Vaz (Tristão) 1O apelido Teixeira
Vaz (Tristão)
Biografia de Tristão Vaz, companheiro de João Gonçalves Zargo no descobrimento da Madeira e primeiro capitão-donatário de Machico. Defende que nunca usou o apelido Teixeira, transmitido aos seus descendentes pela mulher, Branca Teixeira.
1O apelido Teixeira
É Tristão Vaz o conhecido e intrépido companheiro de João Gonçalves Zargo no descobrimento deste arquipélago. Compartilhamos da opinião do ilustre anotador das Saudades quando afirma que o apelido de Teixeira aposto ao nome de Tristão Vaz foi um acrescentamento feito pelos cronistas, devido certamente á circunstancia da descendência do navegador ter usado aquele apelido, que provém de Branca Teixeira, mulher de Tristão Vaz. A carta de doação da capitania de Machico, datada de 1440, diz apenas Tristão, e assim também o chama Gomes Eanes de Azurara, o mais antigo cronista que se ocupou do nosso arquipélago e que escreveu a sua crónica por 1453. João de Barros, por meados do século XVI, e Damião de Góis, aproximadamente pela mesma época, isto é um século depois da morte do ilustre descobridor, dão-lhe o nome, o primeiro de Tristão Vaz e o segundo de Tristão Vaz Teixeira, sendo esta a primeira ocasião em que aparece o apelido Teixeira.
É interessante transcrever sobre o assunto, uma das notas á obra de Frutuoso: «Além de Antonio Cordeiro e de José Soares da Silva, também Damião de Gois e Antonio Galvão deram ao primeiro capitão donatario de Machico o nome de Tristão Vaz Teixeira.–Temos isto por manifesto equivoco, derivado das mesmas causas apontadas em referência áquelles dois primeiros escriptores. Todos quatro foram posteriores á adopção do appellido materno Teixeira pelos descendentes de Tristão Vaz de que se fala nas Saudades e confundiram este com esses descendentes. Porque, que Tristão Vaz não tomou o appellido de Teixeira, nem por elle era designado, provam-no:
- 1.° a carta de doação da capitania de Machico, que lhe não menciona esse appellido
- 2.° a Chronica de Guiné, por Gomes Eannes de Azurara, único escriptor contemporâneo de Tristão Vaz, e que ahi só Tristão, e Tristão da Ilha lhe chama
- 3.° o testamento deste, citado por Frutuoso, onde também não apparece o appellido Teixeira
- e 4.° finalmente, as praxes da avoenga, contra as quaes seria o facto do marido adoptar o appellido da família da mulher.
«Mas, fossem todas estas razões inefficazes; prevalecesse o dito de Goes, Galvão, Cordeiro e Soares da Silva ao de Fructuoso, ao testemunho de Azurara, á authentica prova resultante da carta de doação, e ás ideias e costumes da epocha; chamasse-se Tristão Vaz Teixeira o primeiro donatario de Machico; por isso mesmo, a rubrica do Cancioneiro de Resende «Tristão Teixeira, capitão de Machico» não alludiria áquelle. Falta-lhe o Vaz, appellido que todas as autoridades, favoráveis ao de Teixeira, antepõem a este. Nenhuma dellas tracta por Tristão Teixeira o primeiro donatario de Machico. Esta, não apposição, mas substituição de appellido só apparece nos descendentes de Tristão Vaz, como se vê nas Saudades da Terra, na Historia Insulana, e nos Nobiliarios madeirenses.
«Portanto, e pelo mais que dito fica nos lugares a que damos este additamento, estamos convencidos de que Tristão Vaz, primeiro donatario de Machico, não tomou o appellido Teixeira, e de que o poeta a que se refere a rubrica do Cancioneiro de Resende fora Tristão Teixeira, das Damas, segundo donatario».
