Machico (Vila e Município de) 1O vale e a vila de Machico
Machico (Vila e Município de)
Verbete sobre a vila e o concelho de Machico, que descreve a sua localização num vale e traça a sua história municipal, desde a provável criação por volta de 1451 e as perdas territoriais para Santa Cruz, São Vicente e Santana até às suas armas, privilégios e novos Paços do Concelho de 1929.
1O vale e a vila de Machico
«O vale de Machico, onde assenta a vila do mesmo nome, tem, diz o dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, uns cinco a seis quilometros de extensão, por dois a tres de largo, decorre na direcção norte-sul, entre duas cordilheiras, uma por leste, que, vindo sobre a vila erguer o Pico do Facho, depois se prolonga para o Caniçal, e, entrando pelo mar fora, forma a alterosa Ponta de São Lourenço, no extremo pincaro da qual se ergue de ha anos, um bom farol de rotação, que desde além da ilha do Porto Santo se avista; outra, que vem terminar no elevado planalto denominado a Queimada, a cavalleiro do mar. Destas cordilheiras brotam e derivam abundantes e bellas aguas que lhe fertilisam o torrão de si uberrimo, e, já escoando-se através do acidentado solo, já afluindo aos ribeiros menores, vem formar-lhe a caudal ribeira, que, ao longo delle serpeia até á praia, onde desagua no Atlantico. Nestas condições o vale de Machico é opulento em variadissima vegetação, desde as gramineas até os arvoredos frutiferos e não frutiferos; pitoresco e amenissimo, deveria ser surpreendente quando, no estado de floresta virgem, contemplado foi por Zarco e Tristão Vaz. O vasto porto e ampla enseada protegidos a leste pela Ponta de São Lourenço, por oeste abrigados com a alterosa costa chamada do Sul, e, por isso, seguro com todos os ventos excepto o deste quadrante, completam o panorama geral do sitio de Machico. A vila assenta na extrema baixa do vale, á beira-mar, cortada longitudinalmente pela ribeira em duas partes ou bairros: para o oeste, o antigo, a vila propriamente dita, com as casas da nobreza, com a igreja matriz, modestamente manuelina, o paço do concelho, e, ao longo da praia, a encantadora alameda; para leste, a Banda de Além, arrabalde de pobres maritimos, humildes habitações, estreitas e tortuosas viélas, mas brancas as casinhas e em anfiteatro, porque já vão invadindo a encosta do convisinho Pico do Facho, e, marginal da Ribeira, para o lado do mar, a pequena igreja de Christo, ou, mais exacto, da ordem de Christo, como ainda o estão dizendo as cruzes desta milicia que lhe exornam o portico primitivo, templosinho este sem duvida o primeiro levantado na ilha da Madeira; e entre estes dois bairros, os grossos muralhões, a dentro dos quais corre a ribeira, mansa e limpida quasi sempre, torrencial e medonha nas invernias: tal é a vila, que, engastada naquele quadro, lhe realça a beleza..... Todo este variado painel, contemplado do alto da Queimada ou do Pico do Facho, que dominam o vale e as encostas, a ribeira e as culturas, a vila e os casalejos, o porto e a enseada, o mar até onde vai confundir-se com o horizonte, a Ponta de São Lourenço a azular-se com a atmosfera, a costa do sul pouco a pouco esvaecida na penumbra do occaso. . é majestosamente belo. . . »
2Criação e limites do município
Não se conhece a data da criação da vila de Machico. O primeiro e mais antigo livro do arquivo municipal, em que talvez viesse registado o respectivo diploma, desapareceu há algumas dezenas de anos e não se tem encontrado quaisquer referencias a êsse documento. Nos Anais do Municipio, redigidos há cerca de setenta anos, afirma-se que «a criação da vila de Machico data da epocha em que foi criada a vila do Funchal», o que parece provavel, se atendermos a que as duas localidades foram, nos tempos primitivos da colonização, crescendo simultaneamente em importancia, chegando-se a supor que Machico atingiu maior desenvolvimento que a futura capital do arquipelago. O dr. Rodrigues de Azevedo aceita a opinião que as duas vilas tivessem sido criadas pela mesma epoca.
Também se não conhece a data precisa da criação da vila do Funchal, conjecturando o anotador das Saudades que essa criação data do ano de 1451 (V. Funchal (Criação da Vila e Município do) vol. II, pag. 59), devendo igualmente adoptar-se essa epoca aproximada como a da elevação de Machico á categoria de vila.
O município de Machico correspondia em área e extensão á antiga capitania. Sofreu êle um profundo cerceamento com a criação da vila e municipio de Santa Cruz no ano de 1515 e não menor mutilação sofreu ainda com o estabelecimento do municipio e vila de São Vicente no ano de 1744.
Com a implantação do governo constitucional e a sua recente organização administrativa, de novo o município de Machico ficou reduzido a mais acanhadas dimensões, quando em 1835 se criou o concelho de Santana. Apesar dos protestos do Senado de Machico, manteve-se a criação do novo concelho, que ficou constituído com as freguesias que actualmente o compõem e ainda com a paroquia do Pôrto da Cruz. Pelo decreto de 19 de Outubro de 1852, foi esta freguesia desanexada do concelho de Santana e encorporada no de Machico.
