do Concelho para aí ser instalada a cadeia, esteve a Municipalidade por algum tempo numa casa de aluguer, voltando porém ao prédio do largo da Sé em 29 de Abril de 1825, por se acharem já concluídas as mesmas obras. Em 1837, deixou a Câmara de novo o mesmo prédio «por causa do danoso cheiro das prisões, onde havia 180 presos», tendo-se instalado primeiro na casa da Saúde e depois num prédio pertencente ao dr. Daniel de Ornelas, do qual resolveu sair em sessão de 16 de Maio, de 1838 para ir ocupar uma casa no largo do Pelourinho, no local onde está hoje (1921) a fabrica de moagens que pertenceu à firma comercial Viúva de Romano Gomes & Filhos.

Tendo a aluvião de 24 de Outubro de 1842 causado vários estragos no prédio do largo do Pelourinho, passou-se a Câmara em 1843 para o edifício do Asilo, no sitio das Angustias, demorando-se porém aí apenas dois anos e voltando em 1845 á casa do largo da Sé. Em Julho de 1846, resolveu a Camara mais uma vez ocupar o edifício das Angustias, mas, em princípios de 1848, mudou para um prédio na rua da Alfandega, depois de ter resolvido em sessão de 2 de Dezembro de 1847 entregar o referido edifício á comissão administrativa do Asilo.

O último edifício que serviu de Paços do Concelho, antes do actual, ficava na rua do Esmeraldo, em frente da rua de Cristovão Colombo, tendo-o tomado a Câmara de arrendamento em sessão de 2 de Agosto de 1862.

3Projecto de S. Francisco, arquivo e outras câmaras

A Câmara Municipal pretendeu há cerca de 80 anos levantar no sitio onde se erguia então o convento de S. Francisco e está hoje o Jardim Municipal, um edifício destinado á acomodação dos tribunais judiciais, paços do Município, administração e recebedoria do concelho, tendo aberto em 1864 um concurso para o projecto e orçamento do mesmo edifício, em que se estabeleceu que o projecto classificado em primeiro lugar seria premiado com 240$000 réis insulanos (50 libras) e o imediato com a quantia de 72$000 réis insulanos (15 libras), devendo a classificação ser feita por uma comissão composta dos juízes de direito e delegados das duas comarcas que então havia na ilha, dos dois engenheiros directores das obras publicas e militares do distrito e do presidente da Câmara.

O projecto julgado mais apropriado e conveniente foi o apresentado por Samuel Sloan & A. Hulton, de Filadelfia, e o imediato o de Frutuoso Abel Maria dos Santos, de Lisboa, tendo a Câmara mandado publicar nos jornais da terra o resultado do concurso, em 2 de Março de 1865. Em 19 de Abril do mesmo ano, mandou a Câmara demolir a parte do convento de S. Francisco que se achava de pé, e em 11 de Março de 1866, estando já concluídos os trabalhos necessários para o começo da construção, teve lugar a cerimonia do lançamento da primeira pedra do edifício, assistindo a esse acto além da Câmara, o Bispo, o Governador Civil e Militar e todas as autoridades e pessoas distintas da terra.

As obras dos Paços do Concelho, na rua de S. Francisco, foram orçadas em 40 contos, mas nunca passaram dos alicerces, e estes mesmos foram demolidos quando se fêz o Jardim Municipal (V. Convento de S. Francisco do Funchal, vol. I, pag. 312) O edifício devia ter rés-do-chão e primeiro andar, aquele para os tribunais judiciais e suas dependências, e este para a municipalidade, administração e recebedoria do concelho.

O arquivo da Câmara foi transferido em 1807 para uma casa em Santa Luzia, pertencente a D. Ana Cecília, mulher de Agostinho Pedro Pereira, e em 1811 para a freguesia do Monte, donde só voltou em 1818, tendo sido estas mudanças motivadas por haver receios de algum desembarque de inimigos no Funchal. Em 1824, esteve o mesmo arquivo por alguns meses na residência do escrivão da Câmara, por estar em obras o edifício dos Paços do Concelho.

Todas as municipalidades do arquipélago, á excepção das de S. Vicente e da Ribeira Brava, possuem edifícios seus, mas só as de Santa Cruz e do Porto Santo ocupam, ao que parece, os prédios primitivos, mais ou menos acrescentados ou melhorados. Os primitivos paços do concelho de Machico foram demolidos recentemente, estando a câmara construindo um outro edifício no mesmo local (1921) e os da Calheta, que ficavam junto da praia, foram destruídos pelo mar, antes de 1871, desaparecendo nessa ocasião o arquivo municipal. A antiga casa da Câmara da Ponta do Sol destruída por um incêndio, e o mesmo aconteceu a de Câmara de Lobos, não nos sendo possível, porém, precisar os anos em que estes sinistros tiveram lugar.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 18
  1. O Infante D. Fernando pediu ao donatário João Gonçalves da Câmara que construísse uma casa da câmara e um curral do concelho no Funchal, concedendo terrenos junto à igreja.

  2. O duque D. Manuel mandou construir uma praça, uma casa da Câmara, um cartório de tabeliães e um pelourinho no Campo do Duque, no Funchal.

  3. Foi construído o palácio onde hoje se situam os Paços do Concelho do Funchal.

  4. A Câmara do Funchal deixou o edifício degradado do Campo do Duque e instalou-se na Casa da Saúde, que serviu de Paços do Concelho até cerca de 1800.

  5. A Câmara do Funchal arrendou o edifício de Fernando José Correia Brandão até deixar de poder pagar a renda.

  6. A Câmara, a nobreza e o povo do Funchal decidiram pedir ao governo um subsídio para novos Paços do Concelho; não obtiveram resposta.

