Jerónimo Fernando (D.) 1Nomeação e ascendência
Jerónimo Fernando (D.)
Biografia de D. Jerónimo Fernando, nono bispo do Funchal (nomeado em 1619, tomou posse em 1621 e morreu em 1650), conhecido por «Bravo». Reformador rigoroso, exerceu por três vezes o cargo de governador interino da Madeira.
1Nomeação e ascendência
Ficando vago o bispado do Funchal em 1617 pela transferência do prelado D. Lourenço de Távora para Elvas, foi apresentado bispo da nossa diocese o presbítero secular Jerónimo Fernando, no ano de 1619, tendo tomado posse do cargo no ano de 1621. Era natural de Santarém e filho de Cristóvão Dias de Figueiroa e de D. Maria de Basto, descendendo por bastardia do rei D. Duarte, segundo se lê no seu epitáfio, no claustro do convento da Graça em Lisboa. Camilo Castelo Branco numa nota do seu romance o Regicida, diz o seguinte acerca da ascendência deste prelado:
« O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamava Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã daquela menina, levou-a para o paço e educou-a com esmero e carinho de irmã. Saiu a dama muito namoradeira e desatinada, com immenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia estando a corte em Santarém, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janella para a rua um cavalleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não!–replicou a mulher de D. João II–has de casar com quem eu muito bem quizer; e ha de ser com o primeiro homem que passar na rua, se for solteiro». Neste lance, apontou no extremo da rua um homem ordinario, de nome Alvaro Fernandes, correeiro de officio. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capellão que os casasse. Tiveram filhos. O padre Jeronymo Fernandes, de Santarém, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã del-rei D. Manuel, e também portanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre allegou e provou a Filipe II que era terceiro neto do infante D. Fernando e obteve a mitra do Funchal».
2Governo da diocese e morte
D. Jerónimo Fernando foi o nono prelado desta diocese, governando-a pelo longo período de trinta anos. Pouco afável no trato e de seu natural áspero e desabrido, teve por isso a alcunha de Bravo, sabendo no entanto atenuar o significado dessa palavra com a impecável correcção do seu proceder e pela maneira irrepreensível como desempenhou as altas funções do seu cargo. Uma grave acusação, porém, se lhe fez, mas de carácter político: a de ter sido partidário do domínio espanhol e de não se associar ás manifestações que entre nós se fizeram por ocasião da restauração. Foi o Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo que numa das anotações das Saudades se tornou eco dessa acusação, mas é certo que num manuscrito do meado do século XVIII se diz que «sendo governador desta ilha Luiz de Miranda Henriques, e chegando em dez de Janeiro esta nova (a da restauração) logo foi aclamado rei o dito senhor em toda a ilha, sendo grande a parte do bispo em socegar o tumulto do povo a quem se fez suspeitoso o governador pela homenagem que tinha dado a el-rei Filipe II». Esta afirmação contradiz a afirmativa do anotador das Saudades da Terra, não sendo hoje muito fácil averiguar de que lado estará a verdade histórica.
Foi D. Jerónimo Fernando muito zeloso no exercício da pregação e nas visitas pastorais, tendo sido o primeiro prelado que esteve crismando e pregando na ilha do Porto Santo.
Era assíduo no serviço religioso da catedral, á qual deu um novo regimento, e mandou fazer á sua custa o órgão grande que ainda ali se encontra no coro, que fica junto á entrada principal do templo. Reformou vários serviços eclesiásticos, coibindo muitos abusos e impondo a rigorosa observância da disciplina canónica, embora por vezes com excessiva severidade, levantando por isso clamores e protestos da parte dos seus súbditos. É certo que foi acusado de prover em vários cargos eclesiásticos alguns sacerdotes do continente, com preterição de antigas praxes e até de ordens regias existentes a favor dos clérigos madeirenses, mas justificou-se dessa acusação e as suas nomeações foram mais tarde mantidas e confirmadas pelas estações superiores.
Por três vezes, na ausência dos respectivos governadores, esteve á frente da administração do arquipélago, tendo sido louvado pelos governos da metrópole pela maneira imparcial como se houve no desempenho desse cargo.