2Nobreza e condição
Na carta em que o infante D. Henrique faz doação duma parte considerável da Madeira a Tristão Vaz, chama a este navegador cavaleiro de minha casa, e Azurara, na Chronica da Guiné, diz que os dois descobridores deste arquipelago eram «escudeiros nobres de criaçam daquelle senhor, os quaes requererom que os avyasse como podessem fazem de suas honras». Destas palavras se conclui, diz o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo «que Tristão não era pessoa de baixa condição, mas escudeiro nobre e honrados.» Outra presunção da nobreza de Tristão Vaz é o ter casado com Branca Teixeira, senhora de uma das primeiras famílias do reino, e de já com ela casado e com filhos vir para a ilha da Madeira, antes de lhe ser dada a capitania de Machico, o que mostra que o casamento não foi alcançado por causa desta mercê.
«Este capitão de Machico, Tristam, diz Frutuoso, foi tão estremado por seu esforço naquelle tempo em que servia ao Infante D. Henrique, que comummente lhe chamavam Tristam, sem mais sobrenome, por honra de sua cavallaria; porque El-Rey, por elle ser tal, lhe deo na cavallaria por armas em campo azul uma ave Phenix; e assi como esta ave he uma só no mundo, assi elle era hum só cavalleiro de seu nome Tristam. Isto davam a demonstrar muitas provisões e cartas que El-Rey lhe escrevia e os Infantes, e sempre o nomeavam por Tristam da Ilha, Cavalleiro de sua Casa; e elle em seu testamento assi se nomeia, sem mais ornato de cognome; porque desta maneira se divisava em suas armas, que eram (como tenho dito) uma ave Phenix a qual seus descendentes sempre trouxeram em suas armas, quarteadas com outras, que ajuntaram da parte feminina dos Teixeiras, que são huma cruz aberta e huma flor de liz, que hoje estão esculpidas no arco da sua capella, S. João Baptista, que está na igreja mor de Machico.»
Devemos no entretanto lembrar aqui, como já em outro lugar notámos, que o nome de João Gonçalves Zargo vem sempre, nas antigas crónicas e nos velhos nobiliários madeirenses, rodeado duma auréola de mais prestigio e de mais elevada consideração do que o de Tristão Vaz, fazendo-nos acreditar que o primeiro descobridor, pelas suas qualidades pessoais, pela sua posição social ou ainda por assinalados serviços anteriormente prestados teria conquistado os direitos de primazia e de superioridade que o antepunham ao seu companheiro de descobrimento. Escreve o Dr. Gaspar Frutuoso: «A escriptura que tem os herdeiros de João Gonçalves diz que elle foi o principal neste feito (a descoberta), e, nomeando Tristão Vaz por Tristão da Ilha, como El-Rey e o Infante em suas provisões e doações o nomearam, como pessoa menos principal, e nam de tanta edade, nem calidade como João Gonçalves». E em outro lugar diz ainda o historiador das Ilhas, referindo-se á primeira colonização: «mandou dous capitães com João Gonçalves, que eram Bartholomeu Perestrello, que havia de ficar no Porto Santo, e Tristam, cavalleiro da casa do Infante, que ambos vinham debaixo da bandeira do dito João Gonçalves Zargo ( ainda que não faltão muitos que outra cousa digão)...»
3Vida, capitania e morte
Conjectura-se que Tristão Vaz tivesse nascido nos últimos anos do século XIV. Militou em África e ali foi armado cavaleiro pelo Infante D. Henrique, a cuja casa pertencia, sendo um dos seus escudeiros fidalgos, como já fica referido.
Feito o descobrimento da ilha da Madeira, cuja narrativa sumaria se encontra em outro lugar, diz o autor das Saudades que Tristão Vaz, acompanhado de sua mulher e filhos, se estabeleceu nesta ilha no mês de Maio de 1425. Procedeu-se em seguida, entre ele e Gonçalves Zargo, á divisão da Madeira em duas capitanias, delimitando-se a esfera de jurisdição dos dois capitães-donatarios, como já fica referido nos artigos Donatários, Capitanias, Capitania de Machico e Ponta da Oliveira, para onde remetemos o leitor, afim de evitar desnecessárias repetições. Também nesses artigos nos referimos sumariamente á administração de Tristão Vaz como capitão-donatario, a qual parece ter deixado bastante a desejar.
Pelo castigo que infligiu a Diogo Barradas, (volume I, pagina 128), foi chamado á corte pelo monarca e entregue á acção da justiça, sendo condenado a degredo para a ilha de São Tomé, onde permaneceu algum tempo. A sua posição social, os serviços prestados e as influências que se moveram em seu favor, restituíram-no á posse da capitania de Machico.
