Hospital de S. Lazaro 1Origem e sustento do hospital
Hospital de S. Lazaro
História do Hospital de São Lázaro, hospital para leprosos no Funchal, provavelmente fundado no final do século XV, mantido pela Câmara Municipal e encerrado em 1912. O edifício passou depois a albergar a cadeia civil. O artigo regista também opiniões médicas sobre a lepra (elefantíase) na Madeira.
No estrangeiro
1Origem e sustento do hospital
Desconhecemos o ano em que foi estabelecido este hospital, mas tudo leva a crer que a sua instituição remonte aos fins do século XV. Em 25 de Julho de 1512 permitiu-se que a «casa da gaferia se mude a Santa Catarina e Santa Catarina a ella. . . . , resguardando o que compre aos encarreguos da dita casa de Santa Catarina», mas, segundo parece, o hospital de São Lazaro continuou no local onde o haviam estabelecido, não voltando a falar-se depois na sua transferência.
Em 1515 resolveu a Câmara do Funchal «que todollos que forem doentes do mall de sam lazaro se baoõ aa casa de s. lazaro...... & que os oficiaes a ruem as ruas & todollos que acharem que sam doentes do dito mall os faram logo yr a sam lazaro ou sayr fora da cidade». Resolveu mais a mesma Câmara que os servidores dos lazaros trouxessem umas tabuletas de madeira, para serem conhecidos, e que os lazaros achados na cidade, depois de lhes haver sido dado destino, fossem açoutados publicamente.
A princípio recebiam os leprosos a quantia de 30 reis diários para a sua alimentação, mas em 26 de Janeiro de 1641 passaram a ter o subsidio de 40 réis pago pela Câmara, subsidio que foi elevado a 80 réis no século XVIII e a 100 réis em 4 de Setembro de 1801.
A 24 de Abril de 1835 resolveu a Câmara fornecer directamente o alimento aos doentes do Hospital de S. Lazaro, devendo o vereador do respectivo pelouro apresentar mensalmente uma conta das despesas feitas com o mesmo alimento, e em 1910 regulavam as dietas dos enfermos por 145 réis diários, resolvendo a Municipalidade em sessão de 17 de Novembro conceder para o dito fim até a importância de 200 réis diários.
Uma provisão régia de 1685 confiou ao Governador Geral a administração dos lazaros, que estivera antes a cargo do bispo, mas pela provisão de 1693 passou a superintendência desses doentes para o juiz de fora, continuando as despesas com os mesmos a serem feitas pela Câmara do Funchal. Há um antigo diploma determinando que os lazaros «se fossem enviando para a ilha de Maio».
2A elefantíase e o hospital
O Dr. Julião Fernandes da Silva, autor da Carta Critica sobre o metodo curativo dos médicos funchalenses, atribuía os casos de elefantiase que desde o século XV se manifestam na ilha, ao uso do peixe salgado, das favas, do vinho azedo e do inhame acrescentando que as moléstias venéreas mal curadas e a supressão das hemorróidas, também podem originar aquela moléstia. Para aquele distinto medico do século XVIII, a elefantíase é contagiosa, devendo portanto haver «clausura para os que padecem a moléstia», mas o Dr. Barral, que escreveu em 1853, diz que embora a mesma moléstia seja hereditária em bastantes casos, nunca pareceu contagiosa na ilha. Muitos médicos modernos consideram a elefantíase moléstia contagiosa, mas conhecemos vários enfermeiros e enfermeiras do extinto hospital de S. Lazaro que, tendo privado durante anos com doentes afectados daquela terrível enfermidade, nunca tiveram nem a mais ligeira erupção cutânea.
«O hospital de S. Lazaro, diz o Dr. Barral, collocado no sítio de Santa Catharina, ao oeste da cidade, é uma pequena e antiga casa destinada a recolher doentes atacados de elephantiase, e sustentada pelo município. Contem vinte e seis doentes pouco mais ou menos, de ambos os sexos e de diferentes idades, e já tem asylado mais de trinta e quatro. Ali acham casa, cama, alimento, assistência de facultativo e remédios. O edifício como objecto de arte, a pesar de ter sido de seu princípio, destinado para este fim, é de péssima e insignificante construcção. É bem ventilado porque sempre é possível ter as janellas, ainda que pequenas, abertas, e reune as principais condições de salubridade. Não encontrámos ali cheiro nenhum infecto, posto que na divisão do sexo feminino os repartimentos e cortinas, que desaprovamos, poderiam muito contribuir para o haver. Os doentes ali asylados recebem uma alimentação suficiente e saudável e alguns remédios palliativos ou outros para combater os symptomas mais incommodos da moléstia, ou de doenças intercurrentes».
