Saltar para o conteúdo
Elucidário Madeirense Início
População 1Primeiros povoadores
Artigo Nº 2949 População e grupos sociais Vol. III · pp. 179–185 9 min de leitura

População

Estudo da população do Arquipélago da Madeira desde o início do povoamento até 1940, com tabelas dos recenseamentos por ano, concelho e freguesia e observações sobre a sobrepopulação recorrente e a emigração.

População

1Primeiros povoadores

No artigo Povoamento e Colonização, daremos rapida noticia acèrca da forma como se realizou entre nós o desenvolvimento da população, ao se iniciarem os arduos trabalhos da primitiva colonização madeirense.

São bem escassos os elementos que nos deixaram as antigas crónicas a respeito desse povoamento no que particularmente se refere ao numero, posição social, qualidades pessoais e terras de origem dos primeiros colonizadores.

Vagamente se sabe que entre êles se contavam individuos de nobre ascendencia, outros das classes populares, mecanicos e cultivadores das terras, e também alguns criminosos que cumpriam suas penas nas prisões, informando-nos Gaspar Frutuoso que João Gonçalves Zargo «recusara trazer os culpados por causa da fé, ou traição, ou por ladrão».

Não se sabe o número aproximado desses individuos e também se desconhece a proporção em que as diversas camadas sociais entrariam na formação dessas primeiras levas de povoadores. Com fundamento se conjectura que não seriam poucos, crescendo breve e rápidamente esse número com a vinda freqüente de outros colonos e especialmente com a grande legião de escravos mouros e negros, tornada logo uma avultada multidão. Assim o exigiam os largos e penosos trabalhos do arroteamento das glebas virgens, estimulados os activos cultivadores pela exuberante fertilidade do solo e pela excelente benignidade do clima.

Foi na segunda metade do século XV que o povoamento tomou um mais largo incremento, tanto de povoadores vindos do continente português e de inúmeros escravos africanos, como ainda de muitos estrangeiros de vários países europeus, alguns dos quais oriundos de antiga familia, que vinham procurar nesta nova terra da promissão o que a própria pátria não poderia dar-lhes.

Seria de bastante interesse a organização duma estatistica da população deste arquipélago desde os tempos primitivos da sua colonização até ao presente, mas poucos elementos possuímos para um trabalho completo desta natureza, sobretudo com relação ao século XV e á primeira metade do século XVI. A partir dos meados do século XVI, não seria então impossivel a organização dessa estatistica, com resultados muito aproximados da verdade, aproveitando-se os arquivos das igrejas paroquiais, pois em tôdas ou quasi tôdas se encontra o lançamento regular dos assentos dos baptismos, casamentos e obitos nelas ocorridos desde o terceiro quartel daquele século. Não é muito dificil esse estudo acêrca de cada freguesia e facil depois seria realizá-lo com respeito a todo o arquipélago. Á parte as epidemias ou outras calamidades públicas, mantinha-se geralmente nessas epocas uma proporção uniforme entre o numero de habitantes duma certa localidade e o numero de nascimentos e obitos nela ocorridos, sendo deste modo possivel organizar-se uma estatística regular da população.

Azurara conta que «ao tempo da feitura» havia na Madeira «C L moradores», «afora outras gentes que hi avya, assy como mercadores, e homees e molheres solteiros, e mancebos».

Quanto ao Porto Santo, diz o anotador das Saudades que em 1529 tinha aquela ilha mais de 800 habitantes, e afirma Frutuoso que em 1590 havia ali uns 400 fogos, em que portanto habitavam cêrca de 1600 habitantes. Acêrca desta afirmativa de Frutuoso, diz o dr. Alvaro de Azevedo: «comquanto pareça haver nisto exageração, por constar dos Annais da Ilha do Porto Santo que em 1850 a população era de 1799 pessoas, isto é uns 450 fogos, e do censo feito em 1864 que os fogos eram 363 com 1425 habitantes, cremos ser exacto o dito de Frutuoso; a ilha do Porto Santo só progrediu nos primeiros cento e cincoenta anos desde o descobrimento; depois, a escassez dos seus meios naturais de produção, as amiudadas invasões dos corsarios, e o abandono em que a deixaram os donatarios, os seus mais opulentos moradores, e até os governos, salvo o marquês de Pombal, a condemnaram ao estado decadente em que até agora tem jazido.»

2Mapas da população

A população atribuída á Madeira e Porto Santo em diferentes épocas, consta do mapa seguinte, aproveitando-se os elementos fornecidos pelo estudo Madeira do «Dicionario Portuguez Ilustrado», por artigos dispersos em diversos jornais e pelos ultimos censos da população. Anos Habitantes

AnosHabitantes
150016 000
157219 172
158021 800
159029 548
161428 345
167940 000
175059 143
175451 143
176764 624
177970 000
178170 443
179483 115
179797 390
180584 364
181392 382
181896 297
181996 752
1825102 000
1835113 828
1839114 147
1843117 372
1849108 274
1851110 340
1854107 088
185898 620
1864110 349
1871116 706
1878130 473
1890132 088
1900148 263
1911167 783
1920179 002
1930211 601
1940249 771

A população dos onze concelhos do arquipélago, segundo os dados fornecidos pelos três ultimos recenseamentos é a seguinte:

1920 1930 1940

Concelho192019301940
Funchal51 99668 63087 140
Camara de Lôbos17 53521 80624 500
Ribeira Brava14 14916 39419 382
Ponta do Sol11 51913 29014 911
Calheta19 76021 99023 996
Porto do Moniz4 5525 0628 170
S. Vicente9 1469 68411 549
Santana9 77810 90814 074
Machico17 28617 93619 749
Santa Cruz21 03824 85226 076
Porto Santo2 2432 4902 701

