Doações 1Doações ao Infante e à Ordem de Cristo
Doações
Percorre as doações régias do Arquipélago da Madeira no século XV, desde as cartas de D. Duarte de 1433 ao Infante D. Henrique e à Ordem de Cristo, passando pelos grão-mestres da Ordem, até à carta de D. Manuel de 1497, que tornou a Madeira definitivamente propriedade da Coroa.
1Doações ao Infante e à Ordem de Cristo
É muito de presumir, embora o não digam os cronistas nem se conheça documento que o comprove, que fosse o próprio D. João I que doasse ou, melhor, confirmasse a posse do arquipelago da Madeira a seu filho o infante D. Henrique, a cuja audaz iniciativa se devia principalmente o descobrimento do mesmo arquipelago.
Diz-nos Bernardo de Brito na Monarchia Lusitana que em 1433, ano em que começou a reinar D. Duarte, a este fizera seu irmão D. Henrique a “doação destas três ilhas para a coroa do reino, por isso el-rei lhas tornou logo a largar, reservando para si o bater moeda, casos de morte e cortadura de membro; e para lhe tornarem o seu domínio as doara á ordem (de Cristo) no ano apontado”. Não deve isto propriamente entender-se duma doação do infante D. Henrique ao rei, porque ele a não podia fazer, mas apenas reconhecer no novo monarca o primordial e fundamental direito, como chefe da nação, ás novas terras descobertas, que constituíam parte integrante da mesma nação.
No tomo I.º do Arquivo da Camara Municipal e transcrita nas Saudades da Terra, a pag. 325, vem a Carta Régia de D. Duarte, datada de 26 de Setembro de 1433, doando á Ordem de Cristo “para todo o sempre todo o espiritual das nossas ilhas da Madeira e Porto Santo e da ilha Deserta...” Com a mesma data, e do mesmo monarca, há outra carta inserta na obra Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo acerca da avançada e conquistas dos portugueses, fazendo mercê das referidas ilhas ao infante D. Henrique.
Deve entender-se que a doação á Ordem de Cristo dizia respeito á jurisdição espiritual e a que foi feita a D. Henrique ao domínio temporal do arquipelago. Sendo, porém, o infante o grão-mestre da Ordem, conclue-se da leitura daquela carta que ele teria sôbre as ilhas do mesmo arquipelago o mais absoluto domínio, o que não obstou a que a interferência real se fizesse por vezes sentir na administração das coisas destas ilhas. “Porém, é de notar, continua o citado Bernardo de Brito, que o infante conhecendo que as conquistas por sua morte não poderiam ser continuadas com o cabedal da Ordem, e que era necessário braço real, repartiu tudo o que tinha descoberto em tal forma, que deixasse a Ordem ampliada e enobrecida, e a Coroa do Reino dilatada. E assim fez doação do temporal daquelas ilhas e do continente da Guiné aos reis de Portugal e reservou para a Ordem o espiritual, que é hoje o que os reis logram como Mestres, que por esta causa tem os dizimos e apresentações daquelas igrejas. Já no ano de 1439, em que el-rei D. Duarte estava de posse do estado temporal das ilhas da Madeira, Porto Santo e Desertas, que o infante lhe tinha outra vez doado, foi concedida a espiritualidade delas para a Ordem, por carta feita em Lisboa a 20 de Maio de aquele ano...” Por cartas regias de D. Afonso V, de 11 de Março de 1449 e 17 de Agosto de 1459, confirmou este monarca a doação feita ao infante D. Henrique pelo rei D. Duarte, em 26 de Setembro de 1433.
2Sucessores no grão-mestrado
Na já referida obra Alguns documentos do Arquivo Nacional etc. vem transcrita uma carta do infante D. Henrique, datada de 18 de Setembro de 1460, em que se faz nova doação destas ilhas, no espiritual, á Ordem de Cristo, o que não sabemos suficientemente explicar, existindo as doações anteriormente feitas e que ficam acima citadas. O infante D. Henrique morreu a 13 de Novembro de 1460 e logo a 3 de Dezembro do mesmo ano D. Afonso V assinou uma carta régia doando o arquipelago madeirense ao infante D. Fernando seu irmão, que foi o sucessor de D. Henrique no grão-mestrado da Ordem de Cristo e, portanto, dos privilégios que este tinha sôbre as terras descobertas.
No cargo de grão-mestre da Ordem de Cristo sucedeu a D. Fernando seu filho o infante D. João, duque de Vizeu, e a este seu irmão D. Diogo, que foi assassinado por D. João II. Não conhecemos as cartas que lhe teriam sido passadas, se porventura o foram, de doação destas ilhas.
Ao infante D. Diogo sucedeu naquele grão-mestrado seu irmão D. Manuel, depois rei. O lugar de chefe dessa poderosa Ordem, que tão assinalados serviços prestou ao nosso país, passou á Coroa e a ser exercido pelo monarca com todos os privilégios, regalias e isenções que á mesma pertenciam.
