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Cancioneiro de Resende (A Madeira no) 1O Ciclo poético da Madeira
Artigo Nº 0763 Artes, literatura e historiografia Vol. I · pp. 449–452 7 min de leitura

Cancioneiro de Resende (A Madeira no)

Panorama dos poetas madeirenses representados no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, com uma discussão da tese de Teófilo Braga sobre um «ciclo da Madeira» autónomo e notas biográficas sobre cada poeta.

Cancioneiro de Resende (A Madeira no)

1O Ciclo poético da Madeira

Teofilo Braga, no seu livro Poetas Palacianos, em que largamente se ocupa do “Cancioneiro de Resende”, insere um capítulo a que deu o título de “El-Rei D. Duarte e o cyclo poético da Madeira”, onde pela primeira vez se expõe a ideia da existencia dum grupo de cultores da poesia, naturais da Madeira ou nela residentes, que tiveram larga representação no mesmo Cancioneiro e que pelo seu incontestável mérito literário poderiam constituir um ciclo ou escola à parte, no meio da numerosa falange de poetas que figuram naquela célebre colecção. Parece-nos que o ilustre escritor levou muito longe o conceito abonatorio, que benevolamente formou dêsse Ciclo ou dessa Escola madeirense.

O dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, abalizado comentador das Saudades da Terra e também distinto critico literário, discorda da opinião de Teofilo Braga, fazendo as seguintes sensatas considerações: “Estamos em que o grupo dos poetas madeirenses deste periodo não constitue cyclo distinto e apenas ramo do cyclo continental, porque não tem tipo proprio; a indole e a forma das produções desses poetas são comuns com as dos demais poetas palacianos da mesma escola, colligidas no Cancioneiro Geral. Mas, nem por isso aquele muito notavel grupo deixa de ser titulo bastante a que a ilha da Madeira tenha quinhão honroso na historia ante-classica da literatura nacional, quinhão que T. Braga lhe revindicou”.

Vamos nós agora procurar fazer um breve inventário ou resenha dessas composições poeticas insertas no “Cancioneiro Geral de Garcia de Resende” percorrendo as páginas dos seus cinco volumes (ed. de 1910-1918) e apresentando ao mesmo tempo umas rápidas notas de caracter pessoal, que melhor possam identificar os nomes dos autores a que elas dizem respeito.

2Os poetas donatários

Abre o primeiro volume do Cancioneiro com a célebre contenda poetica acêrca de “O Cuydar e o Sospirar”, a que em muitas obras se fazem frequentes referencias e em que tomaram parte diversos poetas palacianos, ocupando todo êste elegante debate mais de cem páginas da edição que estamos compulsando. O Ciclo da Madeira tem nele condigna representação com as composições do trovador João Gomes, de quem, em outro lugar, já deixamos dito: “Não está averiguado se veio para este arquipelago como um dos seus antigos povoadores ou se teria nascido na Madeira. Em diversos escritos é citado com o nome de João Gomes da Ilha e também com o de João Gomes o Trovador, pois que cultivou com distinção a poesia, encontrando-se treze composições suas no “Cancioneiro de Garcia de Resende”.

Casou no Funchal com D. Guiomar Ferreira, filha de Gonçalo Aires Ferreira, o conhecido companheiro de João Gonçalves Zargo. Teve terras de sesmaria nas margens da ribeira, que tomou e ainda conserva o nome de João Gomes. Foi pagem do infante D. Henrique e faleceu pelo ano de 1495. Além dos versos acima citados e incluídos na disputa de “O Cuydar e o Sospirar”, encontram-se no Cancioneiro mais vinte composições poeticas, todas subordinadas ao titulo “De Joham Gomez da Ylha”, embora com algumas variantes na maneira de ortografar essas epigrafes. Como já notou o dr. Rodrigues de Azevedo foi João Gomes o mais fecundo dos poetas do Ciclo da Madeira; a que podemos acrescentar que também foi de todos o mais distinto.

