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Água de Pena (Freguesia de) 1Descobrimento e origem do nome
Artigo Nº 0071 Freguesia Machico Vol. I · pp. 41–44 8 min de leitura

Água de Pena (Freguesia de)

Artigo sobre a freguesia de Água de Pena, entre Santa Cruz e Machico, cujo Porto do Seixo foi visitado pelos descobridores que acompanhavam Zarco em 1419. Aborda a origem do nome, os primeiros povoadores, a igreja, a supressão da freguesia em 1836 e o seu restabelecimento em 1848, bem como a sua geografia atual.

Água de Pena (Freguesia de)
Mapa: Madeira (23)

1Descobrimento e origem do nome

No dia 2 de Julho de 1419, segundo a data mais provável, desembarcou João Gonçalves Zarco nas praias de Machico, recolhendo-se ao cair da noite aos navios, para continuar no dia seguinte a exploração da costa desconhecida.

E, no dia imediato, diz Gaspar Frutuoso, correndo mais abaixo, sempre apegado com a terra, acharam em um fresco valle e ameno prado hum ribeiro de água, que vinha sahir ao mar com muita frescura. Ali fez ir alguns homens, onde os que foram acharam outra fonte, que sahia debaixo de um grande, antigo e liso seixo, e era tão preciosa e fria, que mandou dela encher outra vasilha para levar ao infante; e poz a este porto nome (por causa do que nelle achou) o Porto do Seixo, como hoje se chama”, pertencendo este pequeno pôrto aos terrenos que constituíram a futura paróquia de Água de Pena. Foi esta a segunda freguesia que pisaram os descobridores ao aportarem a esta então ignorada ilha. O Porto do Seixo ficou assinalado na história do descobrimento como o primeiro local visitado pelos descobridores no segundo dia da exploração que fizeram ao longo da costa.

Desconhecemos a origem do nome desta freguesia, e várias hipóteses se têm aventado para a explicar. Já alguém quis afirmar que o nome primitivo era Água de Penha e não Pena, denominação que proviria da água a brotar duma penha ou rocha viva, e que com o decorrer dos tempos se daria a corruptela de Penha em Pena. Para justificar categoricamente esta explicação, tornava-se mister a existência, em qualquer ponto a dentro da área da paróquia, dum manancial a sair da rocha, o que nos parece se não verifica ali. É, porém, certo que, num antigo nobiliário, lemos que “deriva duma fonte cristalina de veio contínuo na sesmaria de Henrique Teixeira, que teve grossas terras para oeste da villa de Machico”. Será a fonte do Seixo ou outra que tivesse desaparecido? Não é hoje fácil sabê-lo. É de presumir que por ali houvesse algum sítio ou lugar com o nome de Água de Pena desde os tempos primitivos da colonização e deste modo desse origem à denominação da paróquia. Em alguns documentos antigos, se encontra este nome com a grafia de Água de Pena.

2Povoadores, paróquia e igreja

Afirma o ilustre anotador das Saudades da Terra que Henrique Teixeira, filho segundo de Tristão Vaz, um dos descobridores da Madeira e primeiro capitão donatário de Machico, teve terras de sesmaria em Água de Pena, e diz dele Gaspar Frutuoso que «era muito dado à agricultura e por essa inclinação foi bem rico e enobreceu a villa de Machico assi de muitos engenhos de assucar, como de canaviaes, gado e pão, e montados que mandou roçar e aproveitar». Vimos num antigo livro de linhagens, que Hirão Teixeira, neto de Henrique Teixeira, fez moradia em Água de Pena, tendo falecido em 1551 e sido sepultado na capela da Conceição de Machico.

É provável que fossem estes Teixeiras os primeiros povoadores ou ao menos dos mais antigos colonizadores de Água de Pena muitos anos antes de ser constituída em paróquia. Foi esta criada pelos anos de 1560, sendo uma das mais antigas das pequenas freguesias da Madeira. Talvez tivesse sua origem numa fazenda povoada, como aconteceu com tantas outras, que foram o núcleo de futuras e importantes paróquias. Algumas dessas fazendas tinham pequenas capelas, que passaram a ser as sedes das freguesias que se criaram. Com relação a Água de Pena, nada podemos afirmar de positivo a tal respeito.

