Incêndio em 1919 1O incêndio de Agosto de 1919
Incêndio em 1919
Relato do grande incêndio florestal de agosto de 1919, ateado deliberadamente, que lavrou durante oito dias por grande parte da Madeira, alimentado pelo vento leste seco, e causou prejuízos superiores a 2 000 contos. Enumera as zonas atingidas e as pessoas que combateram o incêndio e atribui a desflorestação da ilha à indulgência para com os incendiários.
1O incêndio de Agosto de 1919
Depois do incêndio das matas da Madeira, ocorrido durante a vida de Gonçalves Zargo, o que maiores proporções atingiu e mais danos causou é incontestavelmente o do mês de Agosto de 1919, ateado por mãos criminosas. Durante oito dias se trabalhou vigorosamente na extinção do referido incêndio, que tendo principiado no dia 21, na parte ocidental da Madeira, se alastrou depois rapidamente a outras localidades da ilha mas o vento extraordinariamente seco e quente, a que os naturais chamam leste e que soprou com desusada violência desde o referido dia até 27 de Agosto, veio inutilizar muitas vezes os esforços daqueles que, com a maior coragem e dedicação, procuravam, sob uma atmosfera de fogo, obstar ao avanço do terrível elemento destruidor. Por varias vezes se receou que os incêndios atingissem os povoados, alguns dos quais, como é sabido, ficam situados perto da região média da ilha, mas felizmente pôde isso ser evitado, a pesar do vento ter contrariado bastante os trabalhos tendentes a localizar as devastações do fogo. Na região alta, alguns pequenos prédios foram devorados pelas chamas, e desapareceram muitos gados e ficaram inutilizadas muitas culturas, mas não se registaram desastres pessoais importantes, embora alguns indivíduos se ferissem ligeiramente nos trabalhos da extinção dos incêndios. Nos dias 28 e 29 de Agosto caíram algumas chuvas nas serras, que bastante concorreram para extinguir totalmente os incêndios que nos dias anteriores haviam aniquilado muitas das nossas mais belas matas, causando em toda a ilha prejuízos superiores a 2:000 contos.
2Matas atingidas e socorros
No concelho do Porto do Moniz sofreram bastante as matas da parte da Ribeira da Janela e do Fanal; no de S. Vicente, as da beira do Paul, da Lombada das Vacas, do Lombo da Palha e da serra da Ponta Delgada; no de Sant'Ana, as do Arco de S. Jorge e do Faial; no de Machico, as do Pico da Suna e dos Lamaceiros; no do Funchal, as de S. Roque e do Monte; no de Câmara de Lobos, as do Ribeiro Garcia e Fontainhas; no da Ribeira Brava, as da Serra de Água; e no da Calheta, as da Lombada Gorda, da Ribeira dos Moinhos, do Rabaçal e da beira do Paul da Serra.
No Rabaçal, nesse sítio que os viajantes percorrem com entusiasmo, pelas soberbas paisagens que dele se disfrutam, os prejuízos não foram gerais, e as casas nada sofreram, devido ao esforço e dedicação empregados para salvá-las. No Monte e em S. Roque o incêndio tomou proporções verdadeiramente assustadoras, abrangendo uma área de alguns quilómetros e ameaçando destruir um grande numero de habitações, e na Bica da Cana, no Paul da Serra, ficaram muito danificadas as plantações mandadas fazer aí pela Junta Agrícola.
Na grave conjuntura que a ilha atravessou, prestaram bons serviços o Governador Civil, general Simões Soares, o Comandante Militar, coronel Veiga, o Regente Silvícola Schiappa de Azevedo, o pessoal florestal e varias forças de infantaria 27, tendo todos dentro dos limites das suas atribuições, trabalhado com perseverança e empregado os meios possíveis para a localização e extinção dos incêndios. No que houve pouco zelo e energia foi em procurar os incendiários e entrega-los ao poder judicial, a fim de serem castigados sem contemplação, sendo a benevolência com que sempre têm sido tratados os inimigos das nossas matas, a principal causa do desnudamento das montanhas e da ilha ter sofrido por diferentes vezes os estragos causados pelas torrentes e aluviões.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 01-
Durante um longo período de vento leste, que trouxe ao Funchal a temperatura à sombra mais elevada até então registada (38,4°), incêndios ateados criminosamente, segundo se dizia por pastores indignados, destruíram grande parte da floresta da Madeira, incluindo pinhais no Monte e em São Roque. Só a chuva os extinguiu; os prejuízos ultrapassaram 2 000 contos.
