Doação da Ilha da Madeira á Infanta D. Catarina 1A doação projectada
Doação da Ilha da Madeira á Infanta D. Catarina
Descreve os documentos preparados por precaução e falsificados em 1660 durante a regência de D. Luísa, que doavam a Madeira à Infanta D. Catarina para que a ilha pudesse ser oferecida como dote em troca do apoio inglês durante a Guerra da Restauração. O sacrifício revelou-se desnecessário, pois a Inglaterra aceitou, em vez disso, privilégios comerciais, Tânger e Bombaim.
1A doação projectada
Na ânsia de um apoio seguro e não sucumbir Portugal na luta da Independência, esteve preparado um alto sacrifício para pesar prontamente na balança das nossas concessões e atrair o auxílio da Inglaterra. Ia ser doada á infanta D. Catarina, filha de D. João IV e futura rainha inglesa, a jóia mais cara de Portugal-nos presentes da noiva figuraria, se preciso fosse, o florido ramalhete da ilha da Madeira.
A rainha regente D. Luisa, rodeada de amarguras com o peso do governo, olhando um herdeiro inábil e uma corte, qual bastidor de emaranhadas representações políticas, não querendo tomar sôbre si a responsabilidade de alienar a Madeira, nem incorrer na maldiçam de Deus, conforme a carta de D. Manuel quando fez a ilha realenga (T. 1.º do Arquivo da Camara Municipal do Funchal), faz forjar uma doação do rei defunto a sua filha, e envia-a aos Senados do Funchal e Machico para que se tombassem os diplomas. Este curioso ponto histórico é tratado pelo Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo nas notas ás Saudades da Terra, pag. 384.
Eram documentos para precaução, pois lá está escrito, quando for tempo, com o fim de vencer qualquer obstáculo que sobreviesse nas negociações diplomáticas.
No Arquivo da Câmara Municipal de Machico, acham-se tombados curiosos documentos sôbre este assunto, nos títulos do L. 3.º Parte 1 (fs. 158 v.º Traslado do Alv. de S. M. da mercê feita á S. Infanta D. Catharina. a 23 de Novembro de 1660; fs. 261 Traslado da procuração da S. I. D. Catharina, 18 de Novembro de 1660; Alvará que declara a forma com que a S. I. D. Catharina deve usar das doações que lhe fez S. M. seu augusto Pai).
2Desfecho e fontes
Fazia-se também reviver nesse tempo a lenda dos namorados inglêses que aportaram a esta ilha, a fim de cohonestar uma suposta prioridade da descoberta, para amortecer a dor da perda da Madeira, se acaso fosse preciso. (V. Machim)
Não foi necessário tamanho sacrifício. A liberdade do comercio inglês no Brasil e nas Índias Orientais, Tanger e Bombaim, “chaves do Mediterrâneo e da India” satisfizeram a diplomacia britanica, ignorando os citados documentos que revestiam um certo caracter confidencial.
Existe um folheto intitulado Um Ponto de Historia Pátria, Funchal, 1914, separata de artigos publicados no Heraldo da Madeira, nºs 2815-16 e 2823-24, que se refere a este assunto. S.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 02-
A Madeira foi doada à Infanta D. Catarina de Bragança por alvará régio de 23 de novembro de 1660 (com procuração datada de 18 de novembro). O governador Furtado apresentou a escritura de doação à Câmara do Funchal para registo em 7 de dezembro; a escritura foi também registada em Machico.
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Foi publicado no Funchal o opúsculo Um Ponto de Historia Pátria, sobre a doação da Madeira à Infanta D. Catarina.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Brasil
Brazil. A liberdade de comércio concedida aos ingleses no Brasil fez parte do acordo.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Funchal
A sua Câmara registou a doação.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Inglaterra
United Kingdom. Potência cujo apoio Portugal procurava obter.
A Inglaterra surge no Elucidário como o primeiro grande mercado dos bordados da Madeira e o principal importador dos artigos de vime madeirenses. Era também a origem da maior parte da manteiga consumida no Funchal no início do século XIX. Foi um dos principais refúgios dos emigrados liberais que fugiam à perseguição miguelista, e vários madeirenses estudaram ou exerceram funções diplomáticas no país.
- Machico
O seu arquivo conserva cópias dos documentos da doação.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Tânger
Morocco. Cedida à Inglaterra em vez da Madeira.
Tânger é uma cidade marroquina em cujo cerco Zarco terá perdido um olho e protegido a retirada do Infante D. Henrique; Rui e Simão Gonçalves da Câmara também ali combateram. Foi tomada com a participação dos Leme e tornou-se sede de uma nova diocese, chefiada por D. Nuno de Aguiar. Mais tarde, foi cedida à Inglaterra em vez da Madeira.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador de Saudades da Terra que abordou este episódio.
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Filha de D. João IV e futura rainha de Inglaterra, a quem a Madeira seria doada como dote, caso fosse necessário.
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Rei de Portugal em cujo nome foi redigida, após a sua morte, a doação da Madeira à filha.
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Rei cuja carta tornou a Madeira propriedade da Coroa e lançou uma maldição sobre quem a alienasse.
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Rainha regente que mandou falsificar a doação da Madeira e enviá-la às câmaras do Funchal e de Machico.