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Caniçal (Freguesia do) 1Situação e origens
Artigo Nº 0769 Freguesia Machico Vol. I · pp. 455–459 7 min de leitura

Caniçal (Freguesia do)

Descreve o Caniçal, freguesia piscatória isolada na extremidade oriental da Madeira, desde as suas origens como morgadio dos Moniz e reserva de caça até à criação da freguesia por volta de 1561, abordando ainda as igrejas, a procissão marítima, a paisagem, as baías e os picos.

Caniçal (Freguesia do)
Mapa: Arquipélago da Madeira (24)

1Situação e origens

No extremo leste da Madeira se encontra esta pequena e solitaria freguesia. É uma aldeia de pobres pescadores, que demora entre as alcantiladas rochas que a separam de Machico e os terrenos de caprichoso recorte e de acidentado relêvo que formam a ponta de São Lourenço. Pode afirmar-se que fica isolada do resto da ilha, embora não esteja dela separada pelo oceano, em virtude da dificuldade das comunicações, que, apenas em circunstancias de extrema necessidade e somente quando o estado do mar o não permite, se estabelecem com a vizinha freguesia de Machico, através dum estreito carreiro praticado na rocha, por vezes abrupta e sempre semeada dos mais arriscados e iminentes perigos. A existencia dos seus habitantes decorre entre os labores da pesca, a que principalmente se entregam, e o amanho e cultivo de algumas terras. Vivem muito abaixo duma estricta mediania, e quando estala a procela e ondas alterosas vêm fustigar a costa, impedindo as labutas do mar, a miseria e a fome entram em muitos casais e ali estadeiam todo o seu cortejo de horrores. É uma gente pacifica e ordeira, acostumada ao remanso feliz daquele isolamento e daquela tranquilidade, desconhecendo os confortos e comodidades dos centros populosos e não invejando, portanto, os gozos e atractivos que esses meios, onde impera o bulicio e o prazer, proporcionam aos eleitos da fortuna.

A origem do seu nome deve ser a mesma que apontamos para a freguesia do Caniço, e, adoptando-a como tal, não nos parece andar muito distanciados da verdade. O nucleo primitivo da colonização desta freguesia “provem, diz o dr. Azevedo, da fazenda povoada no sitio assim chamado (do Caniçal), a qual pertencia a Vasco Martins Moniz, fallecido em 1510; este fez ahi morgado, por testamento de 5 de setembro de 1489, a favor de seu primogenito Garcia Moniz, o qual foi senhor do Caniçal e fundador da igreja do logar, no primeiro quartel do seculo XVI”.

Mais velho, mas talvez ainda contemporaneo de Vasco Martins Moniz, foi João Teixeira, terceiro filho do descobridor Tristão Vaz, o primeiro donatario de Machico, e dele diz Gaspar Frutuoso: “... foi grande caçador e inclinado a montear, e por essa causa havia na Villa de Machico huma coutada sua no Caniçal, de tanta caça de coelhos, perdizes, pavões, e muitos porcos javaliz, que se affirma que era a melhor coutada de todo o Portugal: o que dá a entender huma carta que hoje em dia está na Camara de Machico, escripta por El-Rey D. Manoel aos officiaes della, em que lhes encomenda muito que tenham estreita conta com a coutada dos filhos do primeiro capitam, e que ninguem entre nella, porque lhe inculcavam e affirmavam que, se elle acertasse vir á ilha, em nenhumas outras terras podia montear e caçar, senão nesta do Caniçal, e campos de Sancta Catharina”.

Embora nos pareça haver algum exagero nas palavras do cronista, devemos no entretanto acreditar que a coutada tinha importancia, e os terrenos que a constituíam ainda hoje conservam o nome de Terras de João Teixeira.

2Paróquia e templos

O Caniçal é a mais antiga das pequenas paroquias desta ilha. O seu isolamento e dificuldades de comunicações com as povoações vizinhas mais ainda do que o numero dos seus moradores, aconselharam a criação da freguesia, o que se deu pelos anos de 1561, pois nesta epoca nem chegariam a 15 os casais que a povoavam. O alvará regio de 12 de Setembro de 1564 fixou em 14.300 réis o vencimento anual do pároco, que foi respectivamente aumentado pelos alvarás de 24 de Novembro de 1572, 10 de Setembro de 1589, 22 de Outubro de 1592 e 31 de Agôsto de 1609, ficando então a perceber anualmente a côngrua de 24.000 réis em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho, o que em atenção á população, constituía um ordenado superior ao de outros vigarios, o que se justificava pela pobreza e isolamento do logar. Sabemos que no periodo decorrido de 1590 a 1660 foram párocos nesta freguesia os padres Amador Caldeira, Antonio Ferreira de Quental, Matias Catanho e Vicente Luiz.

