Emigração 1Emigração antiga
Emigração
Panorama da emigração da Madeira desde o século XVI até 1916, abrangendo os principais destinos (Brasil, Antilhas Inglesas e Guiana Inglesa, Estados Unidos, Havai e África Portuguesa) e o número de emigrantes. Apresenta a emigração como resposta constante às dificuldades económicas e fonte de remessas.
1Emigração antiga
Já no século XVI havia emigração na Madeira, pois que Frei Gaspar da Madre de Deus nas suas Memórias para a Historia da Capitania de S. Vicente do Estado do Brasil, refere-se á ida para aquela capitania de muitos casais desta ilha. A emigração para o Brasil continuou nos séculos XVII e XVIII, e entre os muitos madeirenses que para ali foram em busca de fortuna, durante o domínio filipino, conta-se o celebre João Fernandes Vieira, o libertador de Pernambuco. Em 1676, diz o Dr. Azevedo, tinha chegado a ponto tal nesta ilha a decadencia do comercio dos açucares, que a emigração para as terras de Santa Cruz, até então mero expediente ou exploração de particulares, passou a ser promovida pelo governo, e em 1747 foi publicada uma carta regia para que o governador geral da Madeira desse ajuda a essa emigração
Pelo alvará de 4 de Julho de 1758 foram exigidos passaportes aos indíviduos que daí em diante pretendessem deixar a ilha, e em 1779 mandou o governador geral proceder a uma devassa “para o descobrimento dos engajadores da emigração, e dos navios que se empregavam no transporte de emigrantes. “ Havia então emigração para o Brasil e emigração para os países estrangeiros, sendo contra esta ultima principalmente que se insurgia o governador, que chegou a propor ao governo o desenvolvimento da agricultura, como meio de evitar o despovoamento da ilha.
Em 1792 emigraram muitas famílias madeirenses para os Estados Unidos da América por causa da perseguição que os mações sofreram nesse ano, e sabe-se que já em 1753 saíam muitos individuos para aquele país, quasi sempre clandestinamente, para fugir á miséria que afligia a população da ilha.
2Emigração para Demerara e outros países
A emigração para Demerara e colónias inglesas das Índias Ocidentais parece que só começou a fazer-se em larga escala por 1840.
Em 1841 subiu a 4045 o numero de emigrantes, em 1846 a 4945, em 1847 a 4720 e em 1853 a 3060, tendo ido uma boa parte destes indivíduos para aqueles países, para onde desde 1842 o governo inglês pagava os transportes, devido à falta que havia ali de braços para o trabalho. Em 1847 estacionou por alguns tempos nos nossos mares um navio de guerra português, com o fim de coadjuvar as autoridades locais na repressão clandestina.
Dos milhares de madeirenses que seguiram para a Guiana e para outras colónias inglesas em busca de riquezas, alguns foram favorecidos pela sorte, existindo hoje descendentes deles tanto naqueles países como entre nós. O demerarista que á custa de penosissimos trabalhos e de flagelos de toda a espécie conseguia amontoar capitais, não se esquecia em geral da sua terra, e era aqui que gostava de vir passar o resto da sua vida, rodeado de comodidades e confortos a que não fora habituado na sua mocidade. Era ele quem nas freguesias fazia com maior empenho as festas do Senhor, festas em que havia sempre grande abundância de tiros e foguetes, cousas estas muito do agrado do povo rude da nossa ilha.
Desde 1835 até 1855 saíram da Madeira cerca de 40.000 pessoas, das quais apenas umas 20.000 levaram passaporte, tendo ido muitas delas para o Brasil e Estados Unidos da América, onde por esse tempo alguns patrícios nossos conseguiram também fazer fortuna. Em 18 de Junho de 1854 saiu para o Rio de Janeiro o iate português Experiência, conduzindo 188 colonos, e no mesmo ano deixaram o Porto Santo 104 indivíduos com destino aos trabalhos públicos em Portugal, segundo se lê nos Anais do municipio daquela ilha.
A emigração para as ilhas de Sandwich começou em 1878, tendo os primeiros emigrantes saído daqui numa grande galera, que gastou cerca de 6 meses em conduzi-los ao porto do seu destino. De 1883 a 1887 saíram novas levas de emigrantes para aquelas ilhas, o mesmo sucedendo em 1909 e 1911, e ainda noutros anos. Em 1884 saíram 232 indivíduos para Africa, tendo 210 sido contratados pelo governo para irem para Mossamedes, e em 1889 e 1890 saíram 1338 com destino ao mesmo continente, estabelecendo-se a maior parte deles em Angola e Lourenço Marques, para onde se pretendia fazer desviar a corrente emigratoria que antes disso se dirigia principalmente para a América e Oceânia.
