Capitanias 1As capitanias e a do Pôrto Santo
Capitanias
Explica as capitanias, primeiras divisões administrativas dos territórios ultramarinos portugueses, e as três do Arquipélago da Madeira — Porto Santo, Machico e Funchal —, abordando as suas doações, privilégios, titulares e diferentes destinos.
1As capitanias e a do Pôrto Santo
No primitivo sistema de colonização, fazia-se a divisão territorial dos nossos dominios ultramarinos, para o efeito da sua administração publica, em provincias de maior ou menor extensão, a que então se dava o nome de capitanias, tendo estas por chefe ou autoridade suprema local o capitão-donatario, que em geral gozava de amplos poderes na direcção dos diversos negocios publicos. As primeiras capitanias das nossas descobertas e conquistas foram as do arquipelago madeirense, tendo uma a sua sede na ilha do Porto Santo e as outras duas em Machico e no Funchal.
A primeira compreendia apenas a pequena ilha do Pôrto Santo, tendo sido seu primeiro donatario Bartolomeu Perestrelo, que foi dela um dos mais antigos povoadores e, pode afirmar-se, o fundador da vila Baleira, capital da mesma capitania. Alguns autores têm caído no erro de considerar Perestrelo como navegador e até como descobridor do Pôrto Santo, levados a isso pela circunstancia de haver sido o seu primeiro donatario, o que nem sempre andava anexo ao facto da descoberta. A carta do infante D. Henrique, fazendo a doação da ilha do Pôrto Santo a Bartolomeu Perestrelo é de 1 de Novembro de 1446, isto é mais de vinte anos depois de começar a colonização do arquipelago. Devemos supor que Perestrelo se tivesse estabelecido no Pôrto Santo com todos os privilegios e regalias concedidos aos donatarios, e que a carta do infante D. Henrique fôsse apenas a confirmação legal e autentica desses privilegios. O mesmo devemos acreditar relativamente ás outras duas capitanias da Madeira. Na carta de doação diz o infante D. Henrique: “Eu dou carreguo a Bertholomeu Perestrello, fidalgo de minha casa da minha ylha de porto santo para que elle dito Bertholomeu perestrello ha mantenha por mim em Justiça & direyto & morrendo elle a mim praz que seu filho primeyro ou algum se tal for tenha este carreguo pella guisa suso dita y asy de decemdente em decemdente per linha dereyta... tenha... jurisdiçom... do ciuell & crime resalbando morte ou talhamento de membro... ” Nesta carta se faz menção de diversos direitos, regalias e isenções concedidas ao primeiro donatario, incluindo a arrecadação de varias contribuições e impostos. A capitania do Porto Santo esteve na posse e superintendencia dos descendentes de Bartolomeu Perestrelo até ao tempo em que o dominio filipino, com a nomeação dos governadores gerais, reduziu os donatarios do arquipelago a uma situação muito subalterna e quasi meramente honorifica, continuando, porém, a cobrar importantes rendas pelos primitivos privilegios que lhes tinham sido concedidos. Quando Portugal caíu sob o jugo castelhano, era Diogo Perestrelo Bisforte o 6º. capitão-donatario da ilha do Porto Santo.
2Capitanias de Machico e do Funchal
A ilha da Madeira foi dividida em duas capitanias, com as suas sedes no Funchal e Machico. Após a descoberta e para darem comêço á colonização e povoamento das suas terras, procederam sem demora os dois descobridores á divisão e delimitação delas, fixando-se uma linha divisoria que partindo da Ponta da Oliveira ia terminar na Ponta do Tristão. Diz Frutuoso: “... Ponta de Oliveira, onde se plantou uma balisa da repartição das duas capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente, e a do Funchal ao Poente, e por ela dizem que vai a demarcação da borda do mar ao Sul até a outra banda do Norte”, acrescentando em outro logar “...vem sahir a outra ponta da banda do sul, em que se fincou um ramo ou pao de oliveira, que viera do Reino, por balisa desta jurisdição, donde ficou á ponta o nome Ponta da Oliveira ... ”
É datada de 8 de Maio de 1440 a carta de doação da capitania de Machico a Tristão Vaz pelo infante D. Henrique, dizendo nela o doador que “dou carreguo a Tristão caballeyro de minha casa na minha ylha da madeyra de a terra dees de além da ribeyra do Caniço dez passos como se bay pella ribeyra acima & de hi atrabeçar a serra ate a ponta de Tristam... ”. Este diploma é concebido em termos identicos á carta da concessão passada a favor de Bartolomeu Perestrelo, sendo seis anos mais antigo do que o outro. Cabe aqui a observação que já fizemos acêrca da doação do Pôrto Santo, devendo supor-se que em 1440 se deu apenas a confirmação de direito, mas que já muito anteriormente existia ela de facto. O filho, neto e bisneto de Tristão Vaz sucederam na capitania, sendo o ultimo, por nome Diogo Teixeira, destituído dela, por falta de capacidade para a governar, tendo muito tempo depois morrido no Funchal, no ano de 1540. Em 1541 deu o monarca a capitania a Antonio da Silveira, que muito se distinguiu na India, tendo-a anos depois vendido ao conde de Vimioso, passando depois a seu filho Francisco de Portugal, que morreu num combate naval nos mares dos Açôres, revertendo em seguida esta donataria á posse da coroa. No dominio castelhano foi Tristão Vaz da Veiga (V. este nome) investido no logar de capitão-donatário de Machico.