Foi na capela de S. Sebastião, fundada por Garcia Moniz no primeiro quartel no seculo XVI, que se instalou a sede da nova freguesia. Por 1594 se acrescentou ou reedificou a mesma capela, deixando-a em tal estado de ruína o terramoto de 1748, que uma testemunha contemporanea diz que não tem outro remedio senão nova edificação. A 9 de Junho de 1749 se lançou a primeira pedra para a construção do novo templo, que é o actual, procedendo-se á sua benção solene no dia 13 de Dezembro de 1750. Foi erigido em sitio um pouco afastado do da primeira igreja, conservando este ainda o nome de Sitio da Igreja Velha.

Tem esta paroquia a capela de Nossa Senhora da Piedade, pitorescamente situada no alto dum monte e a debruçar-se sôbre as aguas do oceano. Foi construída no monte Gordo ou da Piedade, a distancia de 4 quilometros da igreja paroquial. É ocasião de fazer referencia á original procissão que todos os anos se realiza em direcção a esta capela, saindo o prestito religioso da igreja paroquial a caminho da praia, onde toma alguns barcos vistosamente engalanados, sendo de perto seguida por um numero consideravel de pequenas embarcações á vela até a raiz do monte, fazendo-se aí o desembarque e em seguida a penosa ascensão da aprumada escarpa, dando por fim entrada na pequena e solitaria ermida.

3Terrenos, águas e sítios

Os terrenos desta freguesia estão em grande parte por cultivar, devido á escassez de aguas de irrigação. Tem falta de fontes de agua potavel e não é atravessada por ribeiras. O autor das Saudades, referindo-se certamente a uma epoca muito anterior àquela em que este livro foi escrito (1590), diz o seguinte:

Para se regarem canas de assucar nesta villa (Machico) e para o Caniçal, se tirou huma levada d’agoa de tão longe, que do logar onde nace até a villa serão quatro legoas e meya ou perto de cinco, na qual se gastaram mais de cem mil cruzados, por vir de grandes serras e funduras; e dizem que na obra della se furaram dous picos de pedra rija, por não haver outro remedio. Raphael Catanho, genoes, com o grande spirito que tem, como quase todos os estrangeiros e principalmente os desta nação, foi o primeiro que começou a tirar esta agoa, e depois El-Rey a mandou levar ao cabo: e, pelo muito custo que fazia, ja se não usa. A esta passagem de Frutuoso acrescenta o padre Fernando Augusto de Pontes, no seu interessante livro Excursões na Madeira,: “é esta mesma levada a que abastece de agua a quinta do Palheiro Ferreiro”. Parece que noutros tempos teve esta freguesia uma notavel arborização, e ainda hoje, ao norte dela, se encontram algumas matas, restos talvez das antigas florestas.

Nos limites desta paroquia ficam os conhecidos Fosseis, que são um dos pontos de maior interêsse que esta ilha oferece ás observações dos naturalistas. A eles nos referimos em outro logar. (Vid. Corpos Calcareos da Piedade).

A ponta de S. Lourenço com seu ilhéu adjacente, onde estão instalados um farol e uma estação telegráfica e semafórica, merecem mais demorada referencia, o que faremos em artigo especial.

Entre a povoação e a ponta de S. Lourenço fica a interessante e pitoresca baía da Abra, não menos vasta do que a de Machico, e muito abundante em peixe. Houve o pensamento de ali se construir um porto de abrigo e arsenal de marinha, chegando para este fim a realizarem-se alguns estudos no primeiro quartel do seculo passado.

Aquém desta baía, isto é, entre ela e o povoado, fica uma pequena praia que tem o nome de Prainha, e que é bastante visitada pelos veraneantes que passam a estação calmosa na vila de Machico. É a unica praia de areia que tem esta ilha, ficando situada ao fundo duma pequena e pitoresca enseada. Nas imediações dela se levantava a antiga igreja, e hoje prepara-se ali a construção dumas salinas.

Com excepção da parte povoada, é esta freguesia em geral muito montanhosa e de um grande acidentado nos seus terrenos, podendo fazer-se menção dos montes ou picos do Penedo do Saco, do Junqueiro, Lagedo, Cancela, Judeu, Dragoal, Tojal, Facho e Castanho, ficando o alto deste a mais de 600 metros acima do nivel do mar. O pico da Cancela é uma cratera extinta, e das suas imediações se avista a ponta de S. Jorge e a ilha do Pôrto Santo, sendo nesta eminencia que verdadeiramente começa o cabo ou ponta de São Lourenço.