Em virtude do mesmo decreto, foram anexados ao concelho de Santa Cruz alguns sitios das freguesias de Machico e Santo da Serra, o que provocou enérgicos protestos por parte da Camara Municipal de Machico e de varias entidades oficiais e particulares em destaque neste concelho. Depois de vários incidentes e peripécias, que pareciam intermináveis, fêz o secretario geral do distrito, António Lopes Barbosa de Albuquerque, servindo de governador civil, reunir na Casa dos Romeiros do Santo da Serra, no dia 11 de Setembro de 1862, representantes das camaras municipais de Machico e Santa Cruz, administradores do concelho, diversos funcionarios publicos e outras pessoas de representação, e ali se assentou definitivamente numa nova divisão concelhia e paroquial, que ficou sendo a actual, tendo dêste modo terminado as reclamações e protestos que duma e doutra parte se levantaram.
3Armas, privilégios e instituições
Acerca das armas do município de Machico, lê-se nos já citados Anais, o seguinte: «Uma esfera em relevo, qual a das armas de el-rei D. Manuel, quando duque de Beja e grão mestre da Ordem de Cristo, são as armas da antiga vila de Machico, oferecidas pelo mesmo rei em 1499 ao senado da Camara. É tradição que o cunho de prata com cabo de marfim que ainda existe na Camara, é o proprio com que el-rei enobrecera esta vila».
D. Manuel I também ofereceu ao antigo senado de Machico um padrão de pesos de bronze, que, além das armas reaes, tem gravada a seguinte inscrição: «Dom Emanuel o primeiro de Portugal, o muito alto e excellentissimo rei, me mandou fazer, Anno de Nosso Senhor. J. H. P. O. D. 1499». O mesmo monarca ofereceu igualmente alguns objectos de valor á igreja matriz desta vila, como em outro lugar veremos.
Interrogada a camara de Machico em 1780 acerca dos privilégios de que gozava, respondeu que o senado desta vila desfrutava as mesmas regalias e isenções do senado da camara de Lisboa, e que era concebido nos seguintes termos o tratamento que lhe competia: Ill.mo Senado da Camara da antiga e nobre villa de Machico.
Depois do restabelecimento do governo constitucional, foi nomeada uma comissão administrativa da câmara a 16 de Julho de 1834, sendo eleita a primeira vereação a 20 de Outubro do mesmo ano. O primeiro administrador do concelho foi Alberto de Oliveira, nomeado a 4 de Outubro de 1835.
A vila de Machico foi sede duma Misericordia, à qual nos referiremos mais de espaço no artigo Misericordias.
Teve alfandega, de que já nos ocupamos a pág. 43 e 44 do vol. I desta obra. Os municípios ou vilas de Machico e Santa Cruz tiveram um foral comum, que vem transcrito a pág. 507 e seguintes das Saudades da Terra e tem a data de 15 de Dezembro de 1515. Encerra dados interessantes para a historia da administração publica nestes municípios.
Desde o ano de 1929, possui esta vila um belo edifício, em que se acham instaladas algumas repartições concelhias e os diversos serviços camarários, tendo notavelmente contribuído para a construção destes Paços do Concelho o general Antonio Teixeira de Aguiar, ilustre filho da freguesia de Machico.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
D. Afonso V elevou o Funchal à categoria de vila; Machico e a Baleira (Porto Santo) terão sido elevadas a vilas e concelhos por volta da mesma época.
-
D. Manuel I concedeu a Machico as suas armas e mandou fazer padrões de pesos em bronze, que ostentam esta data.
-
D. Manuel I elevou Santa Cruz à categoria de vila e criou o respetivo concelho a partir de território de Machico (em 20 ou 26 de junho de 1515).
-
Machico e Santa Cruz receberam conjuntamente um foral com privilégios, que previa a criação de uma alfândega.
-
Uma carta régia elevou a freguesia de São Vicente à categoria de vila e concelho, anexando-lhe localidades do norte como Porto Moniz, Ponta Delgada e Seixal e reduzindo ainda mais o concelho de Machico.
-
A Câmara Municipal de Machico declarou que gozava dos mesmos privilégios que a de Lisboa.
-
Foi nomeada uma comissão administrativa para a Câmara Municipal de Machico após a restauração constitucional.
-
Foi eleita a primeira Câmara Municipal constitucional de Machico.
-
Uma nova organização administrativa atribuiu à Madeira dez concelhos, criando, entre outros, Câmara de Lobos, Santana (incluindo Porto da Cruz, apesar dos protestos de Machico), Porto Moniz, São Vicente e Calheta, e reorganizando o da Ponta do Sol; os limites do concelho do Funchal foram fixados no final do ano e o chefe do distrito passou a ser o governador civil.
-
Alberto de Oliveira foi nomeado primeiro administrador do concelho de Machico.
