Cadeia 1A cadeia velha e a casa do Largo da Sé
Cadeia
História da cadeia da comarca do Funchal, desde a antiga casa na Rua da Cadeia Velha, passando por quase um século no edifício do Largo da Sé, até à nova cadeia construída em 1913 no local do Hospital de São Lázaro.
1A cadeia velha e a casa do Largo da Sé
A antiga cadeia da comarca do Funchal ficava na extremidade sul da rua que agora se chama da Cadeia Velha, numa pequena casa que foi vendida em 1824 a José Antonio Monteiro, pela quantia de 3:600$000 réis. Esta casa já em 1768 se achava bastante arruinada, segundo se vê de um oficio que em 31 de Maio desse ano dirigiu o corregedor Francisco Maria da Mota a Francisco Xavier Furtado; todavia ainda lá continuavam os presos em 1811, pois que neste ano, a 15 de Novembro, dizia o corregedor Manuel Caetano de Albuquerque que era urgente transferir a cadeia para casa mais espaçosa e que oferecesse mais segurança.
Em sessão de 30 de Junho de 1803 tomou posse o Senado da Câmara da casa ao Largo da Sé, onde desde algum tempo fazia as suas reuniões, a qual pertencera ao casal de D. Guiomar Madalena Acciaioly e fora posta em praça em virtude de dividas á Fazenda Nacional, mas só alguns anos mais tarde, certamente depois de 1813, é que a parte inferior da mesma casa foi transformada em cadeia, continuando a parte superior a servir de Paços do Concelho.
Em sessão de 20 de Dezembro de 1813 resolveu a Câmara que o edifício da cadeia se fizesse com o produto da venda da casa que estava servindo para tal fim, e quando isto não bastasse, que o alcaide-mor concorresse com o resto das despesas, mas esta deliberação, não pode ser executada, em consequência do alcaide se haver negado a contribuir para as referidas despesas, ás quais dizia não estar obrigado depois da extinção da donataria.
Dizia o Defensor da Liberdade em 28 de Julho de 1827 que os presos estavam pessimamente acomodados na cadeia do Largo da Sé, tendo sido talvez para melhorar as condições dos mesmos presos que depois da extinção das ordens religiosas em Portugal eles foram transferidos para o edifício do convento de S. Francisco, onde todavia só estiveram até 1836, voltando neste ano á casa que haviam deixado poucos tempos antes, a qual, segundo cremos, deixou desde então de servir de Paços do Concelho.
A pesar do edifício do Largo da Sé ter passado a servir exclusivamente de cadeia, isto em nada melhorou as condições dos presos que não podiam pagar a carceragem, os quais continuaram a ser encerrados em lojas umidas e sem ar nem luz.
2Projectos de mudança e a nova cadeia
Em 2 de Julho de 1841 resolveu a Câmara passar a cadeia para o edifício onde agora está o Asilo, mas o
Governo não aprovou esta transferência, e idêntica resolução foi tomada em sessão de 6 de Fevereiro de 1845, não chegou a fazer-se porém a mudança dos presos, pelo motivo da Câmara ter sido dissolvida em 1846 e dos novos vereadores não haverem concordado com a aplicação que se pretendia dar à casa das Angústias.
Num oficio dirigido pelo Conselheiro José Silvestre Ribeiro à Câmara Municipal do Funchal em 31 de Março de 1847, propunha aquele benemérito Governador Civil que a cadeia se fizesse no extinto convento de S. Francisco, que os Paços do Concelho passassem para a casa que servia de cadeia e que o recolhimento dos mendigos fosse transferido para a casa das Angústias, mas estas indicações não foram aproveitadas, e muito mais tarde obtinha a Câmara, em virtude de uma representação feita em 17 de Maio de 1888, que lhe fosse cedida a Fortaleza do Pico pelo tempo de 10 anos para a instalação provisória das prisões, não chegando a aproveitar-se todavia deste favor do Governo por lhe haverem faltado os meios precisos para construir um edifício em condições de servir de cadeia da Comarca.