Os principais sitios são Banda do Silva, Serrado do Marmeleiro, Entre as Aguas e Banda de Além.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 10
  1. Vasco Martins Moniz instituiu por testamento um morgadio no Caniçal para o seu filho Garcia Moniz.

  2. Vasco Martins Moniz morreu no Torrão.

  3. Foi criada a freguesia do Caniçal, a mais antiga das pequenas freguesias da Madeira.

  4. Um decreto régio fixou a côngrua do pároco do Caniçal em 14 300 réis.

  5. Gaspar Frutuoso escreveu as Saudades da Terra em São Miguel, obra fundamental para a história da Madeira; no mesmo ano, Jerónimo Dias Leite foi nomeado cónego de prebenda inteira.

  6. A Capela de São Sebastião, no Caniçal, foi ampliada ou reconstruída.

  7. Um último decreto aumentou a côngrua do pároco do Caniçal para 24 000 réis, mais trigo e vinho.

  8. Na noite de 31 de março para 1 de abril de 1748, um violento sismo atingiu a Madeira, causando poucas mortes, mas grandes danos em edifícios, incluindo a Sé, o paço episcopal, a alfândega, a Igreja do Monte, a casa do Mosteiro Novo e numerosas capelas e igrejas paroquiais.

  9. Foi lançada a primeira pedra da nova igreja do Caniçal.

  10. A nova igreja do Caniçal foi solenemente benzida.

Lugar

Lugares mencionados · 24
  1. Caniçal · Assunto

    Machico. Freguesia descrita nesta entrada.

  2. Baía da Abra

    Machico. Grande baía rica em peixe, outrora estudada para a instalação de um porto e de um arsenal naval.

  3. Banda de Além

    Machico. Um dos principais sítios da freguesia.

  4. Banda do Silva

    Machico. Um dos principais sítios da freguesia.

  5. Caniço

    Santa Cruz. Freguesia cujo nome tem a mesma origem que o do Caniçal.

  6. Capela de Nossa Senhora da Piedade

    Machico. Capela no alto de um monte à qual chega a procissão marítima anual.

  7. Corpos Calcários da Piedade

    Machico. Depósitos fossilíferos de grande interesse para os naturalistas.

  8. Entre as Águas

    Machico. Um dos principais sítios da freguesia.

  9. Igreja de São Sebastião (Caniçal)

    Machico. Capela fundada por Garcia Moniz, que serviu de igreja paroquial e foi reconstruída como a igreja atual em 1749–1750.

  10. Igreja Velha

    Funchal. Local da igreja primitiva.

  11. Machico

    Freguesia e vila vizinhas, a que se chegava do Caniçal apenas por um perigoso caminho à beira da arriba.

  12. Monte Gordo

    Machico. Monte onde se ergue a Capela de Nossa Senhora da Piedade.

+ 12 mais

Pessoas

Pessoas mencionadas · 13
  1. Anotador das Saudades da Terra, de Frutuoso, citado a propósito da origem do povoamento do Caniçal.

  2. Pároco do Caniçal entre 1590 e 1660.

  3. Pároco do Caniçal entre 1590 e 1660.

  4. Rei que escreveu à Câmara de Machico para ordenar a proteção da coutada do Caniçal.

  5. Autor de Excursões na Madeira, que identificou a antiga levada com a que abastecia a Quinta do Palheiro Ferreiro.

  6. Filho mais velho de Vasco Martins Moniz, senhor do Caniçal e fundador da sua primeira igreja, a Capela de São Sebastião.

  7. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Autor das Saudades da Terra (1590), citado a propósito da coutada do Caniçal e da levada.

  8. Terceiro filho de Tristão Vaz, que manteve no Caniçal uma afamada coutada, as Terras de João Teixeira.

  9. Pároco do Caniçal entre 1590 e 1660.

  10. Genovês que iniciou a construção da levada destinada a levar água a Machico e ao Caniçal, posteriormente concluída pelo rei.

+ 3 mais
  1. Descobridor e primeiro capitão-donatário de Machico, pai de João Teixeira.

  2. Proprietário de terras no Caniçal, onde instituiu um morgadio por testamento de 1489.

  3. Pároco do Caniçal entre 1590 e 1660.

Na folha C

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