-
Um decreto transferiu a freguesia do Porto da Cruz de Santana para o concelho de Machico e passou alguns sítios de Machico para Santa Cruz.
-
Uma reunião na Casa dos Romeiros, no Santo da Serra, fixou definitivamente os limites concelhios e paroquiais entre Machico e Santa Cruz, pondo fim a longas disputas.
-
Foram inaugurados os novos Paços do Concelho de Machico.
Lugar
Lugares mencionados · 17- Machico · Assunto
Machico é uma vila e concelho da Madeira situados num vale. O Elucidário traça a sua história municipal desde a provável criação por volta de 1451, passando pelas perdas territoriais para Santa Cruz, São Vicente e Santana. Regista também as suas armas, os seus privilégios e os novos Paços do Concelho de 1929.
- Banda de Além
Machico. Bairro de pescadores a leste da ribeira.
Banda de Além é um bairro populoso de pescadores da vila de Machico, situado na margem esquerda (leste) da ribeira, perto da foz, e um dos principais centros piscatórios do arquipélago. Nele se encontra a Capela do Senhor dos Milagres, palco da romaria mais popular da Madeira; em 1748, foram legadas casas do sítio para um hospital.
- Caniçal
Machico. Zona até à qual se estende a encosta oriental.
Freguesia piscatória isolada no extremo oriental da Madeira, na base da Ponta de São Lourenço. Teve origem num morgadio dos Moniz e na coutada de João Teixeira, tornando-se freguesia por volta de 1561. Celebra a festa de Nossa Senhora da Piedade com uma procissão marítima e possui um forte construído após um ataque de piratas.
- Capela de Cristo (Machico)
Machico. Pequena igreja da Ordem de Cristo, considerada a primeira construída na Madeira.
Pequena igreja da Ordem de Cristo, considerada a primeira construída na Madeira.
- Casa dos Romeiros
Machico. Local da reunião de 1862 em que foram fixados os limites territoriais.
A Casa dos Romeiros é uma casa de acolhimento de peregrinos em Santo da Serra, na Madeira. Acolheu a reunião de 1862 que fixou os limites entre os concelhos de Santa Cruz e Machico.
- Funchal
Vila provavelmente criada na mesma altura que Machico.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Machico
Localidade a que se dedica o verbete.
A freguesia de Machico foi o local do desembarque dos descobridores Zarco e Tristão Vaz e a sede da Capitania de Machico; foi criada cerca de 1450. O Elucidário aborda o seu clero e as respetivas côngruas, as capelas, os acontecimentos históricos, as fontes minerais, os sítios, a população e os naturais ilustres.
- Pico do Facho
Machico. Pico na cumeada oriental, sobranceiro à vila.
O Pico do Facho é um pico do concelho de Machico, com 329 m de altitude, cujo nome evoca os fachos acesos pelos facheiros. Na época do cabo elétrico, existiu ali um telégrafo de sinais.
- Ponta de São Lourenço
Machico. Promontório com um farol que abriga a baía de Machico a leste.
A Ponta de São Lourenço é uma ponta longa e estreita no extremo oriental da Madeira, na freguesia do Caniçal. Diz-se que recebeu o nome da caravela São Lourenço e tem um farol num dos seus ilhéus. O Elucidário descreve a sua geologia, a vegetação sazonal, os ilhéus, as formações calcárias fósseis da Piedade, os caracóis terrestres e o seu uso como pastagem. O vapor Forerunner naufragou ali em 1884, e existe um banco submarino entre a ponta e as Desertas.
- Porto da Cruz
Machico. Freguesia transferida do concelho de Santana para o de Machico em 1852.
Freguesia da Costa Norte criada em 1577 e conhecida pelos seus vinhos de boa qualidade. Passou do concelho de Santana para o de Machico em 1852 e foi sede de uma capitania-mor. Era também um porto de pesca onde eram desembarcados alguns cachalotes.
- Porto Santo
A luz do farol de São Lourenço é visível para lá de Porto Santo.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Queimada
Machico. Achada onde termina a cumeada ocidental, acima do mar.
Sítio habitado em Água de Pena, concelho de Machico. Nele se encontra a primeira capela da Madeira dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, datada de 1924.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 07-
Primeiro administrador do concelho de Machico, nomeado em 4 de outubro de 1835.
- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado pela sua descrição do vale de Machico e pela datação da criação da vila.
-
Secretário-geral do distrito que, como governador civil interino, convocou a reunião de 1862 em que foram fixados os limites entre Machico e Santa Cruz.
-
General do Exército nascido na freguesia de Machico que contribuiu de forma assinalável para a construção dos Paços do Concelho de 1929.
-
Rei que, em 1499, concedeu a Machico armas com a esfera armilar, um padrão de pesos em bronze e dádivas à sua igreja.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira que, com Tristão Vaz, avistou pela primeira vez o vale virgem de Machico.
- Tristão Teixeiram. 1470
Codescobridor da Madeira e primeiro capitão da capitania de Machico.