Calheta (Vila e Município da) 1Criação da vila
Calheta (Vila e Município da)
História da vila e do concelho da Calheta, no oeste da Madeira, criado por carta régia de 1 de julho de 1502, mais tarde sede de um condado concedido aos capitães do Funchal e reorganizado como concelho em 1835.
1Criação da vila
Data do meado do século XV a criação das vilas e municípios do Funchal, Machico e Porto Santo, sendo estas localidades as capitais das três capitanias em que foi dividido o arquipelago madeirense. A capitania do Funchal, e particularmente a sua sede, que era a vila do mesmo nome, tomou desde os tempos primitivos da colonização um notável incremento e cresceu rapidamente em prosperidades, formando-se dentro dela povoações importantes, que em breve atingiram grande desenvolvimento, impondo-se deste modo a necessidade da criação de municípios autónomos, para comodidade dos povos e boa administração dos negócios públicos. Foi o que aconteceu com a instituição das vilas e municípios da Ponta do Sol e da Calheta.
A primeira foi criada em 1501, e com bons fundamentos se conjectura que a segunda fosse criada aproximadamente pela mesma época. É para lamentar que não haja noticia do diploma que elevou a vila da freguesia da Calheta. O alvará régio que criou a vila da Ponta do Sol está tombado no arquivo municipal do Funchal, e também dele existe copia no arquivo da câmara daquela vila.
Acerca do diploma respeitante á Calheta, diz o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo: “Da carta que elevou o lugar da Calheta a Villa Nova da Calheta não existe registo na respectiva Câmara, porque os antigos paços do Concelho e archivo originário forão destruídos pelo mar, segundo o Presidente da mesma Câmara informa em oficio de 30 de outubro deste anno de 1871; também não está registada no archivo da Câmara do Funchal; e em nenhum dos manuscriptos que possuímos vem copiada. Só na Breve Noticia de Paulo Perestrello, pag. 54, achamos nota de que a Calheta fora feita villa em 1511, o que é manifesto erro, talvez typographico; porque do diploma infra se mostra que a Villa Nova da Calheta já o era em agosto de 1502”.
O Diploma infra a que aqui se faz referência, é uma resposta, datada de 16 de Agosto de 1502, contendo algumas instruções dirigidas pelo monarca á câmara municipal do Funchal.
Em vários escritos se alude á frase, que se tornou bastante conhecida - á sua muito amada villa da Calheta - e que se atribue ao rei D. Manuel I, numa carta dirigida á câmara deste município. Não conhecemos o documento em que essa frase vem exarada e nem podemos assegurar que ela seja de uma legitima autenticidade. A ser verdadeira, quereria certamente o monarca venturoso referir-se á distinta fidalguia desta vila ou município, pois é sabido que houve ali uma numerosa pléiade de nobres cavaleiros, muitos dos quais se distinguiram valorosamente em Africa, na Índia e no Brasil. Da predilecção de D. Manuel I pela vila da Calheta, existe uma prova eloquente no rico sacrario oferecido á sua igreja matriz e a que já nos referimos no artigo consagrado a esta freguesia.
2Condado, alfândega e instruções agrícolas
Desejando o monarca galardoar os serviços prestados pelo 5.º capitão-donatario do Funchal Simão Gonçalves da Câmara, e ainda honrar nele os feitos e acções heróicas dos seus maiores, e querendo também dar maior lustre á rica e importante casa de que ele era o representante, agraciou-o com o título de conde, pelo alvará régio de 20 de Agosto de 1576, sendo a vila da Calheta, pela sua importância e nobres tradições, escolhida para sede do novo condado. Este título, como noutro lugar se dirá, foi encorporado no marquesado de Castelo Melhor, sendo os respectivos titulares também condes da Calheta, até que o decreto de 15 de Outubro de 1910 aboliu todos os títulos nobiliarquicos.
