Porto Santo (Vegetação do) 1A phylloxera no Porto Santo
Porto Santo (Vegetação do)
Descrição da vegetação de Porto Santo, extraída de um estudo de 1908 do botânico Carlos de Meneses, que aborda os danos causados pela filoxera nas vinhas, as árvores de fruto, as espécies lenhosas autóctones e introduzidas, os dados estatísticos sobre a flora da ilha e as plantas úteis.
1A phylloxera no Porto Santo
São da autoria do distinto botanico e co-autor desta obra Carlos de Meneses os trechos que vão ler-se àcêrca da vegetação do Porto Santo, extraídos de um belo estudo publicado no «Diario Popular» do Funchal de 1 e 2 de Abril de 1908, por serem julgados de particular interesse para os habitantes dessa ilha.
«A phylloxera, que appareceu pela primeira vez na Madeira em 1872, só muito posteriormente, se manifestou egualmente no Porto Santo, mas apezar de ser recente a sua introducção, consideraveis são já os estragos que tem causado. As cepas mais atacadas, teem sido as dos terrenos argillosos, mas n'alguns pontos, embora poucos, onde o solo é arenoso, tambem as vinhas teem sido invadidas por esse insecto. Segundo nos informam, as cepas do littoral desappareceram quasi todas, só existindo hoje alli duas faixas cultivadas de vinha, uma no Espirito Santo e outra na Ponta.
Como os terrenos baixos do Porto Santo são na sua quasi totalidade de natureza calcarea, talvez conviesse ensaiar ahi a vitis monticola, e mais particularmente a V. Berlandieri, especies americanas que poderiam ser enxertadas com as castas de vinha agora cultivadas. A não se cuidar a serio da introducção de cepas resistentes e adequadas aos terrenos, grandes devastações poderá soffrer ainda a viticultura porto santense, pois a experiencia tem mostrado que as areias nem sempre constituem um dique á invasão da terrivel phylloxera.
2Arvores e arbustos
As figueiras e amoreiras são as unicas arvores de fructo abundantes no Porto Santo; a amendoeira, o pecegueiro, a romeira, a tabaibeira, a oliveira, a pereira e o pereiro embora também appareçam alli cultivados, são todos mais ou menos raros. As peras chamadas caniças, as unicas que vimos n'aquella ilha, são excellentes, e as azeitonas provenientes das oliveiras da villa, se bem que inferiores ás de Portugal, podem aproveitar-se para o consumo.
É de crer que as oliveiras que existem nos quintaes da villa do Porto Santo fossem importadas do continente, visto differirem tanto na forma das folhas, como no tamanho dos fructos, das variedades madeirensis e buxifolia da Olea europea que vivem no estado espontaneo no archipelago. Esta ultima variedade apparece nas rochas do Pico de Ana Ferreira na referida ilha, onde não passa de um simples arbusto.
Os zimbreiros (Juniperus phoenicea) e dragoeiros (Dracoena Draco), que revestiam o Porto Santo ao tempo da descoberta, acham-se agora completamente extinctos. As unicas especies arbustivas indigenas dignas de menção, e que ainda se encontram alli, são o espinheiro (Lycium Europoeum), o marmulano (Sideroxylon Marmulano), o buxo da rocha (Catha Dryandri), a urze (Erica scuparia) e a oliveira a que atraz nos referimos.
Afóra as arvores de fructo já mencionadas, sómente existem na ilha mais as seguintes especies lenhosas extranhas á terra, a tamargueira (Tamarix Gallica), introduzida em 1834 por João Antonio Pedroso e que é agora bastante commum, o alamo (Populus alba) que é tambem frequente, o pinheiro (Pinus Pinaster) cultivado em muito pequena escala nas Enguias e no Curral do Canario, a arvore do paraiso (Eloeagnus angustifolia), a palmeira (Phoenix dactylifera), o Myoporum acuminatum e a Nicotiana glauca. Estas duas ultimas especies, que se vão tornando frequentes, foram introduzidas pelo fallecido botanico João Maria Moniz.