3Estatísticas modernas
Compulsando as modernas estatísticas da emigração, vê-se que a América do Norte e o Brasil foram os países que receberam maior numero de emigrantes madeirenses no período decorrido de 1903 a 1913. No primeiro daqueles países entraram 195 madeirenses em 1903, 218 em 1905, 874 em 1909, 1064 em 1910, 1051 em 1912 e 1491 em 1913; e no segundo entraram 377 em 1903, 1198 em 1905, 839 em 1909, 985 em 1910, 2059 em 1912 e 1522 em 1913. Em 1915 saíram 1114 emigrantes para a América do Norte e apenas 62 para o Brasil.
Todos os anos vêm para a Madeira importâncias avultadas, remetidas pelos madeirenses residentes nos Estados Unidos da América. Muitos desses madeirenses tem regressado já á pátria, trazendo capitais que aplicam quasi sempre á compra de propriedades.
No Brasil poucos madeirenses tem conseguido modernamente fazer fortuna, e a Africa portuguesa cremos que só a colónia estabelecida no planalto de Mossamedes está hoje em situação florescente. Para a Africa oriental também foram em 1889 ou 1890 alguns colonos, que arrastaram ao princípio uma vida de privações e de misérias, por não terem achado ali os recursos que o governo prometera facultar-lhes. No Cabo de Boa Esperança e na Republica Argentina existem colónias madeirenses, tendo emigrado em 1905 para este ultimo país cerca de 250 indivíduos. De 1872 a 1879 saíram da Madeira 6624 emigrantes, e de 1882 a 1889, 13.750. Quanto á emigração em épocas mais recentes, acha-se consignada no quadro seguinte:
| Anos | Emigrantes |
|---|---|
| 1901 | 1080 |
| 1909 | 2483 |
| 1902 | 1103 |
| 1910 | 2135 |
| 1903 | 836 |
| 1911 | 2298 |
| 1904 | 1178 |
| 1912 | 3222 |
| 1905 | 1844 |
| 1913 | 3295 |
| 1907 | 2678 |
| 1915 | 1271 |
| 1908 | 1347 |
| 1916 | 2326 |
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 14-
Perante o declínio do comércio do açúcar, uma carta régia ordenou o transporte de 300 a 400 casais madeirenses para o Brasil a expensas do Estado, promovendo assim a emigração por iniciativa governamental.
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Uma carta régia pediu ao capitão-general que apoiasse a emigração da Madeira para o Brasil.
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Um decreto passou a exigir passaportes a quem saísse da Madeira.
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O governador da Madeira ordenou um inquérito aos angariadores de emigrantes e aos navios.
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Um édito da Inquisição desencadeou a perseguição aos maçons madeirenses, levando muitas famílias a emigrar para os Estados Unidos.
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Cerca de 40 000 pessoas emigraram da Madeira, apenas metade delas com passaporte.
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Começou a emigração madeirense em grande escala para Demerara e as Antilhas Inglesas.
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O governo britânico começou a pagar as passagens dos emigrantes para as suas colónias.
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Um navio de guerra português foi destacado para a costa da Madeira a fim de travar a emigração clandestina.
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O iate Experiência partiu para o Rio de Janeiro com 188 colonos emigrantes.
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Começou a emigração madeirense para o Havai.
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Emigraram 232 pessoas da Madeira para África, 210 das quais contratadas para Moçâmedes.
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Prosseguiu a emigração madeirense para Angola e Lourenço Marques, com 1 338 partidas; outros 704 colonos chegaram a Moçâmedes, elevando para 1 281 o número de madeirenses ali residentes.
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Cerca de 250 madeirenses emigraram para a Argentina.
Lugar
Lugares mencionados · 13No estrangeiro
- Angola
Destino de emigrantes em 1889–1890.
Colónia portuguesa do ultramar que serviu de local de degredo para os condenados pelos distúrbios de 1668 e 1834 na Madeira e pela Alçada de 1823. Foi governada por Vasco Guedes, Sebastião Xavier Botelho e D. Lourenço de Almada. Foi também a principal origem das variedades de cana-de-açúcar P.O.J. importadas a partir de 1933.
- Argentina
Cerca de 250 madeirenses emigraram para a Argentina em 1905.