E interessante o trecho de Gaspar Frutuoso, que em seguida transcrevemos, relativamente aos pontos que deixamos referidos:
Neste logar da Calheta, mais abaixo chegado a huma fermosa ribeira, se fundou a Villa, que tomou o nome da Calheta, a mais fértil de todas as da ilha, por ter mayor comarca. He esta villa tão nobre em seus moradores, como abastada pelos muitos e baratos mantimentos que nella se achão. Desta sahiram em companhia dos capitães do Funchal muitos e nobres cavalleiros a servir El-Rey á sua custa nos logares de Africa, e nos socorros que os capitães levaram: onde todos, além de darem mostras de suas pessoas, gastaram muito do seu, porque eram ricos, pelas grossas fazendas que neste termo ha, como a do Arco tão afamada, e outras, que andão agora divididas por diversos herdeiros. Esta Villa da Calheta e seu termo foi o condado do Illustrissimo Capitam Simão Gonçalves da Câmara, Conde desta Villa Nova da Calheta, como se dirá em seu logar”.
Como já vimos no artigo Alfândegas, foi esta vila sede duma pequena delegação aduaneira ou posto fiscal, como então se chamava, e ali se arrecadou primitivamente o imposto sobre o açúcar, que depois passou a ser cobrado na alfândega do Funchal. Houve na Calheta os cargos de quintador e escrivão dos quintos, cujas atribuições consistiam na aplicação dos tributos que recaíam sobre o açucar que ali se fabricava. Estes logares foram extintos por alvará régio de 30 de Julho de 1686.
Na câmara desta vila deixou o juiz de fora dr. Antonio Rodrigues Veloso de Oliveira exaradas umas instruções sobre cousas agrícolas, verdadeiramente notáveis para a época, e de que têm sido publicados vários trechos em alguns jornais madeirenses. “Versam, diz-se algures, sobre a cultura da vinha e outras plantas - o castanheiro nos baldios, as árvores de frutos nos logares abrigados, os algodoeiros junto ao mar, as amoreiras nas estradas e logares públicos, os pinhais nas terras incapazes de outra produção, os vegetais usados nas pharmacias, as searas de milho, a criação de gados, de prados artificiais, bardos de resguardo e outros alvitres”. Estas instruções ainda hoje se lêem com algum aproveitamento.
Na área deste concelho fica o conhecido e muito visitado sítio do Rabaçal, a que consagraremos um desenvolvido artigo.
3O concelho actual
O actual concelho da Calheta, criado em 1835, e o antigo município ou vila, não se diferenciam muito sensivelmente no que diz respeito á extensão das suas áreas. Desde 1835 até o presente, tem no entretanto tido algumas variantes, dalgumas das quais podemos dar noticia. Em 1849 foi suprimido o concelho do Porto do Moniz que também tinha sido criado em 1835, e as freguesias das Achadas da Cruz e Ponta do Pargo passaram a fazer parte do Concelho da Calheta, mas de novo estas paróquias se encorporaram no concelho do Porto do Moniz, quando este foi restaurado em 1855. O decreto de 26 de Junho de 1871 desagregou a freguesia da Ponta do Pargo do concelho do Porto do Moniz e anexou-a ao da Calheta. Em 1895 passou o concelho do Porto do Moniz, por uma nova supressão, sendo anexado aos concelhos da Calheta e S. Vicente, para novamente ser restaurado no ano de 1898.
Tem este concelho as freguesias da Calheta, Estreito da Calheta, Arco da Calheta, Prazeres, Jardim do Mar, Paul do Mar, Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo.
Como acima fica dito, a criação da vila da Ponta do Sol data de 1501, conjecturando o ilustre comentador das Saudades da Terra que a da Calheta teria sido em época aproximada á desse ano. Hoje pode precisar-se a data exacta dessa criação, depois que no ano de 1900 o dr. Damião Peres publicou uma segunda edição da obra de Gaspar Frutuoso, enriquecendo-a com algumas valiosas anotações. Numa delas, a pag. 118 e ss., vem integralmente transcrita a carta regia de 1 de Julho de 1502, que criou a vila da Calheta e que é documento sobremaneira interessante.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 11-
Por carta régia de D. Manuel I, Ponta do Sol foi elevada a vila e tornou-se sede de concelho.