Ou numa capela já ali existente, ou num pequeno templo que então se tivesse erguido, começou, em 1561, a funcionar a nova paróquia, tendo como seu primeiro pastor o padre Tomé Gomes, a que sucessivamente se seguiram os párocos Manuel de Carvalho, João Ferreira Baptista, Pedro Ferreira, António do Canto, Pedro Gonçalves Ciebra, Manuel da Silva Boim, Duarte Mendes, Dr. Estevão Lomelino de Vasconcelos, etc. A primitiva côngrua anual foi, em 1572, elevada a 9$000 rs., e acrescentada com 3$000 por alvará de 14 de Dezembro de 1588. O alvará régio de 5 de Fevereiro de 1592 elevou a côngrua ao vencimento anual de 19$000 rs. em dinheiro e 1 moio e uma pipa de vinho.

No índice geral dos livros da antiga Provedoria deste arquipélago, se vê que, por mandado do Conselho da Fazenda de 13 de Março de 1694, se ordenou a despesa de 651$000 rs. para «arrematar a obra de pedreiro e carpinteiro da nova egreja», e no mesmo índice se encontra o registo de outro mandado do referido Conselho, de 2 de Abril de 1745, "para se arrematar a obra da nova egreja pelo preço de 4:000$000, ou por menor lanço que houver, visto que a mudança que se pretende fazer para sítio mais cómodo e menos ventoso". Entre um e outro mandado medeia apenas o espaço de 50 anos, não sendo muito provável que, dentro de meio século, tivesse a igreja necessidade de ser novamente edificada. Presumimos que o mandado de 1694 não teve execução. E nesta conjectura nos confirmam os Anais de Machico, escritos por meados do século passado, quando dizem que há cerca de cem anos, isto é aproximadamente por 1745, foi novamente construída uma igreja em Água de Pena por a primeira se ter abatido. Os 4:000$000 foram destinados a esta construção, sendo a nova igreja levantada em sítio um pouco afastado da primeira, que então ficava no extremo do passal.

A fabrica desta igreja teve 3$000 rs. anuais pelo alvará de 22 de Março de 1574, sendo-lhe acrescentados 1$000 rs. também anuais, pelo alvará de 15 de Junho de 1598.

3Extinção, restauração e descrição

Encontrando-se o vigário capitular e governador do bispado António Alfredo de Santa Catarina Braga no Santo da Serra, expediu dali uma provisão, datada de 13 de Junho de 1836, extinguindo a freguesia de Água de Pena e criando a do Santo, ou melhor anexando aquela ao curato do Santo da Serra e fazendo neste a sede da nova paróquia, com o nome de freguesia do Santo da Serra e Água de Pena. Era o Santo da Serra um curato filial da paróquia de Machico, criado em 1813, mas o respectivo cura não tinha nele residência habitual. Com a anexação da freguesia de Água de Pena ao curato do Santo da Serra, ficou este sendo a sede da paróquia, e ali passou a ter residência efectiva o pároco respectivo. Não teve longa duração a medida arbitrariamente tomada pelo vigário capitular António Alfredo. Por carta de lei de 24 de Julho de 1848, foi esta paróquia novamente restaurada, perdendo, da sua antiga área, o sítio da Achada do Barro, que ficou pertencendo ao Santo da Serra, mas foram-lhe anexados os sítios da Torre e da Ventrecha, pertencentes à freguesia de Santa Cruz.