Lugar
Lugares mencionados · 27- Arco de São Jorge
Santana. Florestas atingidas.
Freguesia do concelho de Santana, na costa norte, separada de São Jorge em 1676 e sobre a qual se eleva o Pico do Arco de São Jorge (837 m). Ainda não tinha cemitério em 1862 e passou a ser julgado da comarca do Funchal em 1927. Está ligada à Boaventura por um caminho que atravessa a escarpa da Entrosa, e as suas florestas foram danificadas pelo incêndio de 1919.
- Bica da Cana
Ponta do Sol. Plantações da Junta Agrícola gravemente danificadas.
Local de altitude no planalto do Paul da Serra, na crista que liga o Paul da Serra ao Curral, onde a Junta Agrícola instalou uma estação agrícola experimental por volta de 1914. As experiências fracassaram em grande parte devido ao clima rigoroso, e as plantações foram gravemente danificadas por um incêndio em 1919. Foi também um posto pluviométrico e uma estação astronómica, a 1 621 m de altitude.
- Calheta
Concelho atingido.
A Calheta é uma vila e concelho no oeste da Madeira, criado por carta régia de 1 de julho de 1502. Mais tarde, tornou-se sede de um condado concedido aos capitães do Funchal e foi reorganizado como concelho em 1835.
- Camara de Lôbos
Câmara de Lobos. Concelho atingido.
Câmara de Lobos é um concelho da Madeira cuja sede era historicamente um «lugar», e não uma vila. O Elucidário Madeirense cita a descrição de Gaspar Frutuoso e apresenta a criação do concelho em 1835 e as alterações posteriores às suas freguesias.
- Faial
Santana. Florestas atingidas.
O Faial é uma freguesia da costa norte do concelho de Santana, criada em 1550, cujas nascentes de montanha alimentam a Levada da Serra. Abrange os Chícharos e a capela da Diferença, inclui a parte oriental do Pico Ruivo e é conhecida pelo fabrico de queijo e pelo basalto colunar.
- Fanal
Porto Moniz. Florestas atingidas.
Local de altitude nas serras do Seixal e da Ribeira da Janela, com uma cratera dupla sem cone que no inverno se transforma num lago, árvores de grande porte e belas vistas. Ali se encontram os melhores porcos assilvestrados, e os seus bosques foram danificados por um incêndio em 1919.
- Fontainhas
Câmara de Lobos. Florestas atingidas.
Fontainhas é um sítio pitoresco da freguesia da Quinta Grande, incluído na curadoria de 1820, cujas florestas foram danificadas pelo incêndio de 1919. O artigo do Elucidário com este nome descreve outro local: um pequeno monte de Porto Santo, não muito longe do Pico do Facho.
- Funchal
Concelho atingido.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lamaceiros
Machico. Florestas atingidas.
Lamaceiros é um sítio pitoresco de Santo da Serra, com vistas sobre as freguesias do norte. Várias levadas partilham ali um aqueduto antes de se separarem.
- Lombada das Vacas
São Vicente. Florestas atingidas.
A Lombada das Vacas é uma localidade de São Vicente. Foi apontada como local para o cultivo de quina-vermelha, e as suas florestas foram danificadas pelo incêndio de 1919.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 04-
Regente florestal que ajudou a combater o incêndio de 1919.
- Daniel Telo Simões Soaresn. 1864
Governador civil da Madeira que ajudou a dirigir o combate ao incêndio em 1919.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor e primeiro capitão do Funchal, em cujo tempo ocorreu o único incêndio florestal de maiores proporções.
-
Comandante militar da Madeira elogiado pelo seu trabalho no combate ao incêndio de 1919.