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Perestrelo (Bartolomeu) 1A capitania do Porto Santo
Artigo Nº 2846 Donatário, governador ou governante Vol. III · pp. 119–122 8 min de leitura

Perestrelo (Bartolomeu)

Entrada biográfica sobre Bartolomeu Perestrelo, primeiro capitão-donatário e povoador do Porto Santo, a quem o Infante D. Henrique concedeu a ilha em 1446. Rejeita a ideia de que tenha sido o seu descobridor e cita António Maria de Freitas a propósito dos seus casamentos, descendentes e morte por volta de 1457.

Perestrelo (Bartolomeu)

1A capitania do Porto Santo

É o conhecido primeiro donatario e povoador da ilha do Porto Santo. Têm alguns autores cometido o erro grave de considerarem Bartolomeu Perestrelo como navegador e até como descobridor daquela ilha, sendo talvez levados a isso pela circunstância de haver sido o seu primeiro capitão-donatario, cargo este que às vezes andava anexo ao facto da descoberta.

Era fidalgo da casa do infante D. João, irmão de D. Henrique, quando este o investiu na donataria do Porto Santo e encarregou do povoamento e colonização desta ilha.

A carta do infante D. Henrique fazendo a doação da ilha do Porto Santo é de 1 de Novembro de 1446, isto é aproximadamente vinte anos depois de começar a colonização do arquipélago. Devemos supor que Perestrelo se tivesse estabelecido no Porto Santo com todos os privilegios e regalias concedidos aos donatarios, e que a mesma carta fôsse apenas a confirmação leal e autentica desses privilegios. O mesmo devemos acreditar relativamente ás outras duas capitanias da Madeira. Na carta de doação, diz o infante D. Henrique «Eu dou carreguo a Bertholomeu perestrello, fidalgo de minha casa da minha ylha de porto santo para que elle dito Bertholomeu perestrello ha mantenha por mim em Justiça & direyto & morrendo elle a mim praz que seu filho primeyro ou algum se tal for tenha este carreguo pela guisa suso dita y asy de decemdente em decemdente por linha dereyta... tenha. . . jurisdiçom. .. do ciuell & crime resalbando morte ou talhamento de membro. . . ». Nesta carta se faz menção de diversos direitos, regalias e isenções concedidos ao primeiro donatario, incluindo a arrecadação de varias contribuições e impostos. A capitania do Porto Santo esteve na posse e superintendencia dos descendentes de Bartolomeu Perestrela até o tempo em que o dominio filipino, com a nomeação dos governadores gerais, reduziu os donatarios do arquipélago a uma situação muito subalterna e quasi meramente honorifica, continuando, porém, a cobrar importantes rendas pelos primitivos privilegios que lhes tinham sido concedidos. Quando Portugal caíu sob o jugo castelhano, era Diogo Perestrelo Bisforte o 6.° capitão donatario da ilha do Porto Santo.

A capitania do Porto Santo nunca chegou a atingir um grau elevado de prosperidade. A exiguidade do meio, o abandono a que foi votada pela metropole desde os tempos primitivos da colonização, os frequentes assaltos dos piratas, a má administração de alguns donatarios e governadores, a enfatuada prosápia de muitos dos seus habitantes, que desdenhavam o trabalho por serem descendentes de antigos fidalgos, a indolencia dos seus moradores, determinada pelas condições climatéricas e ainda por outras causas, tudo isso concorreu notavelmente para o pequeno desenvolvimento desta donataria.

2O povoador segundo Nicolau Florentino

No seu opusculo A Mulher de Colombo, ocupa-se o escritor Antonio Maria de Freitas (Nicolau Florentino) com alguma largueza do primeiro capitão-donatario do Porto Santo, e desse escrito vamos transcrever alguns periodos, que julgamos em extremo interessantes.

«O desengano que o moço Bartholomeu recebeu, visitando os seus futuros dominios, foi o mesmo em que cairam muitos outros, tanto nas ilhas como no continente, afferindo a largueza da munificencia régia apenas pela decantada extensão do territorio, pelas noticias imaginosas da sua fertilidade e pelo nome pomposo do senhorio. Só conheciam o valor do que haviam impetrado, quando os encargos, a que se comprometteram, ascendendo a verba muito superior ao rendimento local, obrigavam-nos a declinar a exploração por parcelas a troco de rendas insignificantes, ou a relaxal-as ao abandono, de que ainda recentemente se encontravam copiosos vestigios por muitos pontos do paiz.

«Levado pela suggestão das apregoadas bondades da ilha descoberta, Bartholomeu não soube o que pediu, talvez ao contrario de Zarco e de Tristão, cuja segunda viagem mais racionalmente se explica pelo proposito de proseguirem na empreza começada, depois de deitar os colonos em Porto Santo, ou pelo menos, sondarem e reconhecerem aquellas paragens do Atlantico, do que de se enterrarem n'uma ilha, cuja área e condições geologicas, embora apreciadas de relance, não os deveriam ter seduzido...

