Jardins da Madeira 1Plantas dos jardins e quintais
Jardins da Madeira
Panorama das plantas ornamentais e exóticas cultivadas nas quintas e nos jardins da Madeira, sobretudo no Funchal, com referência aos jardins e às espécies mais notáveis e uma citação da admiração de um visitante.
1Plantas dos jardins e quintais
Nem só as plantas espontâneas oferecem interesse aos naturalistas que visitam a Madeira; as plantas cultivadas nas quintas e jardins são dignas também de atenção, já pela sua variedade, já pela pujança da sua vegetação, já finalmente pelo brilho e esplendor da sua folhagem ou flores. Ao lado das plantas da Europa média, crescem ao ar livre nos jardins madeirenses muitas espécies tropicais, produzindo esta associação de formas das mais variadas latitudes, uma impressão estranha no visitante ilustrado que pela primeira vez percorre esta ilha com o fim de admirar as suas belezas naturais. As floras das mais variadas zonas do globo tem aqui representantes, e só a árvore do pão, o cavaleiro, o cajueiro, o baobab e diferentes espécies mais, não vegetam sob o clima da Madeira, certamente por não encontrarem aqui o numero de raios de calor de que carecem para percorrer todas as fases da sua vegetação.
Em todos os quintais do Funchal há sempre algumas parcelas de terreno destinadas á cultura de flores, e raras são as pessoas dentro da cidade que não possuem pelo menos alguns vasos com plantas ornamentais, ás quais dispensam os maiores cuidados. Nos campos observa-se a mesma inclinação para guarnecer as proximidades das habitações de lindas e variadas plantas, reconhecendo o naturalista entre elas diversas formas que, em latitudes mais setentrionais, só podem viver em estufas ou protegidas por abrigadouros, cousas estas quasi desconhecidas entre nós.
Em quasi todos os pequenos jardins dos campos da Madeira se encontram os mimos, os martírios, os craveiros, a urze-de-cheiro, as malvas (Pelargonium), as maravilhas, os goivos, as saudades-de-inverno, o não-me-deixes, a losna, os alfinetes-de-senhora, a dália, os cuidados, os pampilios, as mãozinhas-de-nossa-senhora, a madre-silva, a saudade, a bôca-de-peixe, o manjericão, o alecrim, a salva, o rosmaninho, o pessegueiro-inglês ou verbena, a erva-gigante, os amores-perfeitos, os lírios, as beladonas, as açucenas, a coroa-de-henrique, os junquilos, o esparto, o alegra-campo (V. todos estes nomes), os amores-de-rapazes (Mesembrianthemum conspicuum), os amores-escondidos (Grazania rigens) a Lobelia Erinus, a Vinca rosea, a Epiphyllum truncatum, etc., mas estas espécies, mais ou menos ornamentais, não podem ombrear nem em brilho nem em magnificencia com certas formas que povoam as quintas da ilha e lhes imprimem uma fisionomia especial.
2Quintas e jardins notáveis
A quinta Vigia, a quinta do Deão, o Jardim Municipal e o do Hospício da Princesa D. Maria Amelia, são os recintos dentro do Funchal que mais se recomendam pelo luxo e variedade da sua vegetação arborescente, vendo-se ai belas amostras da flora de varias latitudes do globo, associadas aos tipos indígenas de folhagem coriácea e persistente. O Liriodendron tulipiferum, o Bombax ceiba, a Astrapaea Wallichii, a Mammea americana, a Euphoria Lit-chi, a Pachira aquatica, a Spondias lutea, o Podocarpus neriifolius e o Taxodium distichum são essências que vegetam na quinta Vigia, ao passo que nos jardins do Hospício da Princesa D. Maria Amelia, que lhe ficam próximos, se encontram entre outras as seguintes espécies lenhosas: Pittosporum Tobira, P. eigenioides, Brachychiton populneum, Erythrina senegalensis, E. poianthes, E. Caffra, Schotia brachyata, Acacia Julibrissin, Aleurites triloba e Gingko biloba. A Crescentia cucurbitina é um dos principais ornamentos da quinta do Deão, enquanto no Jardim Municipal são as palmeiras, entre as quais avulta a Phoenix canariensis, e o Pandanus odoratissimus e a Dammara australis que constituem o principal adorno do local.
