Incêndio no tempo de Zargo 1As fontes e o relato de Frutuoso
Incêndio no tempo de Zargo
Aborda o incêndio ateado por João Gonçalves Zarco para desbravar as florestas da Madeira, que, segundo os cronistas, terá durado sete anos; o Elucidário aceita-o como facto histórico, mas circunscreve-o ao vale do Funchal e à Costa Sul. Refere ainda as grandes exportações de madeira para Portugal que se seguiram.
1As fontes e o relato de Frutuoso
O incêndio das matas da Madeira no tempo de Zargo, o primeiro donatário do Funchal, é um acontecimento a que se referem João de Barros, Frutuoso, Antonio Cordeiro, Manuel Tomás e outros autores, e que também foi perpetuado pela tradição. Refere Ferdinand Denis que um antigo viajante francês conheceu um velho marinheiro a quem uma testemunha ocular contara o incêndio da ilha da Madeira, e segundo o erudito anotador das Saudades da Terra, no Arquivo da Torre do Tombo, Livro das Ilhas, folhas 84, está a pública-forma de um breve apostolico do Pontífice Paulo II, com data de 1469, em que manifestamente se alude ao mesmo incêndio. Gaspar Frutuoso, o historiador das ilhas, dá conta nos termos seguintes, do incêndio no sertão da Madeira: «Daqui acordou o capitam (João Gonçalves Zargo), vendo que se não podia com o trabalho dos homens desfazer tanto arvoredo que estava nesta ilha desde o princípio do mundo ou da feitura della, e para o consumir, e se lavrarem as terras e aproveitar-se dellas era necessário por-lhe o fogo; e como quer que, com o muito arvoredo e pela muita antiguidade, estava delle derribado pelo chão, e delle seco em pee, apegou o fogo de maneira neste valle do Funchal, que era tão bravo que, quando ventava de sobre a terra, não se podia soffrer a chama e quentura delle, e muitas vezes se acolhia a gente aos ilhéus e aos navios até o tempo se mudar; e, por ser o valle muito espesso assi de muito funcho, como de arvoredo, atiou-se de maneira o fogo, que andou sete anos apegado pelas árvores, e troncos e raizes debaixo do chão, que se não podia apagar, e fez grande destruição na madeira assi no Funchal, como em o mais da ilha ao longo do mar na costa da banda do sul, onde se determinou roçar e aproveitar».
D. Francisco Manuel de Melo, referindo-se ao incendio da Madeira, diz na Epanaphora III o seguinte: «He força que duvide do incêndio que (Barros) affirma durou sete anos por toda a ilha. Ao que, parece, implicão os bosques que sempre nella permanecerão, dos quaes ha tantos anos, se cortão madeiras, para fabrica de assucares: de que dizem chegou a haver na Ilha, cento & cincoenta ingenhos; que mal poderião continuamente sustentarse, depois de hum incêndio tão universal, & menos produzir-se depois delle: mas fique sempre salvo o credito de tal Autor».
2Extensão do incêndio
Os argumentos de Melo têm um certo valor para mostrar que o incêndio da Madeira nem durou sete anos, nem se estendeu a todos os pontos da ilha, havendo ainda a acrescentar que se ele tivesse sido geral, como pretendem alguns escritores, não poderia Cadamosto, que também se refere ao sinistro, dizer em 1455 (?) que o nosso país produzia madeiras muito apreciadas, entre as quais sobressaíam o cedro e o teixo. É ainda de advertir que para o fogo durar sete anos consecutivos em matas constituídas especialmente por essências folhosas seria preciso que durante esse longo espaço de tempo não caíssem na ilha nenhum desses violentos aguaceiros que, ainda hoje, a pesar das chuvas serem muito menos abundantes do que outrora, inundam os vales do interior e dão origem a torrentes que se despenham em catadupas do alto das serranias.
Não padece duvida que muitas matas do vale do Funchal e de outros pontos da costa sul da ilha foram destruídas pelo fogo, mandado lançar imprudentemente por João Gonçalves Zargo para o fim de arrotear as terras, mas admitir que esse fogo, ateando-se rapidamente e saltando de arvore em arvore, chegou a atingir toda a ilha, parece-nos fantasia própria da imaginação opulenta de Manuel Tomás e de outros antigos escritores. Do trecho das Saudades da Terra que deixámos transcrito, não se depreende que o incendio fosse geral, e João de Barros, o primeiro historiador que noticiou o sinistro, circunscreve-o á parte da ilha da Madeira «onde se ora chama Funchal», acrescentando, porém, «que o fogo tomou posse da roça & do mais aruoredo, que sete anos andou viuo no brauio daquellas grandes matas que a natureza tinha criado auia tantas centenas de anos».
Diz o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo que tendo sido a parte sul da ilha «precisamente a cultivada e habitada logo depois do descobrimento, é possivel, não só que ahi fossem pouco a pouco roteados os terrenos por meio de incendio das matas virgens, systema que ainda hoje, por falta de braços, por outras rasões agricolas e economicas, e por necessidade de momento, se emprega nos sertões americanos, mas tambem que a estes roteamentos pelo fogo se fosse recorrendo nos septe primeiros annos, sem que disso poucos tempos depois se achassem resquicios. O sul da ilha da Madeira foi o primeiro explorado e habitado, e é a zona mais productiva. Curto periodo fôra preciso para que o trabalho do homem ahi extinguisse os signais de devastação. E limitado o incendio a uma parte da ilha somente, os argumentos em contrario perdem a força. Mello mesmo duvida não tanto do incendio, quanto de que este fosse tão universal».