3Extinção do hospital
Em 5 de Junho de 1912 resolveu a Câmara, por proposta do Dr. Fernando Tolentino da Costa, extinguir o hospital de S. Lazaro, onde só existiam quatro doentes, pertencendo dois ao concelho do Funchal e dois ao da Ponta do Sol, e em 19 de Junho do ano imediato deliberava a mesma Câmara que a Cadeia Civil fosse instalada no edifício do hospital extinto, visto serem bastante onerosas as condições em que o Governo cedia provisoriamente a fortaleza do Pico para a acomodação dos presos.
Em 28 de Dezembro de 1912 procedeu o Presidente da Câmara ao arrolamento de todos os moveis e utensílios existentes em S. Lazaro, mas só em Fevereiro do ano imediato foram os dois leprosos, que a esse tempo estavam ainda no hospital, recolhidos num casebre á travessa do Cascalho, tendo-se pensado antes em remetê-los para o hospital de S. José ou para o da Universidade de Coimbra. As ultimas folhas do hospital de S. Lazaro pagas pela Câmara foram de despesas efectuadas no referido mês de Fevereiro.
Além do subsidio de 10.000 réis mensais concedido pelo Governo, tinha o hospital de S. Lazaro o rendimento de dois legados, sendo um de António Ferreira de Araújo Guimarães da cidade do Porto, e outro do Barão de Castelo de Paiva. Em 1912 a Câmara gastava a quantia de 1:693$000 réis com aquele estabelecimento, estando incluída nesta verba os ordenados dos empregados, na importância de 693$600 réis. Há uma provisão do bispo D. João do Nascimento, datada de 16 de Dezembro de 1748, autorizando a criação de uma confraria, com sede na igreja de S. Pedro, destinada a auxiliar a manutenção do hospital de S. Lazaro.
A terra para a igreja nova dos Lazaros foi comprada por 8:000 em 1665, e em 17 de Maio de 1779 ficou concluído um cemitério para enterramento dos doentes que morriam no hospital, visto se ter reconhecido que a mesma igreja não tinha capacidade para dar sepultura a todos eles. A instalação dos presos na cadeia de S. Lazaro teve logar em 29 de Novembro de 1913, a pesar de só em Fevereiro de 1915 terem sido arrematadas as obras de conclusão do edifício.
Em fins de 1890 e princípios de 1891 aplicou o Dr. Julio Goldschmidt a tuberculina de Koch em vários doentes do hospital de S. Lazaro, mas sem fazer suspender, em nenhum deles, a marcha da moléstia, da qual todos vieram a falecer. Os tuberculosos, em quem pela mesma época foi inoculada a referida tuberculina, também nenhuns resultados satisfatórios tiraram desse método de tratamento.
Nos últimos 30 anos, raras vezes albergou o hospital de S. Lazaro mais de dez leprosos, sendo a maior parte deles naturais dos concelhos da Ponta do Sol e Calheta. A elefantiase dos gregos é a mais frequente na ilha e aqueles que dela sofrem apresentam tubérculos ou ulcerações na cara, mãos, pernas, etc., tem uma respiração difícil e raras vezes atingem a idade de 50 anos, manifestando-se a moléstia quasi sempre entre os 15 e 25 anos. Dos doentes que conhecemos no hospital, quasi todos morreram repentinamente, em virtude da sufocação provocada por edema nos orgãos respiratórios.
Ao assunto deste artigo, oferece particular interesse o livro do Dr. Augusto da Silva Carvalho Historia da Lepra em Portugal, que contém um capítulo acerca do hospital de S. Lazaro do Funchal, o opúsculo do Dr. Julio Goldschmidt La Lèpre, incluindo as demoradas observações clinicas feitas por esse medico no referido hospital, e o Arquivo Historico da Madeira vol I-107 e seguintes, que encerra algumas valiosas notas referentes á sua historia.
No Diário de Noticias, do Funchal, de 12 de Março de 1937, publicou o Dr. Vicente Henriques de Gouveia um desenvolvido artigo epigrafado Haverá alguma relação entre o inhame e a elefantiase?, que oferece particular interesse aos que pretendem ter mais amplo conhecimento deste assunto.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 15-
Foi autorizada a transferência da gafaria do Funchal para Santa Catarina.
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A Câmara do Funchal ordenou o internamento de todos os leprosos em São Lázaro.
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A prestação aos leprosos do Hospital de São Lázaro foi aumentada para 40 réis.
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Foi comprado um terreno para a nova igreja do Hospital de São Lázaro.
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Provisões régias transferiram a administração dos leprosos e dos enjeitados para o governador-geral da Madeira.
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A superintendência do Hospital de São Lázaro passou para o juiz de fora.
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Foi autorizada uma confraria para apoiar o Hospital de São Lázaro.
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Foi concluído um cemitério para os doentes do Hospital de São Lázaro.
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A prestação no Hospital de São Lázaro foi aumentada para 100 réis.
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A Câmara começou a fornecer diretamente alimentos ao Hospital de São Lázaro.