A este se segue imediatamente no Cancioneiro o nome de Tristão Vaz Teixeira, que ali se encontra sob a rubrica De Tristam teyxeyra capitãao de Machyco. Foi o segundo capitão donatario de Machico e filho do primeiro donatario Tristão Vaz, tendo nascido no continente português e morrido na capital da sua donataria, onde foi sepultado na capela de S. João, por ele fundada e erecta na igreja paroquial da vila de Machico. Tornou-se mais conhecido pelo nome de Tristão das Damas porque, diz o doutor Gaspar Frutuoso, foi muito cortesão, grande dizedor e fazia muitos motes ás damas, e era muito eloquente no falar. Figura como uma das mais importantes personagens da interessante novela madeirense A Filha de Tristão das Damas, da autoria do ilustre escritor e académico sr. J. Reis Gomes, achando-se ali reproduzida uma das suas poesias que vem inserta no segundo volume do Cancioneiro.

João Gonçalves da Camara, filho de João Gonçalves Zargo e segundo capitão-donatario do Funchal, figura na colecção de Garcia de Resende com três composições poeticas sob a rubrica de Joham Gonçalves capytão da ilha. Segundo se depreende da informação dada por Frutuoso deve ter nascido por 1414 e faleceu no Funchal a 25 de Março de 1501, sendo sepultado na igreja do convento de Santa Clara, junta dos degraus do altar-mor, onde há poucos anos se descobriu a lápide que cobre a sua sepultura. Deu grande desenvolvimento aos trabalhos da colonização iniciada por seu pai, tendo consideravelmente contribuído para o progresso e engrandecimento da antiga vila do Funchal. Nas nossas porfiadas lutas em Marrocos contra os mouros, distinguiu-se notavelmente pela sua destemida coragem e ainda pelos socorros materiais com que algumas vezes concorreu para acudir ao iminente perigo em que se encontravam os dominios portugueses daquela região. Foi o fundador do convento de Santa Clara, ao qual doou a grande propriedade do Curral das Freiras no ano de 1492. Também figura como personagem notavel na novela A Filha de Tristão das Damas acima citada.

É Manuel de Noronha outro poeta palaciano do “Ciclo da Madeira”, que tem algumas composições no Cancioneiro. Nasceu no Funchal e era filho do segundo capitão-donatario João Gonçalves da Camara. As antigas cronicas madeirenses falam com grande encarecimento dos serviços que prestou no norte de Africa e da sua grande bravura como militar, referindo-se especialmente a um encontro “em que á testa de cento e cincoenta cavaleiros quasi todos da ilha praticou prodigios de valor.

Com uma pequena produção de oito versos, deparamos com o nome de Pero Correia ou antes Pedro Correia, conforme se lê em vários escritos que se ocupam das cousas da Madeira. Foi segundo capitão-donatário do Pôrto Santo, embora Gaspar Frutuoso não o considere como tal. Por morte de seu sogro Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário daquela ilha, comprou Pedro Correia a capitania do Pôrto Santo, que administrou durante alguns anos. Atingindo o filho e herdeiro de Bartolomeu Perestrelo a maioridade impugnou a posse da donataria de que fora injustamente esbulhado, conseguindo rehavê-la, por mandado do monarca e entrar na posse dela. Pedro Correia foi capitão-donatário da ilha Graciosa, que teve de abandonar quando fixou residencia no Pôrto Santo.

3Outros poetas do Ciclo

Teofilo Braga e Rodrigues de Azevedo incluem também no Ciclo da Madeira os poetas do Cancioneiro

Duarte de Brito, Rui de Sousa e Rui Gomes da Gran, que o historiador das ilhas (Saud., 156) nos informa serem casados com netas de João Gonçalves Zargo, e ainda João de Abreu, casado com uma neta de Tristão Vaz, primeiro donatário de Machico, encontrando-se algumas composições desses poetas no primeiro e quarto volume do Cancioneiro.

Parece dirigirem-se ainda a um poeta da Madeira as seguintes palavras de Teofilo Braga: “Em uns versos de Francisco da Silveira, escritos em 1498, apodando um fidalgo da ilha da Madeira, que andava em Castela, refere-se ao Conde de Tendilha, como poeta, pai do chefe da escola de Sevilha Diogo Hurtado de Mendonça: “Diga o Conde de Tendilha e a senhora Bobadilha se da ilha do Funchal foi homem tam por seu mal a Castilha”

Esta composição é extensa e tem por título (Canc., IV-230): “Do coudel moor Francisco da Sylveira estando em Portugal a estas ceroylas de Manuel de Noronha, as quaes mandou a Castela”. Dela não se pode deduzir com clareza o comentário feito por T. Braga, que certamente teria tido outro elemento de informação, além do que lhe foi fornecido pelo contexto da referida composição poetica.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 06
  1. João Gonçalves da Câmara nasceu provavelmente por volta de 1414.

