Carvalhal (2º. Conde de) 1Nascimento e vida faustosa
Carvalhal (2º. Conde de)
Biografia de António Leandro da Câmara Carvalhal, 2.º Conde de Carvalhal (1831–1888), herdeiro dos maiores morgadios da Madeira, que dissipou a fortuna com uma vida faustosa em Paris, Madrid e Lisboa. Foi o último administrador do morgadio da Lombada e presidente da Câmara Municipal do Funchal.
1Nascimento e vida faustosa
Antonio Leandro da Camara Carvalhal Esmeraldo Atouguia Bettencourt de Sá Machado, 2º. Conde do Carvalhal da Lombada, era o representante das mais antigas e nobres familias da Madeira e nasceu no Funchal a 6 de Outubro de 1831, sendo filho de João Francisco da Camara Carvalhal Esmeraldo de Atouguia Bettencourt de Sá Machado, sobrinho e herdeiro do primeiro Conde do Carvalhal, e de D. Tereza Xavier Botelho, filha do governador e capitão general da Madeira, Sebastião Xavier Botelho.
Sem se notabilizar em nenhum ramo do saber humano, nem se ter evidenciado em acontecimentos que ficam registados na historia, foi contudo, no dizer dum seu admirador e amigo, “um homem que em vida fora a personalidade mais simpatica e mais finamente caracteristica da aristocracia madeirense; cujo nome fora conhecido lá fóra no alto mundo das grandes capitais entre os personagens mais ilustres, e cuja existencia, ora remansosa e prudente ora batida das tempestades e agitada dos desvarios da epoca, teve sempre a linha correcta da gentileza fidalga, as grandes expansões brilhantes de um belo espirito, servido por um temperamento de artista impressionavel, ardente, nervoso, generoso e bom. Em Paris, em Madrid, em Lisboa, nas festas esplendidas, nos bailes principescos, nas corridas, nos jogos de sport, na Opera, nos gabinetes da Maison Dorée e do Café Inglês, no Bois, no Prado, nos touros, nas premières, foi ele o correcto e brilhante fidalgo, o infatigavel valsista, o atrevido sportsman, o prodigo, o aventureiro viveur, levando a vida a grand train, distinto entre os mais distintos, amavel, elegante e prestigioso. Um dia o pano caíu sobre esse scenario deslumbrante. A realidade inexoravel e fatal apagou essa constelação de prazeres falazes e perigosos. A razão fria e grave veiu sentar-se sobre as ruinas dessa existencia estonteadora e capitosa do grande mundo, cheia de ilusões e de insanias, em que a vida e a fortuna se esvaem como o tenue fio de agua no deserto arido e nu. E aquele que fora o heroe dessa epopea ephemera, feita de brilhantismos fugazes, de ilusões esplendidas, de loucas prodigalidades veiu sentar-se á sombra do lar, até ali mudo e triste, abandonado e esquecido. Trazia a mesma distinção nativa, a mesma elegancia propria, a gentil e cortês fidalguia do nome e da condição, mas muita ilusão de menos, muita decepção a mais e para sempre desbaratada a fortuna que irreflectidamente arrojara para aquele vertice enorme e insaciavel. A realidade pesava sobre ele fatal, terrivel e desapiedada”.
Para tanto fausto e ostentação, chegando a ocupar um logar de destaque naquelas capitais, mal podia acudir uma renda anual de cem contos de réis, que lhe dava a sua grande casa. Em Madrid, para assistir ao casamento duma princesa, mandou construir um carro que custou uma duzia de contos de réis, em Lisboa edificou um teatro junto da sua casa, onde representaram notabilidades e onde concorria a primeira sociedade da capital. Em Paris gastou fortunas com o deslumbramento da sua vida faustosa e perdularia... Ficaram celebres as brilhantes festas do Palheiro do Ferreiro, em que á mais alta e requintada distinção se reuniam as prodigalidades dum poderoso nababo. O conde do Carvalhal veio expressamente á Madeira para receber o infante, depois rei, D. Luiz, e tanto no palacio de S. Pedro como na quinta do Palheiro, admirou o futuro rei de Portugal os dotes de estremada fidalguia e da mais inexcedivel distinção dum genuíno representante da velha aristocracia madeirense.