Dois exemplares do pinheiro de Alepo ou de Jerusalem que vimos cultivados no Porto Santo, foram abatidos ha já alguns annos. Esta especie deveria accomodar-se nos terrenos calcareos do norte da ilha que não podem ser utilizados pela agricultura.
3Flora e plantas uteis
Entre plantas indigenas, naturalizadas e cultivadas em grande, contam-se no Porto Santo 325 especies, sendo 317 phanerogamicas e 8 cryptogamicas vasculares. As familias com mais larga representação na ilha são as Leguminosas com 40 especies, as Compostas e as Gramineas com 38 cada uma, as Cruciferas com 15, as Umbeliferas e Caryophyllaceas com 13 e as Labiadas e Chenopodiaceas com 11. Duas unicas especies parecem ser peculiares da ilha: o Cheiranthus arbuscula e a Pedrosia porto-sanctana.
Das muitas especies forraginosas que existem no Porto Santo, citaremos apenas, por serem abundantes, as seguintes: a serralha (Lonchus oleracens), a leituga (Crepis divaricata), varios trevos, dois Melilotus, a azeda (Scorpiurus sulcata), o balanco (Avena fatua e A. barbata), a Briza maxima, a B. minor e o azevem (Lolium perenne). Duas especies de Mesembrianthemum (M. crystallinum e M. nodiflorum produzem a soda, e da Lavatera arborea extrahe-se uma fibra textil que é utilisada no fabrico de cordas. A papoila branca que fornece o opio, é muito frequente entre as searas».
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 03-
João António Pedroso introduziu a tamargueira no Porto Santo.
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A filoxera, cuja presença na Madeira foi oficialmente confirmada em 1872, devastou as vinhas, mais tarde replantadas com videiras resistentes enxertadas.
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Carlos Azevedo de Meneses publicou o seu estudo sobre a vegetação de Porto Santo no Diário Popular do Funchal.
Lugar
Lugares mencionados · 09No estrangeiro
- Curral do Canário
Porto Santo. Local onde o pinheiro-bravo é cultivado em pequena escala.
Local onde se cultiva pinheiro-bravo em pequena escala.
- Enguias
Porto Santo. Local onde o pinheiro-bravo é cultivado em pequena escala.
Local onde se cultiva pinheiro-bravo em pequena escala.
- Espírito Santo
Porto Santo. Uma das duas faixas costeiras onde ainda há vinhas.
Localidade de Porto Santo, situada numa das duas faixas costeiras de vinha que ainda restam na ilha.
- Funchal
Cidade onde era publicado o Diário Popular, que divulgou o estudo.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Pico de Ana Ferreira
Porto Santo. A oliveira-brava (var. buxifolia) cresce como arbusto nas suas rochas.
Um dos principais picos do Porto Santo, com 278 m de altitude, situado a sul-sudeste da ilha. A oliveira-brava (var. buxifolia) cresce como arbusto nas suas rochas, onde também foi encontrada a planta visco (Tolpis succulenta).
- Ponta
Porto Santo. A outra faixa costeira onde ainda há vinhas.
Um dos principais sítios da freguesia de Porto Santo e uma das duas faixas costeiras da ilha onde ainda há vinhas.
- Porto Santo
Ilha cuja vegetação é descrita.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Portugal
As azeitonas do continente são consideradas superiores às do Porto Santo.
Portugal, a metrópole da Madeira. O Elucidário refere que, antes de 1877, foram enviados destacamentos de artilharia do continente para guarnecer a Madeira, que a ilha ficou ligada a Portugal por cabo telegráfico em 1874 e que, anteriormente, dali se enviavam pastel e ofertas de mel para o continente. As laranjas e as azeitonas do continente são comparadas favoravelmente com as da Madeira e de Porto Santo.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 03- Carlos Azevedo de Meneses1863–1928
Botânico e coautor do Elucidário Madeirense, cujo estudo de 1908 sobre a vegetação de Porto Santo é citado nesta entrada.
- João António Pedroso1800–1869
Introduziu a tamargueira em Porto Santo em 1834.
- João Maria Moniz1822–1898
Botânico já falecido que introduziu Myoporum acuminatum e Nicotiana glauca em Porto Santo.