  7. A Câmara do Funchal realizou a sua primeira sessão na casa do Largo da Sé.

  8. O Senado da Câmara do Funchal tomou posse da casa no Largo da Sé.

  9. As ruínas da antiga casa da Câmara do Funchal foram arrematadas em leilão pelo Dr. António José Monteiro.

  10. Por receio de um desembarque inimigo, o arquivo da Câmara do Funchal foi transferido para Santa Luzia e, depois, para o Monte.

  11. A Câmara do Funchal regressou às suas instalações no Largo da Sé, após obras para aí instalar a cadeia.

  12. A Câmara do Funchal deixou o edifício do Largo da Sé devido ao mau cheiro das prisões, que albergavam 180 presos.

  13. Uma terrível aluvião atingiu o Funchal e danificou os Paços do Concelho, no Largo do Pelourinho. Seguiu-se uma tempestade no porto que destruiu embarcações. Estes acontecimentos levaram à criação da Comissão Central de Socorros e à construção de parte da muralha de Machico.

  14. A Câmara do Funchal arrendou um edifício na Rua do Esmeraldo para aí se instalar.

  15. A Câmara Municipal do Funchal abriu um concurso de projetos para novos Paços do Concelho e tribunais no local do Convento de São Francisco.

  16. Foi lançada a primeira pedra de uns novos Paços do Concelho do Funchal no local do Convento de São Francisco, mas o edifício nunca passou dos alicerces.

  17. A Câmara do Funchal arrendou o palácio do Conde de Carvalhal para instalar os Paços do Concelho.

  18. A Câmara do Funchal comprou a Freitas & Macedo o palácio destinado aos Paços do Concelho por 25 contos.

Lugar

Lugares mencionados · 29
  1. Paços do Concelho · Assunto

    Funchal

  2. Angústias

    Funchal. Localidade do edifício do Asilo, ocupado pela Câmara em 1843–1845 e 1846–1848.

  3. Calheta

    Os seus Paços do Concelho, junto à praia, foram destruídos pelo mar antes de 1871, juntamente com o arquivo.

  4. Câmara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Os seus antigos Paços do Concelho foram destruídos por um incêndio.

  5. Campo do Duque

    Funchal. Terreno onde hoje se ergue a Sé Catedral e onde se situava a primeira casa da Câmara que pertenceu ao município.

  6. Casa da Saúde

    Funchal. Edifício na Entrada da Cidade onde a Câmara se reuniu a partir de 1784 e, de novo, em várias datas posteriores.

  7. Convento de São Francisco do Funchal

    Funchal. Antigo convento cujo terreno foi escolhido para a construção dos novos Paços do Concelho, que não chegaram a ser edificados, e onde mais tarde se criou o Jardim Municipal.

  8. Filadélfia

    United States. Cidade de origem dos arquitetos que venceram o concurso.

  9. Funchal

    Cidade cujos sucessivos Paços do Concelho são descritos nesta entrada.

  10. Jardim Municipal do Funchal

    Funchal. Jardim público criado no terreno do convento, cuja construção destruiu os alicerces dos Paços do Concelho projetados.

  11. Largo da Sé

    Funchal. Largo onde se situava a casa usada pela Câmara Municipal a partir de 1802, que mais tarde serviu de cadeia distrital.

  12. Largo do Município

    Funchal. Largo também chamado Largo do Colégio, em frente aos atuais Paços do Concelho.

+ 17 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 19
  1. Coautor, com Samuel Sloan, do projeto vencedor para os Paços do Concelho.

  2. Um dos comproprietários do palácio cujas quotas foram compradas por Freitas & Macedo.

  3. Mulher de Agostinho Pedro Pereira e proprietária da casa de Santa Luzia onde o arquivo da Câmara esteve guardado a partir de 1807.

  4. Nobre cujo morgadio detinha parte do palácio; cedeu-a a Freitas & Macedo para saldar dívidas e arrendou o palácio à Câmara em 1868.

  5. A casa da sua família no Largo da Sé foi penhorada por dívidas à Fazenda Pública e adquirida pela Câmara em 1803.

  6. Duque e senhor da Madeira, mais tarde D. Manuel I, que em 1486 mandou construir uma praça, uma casa da Câmara e um pelourinho no Campo do Duque.

  7. Proprietário de um edifício ocupado pela Câmara em 1837–1838.

  8. Comproprietário do palácio cuja quota foi comprada por Freitas & Macedo.

  9. Marido de D. Ana Cecília, em cuja casa de Santa Luzia foi guardado o arquivo.

  10. Proprietário de um edifício que a Câmara arrendou em 1796–1798.

+ 9 mais
  1. Comproprietário do palácio cuja quota foi comprada por Freitas & Macedo.

  2. Concorrente de Lisboa cujo projeto para os Paços do Concelho ficou em segundo lugar.

  3. Cônsul britânico que viveu no edifício que mais tarde se tornou os Paços do Concelho.

  4. Senhor da Madeira que, numa carta de 1470, pediu ao donatário que construísse a casa da Câmara e o curral do concelho.

  5. Comprou em leilão, em 1805, as ruínas da antiga casa da Câmara no Campo do Duque.

  6. Capitão-donatário do Funchal, incumbido em 1470 de construir a primeira casa da Câmara.

  7. Comproprietário do palácio cuja quota foi comprada por Freitas & Macedo.

  8. Titular de um morgadio cujos bens livres incluíam benfeitorias no palácio.

  9. Arquiteto da Filadélfia cujo projeto, elaborado com A. Hulton, venceu o concurso de 1864–1865 para novos Paços do Concelho.

Na folha P

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.