«Bartholomeu não tardou a conhecer, que a imaginação o traira e que déra excessivas largas á sua credulidade. O confronto de Porto Santo e da nova ilha encontrada por Zarco e Tristão, incomparavelmente superior á primeira, pelo seu aspecto attrahente e pela promettedora valentia da vegetação, acabou de o desanimar.

«Voltou pois ao reino, mais provavelmente depois do encontro da Madeira. A causa d'esta retirada e simultaneamente da partida dos dois outros companheiros para a segunda ilha, é attribuida a uma praga damninha de coelhos, que se desenvolveu na ilha, por n'ella soltarem uma coelha com crias, havidas durante a viagem. No anno seguinte, se é que mediou um anno entre a ida e a volta de Bartholomeu, já matarom muy muytos, nom fasendo porem mingua para os estragos, que esmoreciam os colonos, inutilisando-lhes os trabalhos agricolas.

Este extraordinario poder de procreação, diante do qual a zoologia se curva impotente para explical-o, a nós, profano na sciencia, não nos causa maior assombro. Os nossos antepassados tinham uma ingenuidade de crêr, sem vêr nem discutir, o que, sob o ponto de vista da hygiene espiritual, é simplesmente para causar inveja n'estes tempos atribulados de malicia e de suspeição...

«Porto Santo, com a visinhança da Madeira que começou a prosperar a olhos vistos, tornou-se mais attrahente e acompanhado, encontrando á mão muitos recursos, que as suas ingratas condições locaes não proporcionavam desde logo. Nem mesmo pelo decorrer do tempo as transformações e correctivos, por que passaram os dominios de Bartholomeu, graças a um insano trabalho, que o fez baquear bem cedo, e a sacrificios pecuniarios pouco mais do que inuteis, nunca a ilha se extremou por uma linha de autonomia, economica e ethnographica, que provasse os seus sufficientes progressos materiaes e moraes; quanto mais nos primeiros annos da sua colonisação...

3Casamentos, descendência e morte

«Por um dos documentos, sobre que estamos a trabalhar, conclue-se que D. Margarida Martins, mulher de Perestrello, pouco viveu alem de 1431. O ultimo vestigio, que possuimos, da vida desta senhora é uma carta de D. João I, de 8 de Junho d'esse anno, dando a ella e a seu marido umas casas de foro na Rua Nova, junto á Porta da Herva.

«Deste casamento não houve filhos, que nos conste, passando Bartholomeu a segundas nupcias com D. Brites Furtado de Mendonça, da bem conhecida familia d'este appelido, que tambem occupa um logar distincto na historia do archipelago.

«Do segundo matrimonio conhecem-se tres filhas, todas casadas com homens importantes. A primeira D. Catharina Furtado de Mendonça, foi mulher de Mem Rodrigues de Vasconcellos, commendador do Seixo; a segunda, D. Fillipa de Mendonça Furtado, desposou-se com João Teixeira, filho terceiro de Tristão Vaz, primeiro capitão donatario da jurisdição de Machico; a terceira, D. Izeu Perestrello, ligou os seus destinos a Pedro Correa da Cunha, capitão donatario da Ilha Graciosa. «Enviuvando segunda vez, Bartholomeu Perestrello, que ainda estava um homem relativamente novo, passou a terceiras nupcias com D. Isabel Moniz, filha de Vasco Martins Moniz, que a esse tempo vivia em Machico, com toda a sua grande casa, como se viu quando tratámos dos Monizes.

«Esta nova alliança, a mais distincta e directamente vinculada ao nosso fito historico, revela de certa fórma a importancia moral de Bartholomeu e a confiança que inspiravam a seriedade do seu trato e o seu amor ao trabalho. Só quem conhece particularmente pela velha papelada a fidalguia orgulhosa dos Monizes, disputada em allianças pelas melhores casas da Madeira e do continente, é que póde avaliar a segurança convicta com que traçâmos esta nota biographica. . .

«Para nobilitar Bartholomeu Perestrello, inventou-se que elle veio de Hespanha para Portugal em 1428 com a mulher de D. Duarte e logo abaixo que elle foi companheiro de Zargo e de Tristão no descobrimento de Porto Santo em 1418 (!), quando o que ha de mais seguro a respeito da sua nobreza é a justificação feita por seu pae Filiippone Palestrello em 1399. Para glorifical-o como homem do mar chega-se até a phantasiar manuscriptos que deixou e conselhos que deu a seu genro Christovão Colombo, estando provado que elle nunca conheceu o homem com quem havia de casar a sua filhinha Filippa que ficou orphã de pae aos 5 annos de edade...