O sítio da Bemposta (V. este nome) foi sede dum morgadio, que data do primeiro quartel do século XVI. João Afonso Escudeiro, que era de nobre ascendência, passou do continente à Madeira pelos anos de 1450 e teve terras de sesmaria em Água de Pena, onde instituiu o morgado da Bemposta, bem como o de S. Lázaro em Santa Cruz, pelo seu testamento feito a 21 de Junho de 1512, ano em que morreu. Sua filha e herdeira Catarina Anes Escudeiro, que foi a primeira administradora deste vínculo, casou com Lopo Franco de Monção, de cujo matrimónio nasceu João Lopes Franco, que sucedeu no morgadio e morreu sem descendência, passando a administração vincular da Bemposta a um seu sobrinho por nome Diogo Lopes Tavares. Apertada entre as paróquias de Santa Cruz e Machico, é limitada ao norte por esta última e pela do Santo da Serra, ao sul pela de Santa Cruz, a leste pelo oceano Atlântico e a oeste pelas freguesias de Santa Cruz e do Santo da Serra. Faz parte dos Concelhos de Santa Cruz e Machico, pertencendo ao primeiro os sítios povoados da Torre e Ventrecha e ao segundo os da Bemposta, Lombo, Logarinho, Igreja e Queimada. Tem como orago a virgem e mártir romana Santa Beatriz, ficando a respectiva Igreja Paroquial no sítio chamado da Igreja. Além deste templo, possue a capela do Sagrado Coração de Jesus no sítio dos Cardiais, fundada, em 1907, pelo cónego Henrique Modesto de Betencourt, e a de Nossa Senhora de Perpetuo Socorro, construída por Francisco de Freitas Correia, no ano de 1924, no sítio da Queimada. A caixa postal e a cabine telefónica estão instaladas no sítio da Igreja, onde também se encontra o Cemitério Paroquial. É aproximadamente de oito quilómetros a distância a que ficam as vilas de Santa Cruz e Machico, achando-se a parte mais central da freguesia de Água de Pena sensivelmente equidistante daquelas duas vilas e afastada cerca de 20 quilómetros da cidade do Funchal. Pertence à comarca de Santa Cruz e aos concelhos deste nome e ao de Machico, como fica acima referido. Sendo banhada pelo mar numa relativa extensão, tem a servi-la um pequeno porto com uma praia de seixos rolados a que chamam o Calhau do Seixo, situado na foz da ribeira do mesmo nome. Os terrenos desta paróquia são fertilizados pelas levadas do Juncal e Levada Nova do Furado, que têm sua origem no norte da ilha, e ainda pelas levadas do Moinho da Serra, nascida na freguesia de Santa Cruz, Levada Nova, que encabeça na ribeira de Machico, e a do Logarinho, cujo caudal parte do sítio do mesmo nome dentro dos limites desta freguesia. Têm alguns afirmado que o ilustre madeirense João Fernandes Vieira, que no Brasil tão notavelmente se distinguiu na guerra contra os holandeses, nasceu nesta paróquia, mas, no respectivo arquivo paroquial, não se encontra o seu assento de baptismo, segundo investigações que ali se fizeram há anos. Hoje parece averiguado que nasceu na freguesia do Faial, como adiante mais largamente se dirá. É natural da freguesia de Água de Pena o cónego Francisco Fulgencio de Andrade, doutorado pela universidade pontificia de Roma e actual Professor do Seminário desta cidade.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 13
  1. Zarco fez o primeiro desembarque na Madeira, em Machico, no dia da festa da Visitação, onde, segundo se relata, os franciscanos que o acompanhavam celebraram a primeira missa; no dia seguinte, chegou ao Porto do Seixo.

  2. João Afonso Escudeiro instituiu, por testamento, os morgadios da Bemposta e de São Lázaro; morreu nesse ano.

  3. Irvão (Hirão) Teixeira morreu e foi sepultado em Machico.

  4. A freguesia de Água de Pena começou a funcionar sob a direção do Padre Tomé Gomes.

  5. A côngrua do pároco de Água de Pena foi aumentada para 9 000 réis.

  6. Uma carta régia aumentou a côngrua do pároco de Água de Pena para 19 000 réis, além de cereal e vinho.

  7. O Conselho da Fazenda mandou disponibilizar 651 000 réis para uma nova igreja em Água de Pena, provavelmente nunca construída.