As essências que ficam indicadas, á excepção de três ou quatro, são bastante raras na ilha: entre as que são frequentes, parecem-nos dignas de menção a magnolia, a arvore-do-incenso, diferentes acácias, o louro-cerejo, a pimenteira-da-índia (Schinus), o louro-regio, o ligustro, a cevadilha, o jacarandá, a duranta, o canforeiro, a caneleira, o carvalho, o plátano, a sementeira (Celtis), a figueira-da-índia, o cedro-de-goa e a araucária. Estas árvores, o barbuzano, o til, o vinhatico e o dragoeiro indígenas, e diferentes arbustos exóticos, entre os quais assinalaremos a camelia, os cardiais (Hibiscus), a manhã-de-páscoa, a trombeteira e diferentes roseiras e mimos, constituem os principais representantes da flora lenhosa das quintas e jardins madeirenses.
A camelia, se bem que cultivada no Funchal, não atinge aqui todo o desenvolvimento de que é susceptível, e caso semelhante se dá com a Kalmia, o Rhododendron arboreum X ponticum, o Prunus lauro-cerasus, o Viburnum Opulus, a Syringa vulgaris, a Ribes Grossularia, a R. rubra e a Betula Alba, que vegetando perfeitamente nos jardins da Camacha, definham e morrem muitas vezes em altitudes inferiores a 400 ou 500 metros. O vinhatico, árvore indígena, desenvolve-se mal abaixo de 150 ou 200 metros.
3Trepadeiras, canteiros e impressões de viajantes
Cobrindo os muros e gradeamentos das quintas e jardins do Funchal aparecem numerosas plantas, tais como os Ampelopsis, a Quisqualis indica, a Tacsonia manicata, a Wistaria sinensis as Allamandas, as Bignonias (V. este nome), o Stephanotis floribunda (jasmim-do-cabo), a Cobaea scandens, o Plumbago capensis, o Jasminum grandiflorum, a Thunbergia Harrisii, a Solandra macrantha, a Lantana Camara, a Bougainvillea spectabilis, a Ficus stipulata e o Asparagus Lowei (espontaneo), enquanto nos canteiros, que ocupam muitas vezes uma boa parte dos mesmos jardins, se vêem de mistura com os arbustos de que atrás fizemos menção, os coleos, os crisantemos, os pelargonios, os gladiolos, os bambus, o Lathyrus odoratus, a Russelia juncea, a Salvia eriocalyx, a Libonia floribunda a Cyrthanthera Pohliana, a Zinnia elegans, o Heliotropium peruvianum, a Acalipha musaica, a Iresine Verschaffelti, a Dichorisandra thyrsiflora, a Iris biflora, a Canna indica (conteira), a Globba nutans (flor-de-espirito), o Imantophyllum miniatum, o Crinum Moorei, o C. Amabile e ainda varias outras plantas. Lindas azáleas e begonias, assim como o Farfugium grande, orquídeas dos generos Sobralea, Stanhopea e Cypripedium, algumas palmeiras e numerosos fetos indigenas e exoticos, se cultivam em vasos e barricas para ornamento dos jardins e das entradas das habitações.
A Madeira não possui jardins alguns que em extensão e riqueza da sua flora possam rivalizar com certos jardins do sul da Europa ou da ilha de S. Miguel, nos Açores; há porem, naqueles recintos da nossa ilha uma fisionomia tão peculiar, filha quer da variedade de aspectos da sua vegetação, quer da maneira como aí se manifesta a vida da natureza, que o estrangeiro que os visita tem neles sempre bastante que admirar e que aprender, sobretudo se é dotado do espírito de observação que dá o estudo das ciencias naturais. Qualquer que seja a epoca em que essa visita se realize, depara ele sempre com uma multidão de plantas em tôda a pujança da sua vegetação, facto este que não pode deixar de impressioná-lo vivamente, pois que revela a existencia nesta ilha de uma primavera constante, desconhecida em países mais setentrionais.
«É extraordinariamente deliciosa e magnifica, diz o comodoro Wuellerstorf-Urbair, comandante da fragata austriaca Novara, a primeira impressão que a vista do Funchal causa ao viajante com a perspectiva dos seus jardins e das suas flores e com a opulenta vegetação que engrinalda e coroa os montes, que se elevam desde a margem. Não ha ali, é verdade, a selvatica majestade nem as formas colossais da vegetação, que é própria dos países dos tropicos. Sentem-se ali antes as feições de uma ilha da Itália meridional do que as magnificências duma paisagem do equador. Desenrola-se, porem, ao aspecto do observador, um tão grato painel, onde a vida da natureza aparece em tão rica variedade e formosura que a mais criadora fantasia nada pode conceber de mais amorável e encantador. As mais formosas plantas das zonas temperadas e subtropicais deleitam ali os olhos em seu pleno desenvolvimento, ao passo que aparecem também alguns dos mais belos representantes da flora dos tropicos no esplendor luxuriante desta maravilhosa vegetação, que um naturalista da Alemanha comparou ha pouco tempo aos fabulosos hortos pensís de Semiramis».
