Moniz (João Maria) 1Vida e herbário
Moniz (João Maria)
Biografia de João Maria Moniz (1822–1898), funcionário da Fazenda no Funchal e naturalista autodidata, sobretudo botânico e malacólogo, que reuniu importantes herbários e coleções de conchas e introduziu numerosas plantas exóticas na Madeira. Várias espécies e o género Monizia receberam o seu nome.
1Vida e herbário
Nasceu no Funchal a 23 de Julho de 1822 e era filho de José Inacio Moniz e de D. Marciana Jardim Moniz. Em 1849, foi admitido como praticante na Repartição de Fazenda do Funchal, tendo feito antes estudos secundários no liceu, e em 1860 foi nomeado aspirante da mesma repartição, onde serviu até 27 de Junho de 1895, data em que se aposentou, possuindo então a categoria de oficial, que alcançara a 22 de Agosto de 1883
Foi um distinto naturalista e entre 1848 e 1855 organizou um excelente herbario, parte do qual tendo sido emprestado ao botanico Lowe, desapareceu por ocasião do naufrágio em que este sabio inglês perdeu a vida. Novas explorações realizadas no arquipélago permitiram-lhe substituir por outros os exemplares perdidos e descobrir varias espécies não assinaladas anteriormente.
Em 1856, criou Lowe o genero Monizia, que dedicou ao nosso distinto conterraneo, tendo feito acompanhar a descrição que publicou do mesmo genero no Jornal Botanico de Booker, das palavras seguintes: «este nome representa uma homenagem ao sr. João M. Moniz, um distinto botanico e feliz investigador da flora nativa da Madeira, e um não menos zeloso horticultor, sempre activamente empenhado em introduzir plantas raras ou novas na ilha e em promover o desenvolvimento dos conhecimentos agricolas e horticolas entre os seus conterraneos».
Três especies botanicas relembram o nome de J. M. Moniz–o Carex Moniziana, o Helichrysum Monizii e a Scrophularia Moniziana,– e dois moluscos e um insecto receberam também o seu nome, sendo êste o Zargus Monizi e aquêles o Craspedopoma Monizianum e a Helix Moniziana.
João Maria Moniz foi o primeiro botanico que indicou a existencia na Madeira da Visnea Mocanera, arvore que se supunha peculiar das Canarias, sendo êle também quem demonstrou por meio de exemplares autenticos colhidos nesta ilha, que a Euphorbia Luthyris existente no herbario de Francisco Masson, depositado no Museu Britanico, provinha daqui e não dos Açôres, como alguém chegara a supor.
2Plantas, honras e colecções
Muitas plantas exoticas, abundantemente espalhadas agora pelas nossas quintas e jardins, foram introduzidas pelo nosso biografado. Era numa propriedade no sitio do Destêrro, que êle as cultivava e aclimava, para depois as distribuir pelos seus amigos e conhecidos.
João Maria Moniz era cavaleiro da Ordem de S. Tiago, associado provincial da Academia das Ciências de Lisboa, socio correspondente da extinta Sociedade de Geografia do Pôrto e membro da antiga Sociedade Agricola do Funchal, tendo sido o promotor duma exposição realizada no Funchal em 1854 e um dos membros da comissão que levou a efeito a exposição agricola de 1861. Possuia um anel de brilhantes oferecido pelo infante D. Luís, mais tarde rei de Portugal, e a imperatriz Isabel de Austria, e o principe Maximiliano, depois imperador do Mexico, também lhe deram provas de muito aprêço por ocasião de visitarem esta ilha.
Deixou por sua morte um valioso herbario, que foi adquirido pelo botanico inglês Murray e està agora em Kew, uma magnifica colecção de conchas terrestres, que foi comprada pelo inglês Blandy, jà falecido, e uma colecção de madeiras que se acha presentemente no arquivo da Camara Municipal do Funchal. Nos últimos tempos da sua vida, procurava reunir as conchas-marinhas da Madeira afim de as submeter a exame do inglês Watson, mas a morte surpreendeu-o antes de haver concluído êste trabalho.
J. M. Moniz era especialmente botanico e malacologo, mas conhecia a grande maioria dos peixes dos mares da Madeira e não era estranho a entomologia. Uma pequena colecção de insectos que organizara, foi cedida em sua vida ao distinto entomologista francês Fauvel.
