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Mangra da Vinha 1A invasão da mangra
Artigo Nº 2251 Fungo, líquen, musgo ou alga Vol. II · pp. 626–628 3 min de leitura

Mangra da Vinha

O artigo descreve o oídio (Oidium Tuckeri, conhecido localmente por «mangra»), que devastou as vinhas da Madeira a partir de 1852, causando crise económica, fome e emigração, e a missão do agrónomo João de Andrade Corvo para o estudar.

Mangra da Vinha

1A invasão da mangra

No dia 29 de Julho de 1853, chegou ao Funchal o agrónomo João de Andrade Corvo, que depois foi um dos nossos mais distintos escritores e estadistas. Vinha comissionado pelo Governo central para estudar detidamente a doença que atacara os vinhedos desta ilha e propor as providencias que mais eficazmente pudessem debelar as calamidades que então nos assolavam.

As nossas vinhas tinham sido atacadas pelo Oidium Tuckeri, a que o povo dera o nome de mangra. Havia poucos anos que essa doença aparecera na Europa e parece que pela primeira vez se constatou a sua existência num jardim de Inglaterra no ano de 1845. Suspeitou-se que o seu aparecimento na Madeira datasse de 1851, mas no ano de 1852 é que a doença se propagou e começou a produzir os seus terríveis estragos. Em Fevereiro de 1851, esteve no Funchal um súbdito francês e, entre a colecção de plantas que vendeu nesta cidade, encontravam-se algumas variedades de vinha, colhidas em França em localidades já invadidas pela doença. Supõe um distinto agrónomo que esta tivesse sido a causa da invasão do Oidium Tuckeri neste arquipélago.

Para nos dar uma ideia aproximada da violência da moléstia e das suas desgraçadas consequências bastará dizer que a média da produção dos vinhos nos anos de 1849, 1850 e 1851 foi de cinquenta mil hectolitros e que no primeiro ano da invasão geral da mangra, em 1852, foi de oito mil, tendo em 1853 baixado a três mil e em 1854 apenas a seiscentos hectolitros. A diferença de 1851 para 1854 é aproximadamente de 80 para 1.

2A crise e os socorros

Foi enorme a crise económica produzida em todo o distrito. Não era próspero o estado da ilha, que nessa época contava apenas com a remuneradora cultura da vinha. A cana sacarina cultivava-se em pequena escala. A banana e outras frutas, e também as hortaliças não chegavam para a exportação. As industrias da manteiga e dos bordados existiam em estado rudimentar e só mais tarde atingiram o desenvolvimento que hoje têm entre nós.

A crise que sucedeu á doença dos vinhedos foi das mais graves que têm assolado este arquipélago. Uma das consequências dela foi a emigração, que em alguns anos atingiu proporções assustadoras. A fome estabeleceu arraiais entre nós, com todo o seu cortejo de horrores.

Para acudir a tantos males, mandou o Governo central proceder à construção e repairos de várias estradas, empregando-se assim alguns centenares de braços, que não tinham ocupação. O Governador Civil do distrito, por alvará de 22 de Novembro de 1852, nomeou uma grande comissão encarregada de promover nalguns países estrangeiros uma subscrição e a aquisição de donativos, chegando a distribuir socorros no valor de trinta e sete contos e empregando durante seis meses cerca de trezentos homens em cada dia na estrada que liga o Funchal com a vila de Camara de Lobos.

João de Andrade Corvo demorou-se dois meses na Madeira e publicou em 1854 uma interessante memória acerca dos estudos a que procedera neste arquipélago e que é um trabalho que ainda hoje merece ser lido pelos estudiosos.

A mangra existe ainda nas vinhas do arquipélago e de há muito que se usa do enxofre para combatê-la. Forma manchas a principio brancas e depois acinzentadas, que aparecem nas folhas, nos pampanos e nos cachos da videira, e são produzidas pelo micélio e esporos (conídios) do fungo. O micélio vive à superfície dos órgãos verdes da vinha e emite para dentro deles pequenos sugadores, por meio dos quais se nutre.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 05
  1. O oídio da videira foi observado pela primeira vez num jardim em Inglaterra.

  2. Um francês vendeu videiras no Funchal, podendo assim ter introduzido o fungo da videira.

  3. A doença da vinha (oídio, ou mangra) alastrou por toda a Madeira e destruiu a maior parte das vinhas, provocando uma grave crise económica, miséria e emigração.

  4. O governador civil nomeou uma comissão para angariar no estrangeiro fundos de auxílio às vítimas da crise causada pela doença da videira.

  5. João de Andrade Corvo chegou ao Funchal e permaneceu até meados de setembro a estudar a doença da vinha.

  6. Devido à doença da videira, a produção de vinho da Madeira caiu para apenas 600 hectolitros.

  7. Andrade Corvo publicou o seu relatório sobre a doença da videira.

Lugar

Lugares mencionados · 04

No estrangeiro

Mapa: Madeira (4)
  1. Câmara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Destino da estrada construída a partir do Funchal como obra de auxílio durante a fome.

  2. França

    France. Origem das videiras que se pensa terem introduzido o fungo.

  3. Funchal

    Cidade a que Andrade Corvo chegou e onde um francês vendeu videiras infetadas em 1851.

  4. Inglaterra

    United Kingdom. País onde a doença foi observada pela primeira vez, num jardim, em 1845.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 01
  1. Agrónomo, mais tarde escritor e estadista de destaque, enviado pelo governo em 1853 para estudar a doença da videira na Madeira e autor de um relatório sobre ela publicado em 1854.

Na folha M

Vistos recentemente

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