É na carta regia de 16 de Agôsto de 1461, em que D. Afonso V confirma a doação do arquipelago de Madeira a seu tio o infante D. Henrique, publicada a pag. 451 e seguintes das Saudades da Terra, que vem inserto o diploma que faz a concessão da capitania do Funchal a João Gonçalves Zarco e que tem a data de 1 de Novembro de 1450. As doações das capitanias do Porto Santo, Machico e Funchal são respectivamente de 1446, 1440 e 1450, causando bastante estranheza que a de mais recente data seja a do Funchal e ainda posterior á do Pôrto Santo, quando muitas razões aconselham a supor que a concessão feita a Gonçalves Zarco tivesse sido de tôdas a mais antiga. Não sabemos explicar o facto, acêrca do qual guarda o erudito anotador das Saudades o mais completo silencio.
Os privilegios e regalias concedidos a João Gonçalves Zarco pela doação da capitania do Funchal, não diferem essencialmente dos das outras capitanias. Quanto a impostos e contribuïções que os donatarios podiam arrecadar em proprio proveito, fazem as cartas de doação menção dos seguintes: só eles podiam ter moinhos ou azenhas para a moenda dos cereais; todas as serras de agua lhes pagariam um marco de prata anual; aos donatarios pertencia o exclusivo de venda do sal; ninguém podia ter fornos ou fabricas de pão, senão para uso domestico; pertencia-lhes o dizimo das rendas reais, e podiam conceder terras de sesmaria em condições que os diplomas de doação não determinam. Além disso, tinham a superintendencia sôbre todos os negocios de administração publica e julgavam e sentenciavam em todos os crimes, com excepção das causas de morte e talhamento de membros. (V. Donatarios).
3Prosperidade das capitanias
A capitania do Pôrto Santo nunca chegou a atingir um grau elevado de prosperidade. A exiguïdade do meio, o abandono a que foi votada pela metropole desde os tempos primitivos da colonização, os freqüentes assaltos dos piratas, a má administração de alguns donatarios e governadores, a enfatuada prosápia de muitos dos seus habitantes, que desdenhavam o trabalho por serem descendentes de antigos fidalgos, a indolencia dos seus moradores, determinada por condições climatericas e ainda por outras causas, tudo isso concorreu notavelmente para o pequeno desenvolvimento desta donataria (V. Quintos e Oitavos).
A capitania de Machico, em condições bem diferentes das do Porto Santo, desenvolveu-se com rapidez e cresceu notavelmente em prosperidades, mas que não foram de larga duração. Quando o Funchal se foi a pouco e pouco tornando o notavel emporio comercial do arquipelago, o centro da grande actividade dos seus habitantes, o ponto de atracção de tantos forasteiros nacionais e estrangeiros, a côrte da fidalguia madeirense, que abandonou as suas terras e solares para levar a vida apetecida e enervante das povoações populosas, etc., começou então a donataria de Machico a decair das prosperidades a que chegara, e dentro de pouco perdeu tôda a importancia que tivera como centro comercial, industrial e agricola. É bem expressivo e eloquente o que a tal respeito diz Gaspar Frutuoso:
...e tambem por sua morte (o donatario D. Francisco de Portugal, que morreu pouco depois de 1580) vagou esta capitania e ficou á coroa, e em tal estado esteve, que não se achava nesta populosa jurisdição de Machico pessoa que boamente pudesse sustentar hum cavallo, excepto duas ou tres pessoas. Toda esta grandeza se converteo em pobreza; e foi hum sonho passado para os trabalhos que depois padeceo toda a gente desta tão nobre geração, e tão prospera Capitania: e, se tudo sobejou aos progenitores, bem o pagaram depois os descendentes, que estão postos no extremo gráo da pobreza, porque nunca foi cousa subeja, que por tempo não faltasse. Estas voltas dá o mundo, em que tanto confiamos, sem jamais nos acabarmos de desenganar de seus enganos.
Somente a capitania do Funchal é que rapida e progressivamente se desenvolveu com notavel incremento, e dentro de pouco tempo atingiu um grau de prosperidade verdadeiramente extraordinario, sendo a sua capital feita vila em 1451, cidade em 1508 e sede de bispado em 1514.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
O Infante D. Henrique doou a Capitania de Machico a Tristão Vaz.
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O Infante D. Henrique doou por carta a Capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo.
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O Infante D. Henrique doou a João Gonçalves Zarco a Capitania do Funchal.
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D. Afonso V elevou o Funchal à categoria de vila; Machico e a Baleira (Porto Santo) terão sido elevadas a vilas e concelhos por volta da mesma época.