«Ao donatario de Porto Santo não pertence empunhar a palma de haver descoberto a sua ilha; mas assenta-lhe legitimamente na cabeça o resplendor de martyr do trabalho, uma das consagrações sociaes mais valiosas de todos os tempos.

«A morte veiu colhêl-o no seu posto, por volta de 1457, tendo elle pouco mais de 50 annos de edade e deixando a familia em precarias condições economicas, pois que a sua capitania absorvera-lhe tudo desde os dotes de suas mulheres e beneficios, que por diversas vias alcançou, á propria saude, sem que a tanto capital ali enterrado correspondesse um rendimento soffrivel para a manutenção da viuva e de seus dois filhos Bartholomeu e Filippa, orphãos de pae ainda em bem tenra edade.

Falleceu Bartholomeu Perestrello na villa da Baleira, da ilha do Porto Santo, e pelo que se apura de elementos mais fidedignos parece que ficou sepultado na egreja parochial de Nossa Senhora da Piedade.»

Para maior complemento deste artigo, leia-se o que no 1.° vol. desta obra, a pag. 117 e seguintes se encontra com respeito á vila Baleira e Município do Porto Santo.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. Filippone Palestrello comprovou a nobreza da sua família.

  2. O Porto Santo foi descoberto, segundo a tradição, em 1418 (ou 1419); atribuiu-se falsamente a Bartolomeu Perestrelo a participação na descoberta.

  3. D. João I concedeu casas na Rua Nova a Bartolomeu Perestrelo e Margarida Martins.

  4. O Infante D. Henrique doou por carta a Capitania de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo.

  5. Bartolomeu Perestrelo morreu em Vila Baleira, com pouco mais de cinquenta anos.

Lugar

Lugares mencionados · 07

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (6)
  1. Graciosa

    Portugal. Ilha açoriana cujo capitão-donatário casou com uma filha de Perestrelo.

  2. Igreja de Nossa Senhora da Piedade

    Porto Santo. Igreja paroquial onde Perestrelo foi provavelmente sepultado.

  3. Machico

    Capitania de Tristão Vaz e residência da família Moniz.

  4. Porto Santo

    Ilha de que Perestrelo foi o primeiro capitão-donatário.

  5. Rua Nova

    Portugal. Rua próxima da Porta da Erva onde o rei concedeu casas a Perestrelo em 1431.

  6. Vila Baleira

    Porto Santo. Vila onde Perestrelo morreu.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 23
  1. Primeiro capitão-donatário do Porto Santo a partir de 1446; morreu em Vila Baleira por volta de 1457.

  2. Escritor que usou o pseudónimo Nicolau Florentino e cujo opúsculo A Mulher de Colombo é extensamente citado.

  3. Filho ainda pequeno de Perestrelo, que ficou órfão de pai quando este morreu.

  4. Segunda mulher de Perestrelo e mãe das suas três filhas.

  5. Filha mais velha de Perestrelo, que casou com Mem Rodrigues de Vasconcelos.

  6. Cristóvão Colombo casou-se mais tarde com Filipa, filha de Perestrelo, que nunca chegou a conhecê-lo.

  7. Rei de cuja esposa se afirmou falsamente que Perestrelo acompanhara desde Espanha em 1428.

  8. Irmão do Infante D. Henrique, de cuja casa Perestrelo era fidalgo.

  9. D. João Im. 1433

    Rei que, em 1431, concedeu casas a Perestrelo e à mulher na Rua Nova, em Lisboa.

  10. Sexto capitão-donatário de Porto Santo quando Portugal passou para o domínio espanhol.

+ 13 mais
  1. Segunda filha de Perestrelo, que casou com João Teixeira.

  2. Filha de Perestrelo, órfã aos cinco anos, que mais tarde casou com Cristóvão Colombo.

  3. Pai de Perestrelo, que comprovou a nobreza da família em 1399.

  4. Infante D. Henrique, que concedeu Porto Santo a Perestrelo por carta em 1446.

  5. Terceira esposa de Perestrelo e filha de Vasco Martins Moniz.

  6. Terceira filha de Perestrelo, que casou com Pedro Correia da Cunha.

  7. Descobridor da Madeira, mencionado a par de Perestrelo nas primeiras viagens.

  8. Terceiro filho de Tristão Vaz e marido de Filipa de Mendonça Furtado.

  9. Primeira esposa de Perestrelo, que morreu pouco depois de 1431.

  10. Comendador de Seixo e marido de Catarina, filha de Perestrelo.

  11. Capitão-donatário da Graciosa e marido de Izeu Perestrelo.

  12. Companheiro de Zarco e primeiro capitão-donatário de Machico.

  13. Chefe da família Moniz em Machico e pai de Isabel Moniz.

Na folha P

Vistos recentemente

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