O movimento populacional das cinqüenta freguesias em que está dividido o distrito e relativo ao mesmo periodo de tempo, conforme os dados estatísticos já conhecidos, é o seguinte:

1920 1930 1941

Freguesia192019301941
Sé2 7673 1273 888
S. Pedro8 21210 59413 220
Santa Maria Maior7 59210 14712 833
Santa Luzia5 6677 4849 617
S. Martinho6 1989 43911 631
Santo Antonio9 91511 68813 567
S. Roque3 2414 1045 576
Na Sra do Monte4 0855 3977 467
S. Gonçalo4 3196 0239 341
Camara de Lôbos8 74911 11611 692
Curral das Freiras1 4761 9192 168
Estreito de Camara de Lobos6 2487 2948 575
Quinta Grande1 0621 4851 615
Campanario4 0484 8525 856
Ribeira Brava5 8306 9598 346
Serra de Agua1 7831 8672 097
Tabua2 4882 6653 083
Ponta do Sol6 1907 1537 789
Canhas5 3296 0371 386
Madalena do Mar
Arco da Calheta4 9515 7655 824
Calheta3 8944 3805 067
Estreito da Calheta
Jardim do Mar4 3434 925481
Prazeres
Paul do Mar1 4831 7232 143
Fajã da Ovelha2 5622 4592 581
Ponta do Pargo2 5272 7083 054
Achadas da Cruz430500528
Porto do Moniz2 4102 8123 412
Ribeira da Janela571748911
Seixal1 1411 1481 319
S. Vicente5 4265 4446 383
Ponta Delgada1 5211 7922 033
Boaventura2 1992 4273 133
Arco de S. Jorge651667870
S. Jorge2 2402 5223 441
Santana3 1233 4244 517
Faial2 8443 2353 809
S. Roque do Faial9201 0621 410
Porto da Cruz5 8144 3884 944
Caniçal657824996
Machico8 6199 88410 820
Santo da Serra2 3012 3783 111
Agua de Pena1 2421 4161 613
Santa Cruz7 4728 8568 511
Gaula3 3353 6293 753
Camacha3 9654 5305 066
Caniço4 8996 2657 011
◼ A população da cidade do Funchal é assim computada, nos seguintes anos:
AnosHabitantes
186417 677
187819 752
189018 778
190920 844
191024 687
192024 238
193031 352

3Excesso de população

A pletora populacional que actualmente se observa na Madeira não é um fenomeno exclusivo dos nossos dias. Em diversas épocas tem-se verificado esse excesso de população, que conjugado com outras graves circunstancias ocasionais determina o aparecimento de temerosas crises, provocando o forçado recurso da emigração. Seria útil e interessante a elaboração de um pormenorizado trabalho, em que fôssem estudadas as causas dessas crises, os meios adoptados para as combater e os efeitos salutares que deles resultaram. Não pode duvidar-se que essas voluntarias expatriações, apesar dos inconvenientes que as acompanham, são geralmente de benéficas conseqüencias, devendo especializar-se a que em larga escala se fez para a Guiana Inglêsa em meados do século passado, traduzindo-se em apreciaveis elementos de prosperidade para esta ilha. Vid. Emigração.

Oferece particular interesse a noticia que nos fornece o «Archivo da Marinha e Ultramar» referente ao ano de 1762, dando-nos a informação de que o então governador e capitão-general José Correia de Sá, em comunicação feita ao governo da Metropole a 23 de Julho desse ano, participava a «partida para Lisboa de diferentes individuos, que pelo excesso da população não logravam encontrar meios de subsistencia».

É a simples menção de um facto, que através do tempo e com maior ou menor intensidade se vem verificando entre nós. O mal agrava-se dia a dia e reveste as mais assustadoras proporções, tendo despertado na imprensa local uma bem orientada campanha, que deve provocar as mais atentas preocupações de «governantes e governados».

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 06
  1. A Madeira e o Porto Santo tinham cerca de 16 000 habitantes.

  2. O Porto Santo tinha cerca de 820 habitantes, o primeiro número de habitantes da ilha de que há registo.

  3. Segundo Frutuoso, o Porto Santo tinha cerca de 400 fogos, correspondentes a cerca de 1600 habitantes.

  4. O governador José Correia de Sá relatou a emigração da Madeira para Lisboa devido à sobrepopulação.

  5. Um recenseamento contabilizou 363 fogos e 1425 habitantes no Porto Santo.

  6. O censo de 1940 registou cerca de 250 000 habitantes no Arquipélago da Madeira (são apresentados os valores de 251 798 e 249 771).

Lugar

Lugares mencionados · 05

No estrangeiro

Mapa: Arquipélago da Madeira (4)
  1. Funchal

    Concelho mais populoso; a população da cidade também é apresentada em tabela.

  2. Guiana Inglesa

    Guyana. Destino da emigração madeirense em larga escala em meados do século XIX.

  3. Lisboa

    Portugal. Destino dos emigrantes referido em 1762.

  4. Porto Santo

    Ilha cuja população inicial e declínio são analisados.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 06
  1. Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito da população e do declínio do Porto Santo.

  2. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Cronista açoriano, autor das Saudades da Terra, citado a propósito dos primeiros povoadores e da população do Porto Santo em 1590.

  3. Cronista português que registou a existência de 150 chefes de família na Madeira no seu tempo.

  4. Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, de quem se diz que recusou trazer condenados por heresia, traição ou roubo.

  5. Governador e capitão-general da Madeira que, em 1762, relatou a emigração para Lisboa causada pela sobrepopulação.

  6. Ministro português do século XVIII, apontado como a única figura governativa que não descurou o Porto Santo.

Na folha P

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.