  8. Foi ordenada a construção de uma nova igreja para Água de Pena, no valor de 4 000 000 réis, num local menos ventoso.

  9. Foi criada a curazia de Santo da Serra como dependência de Machico.

  10. A freguesia de Água de Pena foi suprimida e anexada a Santo da Serra, formando a freguesia de Santo da Serra e Água de Pena.

  11. Uma lei restabeleceu a freguesia de Água de Pena e tornou Santo da Serra uma freguesia autónoma.

  12. O Cónego Henrique Modesto de Betencourt construiu e fundou uma capela dedicada ao Sagrado Coração de Jesus nos Cardais, na freguesia de Água de Pena.

  13. Foi construída na Queimada, em Água de Pena, a primeira capela madeirense dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Lugar

Lugares mencionados · 23
  1. Água de Pena · Assunto

    Machico

  2. Achada do Barro

    Santa Cruz. Localidade que passou para o Santo da Serra em 1848.

  3. Bemposta

    Machico. Sede do morgadio da Bemposta.

  4. Calhau do Seixo

    Machico. Praia de calhau e pequeno porto que serve a freguesia.

  5. Cardiais

    Machico. Localidade com a Capela do Sagrado Coração.

  6. Faial

    Santana. Provável local de nascimento de João Fernandes Vieira.

  7. Funchal

    Capital, a cerca de 20 km.

  8. Igreja

    Machico. Localidade onde se encontram a igreja paroquial, a caixa de correio e o cemitério.

  9. Levada do Juncal

    Santana. Levada que irriga a freguesia.

  10. Levada do Logarinho

    Machico. Levada que nasce na freguesia.

  11. Levada do Moinho da Serra

    Santa Cruz. Levada proveniente de Santa Cruz que irriga a freguesia.

  12. Levada Nova

    Calheta · Ponta do Sol · Santa Cruz · Ribeira Brava · Machico. Levada proveniente da Ribeira de Machico que irriga a freguesia.

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Pessoas

Pessoas mencionadas · 24
  1. Vigário capitular e governador da diocese que, em 1836, suprimiu a freguesia de Água de Pena e a anexou a Santo da Serra.

  2. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  3. Filha de João Afonso Escudeiro e primeira administradora do morgadio da Bemposta.

  4. Sobrinho de João Lopes Franco que herdou o morgadio da Bemposta.

  5. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  6. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  7. Construiu a Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Queimada, em 1924.

  8. Cónego natural de Água de Pena, doutor pela Universidade Pontifícia de Roma e professor no Seminário do Funchal.

  9. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Autor das Saudades da Terra, citado a propósito do nome do Porto do Seixo e de Henrique Teixeira.

  10. Cónego que fundou a Capela do Sagrado Coração de Jesus nos Cardiais, em 1907.

+ 14 mais
  1. Segundo filho de Tristão Vaz, detentor de terras de sesmaria em Água de Pena e provavelmente um dos seus primeiros povoadores.

  2. Neto de Henrique Teixeira que viveu em Água de Pena, morreu em 1551 e foi sepultado na Capela da Conceição, em Machico.

  3. Fidalgo que chegou à Madeira por volta de 1450 e instituiu os morgadios da Bemposta e de São Lázaro por testamento de 1512.

  4. Herói madeirense da guerra contra os holandeses no Brasil, outrora considerado natural de Água de Pena, mas que se julga hoje ter nascido no Faial.

  5. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  6. Filho de Catarina Anes Escudeiro que lhe sucedeu na administração do morgadio da Bemposta e morreu sem descendência.

  7. Descobridor da Madeira que desembarcou em Machico em 1419 e, no dia seguinte, explorou a costa da futura freguesia de Água de Pena.

  8. Marido de Catarina Anes Escudeiro.

  9. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  10. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  11. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  12. Um dos primeiros párocos de Água de Pena.

  13. Primeiro pároco de Água de Pena, a partir de 1561.

  14. Codescobridor da Madeira e primeiro capitão-donatário de Machico; pai de Henrique Teixeira.

Na folha A

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