3A Madeira realenga
Tinham acabado as doações e a Madeira estava feita realenga. É muito interessante o diploma que o atesta e que vem transcrito a pag. 479 das Saudades da Terra. É a carta Régia de D. Manuel, de 27 de Abril de 1497, em que ele diz que “nos parece cousa justa e necessária que a dita ilha com seu senhorio, rendas e jurisdição seja somente da dita nossa coroa para sempre e dos reis nossos herdeiros e sucessores... que nunca a dita ilha nem parte dela seja dada por nós nem nossos sucessores de graça nem em vida nem de juro nem por outra qualquer maneira a qualquer pessoa de qualquer estado, condição e proeminência... juramos ao sinal da cruz e aos santos evangelhos em que corporalmente pomos as mãos o cumprirmos e mantermos assim inteiramente... e rogamos e encomendamos muito aos reis nossos herdeiros e sucessores que por nossa bênção e sob pena de maldição de Deus e nossa, sempre o assim cumpram e conservem para sempre...”. Com a encorporação do grão-mestrado da Ordem de Cristo na Coroa em 1497 e com a criação da diocese do Funchal em 1514, passou a ser quasi nula a jurisdição daquela Ordem neste arquipelago.
A pesar de dizermos acima que cessaram as doações, é certo ter havido um simulacro de doação feita por D. João IV, cinco dias antes de morrer, a favor de sua filha D. Catarina, que casou com Carlos II de Inglaterra, doação que obedeceu a fins não bem averiguados, mas que era ilegalissima e que não chegou verdadeiramente a realizar-se. Dela nos ocupamos em artigo especial.
Não tratamos neste lugar das doações feitas aos donatarios, porque já a elas nos referimos nos artigos Capitanias e Donatarios.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 07-
D. Duarte concedeu o arquipélago ao Infante D. Henrique, impondo a circulação da moeda do reino, e atribuiu a jurisdição espiritual à Ordem de Cristo.
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Uma carta emitida em Lisboa concedeu à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual sobre as ilhas.
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D. Afonso V confirmou a doação das ilhas ao Infante D. Henrique.
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D. Afonso V confirmou novamente a doação das ilhas ao Infante D. Henrique.
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O Infante D. Henrique emitiu uma carta de doação que concedia à Ordem de Cristo a jurisdição espiritual sobre as ilhas e fazia referência ao início do povoamento.
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Morreu o Infante D. Henrique, senhor da Madeira.
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D. Afonso V doou o arquipélago ao Infante D. Fernando, que assim sucedeu ao Infante D. Henrique no senhorio da Madeira.
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Uma carta de D. Manuel tornou a Madeira território da Coroa a título perpétuo e inalienável, juntamente com o mestrado da Ordem de Cristo, atingindo gravemente os privilégios dos donatários.
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A bula Pro excellenti praeeminentia, do Papa Leão X, criou a diocese do Funchal, pondo fim à supremacia espiritual da Ordem de Cristo; a igreja tornou-se catedral, D. Diogo Pinheiro foi nomeado primeiro bispo e Frei Nuno Cão primeiro deão.
Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Desertas
Santa Cruz. Ilhas incluídas nas doações de 1433.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Funchal
Sede da diocese criada em 1514.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Guiné
Guinea. Costa africana cujo senhorio temporal o Infante D. Henrique cedeu à Coroa.
A Guiné é uma região da costa africana para onde os descobridores do arquipélago se dirigiam quando foram desviados da rota. O Elucidário refere ainda que o Infante D. Henrique cedeu à Coroa o seu governo temporal e que Daniel Telo Simões Soares ali combateu em 1891.
- Lisboa
Portugal. Local onde foi emitida a carta de 20 de maio de 1439.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Porto Santo
Ilha incluída nas doações de 1433.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 13-
Autor de Monarchia Lusitana, citado a propósito das primeiras doações das ilhas.
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Rei de Inglaterra e marido de D. Catarina de Bragança.
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Rei que confirmou a doação ao Infante D. Henrique em 1449 e 1459 e doou o arquipélago ao Infante D. Fernando em 1460.
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Filha de D. João IV e mulher de Carlos II de Inglaterra, beneficiária de uma doação fictícia da Madeira.
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Rei de Portugal cujas cartas de 26 de setembro de 1433 doaram as ilhas ao Infante D. Henrique e à Ordem de Cristo.
- D. João Im. 1433
Rei de Portugal que se presume ter sido o primeiro a doar ou confirmar a Madeira ao seu filho, o Infante D. Henrique.
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Rei de Portugal que matou o Infante D. Diogo.
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Rei que, cinco dias antes de morrer, fez uma doação ilegal e nunca concretizada da Madeira à sua filha Catarina.
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Grão-mestre e, mais tarde, rei, cuja carta de 27 de abril de 1497 tornou a Madeira uma possessão permanente da Coroa.
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Grão-mestre da Ordem de Cristo após o seu irmão João, foi assassinado por D. João II.
+ 3 mais
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Irmão de D. Afonso V que sucedeu ao Infante D. Henrique como grão-mestre e senhor da Madeira em 1460.
- Infante D. Henrique1394–1460
O Infante D. Henrique, a quem se atribui a descoberta da Madeira e a quem foi concedido o senhorio temporal do arquipélago em 1433.
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Filho de Fernando, a quem sucedeu como grão-mestre da Ordem de Cristo.