Era dotado duma memoria prodigiosa e dum admirável espírito de observação, sendo porisso que raras vezes deixava de indicar o nome duma planta jà por ele estudada, ainda mesmo decorridos muitos anos depois de realizado êsse estudo. Se não conhecia, como Augusto de Candole, as plantas pelas cotilédones, conhecia-as muitas vezes por um simples fragmento duma fôlha, como mais duma vez tivemos ocasião de observar.
João Maria Moniz faleceu no Funchal a 10 de Julho de 1898. Trabalhou até o fim da sua vida e foi incontestavelmente um dos homens mais distintos da nossa terra, apesar de não ter deixado nenhum trabalho que ateste o seu muito saber e o interesse que sempre consagrou ao estudo das ciências naturais.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 10-
João Maria Moniz nasceu no Funchal.
-
João Maria Moniz organizou o seu herbário.
-
João Maria Moniz entrou como praticante na repartição da Fazenda do Funchal.
-
Realizou-se no Palácio de São Lourenço, no Funchal, uma exposição agrícola promovida por João Maria Moniz.
-
Lowe deu ao género Monizia o nome de João Maria Moniz.
-
João Maria Moniz foi nomeado aspirante na repartição da Fazenda.
-
A primeira exposição da Sociedade Agrícola da Madeira, a mais brilhante das realizadas no Funchal, teve lugar no Palácio de São Lourenço.
-
João Maria Moniz alcançou a categoria de oficial.
-
João Maria Moniz reformou-se.
-
João Maria Moniz morreu no Funchal.
Lugar
Lugares mencionados · 05No estrangeiro
- Açores
Portugal. Origem erradamente atribuída ao exemplar de eufórbia de Masson.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Canárias
Spain. Ilhas às quais se julgava ser exclusiva a Visnea mocanera.
As Canárias são o arquipélago vizinho da Madeira, cuja descoberta é objeto de relatos divergentes. Segundo a tradição, o seu rei Béthencourt vendeu-as ao Infante D. Henrique em troca de terras na Madeira. O Elucidário refere numerosos contactos entre os dois arquipélagos, incluindo visitas científicas, a digressão do Orfeão Madeirense em maio de 1922 e o massacre de quarenta Jesuítas nas suas águas.
- Desterro
Funchal. Local da propriedade onde Moniz aclimatou plantas exóticas.
O Desterro é um sítio habitado da freguesia do Monte, no Funchal, com uma Capela de Nossa Senhora do Desterro fundada em 1625. A sociedade Antoneida reunia-se ali, e João Maria Moniz possuía no local uma propriedade onde aclimatou plantas exóticas.
- Funchal
Local onde Moniz nasceu, trabalhou e morreu.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Kew
United Kingdom. Local onde se conserva atualmente o herbário de Moniz.
Kew alberga um jardim botânico e uma instituição científica que o Dr. Jacinto António de Sousa visitou. Conserva herbários madeirenses, incluindo os de Lowe, João Maria Moniz e do Reverendo P. Murray, bem como parte das coleções do Dr. Carlos Lemann.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 13- João Maria Moniz1822–1898
Funcionário da Fazenda no Funchal e naturalista, a quem esta entrada é dedicada.
-
Botânico suíço citado numa comparação com a capacidade de Moniz para identificar plantas.
-
Inglês que comprou a coleção de conchas terrestres de Moniz.
-
Príncipe português, mais tarde rei, que ofereceu a Moniz um anel de diamantes.
-
Entomólogo francês que recebeu a coleção de insetos de Moniz.
-
Botânico em cujo herbário, conservado no Museu Britânico, se encontrava uma eufórbia que Moniz demonstrou ser originária da Madeira.
- Isabel de Áustriam. 1898
Imperatriz da Áustria que manifestou apreço por Moniz durante a sua visita à Madeira.
-
Pai de João Maria Moniz.
-
Botânico inglês que recebeu por empréstimo parte do herbário de Moniz, perdeu-o no naufrágio em que morreu e deu o nome Monizia a um género em 1856.
-
Mãe de João Maria Moniz.
+ 3 mais
- Maximilianom. 1867
Príncipe austríaco, mais tarde imperador do México, que homenageou Moniz durante uma visita à Madeira.
-
Botânico inglês que comprou o herbário de Moniz, hoje conservado em Kew.
-
Inglês a quem Moniz tencionava submeter as conchas marinhas da Madeira.