País da América do Sul para o qual emigraram cerca de 250 madeirenses em 1905. Francisco Mendes Gonçalves aí fez fortuna, o Visconde da Ribeira Brava administrou aí as propriedades da Casa Armstrong por volta de 1893, e Anatole France viajou para lá em 1909.
- Brasil
Brazil. Principal destino da emigração madeirense ao longo dos séculos.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Cabo da Boa Esperança
South Africa. Local de uma colónia madeirense.
O Cabo da Boa Esperança é a região de origem de várias plantas encontradas na Madeira, como Agapanthus umbellatus. Foi outrora um mercado para os artigos de vime madeirenses, mas passou a produzi-los com vergas importadas. Foi também o destino de várias viagens notáveis que fizeram escala na Madeira.
- Demerara
Guyana. Colónia da Guiana Inglesa que recebeu emigração em massa a partir de cerca de 1840.
Demerara, na Guiana Inglesa, recebeu uma emigração madeirense em massa a partir de cerca de 1840, incluindo emigrantes após 1846, e foi o principal mercado de exportação da cebola madeirense. O Elucidário regista-a também como origem da banana-anã, da batata-doce de folha inteira (1845) e da formiga Iridomyrmex humilis, e como o local onde Alípio Augusto Ferreira dirigiu O Portuguez.
- Estados Unidos da América
United States of America. Destino de emigrantes desde 1753 e importante origem de remessas.
Os Estados Unidos da América foram um destino da emigração madeirense a partir de 1753 e uma importante fonte de remessas, o maior importador de bordados da Madeira em 1923 e a maior fonte de donativos de víveres durante a fome de 1846–1847. Vários madeirenses viveram aí no exílio, entre eles o Dr. João Francisco de Oliveira e o Dr. Lourenço José Moniz, e alguns maçons em fuga emigraram para o país em 1792. Foram também o país de nascimento de João Howard March, e o Marítimo recebeu um convite para os visitar.
- Havai
United States. A emigração para o Havai começou em 1878.
Ilhas do Pacífico que se tornaram, a partir de 1878, destino de uma emigração madeirense em grande escala, tema de um guia publicado em 1878. Os emigrantes madeirenses levaram para lá a braguinha, e James Cook morreu ali num confronto com os habitantes locais.
- Lourenço Marques
Mozambique. Destino de emigrantes em 1889–1890, na África Oriental.
Lourenço Marques é uma cidade e um distrito de Moçambique, na África Oriental, para onde emigraram madeirenses em 1889–1890 e onde jogaram muitos futebolistas madeirenses. Vários madeirenses ali prestaram serviço, escreveram sobre o lugar ou morreram: João de Andrade e o Dr. António Aurélio da Costa Ferreira ali faleceram, César Pereira chegou em 1897 para prestar serviço colonial e Aires de Ornelas administrou o distrito.
- Moçâmedes
Angola. Localidade angolana com uma próspera colónia madeirense.
Moçâmedes é um porto angolano onde desembarcaram os primeiros colonos madeirenses em 18 de novembro de 1884 e onde se desenvolveu uma próspera colónia madeirense. Ali se produzia sal em reservatórios revestidos de betão.
- Pernambuco
Brazil. Região brasileira libertada por João Fernandes Vieira.
Capitania brasileira invadida pelos holandeses e reconquistada pelo madeirense João Fernandes Vieira, com a participação de outros madeirenses nos combates. A partir de 1637, a Madeira pagou uma contribuição de guerra para a sua reconquista. Foi também uma diocese cujo primeiro bispo foi D. Estevão Brioso.
- Porto Santo
Em 1854, 104 pessoas partiram de Porto Santo para trabalhar em obras públicas em Portugal.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
- Rio de Janeiro
Brazil. Destino do iate Experiência, que transportou 188 colonos em 1854.
O Rio de Janeiro, no Brasil, surge no Elucidário como sede da corte portuguesa e como cidade onde muitos madeirenses viveram, estudaram, ensinaram, publicaram obras e morreram. Entre eles contam-se Paulo Perestrelo da Câmara, João de Oliveira Sá Camelo Lampreia e João da Silveira Caldeira, que dirigiu a Casa da Moeda na cidade.
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Pessoas
Pessoas mencionadas · 03- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Historiador citado a propósito da afirmação de que o governo começou a promover a emigração para o Brasil em 1676.
-
Frade e historiador brasileiro cuja história da capitania de São Vicente regista a fixação de casais madeirenses ali no século XVI.
- João Fernandes Vieiram. 1681
Madeirense emigrado para o Brasil durante a dominação filipina, celebrado como libertador de Pernambuco.