Caracóis 1Designação e especies
Caracóis
Entrada geral sobre os caracóis terrestres e de água doce (moluscos pulmonados) do Arquipélago da Madeira, que assinala o seu notável endemismo em cada ilha e a abundância de depósitos subfósseis. Adota a contagem de Wollaston de 176 espécies, 131 das quais terrestres e endémicas.
1Designação e especies
De um modo geral, são assim designados os moluscos terrestres da familia Helicida, ou mesmo outros, incluindo os de agua doce, que pela concha se assemelham aos daquela familia.
A historia natural dos pulmonados madeirenses tem sido cuidadosamente investigada por varios malacologistas, como R. T. Lowe, Barão de Castelo de Paiva e outros, mas não se encontram dois autores em que haja acôrdo relativamente ao numero de especies assinaladas. Se um pretende que certas formas tenham a categoria de especie, outro assevera que não passam de meras variedades, estabelecendo-se ás vezes a concepção inversa a respeito de outras formas.
Aceitando a opinião de T. V. Wollaston, o ultimo dos autores que se têm ocupado desenvolvidamente do assunto, existem 176 especies, das quais 131, considerando somente as terrestres, são peculiares a estas ilhas.
É portanto, o nosso arquipelago um foco criador de muitas especies de pulmonados, e o que torna ainda mais notavel esta parte da fauna é que dessas 131 especies, 61 são peculiares á Madeira, 44 ao Porto Santo e 10 ás Desertas, havendo sómente 16 comuns a tôdas as ilhas. E neste cômputo são tomadas as Desertas como um todo, pois se as considerarmos, como realmente são, isto é, três ilhas, resulta que apenas 5 especies podem ser consideradas como pertencendo a tôdas as ilhas do arquipelago. Vê-se, pois, que cada ilha deu por sua vez origem a formas particularmente suas, e a distribuição fêz-se em áreas tão limitadas que até pequenos ilhéus, cabeços isolados no mar, viram criar-se entre as suas rochas formas que, fora de habitat tão restrito, nunca puderam ser encontradas.
2Generos e fosseis
Assim é que os ilhéus da Cal, de Fora e da Fonte, no Pôrto Santo, têm formas de Helix e Pupa que lhes são privativas. Outras vezes circunscreve-se o habitat ás cristas de montes vizinhos ou á encosta de uma ravina, o que sucede tanto no Pôrto Santo como na Madeira. É o genero Helix o que maior numero de representantes conta, seguindo-se-lhe Pupa, Lovea, Patula e
Clausilia com um numero de especies sucessivamente decrescente, além de outros de menor importancia. As lesmas estão repartidas por 10 especies, e no genero operculado Craspedopoma registam-se 4 especies, uma das quais, o C. trochoideum, só foi encontrada em certos vales do norte da Madeira. Entre as de agua doce figuram os generos Limnaea, Physa, Planorbis e Ancylus, cujos membros, todos europeus, são vulgares nas levadas, ribeiras e tanques, onde também aparece um operculado da ordem dos prosobranquios, a Hydrobia similis, e nas rochas do litoral, levadas pela maré, têm-se colhido especies endemicas dos generos Melampus e Auricula, além de outras, africanas ou europeias, dos generos Pedipes, Truncatella e Assiminea.
Muitos dos pulmonados madeirenses têm sido observados no estado sub-fossil, em quantidades prodigiosas, tomando por vezes o aspecto de conglomerados, pela sua densa agregação. Os jazigos desses fosseis ou são de areia calcarea, ás vezes compacta, como se fôsse um arenito, ou de argila misturada com calhaus angulosos, neste caso rochas clasticas ou terreno de transporte, formado quasi sempre na aba de certos montes. Existem esses jazigos na Madeira, a leste do Caniçal; no cume do Bugio, uma das Desertas; e no Pôrto Santo, em diversos sitios, como Ilhéu de Baixo, Ilhote, Vigia da Ponta, Campo de Baixo, Ribeiro da Vigia, Penedo, Mornos e Zimbral da Areia.
Das 176 especies de pulmonados-numero estabelecido segundo o criterio de Wollaston, como já se disse- 82 foram encontradas no estado fossil, e destas ultimas sómente 12 não foram observadas recentes, podendo portanto considerar-se extintas. A Helix Lowei, propria do Pôrto Santo, e que é o maior de todos os caracois do arquipelago, medindo 5 centimetros de diametro e mais, foi considerada extinta por muito tempo, porém, o botanico J. M. Moniz conseguiu descobrir um individuo vivo nos rochedos do Ilhéu de Cima, e o naturalista inglês, Dr. A. M. Norman, alcançou de um negociante de conchas em Francfort, um exemplar recente e bem conservado, que por vias ignoradas saíu evidentemente destas ilhas, indo parar á loja do negociante alemão.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 18No estrangeiro
- Bugio
Santa Cruz · Desertas. O seu cume contém depósitos de caracóis subfósseis.