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O Dr. Barral escreveu a sua descrição do Hospital de São Lázaro.
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Julius Goldschmidt experimentou sem sucesso a tuberculina de Koch nos doentes do Hospital de São Lázaro.
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A Câmara encerrou o Hospital de São Lázaro, libertando o terreno para a nova cadeia.
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Os presos foram transferidos para a nova cadeia no antigo Hospital de São Lázaro e começou a demolição do edifício da antiga cadeia no Largo da Sé, no Funchal.
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Foi publicado o artigo de Vicente Henriques de Gouveia sobre o inhame e a elefantíase.
Lugar
Lugares mencionados · 11- Hospital de S. Lazaro · Assunto
Funchal
O Hospital de São Lázaro era o hospital para leprosos do Funchal, provavelmente fundado no final do século XV e mantido pela Câmara Municipal. Encerrou em 1912, após o que o edifício passou a albergar a cadeia civil. O artigo regista também opiniões médicas sobre a lepra (elefantíase) na Madeira.
- Calheta
Local de origem de muitos doentes.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Coimbra
Portugal. O seu hospital universitário foi considerado para acolher os últimos doentes.
Cidade universitária de Portugal continental onde muitos madeirenses estudaram Direito ou Medicina e onde o Padre Luís Gonçalves da Câmara lecionou e foi reitor do colégio dos Jesuítas. Acolheu o campeonato académico de ténis de mesa de 1921, e os seus dados de dormência e pluviosidade são comparados com os do Funchal.
- Fortaleza do Pico
Funchal. Fortaleza cuja utilização como cadeia era dispendiosa, o que motivou a transferência para São Lázaro.
Fortaleza acima do Funchal, na freguesia de São Pedro, começada durante o domínio filipino (espanhol) e concluída após a Restauração, que contém a capela profanada de São João. Foi estabelecida como marco dos limites da cidade em 1809 e serviu durante muito tempo como local de reclusão: ali estiveram detidos o governador deposto em 1668, 16 presos da Alçada de 1828 e os presos trazidos do cúter Andorinha em 1844. Foi cedida em 1888 e novamente proposta em 1909 para servir de cadeia, mas o custo dessa utilização levou à transferência do projeto para São Lázaro.
- Funchal
A sua Câmara Municipal mantinha o hospital.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja de São Pedro
Funchal. Sede da confraria que apoiava o hospital.
A Igreja de São Pedro é uma colegiada da freguesia de São Pedro, no Funchal, onde o Padre Francisco de Castro foi vigário e Manuel Soares fundou uma capela. A sua sacristia alberga um tríptico de painéis classificados, sobre o qual escreveu o Visconde de Meireles e que Teixeira Gomes elogiou. Foi também sede da confraria que apoiava o Hospital de São Lázaro.
- Ilha do Maio
Cape Verde. Ilha de Cabo Verde para onde um antigo decreto mandava enviar os leprosos.
Ilha de Cabo Verde para onde um antigo decreto ordenava o envio de pessoas com lepra.
- Ponta do Sol
Concelho de origem de muitos doentes.
Vila e concelho da Ponta do Sol, na Madeira, centro açucareiro desde cedo elevado a vila em 1501. O Elucidário acompanha as alterações do seu território municipal e o seu papel como sede de comarca.
- Porto
Portugal. Cidade de origem de um benemérito.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- Santa Catarina
Funchal. Local a oeste do Funchal onde se situava o hospital.
Santa Catarina é uma elevação na freguesia de São Pedro, a oeste do Funchal, onde Zarco estabeleceu o seu primeiro povoado e construiu uma casa de madeira. Os seus campos, juntamente com os do Caniçal, foram apontados como os melhores terrenos de caça da Coroa, e ali se situava o Hospital de São Lázaro.
- Travessa do Cascalho
Funchal. Local onde os dois últimos leprosos foram alojados em 1913.
Local onde foram alojados os dois últimos leprosos em 1913.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 10-
Benemérito do Porto que deixou um legado ao hospital.
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Deixou um legado para apoiar o hospital.
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Médico que, em 1853, descreveu o hospital e considerou que a doença não era contagiosa na Madeira.
- D. Frei João do Nascimento1897–1753
Bispo que, em 1748, autorizou uma confraria para apoiar o hospital.
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Médico do século XVIII que atribuía a elefantíase à alimentação e a considerava contagiosa.
- Fernando Tolentino da Costan. 1873
Propôs à Câmara Municipal o encerramento do hospital em 1912.
- Julius Goldschmidtm. 1924
Médico que experimentou a tuberculina de Koch nos doentes em 1890–1891 e escreveu La Lèpre.
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Criador da tuberculina experimentada no hospital.
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Autor de Historia da Lepra em Portugal, obra com um capítulo sobre este hospital.
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Escreveu um artigo sobre o inhame e a elefantíase em 1937.