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D. Afonso V confirmou a doação da Madeira e a concessão da capitania a Zargo.
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Por carta régia, D. Manuel I elevou o Funchal à categoria de cidade, a primeira dos domínios ultramarinos de Portugal.
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A bula Pro excellenti praeeminentia, do Papa Leão X, criou a diocese do Funchal, pondo fim à supremacia espiritual da Ordem de Cristo; a igreja tornou-se catedral, D. Diogo Pinheiro foi nomeado primeiro bispo e Frei Nuno Cão primeiro deão.
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Diogo Teixeira, capitão deposto de Machico, morreu no Funchal sem herdeiro legítimo, e a capitania reverteu para a Coroa.
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D. João III doou a Capitania de Machico a António da Silveira (uma entrada indica 1542).
Lugar
Lugares mencionados · 10No estrangeiro
- Açores
Portugal. Águas onde D. Francisco de Portugal morreu em combate.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Funchal
Sede da capitania do Funchal; mais tarde, cidade e sede de bispado.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Índia
India. Local onde António da Silveira se distinguiu.
A Índia é referida como o lugar onde serviram vários madeirenses, entre eles Lopo de Abreu, Pedro da Silva e o vice-rei João Saldanha da Gama. A fama dos construtores de levadas madeirenses chegou até lá. É a região de origem de plantas cultivadas na Madeira, entre as quais a mangueira, a Hedychium gardnerianum, a balsamina e a maioria dos bambus.
- Machico
Sede da capitania de Machico.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Ponta da Oliveira
Santa Cruz. Extremo sul da fronteira entre as duas capitanias da Madeira.
A Ponta da Oliveira é uma ponta na costa do Caniço, na Madeira, assim chamada por causa de uma estaca de oliveira ali colocada como marco de delimitação. Era a extremidade sul da linha que separava as capitanias do Funchal e de Machico e o limite sul do concelho original do Funchal. Tem um pequeno porto, com um cais construído em 1909.
- Ponta do Tristão
Porto Moniz. Extremo norte da fronteira entre as capitanias.
A Ponta do Tristão é um promontório no noroeste da Madeira que assinalava o extremo norte da fronteira entre as capitanias do Funchal e de Machico e o limite ocidental da Costa Norte. Assinalou o fim da primeira exploração dos descobridores, e a sua área só recentemente foi explorada do ponto de vista botânico, tendo sido encontradas várias plantas dignas de nota. As notas situam-na ora em Achadas da Cruz, ora na freguesia de Porto Moniz.
- Porto Santo
Sede de uma das três capitanias.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Ribeira do Caniço
Santa Cruz. Ribeira mencionada na doação de Machico como limite da capitania.
Ribeira da freguesia do Caniço que nasce na Camacha. Serviu de fronteira entre as capitanias do Funchal e de Machico, sendo mencionada como limite na doação de Machico. Marcou também o limite oriental do concelho do Funchal no século XV e um dos limites da sesmaria dos Ornelas.
- Vila Baleira
Porto Santo. Capital da capitania de Porto Santo, fundada por Perestrelo.
Vila Baleira, a vila do Porto Santo, situa-se numa das duas pequenas planícies da ilha, não longe do Pico do Castelo; o seu porto fica a cerca de 41 milhas do Funchal. Foi a sede da capitania do Porto Santo, fundada por Bartolomeu Perestrelo, que ali morreu. Nela encontram-se a Capela da Misericórdia e o sítio da Fontinha, e Noronha realizou ali observações meteorológicas entre 1900 e 1902.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 12-
Distinguiu-se na Índia; recebeu a Capitania de Machico em 1541 e vendeu-a mais tarde ao Conde de Vimioso.
- Bartolomeu Perestrelom. 1457
Primeiro capitão-donatário de Porto Santo (doação de 1446) e fundador de Vila Baleira.
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Comprou a capitania de Machico a António da Silveira.
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Rei que, em 1461, confirmou a doação da Madeira ao Infante D. Henrique.
- D. Francisco de Portugalm. 1582
Filho do Conde de Vimioso e capitão de Machico, morto numa batalha naval ao largo dos Açores, após a qual a capitania reverteu para a Coroa.
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Sexto capitão-donatário de Porto Santo quando Portugal passou para o domínio castelhano.
- Diogo Teixeiram. 1540
Bisneto de Tristão Vaz, afastado da capitania de Machico por incapacidade; morreu no Funchal em 1540.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor de Saudades da Terra, citado a propósito da delimitação das capitanias e do declínio de Machico.
- Infante D. Henrique1394–1460
O Infante D. Henrique, senhor do arquipélago, que concedeu as três capitanias.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira a quem foi concedida a capitania do Funchal em 1450.
+ 2 mais
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Codescobridor da Madeira a quem foi concedida a capitania de Machico em 1440.
- Tristão Vaz da Veigam. 1604
Investido como capitão-donatário de Machico durante o domínio espanhol.