«Por certos negócios que tinha no Algarve, diz Frutuoso, se foi este Tristam, primeiro capitão, a Silves, onde falleceu da vida presente, deixando povoada a sua jurisdição com filhos e filhas, e tão nobre geração, como ficou delle, tendo de sua idade mais de oitenta annos dos quais governaria cincoenta, pouco mais ou menos».
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 03Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Algarve
Portugal. Região onde tinha negócios à data da sua morte.
O Algarve é uma região de Portugal Continental de onde vieram muitos dos primeiros povoadores da Madeira, nomeadamente de Boliqueime, e provavelmente gado. Zarco vigiou a sua costa como capitão, e Bartolomeu Perestrelo morreu ali. Simão Gonçalves da Câmara aportou ao Algarve durante a sua viagem interrompida para Espanha.
- Igreja Matriz de Machico
Machico. Igreja que alberga a sua capela de São João Baptista, em cujo arco figuram as armas da sua família.
Igreja Matriz de Machico, onde se conservam as alegadas relíquias da cruz de Machim e onde foi também restaurado um órgão oferecido por D. Manuel I em 1499. Contém a capela de São João Baptista de Tristão Vaz, cujo arco ostenta as armas da sua família.
- Machico
Sede da capitania concedida a Tristão Vaz.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Ponta da Oliveira
Santa Cruz. Ponta ligada à linha divisória entre as duas capitanias.
A Ponta da Oliveira é uma ponta na costa do Caniço, na Madeira, assim chamada por causa de uma estaca de oliveira ali colocada como marco de delimitação. Era a extremidade sul da linha que separava as capitanias do Funchal e de Machico e o limite sul do concelho original do Funchal. Tem um pequeno porto, com um cais construído em 1909.
- Porto Santo
Ilha atribuída a Perestrelo.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- São Tomé
São Tomé and Príncipe. Ilha para onde Tristão foi desterrado.
São Tomé é uma ilha fora de Portugal cuja diocese se tornou sufragânea da Sé do Funchal. Tristão Vaz foi ali desterrado, o Dr. José Júlio Rodrigues visitou-a em 1885 para estudar a quinina, o Dr. Júlio Augusto Henriques realizou ali uma viagem científica e o Dr. Fernando Tolentino da Costa exerceu medicina na ilha.
- Silves
Portugal. Cidade do Algarve onde Tristão morreu.
Cidade e antiga sede da diocese do Algarve, em Portugal. O Elucidário regista que Henrique Moniz foi seu alcaide-mor e que Tristão Vaz e D. Jerónimo Barreto ali morreram.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 15-
Codescobridor da Madeira e primeiro capitão-donatário de Machico, que morreu em Silves.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, cuja opinião sobre o apelido e a nobreza de Tristão é seguida.
- António Cordeiro1641–1722
Autor da Historia Insulana, que lhe atribuiu erradamente o apelido Teixeira.
-
Cronista que também lhe atribuiu o apelido Teixeira.
- Bartolomeu Perestrelom. 1457
Capitão enviado para Porto Santo sob a bandeira de Zargo.
-
Mulher de Tristão Vaz, de quem os seus descendentes herdaram o apelido Teixeira.
-
Cronista do século XVI e o primeiro a chamar-lhe Tristão Vaz Teixeira.
-
Homem cujo castigo por Tristão levou ao julgamento e desterro deste.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Autor de Saudades da Terra, citado repetidamente a propósito da vida de Tristão.
-
Cronista da Guiné do século XV e único autor contemporâneo a mencionar Tristão, a quem chama apenas «Tristão».
+ 5 mais
- Infante D. Henrique1394–1460
Infante D. Henrique, que armou Tristão cavaleiro e lhe concedeu a Capitania de Machico.
- João de Barros1496–1570
Cronista do século XVI que lhe chamou Tristão Vaz.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira e capitão do Funchal, considerado de posição superior à de Tristão Vaz.
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Autor que, segundo o Elucidário, lhe atribuiu erradamente o apelido Teixeira.
-
Segundo capitão-donatário de Machico, que se julga ser o poeta mencionado no Cancioneiro de Resende.