Reduzido o sinistro ás proporções que lhe atribue o dr. Azevedo, não há motivo para que deixemos de aceitá-lo como verdade historica, tanto mais que, como diz o mesmo escritor, ele se acha autenticado pela clara alusão do Breve Apostolico, que é quasi contemporaneo. Foi um êrro, não resta duvida, mandar lançar fogo aos arvoredos, em vez de os decepar a machado, mas desse erro não resultou felizmente o completo aniquilamento das mesmas matas, como já atrás se viu.
3Exportação de madeiras
O incêndio fez crescer a fertilidade do solo madeirense, que era ainda maravilhosa ao tempo em que Cadamosto visitou esta ilha, mas não mereceu a aprovação do infante D. Henrique, que nos primeiros tempos da povoação tirava, segundo parece, das madeiras que eram levadas para Portugal, um rendimento considerável.
Refere Frutuoso que na ilha havia tanta quantidade de madeira tão fermosa e rija, que levavam para muitas partes copia de taboas, traves, mastros, que tudo se serrava com engenhos ou serras d'agua, dos quaes ainda hoje ha muitos da banda do norte da mesma ilha: e neste tempo, pela muita madeira que dahi levavam para o Reyno, se começara com ella a fazer navios de gavea e castello d'avante, porque dantes não os havia no Reyno, nem tinham para onde navegar, nem havia mais navios que caravellas do Algarve, e barineis em Lisboa e no Porto».
Azurara, tratando das vantagens que resultaram dos descobrimentos devidos á iniciativa do infante D. Henrique, menciona «as grandes alturas das casas que se vão ao ceo, que se fizeram e fazem com a madeira daquellas partes». Ao que o visconde de Santarém acrescenta a seguinte nota, que é transcrita por Pinheiro Chagas na sua Historia de Portugal:
«Esta interessante particularidade indica que a Madeira transportada a Portugal das ilhas novamente descobertas pelo infante D. Henrique, principalmente da ilha da Madeira, fôra em tanta quantidade, que a sua abundancia fizera mudar o systema de construcção dos predios urbanos, augmentando os andares, elevando assim as casas, substituindo-o por esta sorte ao romano e arabe, que até então provavelmente se usara. Esta probabilidade adquire maior pêso á vista do systema de illuminação de Lisboa, ordenado por el-rei D. Fernando, como consta duns documentos do cartorio da camara de Lisboa».
Azurara, extremamente laconico em tudo quanto diz respeito ás ilhas, nada diz na Chronica do Descobrimento da Guiné acerca do incêndio da Madeira, mas do que ele aponta sôbre a altura das casas, pode deduzir-se que por mais duradouro e extenso que fosse o mesmo incêndio, ficou ainda o arvoredo suficiente para a ilha poder exportar grande copia de madeiras para Portugal.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 02Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Algarve
Portugal. Região de origem das caravelas mencionadas por Frutuoso.
O Algarve é uma região de Portugal Continental de onde vieram muitos dos primeiros povoadores da Madeira, nomeadamente de Boliqueime, e provavelmente gado. Zarco vigiou a sua costa como capitão, e Bartolomeu Perestrelo morreu ali. Simão Gonçalves da Câmara aportou ao Algarve durante a sua viagem interrompida para Espanha.
- Funchal
Zona onde o incêndio se concentrou.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade cujas casas se tornaram mais altas graças à madeira da Madeira.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Porto
Portugal. Porto onde, antes da chegada da madeira da Madeira, os barinéis eram as únicas embarcações.
Cidade portuguesa onde começou a revolução liberal de 1820. O seu distrito é o único com maior densidade populacional do que o do Funchal. Vários madeirenses estudaram na sua escola médica ou na Academia Politécnica, e alguns viveram ou morreram na cidade. O editor de O Funchalense Liberal foi ali enforcado, e o Marítimo venceu ali o FC Porto em 1922.
- Torre do Tombo
Portugal. Arquivo que conserva o breve papal de 1469.
A Torre do Tombo é o arquivo nacional, em Lisboa, e conserva muita documentação relativa à Madeira. O Elucidário refere que ali se encontram a bula original de criação da diocese, o breve papal de 1469 e a lista de 1535 das localidades que enviavam procuradores às Cortes, mas não os processos criminais do período espanhol.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 15- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra que defendeu que o incêndio se limitou ao sul.
- António Cordeiro1641–1722
Autor citado por se referir ao incêndio.
-
Navegador veneziano que visitou a Madeira e elogiou a madeira dos seus cedros e teixos.
- D. Francisco Manuel de Melom. 1666
Autor das Epanáforas, que duvidou de que o incêndio tivesse durado sete anos em toda a ilha.
-
Escritor francês que transmitiu o relato de um viajante sobre uma testemunha presencial do incêndio.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Historiador das ilhas e autor de Saudades da Terra, citado a propósito do incêndio e do comércio de madeira.
-
Cronista do descobrimento da Guiné que registou a construção de casas altas com madeira da ilha.
-
Rei de Portugal que mandou instalar o sistema de iluminação de Lisboa.
- Infante D. Henrique1394–1460
O Infante D. Henrique, que desaprovou o incêndio por obter rendimentos da madeira da Madeira.
- João de Barros1496–1570
Historiador português, o primeiro a relatar que o incêndio durou sete anos.
+ 5 mais
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Primeiro capitão-donatário do Funchal, que mandou incendiar as matas para desbravar terrenos.
-
Autor de uma História de Portugal em que cita uma nota de Santarém.
- Manuel Tomás1585–1665
Escritor antigo cujo relato de um incêndio que atingiu toda a ilha é considerado fantasioso pelo Elucidário.
-
Papa cujo breve de 1469 alude ao incêndio.
-
Historiador que observou que a madeira da Madeira alterou os estilos de construção em Lisboa.