Pretendeu-se depois transferir a cadeia para o Lazareto de Gonçalo Aires (1897), para o Convento da Incarnação (1897), para a Fortaleza do Pico (1909) e para o Seminário do Bom Despacho (1910), mas tendo surgido obstáculos à realização de tais projectos, foram os presos continuando na casa do Largo da Sé, “esse terrível foco de infecção, esse cemitério de criaturas vivas como lhe chamava em 1847 o Conselheiro José Silvestre Ribeiro.
Foi somente depois da extinção do Hospital de S. Lazaro, em 5 de Junho de 1912, que pôde finalmente ser levado a efeito o velho projecto de dotar o Funchal com uma cadeia em boas condições. Tendo a Câmara Municipal resolvido que este estabelecimento fosse construído no terreno ocupado por aquele hospital, foi tal o empenho com que se tratou desde logo de dar execução a esta deliberação, chegando nos últimos tempos a trabalhar-se de noite para apressar a conclusão da obra, que em 29 de Novembro de 1913 eram os presos transferidos para a nova casa que lhes era destinada, iniciando-se nesse mesmo dia os trabalhos de demolição do velho prédio do Largo da Sé, onde durante perto de um século estivera acomodada a cadeia da Comarca.
Foi o Dr. Fernando Tolentino da Costa, vogal e depois presidente da Câmara Municipal do Funchal, quem maior interesse tomou pela construção da cadeia de S. Lazaro e pela demolição do edifício do Largo da Sé, sendo devido aos seus esforços e reconhecido zelo que esses dois melhoramentos puderam tão rapidamente ser levados a efeito. O publico festejou com algumas girandolas de foguetes a queda das primeiras pedras da velha casa da cadeia, tendo sido motivo de jubilo para toda a gente o desaparecimento de um edifício que, além de não preencher os fins a que o haviam destinado, desfeava bastante um dos pontos mais centrais da cidade.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 13-
O corregedor comunicou que a antiga cadeia do Funchal se encontrava em muito mau estado.
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O Senado da Câmara do Funchal tomou posse da casa no Largo da Sé.
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O corregedor instou à transferência da cadeia do Funchal para uma casa mais segura.
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A Câmara do Funchal deliberou construir uma nova cadeia com o produto da venda da antiga, mas o alcaide-mor recusou-se a contribuir.
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A antiga cadeia do Funchal foi vendida a José António Monteiro.
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O Defensor da Liberdade denunciou as condições da cadeia no Largo da Sé, no Funchal.
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Os presos regressaram do Convento de São Francisco à cadeia no Largo da Sé.
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A Câmara do Funchal deliberou transferir a cadeia para a Casa das Angústias, mas o Governo recusou.
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Foi aprovada uma segunda deliberação para transferir a cadeia do Funchal para a Casa das Angústias, mas não foi executada.
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José Silvestre Ribeiro propôs transferir a cadeia para o antigo Convento de São Francisco.
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A Câmara obteve a cedência da Fortaleza do Pico para servir de cadeia durante dez anos.
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A Câmara encerrou o Hospital de São Lázaro, libertando o terreno para a nova cadeia.
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Os presos foram transferidos para a nova cadeia no antigo Hospital de São Lázaro e começou a demolição do edifício da antiga cadeia no Largo da Sé, no Funchal.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Cadeia · Assunto
Funchal
Cadeia da comarca do Funchal. Funcionou primeiro numa antiga casa na Rua da Cadeia Velha, depois, durante quase um século, num edifício do Largo da Sé e, a partir de 1913, numa nova cadeia construída no local do Hospital de São Lázaro.
- Casa das Angústias
Funchal. Edifício, mais tarde convertido em asilo, proposto para instalar a cadeia em 1841 e 1845.
Edifício do Funchal datado de 1837. Foi proposto para instalação da Cadeia em 1841 e 1845 e, em dezembro de 1847, tornou-se a sede permanente do Asilo de Mendicidade.
- Convento da Encarnação
Funchal. Local proposto para a cadeia em 1897.
Convento do Funchal fundado pelo Cónego Henrique Calaça de Viveiros depois de 1508. A sua capela acolheu temporariamente a sede da paróquia, e em 1909 foi construído um novo edifício para o Seminário nos seus terrenos. Foi proposto como local para o hospital, o asilo e a Cadeia.