  2. João Gonçalves da Câmara doou o Curral ao convento de Santa Clara como dote das filhas, passando o lugar a ser conhecido como Curral das Freiras.

  3. Morreu o poeta João Gomes da Ilha, o Trovador.

  4. Francisco da Silveira escreveu versos satíricos sobre um nobre madeirense em Castela.

  5. João Gonçalves da Câmara, filho mais velho de Zarco, segundo capitão-donatário do Funchal e fundador do Convento de Santa Clara, morreu no Funchal aos 87 anos (as fontes indicam 25 ou 26 de março).

  6. Foi publicada uma edição em cinco volumes do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.

Lugar

Lugares mencionados · 10

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (10)
  1. Capela de São João (Igreja de Machico)

    Machico. Capela fundada por Tristão Vaz Teixeira, onde foi sepultado.

  2. Castela

    Spain. Região onde se encontrava um nobre madeirense satirizado por Silveira.

  3. Convento de Santa Clara

    Funchal. Convento fundado por João Gonçalves da Câmara, onde foi sepultado.

  4. Curral das Freiras

    Câmara de Lobos. Propriedade doada por João Gonçalves da Câmara ao Convento de Santa Clara em 1492.

  5. Funchal

    Cidade onde João Gomes se casou e João Gonçalves da Câmara morreu.

  6. Graciosa

    Portugal. Ilha açoriana de que Pedro Correia era capitão.

  7. Machico

    Capitania de Tristão Vaz Teixeira, sepultado na igreja paroquial de Machico.

  8. Marrocos

    Morocco. Região onde os capitães madeirenses combateram os mouros.

  9. Porto Santo

    Capitania comprada por Pedro Correia.

  10. Ribeira de João Gomes

    Funchal. Ribeira com o nome do poeta, que possuía terras de sesmaria nas suas margens.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 23
  1. Anotador de Saudades da Terra, que defendeu que os poetas madeirenses constituíam apenas um ramo do ciclo do continente.

  2. Filho de João Gonçalves da Câmara, nascido no Funchal, poeta da corte e valente soldado no Norte de África.

  3. Primeiro capitão-donatário de Porto Santo e sogro de Pedro Correia.

  4. Poeta e nobre castelhano mencionado nos versos de Silveira.

  5. Chefe da escola de Sevilha e filho do Conde de Tendilla, segundo Braga.

  6. Poeta do Cancioneiro casado com uma neta de Zarco.

  7. Coudel-mor e poeta que, em 1498, escreveu versos satíricos sobre os calções de Manuel de Noronha enviados a Castela.

  8. Compilador do Cancioneiro Geral, em que figuram os poetas madeirenses.

  9. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Autor de Saudades da Terra, citado a propósito de dados biográficos dos poetas.

  10. Companheiro de Zarco e sogro de João Gomes.

+ 13 mais
  1. Mulher do poeta João Gomes e filha de Gonçalo Aires Ferreira.

  2. Infante D. Henrique, de quem João Gomes foi pajem.

  3. Autor do romance A Filha de Tristão das Damas, em que figuram os capitães poetas.

  4. Poeta do Cancioneiro casado com uma neta de Tristão Vaz.

  5. Trovador, pajem do Infante D. Henrique e proprietário de terras no Funchal, foi o poeta mais prolífico e destacado do ciclo da Madeira; morreu por volta de 1495.

  6. Segundo capitão-donatário do Funchal, poeta com três composições no Cancioneiro, combatente em Marrocos e fundador do convento de Santa Clara.

  7. Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, pai do poeta João Gonçalves da Câmara.

  8. Capitão da Graciosa que comprou a capitania de Porto Santo após a morte de Bartolomeu Perestrelo, vindo depois a perdê-la para o herdeiro deste; autor de oito versos no Cancioneiro.

  9. Poeta do Cancioneiro casado com uma neta de Zarco.

  10. Poeta do Cancioneiro casado com uma neta de Zarco.

  11. Historiador da literatura que, em Poetas Palacianos, propôs a existência de um ciclo madeirense distinto de poetas da corte.

  12. Segundo capitão-donatário de Machico e poeta da corte, conhecido por Tristão das Damas. Foi sepultado na Capela de São João, que fundou na igreja de Machico.

  13. Primeiro capitão-donatário de Machico e pai do poeta Tristão Vaz Teixeira.

Na folha C

Vistos recentemente

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