2Vínculos, cargos e morte
Na casa Carvalhal tinham-se reunido diversos vinculos ou morgadios, sendo o mais importante o do Santo Espirito na Lombada da Ponta do Sol, instituido em 1511 pelo fidalgo flamengo João Esmeraldo, na vasta propriedade que comprara a Rui Gonçalves da Camara, 2º. filho do descobridor da Madeira João Gonçalves Zarco. Deste morgado foi o 13º. e ultimo administrador o 2º. conde de Carvalhal, que também herdara a casa vincular instituida na freguesia da Ponta Delgada por Manuel Afonso Sanha e sua mulher D. Mecia de Carvalhal nos principios do seculo XV, e ainda os vinculos de Agua de Mel, do Paul do Mar, dos Lemes, etc., não contando com outros situados em diversos pontos da ilha e também nos Açôres e no continente do reino. Possuía vastas propriedades em tôdas as freguesias da Madeira, chegando a ser a casa Carvalhal, a segunda ou terceira do país em bens territoriais.
O conde de Carvalhal, entre outras comissões de serviço publico, exerceu o logar de presidente da Camara Municipal do Funchal e tinha a gran-cruz da ordem de Isabel a Católica e outras condecorações estrangeiras. Casara em 1854 com D. Matilde Montufar Infante, filha dos marqueses de Selva Alegre, em Espanha, e deste consorcio nasceram D. Maria da Camara, que casou com o conde de Resende, e a srª. D. Teresa da Camara, condessa do Ribeiro Real.
Depois duma vida tão agitada, vieram a ruina, o infortunio, a saudade e a doença defrontar-se com o herói de tantas aventuras. Lutou e lutou nobremente, mas... a morte derrubou-o ainda na idade pujante dos 56 anos.
Faleceu nesta cidade a 4 de Fevereiro de 1888 e foi sepultado no jazigo que mandou erigir no cemiterio das Angustias.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04Lugar
Lugares mencionados · 12No estrangeiro
- Açores
Portugal. Onde se situavam alguns dos seus morgadios.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Água de Mel
Funchal. Local de um morgadio pertencente ao conde.
Zona do Funchal repartida por duas freguesias, onde se situava um morgadio instituído por Maria de Bettencourt e mais tarde detido pelos Condes de Carvalhal. Em 1668, o governador sofreu ali uma emboscada, perto da casa senhorial dos Bettencourt.
- Cemitério das Angústias
Funchal. Cemitério onde o conde foi sepultado no jazigo da família.
Cemitério municipal do Funchal, que teve origem num pequeno espaço de enterramento da Misericórdia, de 1818, e foi construído em 1836–1838. Tem um pórtico de basalto lavrado, um necrotério e um monumento de 1917 às vítimas do bombardeamento alemão. Entre os ali sepultados contam-se o 2.º Conde de Carvalhal e o Deão Andrade.
- Funchal
Cidade onde o conde nasceu e morreu.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde construiu um teatro junto à sua casa.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Lombada da Ponta do Sol
Ponta do Sol. Sede do morgadio do Santo Espírito, instituído por João Esmeraldo.
A Lombada da Ponta do Sol é uma localidade da freguesia e do concelho da Ponta do Sol. Foi a grande propriedade de Rui Gonçalves da Câmara, arrendada a João Esmeraldo em 1473 e cultivada por oitenta escravos. Tornou-se a sede do morgadio do Santo Espírito, com a capela dos Esmeraldo, e foi ali que D. Isabel de Abreu esteve cercada; as notas registam ainda um deslizamento de terras da propriedade em direção ao mar em 1804 e uma questão jurídica relativa à propriedade estudada em 1927.
- Madrid
Spain. Cidade onde mandou construir uma carruagem dispendiosa para o casamento de uma princesa.