O Bugio é a mais meridional das três ilhas Desertas: elevada (411 m), sem água nem habitantes, com boas pastagens e a planta rara Chrysanthemum haematomma. O Elucidário refere o Porto da Alagoa, a Ponta da Agulha, depósitos de caracóis subfósseis no seu cume e a história da sua propriedade privada no século XIX.
- Campo de Baixo
Porto Santo. Local de depósitos de caracóis fósseis.
Sítio habitado do Porto Santo com uma antiga Capela do Espírito Santo, reconstruída no início do século XIX. O Elucidário refere os seus depósitos de caracóis fósseis e vestígios de uma praia elevada, e regista que os seus habitantes capturaram uma baleia jovem encalhada em 1905.
- Caniçal
Machico. A leste do Caniçal encontram-se depósitos de caracóis subfósseis.
Freguesia piscatória isolada no extremo oriental da Madeira, na base da Ponta de São Lourenço. Teve origem num morgadio dos Moniz e na coutada de João Teixeira, tornando-se freguesia por volta de 1561. Celebra a festa de Nossa Senhora da Piedade com uma procissão marítima e possui um forte construído após um ataque de piratas.
- Desertas
Santa Cruz. Têm 10 espécies endémicas de caracóis.
Grupo de ilhas próximo da Madeira, já separado dela aquando das últimas erupções, com a qual partilha espécies endémicas. Foi a principal zona de apanha de urzela, e Wollaston encontrou ali 89 espécies de escaravelhos. As ilhas foram estudadas por expedições científicas, incluindo os cientistas do Endurance em 1914.
- Frankfurt
Germany. Local onde um comerciante de conchas vendeu um exemplar recente de Helix Lowei.
Local onde um comerciante de conchas vendeu um exemplar fresco de Helix Lowei.
- Ilhéu da Cal
Porto Santo. Ilhéu com formas endémicas de caracóis próprias.
O Ilhéu da Cal situa-se ao largo de Porto Santo. O seu calcário foi extraído para produzir cal; possui grutas com estalactites e formas endémicas próprias de caracóis.
- Ilhéu da Fonte
Porto Santo. Ilhéu com formas endémicas de caracóis próprias.
Ilhéu ao largo de Porto Santo com formas endémicas próprias de caracóis.
- Ilhéu de Baixo
Porto Santo. Local de depósitos de caracóis fósseis.
O Ilhéu de Baixo, também chamado Ilhéu da Cal, situa-se ao largo da extremidade sul de Porto Santo, separado da Calheta por um canal estreito, e marca o limite ocidental da Baía do Porto Santo. Durante séculos, forneceu todo o calcário utilizado no fabrico de cal para a construção na Madeira; o Elucidário refere ainda o seu calcário miocénico com fósseis, os caracóis fósseis, as grutas, os coelhos, um barco carregado de vinho que ali se perdeu em 1790 e a sua utilização como extremidade da Travessa do lado de Porto Santo para medições de distância.
- Ilhéu de Cima
Porto Santo. Local onde foi encontrada uma Helix Lowei viva.
O Ilhéu de Cima, também chamado Ilhéu dos Dragoeiros ou do Farol, situa-se a leste-sudeste do Porto Santo e assinala o extremo oriental do arquipélago e o limite oriental da baía do Porto Santo. Em 1900, foi ali instalado um farol, a 118 m acima do nível do mar, com um cais para o seu pessoal. Foi ali encontrado um exemplar vivo de Helix Lowei; nas proximidades ocorrem conchas de águas profundas. Em 1903, o ilhéu foi recomendado para a instalação de armações de pesca do atum.
- Ilhéu de Fora
Porto Santo. Ilhéu com formas endémicas de caracóis próprias.
Ilhéu com 100 m de altura ao largo da costa nordeste do Porto Santo, também conhecido como Rocha de Nordeste. Possui formas endémicas de caracóis.
- Mornos
Porto Santo. Local de depósitos de caracóis fósseis.
Mornos é uma localidade do Porto Santo. É conhecida pelas suas concreções calcárias e depósitos de caracóis fósseis.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05-
Naturalista inglês que obteve uma concha recente de Helix Lowei de um comerciante de conchas de Frankfurt.
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Malacólogo citado como estudioso dos caracóis terrestres da Madeira.
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Botânico que encontrou uma Helix Lowei viva no Ilhéu de Cima, em Porto Santo.
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Naturalista citado como um dos investigadores dos moluscos pulmonados da Madeira.
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O autor mais recente a estudar aprofundadamente os caracóis da Madeira, cuja contagem de 176 espécies é adotada nesta entrada.