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Por carta régia, a Calheta foi elevada a vila e tornou-se sede de concelho, reduzindo a área do concelho da Ponta do Sol.
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Uma resposta régia à Câmara do Funchal já se referia à Vila Nova da Calheta.
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Uma carta régia de D. Sebastião concedeu a Simão Gonçalves da Câmara, quinto capitão-donatário do Funchal, o título de Conde da Calheta, o primeiro título nobiliárquico conhecido na Madeira.
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Foram extintos na Calheta os cargos de quintador e de escrivão dos quintos.
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Uma nova organização administrativa atribuiu à Madeira dez concelhos, criando, entre outros, Câmara de Lobos, Santana (incluindo Porto da Cruz, apesar dos protestos de Machico), Porto Moniz, São Vicente e Calheta, e reorganizando o da Ponta do Sol; os limites do concelho do Funchal foram fixados no final do ano e o chefe do distrito passou a ser o governador civil.
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Um decreto extinguiu o concelho do Porto Moniz, cujas freguesias passaram para o da Calheta; o concelho foi restabelecido alguns anos depois.
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O concelho do Porto Moniz foi restabelecido, e a freguesia da Ponta do Pargo, entre outras, voltou a integrá-lo.
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Uma lei transferiu definitivamente a freguesia da Ponta do Pargo do concelho do Porto Moniz para o da Calheta.
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O presidente da Câmara Municipal da Calheta comunicou que o arquivo municipal tinha sido destruído pelo mar.
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Um decreto extinguiu o concelho do Porto Moniz pela segunda vez, anexando as suas freguesias aos concelhos da Calheta e de São Vicente; foi restabelecido em 1898.
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Uma edição da obra de Frutuoso publicou a carta régia da Calheta de 1502.
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Um decreto republicano aboliu os títulos de nobreza.
Lugar
Lugares mencionados · 16- Calheta · Assunto
A Calheta é uma vila e concelho no oeste da Madeira, criado por carta régia de 1 de julho de 1502. Mais tarde, tornou-se sede de um condado concedido aos capitães do Funchal e foi reorganizado como concelho em 1835.
- Achadas da Cruz
Porto Moniz. Freguesia que pertenceu por pouco tempo ao concelho da Calheta, entre 1849 e 1855.
Achadas da Cruz é uma pequena freguesia no extremo noroeste da Madeira, no concelho do Porto Moniz. Desenvolveu-se a partir de uma capela do século XVI e tornou-se freguesia independente em 1848. Mudou várias vezes de concelho: passou para o Porto Moniz em 1835, esteve brevemente integrada na Calheta entre 1849 e 1855 e voltou a pertencer à Calheta quando o concelho do Porto Moniz foi extinto em 1895. A sua fajã é o planalto mais pequeno e contém uma lagoa semelhante a uma cratera, com 66 m de largura; nela encontram-se gado em liberdade e Euphorbia mellifera. Entre os acontecimentos registados contam-se a ação do benfeitor Manuel de Pontes Câmara e o naufrágio do iate Varuna em 1909.
- Arco da Calheta
Calheta. Propriedade célebre citada por Frutuoso; freguesia do concelho.
O Arco da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás, cuja igreja conserva pinturas do século XVI. O Elucidário aborda os seus primeiros povoadores, como os Andrade, as propriedades açucareiras, as capelas, os morgadios, os tumultos de 1834 e 1887 e a irrigação pelas levadas do Rabaçal e do Pico da Urze.
- Estreito da Calheta
Calheta. Freguesia do concelho.