- Convento de São Francisco
Funchal. Os presos estiveram ali alojados por pouco tempo, até 1836.
O Convento de São Francisco foi um convento franciscano fundado no Funchal em 1473 e assinalava o limite ocidental da cidade em 1508. A sua igreja foi demolida em 1865, e os seus objetos, livros, lápides e ossadas foram para o cemitério das Angústias, o museu e a Biblioteca Municipal. Os edifícios albergaram presos durante um breve período, até 1836, e a polícia em 1857.
- Fortaleza do Pico
Funchal. Fortaleza cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para instalar a cadeia.
Fortaleza acima do Funchal, na freguesia de São Pedro, começada durante o domínio filipino (espanhol) e concluída após a Restauração, que contém a capela profanada de São João. Foi estabelecida como marco dos limites da cidade em 1809 e serviu durante muito tempo como local de reclusão: ali estiveram detidos o governador deposto em 1668, 16 presos da Alçada de 1828 e os presos trazidos do cúter Andorinha em 1844. Foi cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para servir de cadeia, mas o custo dessa utilização levou à transferência do projeto para São Lázaro.
- Funchal
Sede da comarca cuja cadeia é descrita.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Hospital de São Lázaro
Funchal. Hospital encerrado em 1912, em cujo local foi construída a nova cadeia.
O Hospital de São Lázaro situava-se no Funchal e talvez já estivesse construído em 1508. Tinha uma capela com a mesma invocação. Encerrou em 1912; no seu terreno foi construída a nova cadeia, já designada cadeia civil em 1921, e objetos provenientes do hospital foram levados para o Museu Arqueológico.
- Largo da Sé
Funchal. Largo onde a casa da Câmara serviu de cadeia durante quase um século.
Largo do Funchal onde se situava a casa de D. Guiomar, utilizada pela Câmara a partir de 1802 e, mais tarde, como cadeia. Ali foi construído, a partir de 1686, o hospital da Misericórdia; em 1822, foi lançada a primeira pedra de um monumento liberal, e ali foram queimados documentos constitucionais.
- Lazareto de Gonçalo Aires
Funchal. Local proposto para a cadeia em 1897.
O Lazareto de Gonçalo Aires é um edifício de quarentena na foz da Ribeira de Gonçalo Aires, cuja construção foi decretada em 1849. Foi convertido em hospital de isolamento para doentes com peste e saqueado por populares em 7 de janeiro de 1906. Mais tarde, serviu para internar deportados políticos, incluindo os de 1919, e residentes alemães durante a Grande Guerra.
- Rua da Cadeia Velha
Funchal. Rua em cuja extremidade sul se situava a antiga Cadeia.
Rua do Funchal que liga a Rua Direita ao largo da Igreja do Carmo. Recebeu o nome da antiga Cadeia da cidade, situada na sua extremidade sul; começa na Rua do Monteiro e confina com a Rua dos Medinas. Em 1508, existia ali um enorme til. Nela se encontra a grande casa da família Oliveira, do início do século XVIII.
- Seminário do Bom Despacho
Funchal. Local proposto para a Cadeia em 1910.
Local proposto para a cadeia em 1910.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07-
Antiga proprietária, juntamente com o marido, da casa do Largo da Sé penhorada por dívidas e ocupada pela Câmara em 1803.
- Fernando Tolentino da Costan. 1873
Vereador e, mais tarde, presidente da Câmara do Funchal, principal responsável pela construção da cadeia de São Lázaro e pela demolição da antiga.
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Corregedor que comunicou em 1768 que a antiga cadeia se encontrava em muito mau estado.
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Destinatário da carta de 1768 em que o corregedor descreveu o estado ruinoso da cadeia.
- João António Monteiro1769–1834
Comprou a antiga cadeia em 1824 por 3 600 000 réis.
- José Silvestre Ribeiro1807–1891
Governador civil do Funchal que, em 1847, propôs transferir a cadeia para o Convento de São Francisco e chamou à antiga cadeia «cemitério de criaturas vivas».
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Corregedor que, em 1811, defendeu a transferência da cadeia para uma casa maior e mais segura.