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Filoxera 1A invasão filoxérica e a campanha de 1883
Artigo Nº 1461 Inseto, aracnídeo ou outro artrópode terrestre Vol. II · pp. 61–63 4 min de leitura

Filoxera

Relato da infestação de filoxera que devastou as vinhas da Madeira a partir de cerca de 1865–1872, da campanha governamental de 1883, dirigida pelo inspetor Almeida e Brito com recurso a sulfureto de carbono e porta-enxertos americanos, e da posterior propagação da praga ao Porto Santo.

Filoxera

1A invasão filoxérica e a campanha de 1883

A invasão filoxérica na Madeira, diz F. de Almeida e Brito num relatório publicado em 1883, foi verificada em 1872, havendo a esse tempo já muitas vinhas perdidas e terrenos completamente devastados nos concelhos do Funchal e Câmara de Lobos, o que faz supor que a doença já aqui existia desde 1865, pelo menos. Segundo o mesmo agrónomo, a praga foi trazida para a Madeira em bacelos da Izabella, ou vinha americana, admitida á cultura por causa da sua provada resistência ao oidium ou mangra, sendo esta opinião partilhada por muitos viticultores da ilha, que haviam seguido de perto a marcha e o desenvolvimento da nova moléstia.

Por varias vezes tinham os madeirenses solicitado do governo que lhes facultasse os meios de resistirem ao terrível flagelo que devastava os vinhedos da ilha, mas só em 1883 foram atendidos em parte esses pedidos, sendo mandado aqui, no mês de Junho, o inspector Almeida e Brito, que imediatamente empreendeu uma campanha de luta contra a filoxera, coadjuvado por alguns proprietários, pelo intendente de pecuária Salvador Gamito de Oliveira e pelo presidente da comissão distrital antifiloxérica, o falecido João de Sales Caldeira.

Em 1873 tinha um súbdito inglês aplicado resina e essência de terebintina, dissolvidas em água quente, nas raízes de muitas videiras doentes, mas embora este tratamento ajudado por abundantes estrumações, desse resultado, não foi possível generalizá-lo, pelo preço por que ficava aos proprietários.

Em 1883, no mês de Fevereiro, foi aplicado pela primeira vez o sulfureto de carbono nalgumas vinhas madeirenses, sendo este o sistema de tratamento adoptado depois em toda a ilha, com o fim de salvar as plantações que ainda existiam. Numa propriedade do alto de S. João estabeleceu-se, por indicação do referido inspector, um posto de tratamento, tendo anexo um deposito de sulfureto de carbono e injectores, verificando-se que as vinhas que exibiam ainda bastante vigor melhoravam sempre pelo emprego daquele insecticida, que era usado na dose de 28 e 24 gramas por metro quadrado, em tratamento simples.

2Replantação e consequências

Para tornar possível a replantação dos terrenos devastados, por meios de híbridos e cepas americanas dignos de confiança, estabeleceram-se dois viveiros de estacas e barbados, um no Ribeirinho e outro no Torreão, sendo distribuídos já em 1883 cerca de 60.000 bacelos pelos proprietários da ilha: A Riparia, o Jacquez, o Herbemont, a Rupestris, a Solonis, a Taylor, o Clinton, o Elsimbro e o York Madeira foram as cepas que primeiro foram cultivadas nos referidos viveiros, vindo depois a Cunningham, a Viala, a Elvira, o Othelo, a Cinerea, a Black Pearl e o Gaston Bazile. Segundo declarava o inspector Almeida e Brito no seu relatório, a Taylor era a cepa que devia ser empregada com maior confiança na Madeira, pois que tinha «já sete anos de prova, vegetando admiravelmente em terrenos filoxerados».

Mostrou a experiência que esta cepa se não adaptava tão bem como outras aos terrenos da ilha, e por isso foi ela pouco a pouco sendo substituída pela Riparia, pelo Herbemont, pela Cunningham e pelo Jacquez, sendo este ultimo o cavalo preferido de há muito para a enxertia dos garfos da vinha europeia.

Examinando umas preparações muito bem feitas de filoxeras nas suas diferentes fases, feitas pelo súbdito inglês Leacock, o inspector Almeida e Brito não achou nelas insectos hibernantes, como há no continente, o que o levou a concluir que aquele parasita tem na Madeira uma vida de constante actividade, sendo este o motivo da intensidade e rapidez com que destruiu os formosos vinhedos da ilha.

A filoxera só foi conhecida no Porto Santo por 1895, tendo sido as cepas dos terrenos argilosos as que mais devastadas foram por ela. Nos terrenos arenosos poucas foram as vinhas atacadas por aquele insecto, que decerto foi levado para aquela ilha em bacelos provenientes da Madeira.

Segundo o inspector Almeida e Brito a área de cultura da vinha em 1883 não excedia 500 hectares, podendo a colheita ser avaliada em 3 500 pipas, quando antes do aparecimento da filoxera era aquela área de 2.500 hectares, elevando-se a produção a 16 000 pipas.

Há muito que a filoxera e as tuberosidades que ela produz não são observadas nas vinhas madeirenses, mas isto não significa que o terrível hemiptero tenha desaparecido inteiramente da nossa ilha. A grande dificuldade que há em conservar ou multiplicar as antigas castas, salvo enxertando-as em híbridos ou cepas americanas resistentes, e o aparecimento do insecto no Porto Santo, muitos anos depois dele ter deixado de ser assinalado na Madeira, levam-nos a crer que se não acha de todo extinta entre nós a Phylloxera vastatrix, o mais cruel inimigo da Vitis vinifera, a planta que a partir do século XVI tanto concorreu pelas suas abundantes e excelentes produções para fomentar a riqueza da ilha e garantir o bem estar de muitos dos seus habitantes.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. A filoxera provavelmente já estava presente nas vinhas da Madeira neste ano.

  2. A filoxera, cuja presença na Madeira foi oficialmente confirmada em 1872, devastou as vinhas, mais tarde replantadas com videiras resistentes enxertadas.

  3. Um inglês tratou videiras doentes com resina e terebintina, com eficácia, mas a um custo demasiado elevado.

  4. O sulfureto de carbono foi aplicado pela primeira vez contra a filoxera nas vinhas da Madeira.

  5. O inspetor Almeida e Brito chegou à Madeira para dirigir a campanha governamental contra a filoxera.

  6. A filoxera foi registada pela primeira vez no Porto Santo.

Lugar

Lugares mencionados · 06
Mapa: Arquipélago da Madeira (6)
  1. Camara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Concelho cujas vinhas já tinham sido fortemente devastadas em 1872.

  2. Funchal

    Um dos concelhos cujas vinhas já tinham sido devastadas em 1872.

  3. Porto Santo

    Ilha onde a filoxera surgiu por volta de 1895, sobretudo em solos argilosos.

  4. Ribeirinho

    Funchal. Localização de um dos dois viveiros de videiras americanas.

  5. São João

    Calheta. Local do posto de tratamento com sulfureto de carbono instalado em 1883.

  6. Torreão

    Funchal. Localização do segundo viveiro de videiras americanas.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 04
  1. Agrónomo e inspetor enviado à Madeira em junho de 1883 para dirigir o combate à filoxera; autor de um relatório de 1883 sobre a praga.

  2. Presidente da comissão distrital ant filoxérica que colaborou na campanha de 1883.

  3. Residente inglês cujas preparações microscópicas de filoxera mostraram a Almeida e Brito que o inseto não passava por uma fase de hibernação na Madeira.

  4. Intendente de pecuária que colaborou com Almeida e Brito na campanha contra a filoxera de 1883.

Na folha F

Vistos recentemente

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