O Estreito da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, no oeste da Madeira, delimitada pela Ribeira de São Bartolomeu e pela Ribeira Funda. A sua igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça foi fundada pela família França, e o verbete aborda os primeiros proprietários, as capelas, os sítios, as escolas e a irrigação pela Levada Nova do Rabaçal; os Prazeres foram separados da freguesia em 1733.
- Fajã da Ovelha
Calheta. Freguesia do concelho.
A Fajã da Ovelha é uma freguesia do concelho da Calheta, no oeste da Madeira. Formou-se a partir da Capela de São Lourenço, e a sua nova igreja foi construída no século XVIII. É irrigada pela antiga Levada do Rabaçal, inclui o Pico da Fonte do Bispo nas suas zonas altas e é conhecida por produzir alguns dos melhores pêssegos da Madeira.
- Funchal
Sede da capitania da qual a Calheta foi separada.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Jardim do Mar
Calheta. Freguesia do concelho.
O Jardim do Mar é uma pequena freguesia situada numa fajã da costa sudoeste da Madeira, no concelho da Calheta, e pertenceu inicialmente à freguesia do Paul do Mar. A sua cura, criada no século XVIII, deu lugar a uma freguesia em 1848. A população construiu uma igreja de estilo gótico em 1906–1907. Ali cultiva-se a casta Malvasia, e mergulhadores apanham à mão cavacos nas suas águas.
- Machico
Uma das três sedes das capitanias originais.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Paul do Mar
Calheta. Freguesia do concelho.
O Paul do Mar é uma freguesia da costa sudoeste da Madeira, criada em 1676 a partir do Estreito da Calheta. É um porto de pesca servido pela antiga levada do Rabaçal, onde se cultiva malvasia e onde se assinalou uma incidência muito elevada de tracoma. Teve a fortaleza de Santo António, uma banda e salinas instaladas por volta de 1865, posteriormente abandonadas por falta de rentabilidade.
- Ponta do Pargo
Calheta. Freguesia anexada ao concelho da Calheta em 1871.
Ponta do Pargo é uma freguesia no extremo ocidental da Madeira, transferida do concelho de Porto Moniz para o da Calheta em 1871, onde um farol há muito reivindicado foi aceso pela primeira vez em 1922. É irrigada pela antiga levada do Rabaçal, cultiva a casta Sercial, dá nome a uma sub-raça de gado bovino branco e foi terra natal de Manuel da Costa Dias e João Pestana Júnior.
- Ponta do Sol
Vila criada em 1501, na mesma época que a Calheta.
Freguesia e concelho da costa sul, povoados a partir de cerca de 1440 por Rodrigo Enes «o Coxo». A igreja paroquial de Nossa Senhora da Luz conserva um tríptico. O Elucidário regista também o cais de 1848, pago pela Câmara Municipal, e a visita régia de 1858.
- Porto Moniz
Concelho vizinho, repetidamente extinto e restabelecido, o que alterou a área do concelho da Calheta.
Freguesia e concelho do noroeste, com um cais e um porto razoável que oferece boas condições de desembarque quando os ventos do sul impedem o acesso à Costa Sul. Tem uma das mais antigas capelas dedicadas a Santa Maria Madalena no norte da Madeira, cuja festa se celebra a 22 de julho. Foi a terra natal do Dr. Manuel Gomes Jardim.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito da carta régia desaparecida da Calheta.
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Rei de quem se diz que chamou à Calheta a sua «vila muito amada» e que ofereceu à sua igreja um rico sacrário.
- Damião Peresn. 1889
Editor de uma segunda edição da obra de Frutuoso que publicou a carta régia da Calheta de 1502.
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Juiz de fora que deixou instruções agrícolas dignas de nota nos registos da Câmara da Calheta.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista cuja descrição da Calheta é citada.
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Autor da Breve Notícia, que datou erradamente de 1511 a criação da vila da Calheta.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Quinto capitão-donatário do Funchal, feito Conde da Calheta em 1576.