Por fins de 1641 se retirou para o continente, não voltando mais á diocese. Morreu a 2 de Maio de 1650, sendo sepultado na igreja do convento da Graça, em Lisboa. Na sua lápide tumular se lê o seguinte epitáfio: Túmulo de D. Jerónymo Fernando, bispo do Funchal mais de trinta annos, quarto neto de El-Rei D. Duarte de Portugal pelo serenissimo infante D. Fernando, seu filho, falleceo a 2 de Maio de 1650.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 05-
O bispo D. Lourenço de Távora deixou a Madeira ao ser transferido para a diocese de Elvas, ficando vaga a diocese do Funchal.
-
D. Jerónimo Fernando foi nomeado bispo do Funchal.
-
D. Jerónimo Fernando tomou posse da diocese do Funchal.
-
No final de 1641, o bispo D. Jerónimo Fernando partiu para o continente e nunca mais regressou.
-
A notícia da Restauração chegou à Madeira e D. João IV foi aclamado rei nos Paços do Concelho do Funchal, pondo fim ao domínio castelhano; o bispo ajudou a acalmar a população.
-
O bispo D. Jerónimo Fernando morreu e foi sepultado no Convento da Graça, em Lisboa.
Lugar
Lugares mencionados · 06No estrangeiro
- Convento da Graça (Lisboa)
Portugal. Convento de Lisboa onde o bispo está sepultado.
Convento de Lisboa onde o bispo está sepultado.
- Elvas
Portugal. Diocese para a qual o seu antecessor foi transferido.
Elvas é uma cidade-fortaleza e sede de diocese em Portugal Continental. Vários bispos do Funchal foram transferidos para a sua sé, entre eles D. Lourenço de Távora em 1617 e D. José da Costa Torres em 1796; o Dr. Joaquim de Menezes e Ataíde foi nomeado bispo de Elvas em 1821. Foi a terra natal do músico Duarte Joaquim dos Santos, de José Gerardo Ferreira Passos e de António Rogério Gromicho Couceiro, e Francisco João Róscio serviu ali como engenheiro militar.
- Funchal
Sede da diocese que governou.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Porto Santo
Foi o primeiro bispo a administrar ali o crisma e a pregar.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Santarém
Portugal. Terra natal do bispo.
Santarém é uma cidade portuguesa. Foi a terra natal dos bispos D. Jerónimo Fernando e D. Fernando de Távora, de D. Frei Gaspar do Casal, e a residência do avô materno de Zarco. Maximiliano Eugénio de Azevedo serviu ali como segundo-tenente, e D. João Frederico da Câmara Leme foi transferido para o cargo de governador civil do distrito de Santarém, mas recusou-o.
- Sé do Funchal
Funchal. Dotou-a de novos regulamentos e de um grande órgão a expensas suas.
A Sé do Funchal é a catedral do Funchal, na freguesia da Sé. A sua construção começou em 1493; tornou-se sede paroquial em 1508 e catedral em 1514. Foi ponto de partida de procissões e local do voto a São Tiago, e nela estão sepultados bispos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 14- D. Jerónimo Fernandom. 1650
Nono bispo do Funchal (1621–1650) e governador interino da Madeira por três vezes; figura central desta entrada.
-
Seleiro casado com Leonor, filha ilegítima; bisavô do bispo.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador de Saudades da Terra que acusou o bispo de favorecer o domínio espanhol.
-
Romancista português que relatou a ascendência do bispo numa nota a O Regicida.
-
Pai do bispo D. Jerónimo Fernando.
-
Rei de Portugal de quem o bispo descendia por via ilegítima, segundo o seu epitáfio.
-
Rei de Portugal, marido da rainha D. Leonor.
-
Filha ilegítima do Infante D. Fernando, dada em casamento a um seleiro; bisavó do bispo.
- D. Lourenço de Távoram. 1629
Bispo do Funchal cuja transferência para Elvas, em 1617, deixou vaga a diocese.
-
Rei de Portugal e meio-irmão de Leonor, bisavó do bispo.
+ 4 mais
-
Rei a quem o sacerdote provou a sua ascendência régia e que lhe concedeu a diocese do Funchal.
-
Pai de D. Manuel I e antepassado do bispo através de uma filha ilegítima.
- Luiz Henriquesm. 1845
Governador da Madeira aquando da Restauração de 1640, visto com suspeição pelo povo devido à homenagem que prestou a Filipe.
-
Mãe do bispo D. Jerónimo Fernando.