Capital espanhola onde o Conde da Ega foi embaixador de Portugal e outros madeirenses serviram na legação portuguesa. Franco de Sousa e Miguéis deslocaram-se à cidade em 1912 com uma bolsa Valmor, e o Dr. Jacinto António de Sousa visitou-a pelos seus estabelecimentos científicos.
- Palácio de São Pedro
Funchal. Palácio do conde onde recebeu o Infante D. Luís.
O Palácio de São Pedro é o antigo solar dos Condes de Carvalhal, onde o infante D. Luís foi recebido com um jantar e um baile. A partir de 1933, albergou a biblioteca municipal, o museu de história natural e o Arquivo Histórico da Madeira. Miss Mary Jane Wilson também ali instalou o Colégio de São Jorge.
- Paris
France. Capital onde o conde manteve uma vida social faustosa.
Capital francesa onde Franco de Sousa se estabeleceu e pintou «Ar livre», e onde Juvenal Honório de Ornelas se doutorou em Medicina em 1834. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara estudou ali e conheceu Loyola; o Barão de Ornelas formou-se, exerceu a profissão e morreu na cidade.
- Paul do Mar
Calheta. Local de um morgadio pertencente ao conde.
O Paul do Mar é uma freguesia da costa sudoeste da Madeira, criada em 1676 a partir do Estreito da Calheta. É um porto de pesca servido pela antiga levada do Rabaçal, onde se cultiva malvasia e onde se assinalou uma incidência muito elevada de tracoma. Teve a fortaleza de Santo António, uma banda e salinas instaladas por volta de 1865, posteriormente abandonadas por falta de rentabilidade.
- Ponta Delgada
São Vicente. Freguesia onde se situava o morgadio dos Sanha–Carvalhal.
Ponta Delgada é uma freguesia da costa norte da Madeira, uma das três freguesias do concelho de São Vicente, com uma ponta costeira e um pequeno porto de pesca. A festa do Senhor Jesus é uma grande romaria de promessas, e a freguesia foi sede de uma capitania-mor. Em 1856, registou 409 mortes por cólera.
- Quinta do Palheiro
Funchal. Quinta onde o conde deu festas célebres e recebeu D. Luís.
Quinta da família Carvalhal em São Gonçalo, no Funchal. O 1.º Conde de Carvalhal morreu ali e foi inicialmente sepultado na sua capela; o 2.º Conde deu ali festas célebres e recebeu D. Luís. A arquiduquesa Leopoldina jantou na quinta em 12 de setembro de 1817, D. Carlos jogou ali ténis em 1901 e foi ali introduzido pela primeira vez o tojo.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 13-
2.º Conde de Carvalhal, aristocrata madeirense que dissipou uma vasta fortuna e presidiu à Câmara Municipal do Funchal.
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Infante, mais tarde rei de Portugal, recebido na Madeira pelo conde.
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Nobre flamengo que instituiu o morgadio do Santo Espírito na Lombada em 1511.
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Pai do 2.º Conde, sobrinho e herdeiro do 1.º Conde de Carvalhal.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira e pai de Rui Gonçalves da Câmara.
- Luís Gonçalves da Câmara1518–1575
Segundo filho de Zarco, que vendeu a propriedade da Lombada a João Esmeraldo.
- Manuel Afonso de Sanham. 1507
Instituiu com a mulher um morgadio na Ponta Delgada, mais tarde herdado pelo conde.
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Filha do conde, casou com o Conde de Resende.
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Filha dos Marqueses de Selva Alegre, casou com o conde em 1854.
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Instituiu o morgadio da Ponta Delgada com o marido, Manuel Afonso Sanha.
+ 3 mais
- Sebastião Xavier Botelho1768–1840
Governador e capitão-general da Madeira, avô materno do 2.º Conde.
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Filha do conde, Condessa de Ribeiro Real.
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Mãe do 2.º Conde, filha do governador Sebastião Xavier Botelho.