Os períodos que deixamos transcritos, elegantemente traduzidos por Latino Coelho, exprimem a admiração e o deleite de um homem de ciência ao contemplar pela primeira vez a luxuriante vegetação da nossa ilha. Como o sábio austríaco falam outros viajantes, não se notando discrepâncias nos seus escritos quanto á maneira de apreciar o aspecto e a riqueza da flora das quintas e jardins da Madeira.
Neste artigo
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Camacha
Santa Cruz. Freguesia de altitude onde prosperam plantas de clima temperado que não vingam em altitudes mais baixas.
A Camacha é uma freguesia situada nas terras altas acima do Caniço, no concelho de Santa Cruz, fundada em 1676 com sede na Capela de São Lourenço. O Elucidário aborda a sua igreja, o seu papel na invasão miguelista de 1828, as quintas, as levadas, a Casa de Abrigo do Poiso, a romaria do Pentecostes, as saias acolchoadas das mulheres, as plantas e os jardins, e a sua célebre indústria de vimes, iniciada por Hinton.
- Funchal
Cidade onde se encontra a maioria dos jardins descritos.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Hospício da Princesa D. Maria Amélia
Funchal. Hospício cujos jardins, perto da Quinta Vigia, albergam muitas espécies lenhosas exóticas.
Hospital do Funchal para pessoas pobres com tuberculose pulmonar, fundado pela imperatriz D. Amélia em memória da filha, falecida na Madeira em 1853. Instalado provisoriamente na Rua do Castanheiro em 1853, mudou-se para um novo edifício, construído entre 1856 e 1859 e inaugurado em 1862 com uma inscrição comemorativa da fundação. Foi administrado pelas Irmãs da Caridade e recebeu uma dotação da rainha Josefina da Suécia. A capela alberga uma imagem de Nossa Senhora das Angústias oferecida por Fernando José Maximiliano, e os jardins, perto da Quinta Vigia, têm muitas espécies lenhosas exóticas.
- Jardim Municipal do Funchal
Funchal. Jardim público notável pelas palmeiras, pelos Pandanus e pelas Dammara.
O Jardim Municipal do Funchal é um jardim público construído no local do antigo convento franciscano, tendo sido destruídos os alicerces dos Paços do Concelho que ali se projetavam construir; é ladeado por ruas com os nomes de Capelo e Ivens. Destaca-se pelas suas palmeiras, Pandanus e Dammara. Nele se encontram o monumento aos aviadores, cuja primeira pedra foi lançada em 1921, e o monumento a João Fernandes Vieira, para ali transferido em 1933.
- Quinta do Deão
Funchal. Quinta do Funchal cujo principal ornamento é uma Crescentia.
A Quinta do Deão, também chamada Quinta Stoddart ou The Deanery, é uma propriedade no Funchal cujo principal ornamento do jardim é uma Crescentia. Mais tarde, serviu de refúgio ao governador Silvestre Ribeiro.
- Quinta Vigia
Funchal. Quinta do Funchal conhecida pelas suas raras árvores exóticas.
Quinta pertencente ao Estado, na freguesia de São Pedro, no Funchal, conhecida pelas suas árvores exóticas raras. Serviu de residência à rainha Adelaide, à imperatriz da Áustria (1860–1861) e ao príncipe de Oldenburgo. Mais tarde, tornou-se quartel da Guarda Republicana, teve um casino que emitiu fichas em 1901 e foi atingida por um projétil no bombardeamento de 1916.
- São Miguel
Portugal. Ilha açoriana cujos jardins superam os da Madeira em dimensão e riqueza.
Ilha dos Açores descoberta por Gonçalo Velho Cabral. A sua capitania foi comprada e governada por Rui Gonçalves da Câmara, filho de Zarco. Foi a terra natal de Brito Rebelo, e Frutuoso escreveu ali a sua obra em 1590; diz-se que as suas laranjas superam as da Madeira.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03- D. Maria Améliam. 1853
Princesa que deu o nome ao Hospício do Funchal, conhecido pelos seus jardins.
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Escritor português que traduziu a passagem citada do comandante da Novara.
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Comodoro austríaco que comandava a fragata Novara, citado pelos seus elogios aos jardins e à vegetação do Funchal.