População 1Primeiros povoadores
População
Estudo da população do Arquipélago da Madeira desde o início do povoamento até 1940, com tabelas dos recenseamentos por ano, concelho e freguesia e observações sobre a sobrepopulação recorrente e a emigração.
1Primeiros povoadores
No artigo Povoamento e Colonização, daremos rapida noticia acèrca da forma como se realizou entre nós o desenvolvimento da população, ao se iniciarem os arduos trabalhos da primitiva colonização madeirense.
São bem escassos os elementos que nos deixaram as antigas crónicas a respeito desse povoamento no que particularmente se refere ao numero, posição social, qualidades pessoais e terras de origem dos primeiros colonizadores.
Vagamente se sabe que entre êles se contavam individuos de nobre ascendencia, outros das classes populares, mecanicos e cultivadores das terras, e também alguns criminosos que cumpriam suas penas nas prisões, informando-nos Gaspar Frutuoso que João Gonçalves Zargo «recusara trazer os culpados por causa da fé, ou traição, ou por ladrão».
Não se sabe o número aproximado desses individuos e também se desconhece a proporção em que as diversas camadas sociais entrariam na formação dessas primeiras levas de povoadores. Com fundamento se conjectura que não seriam poucos, crescendo breve e rápidamente esse número com a vinda freqüente de outros colonos e especialmente com a grande legião de escravos mouros e negros, tornada logo uma avultada multidão. Assim o exigiam os largos e penosos trabalhos do arroteamento das glebas virgens, estimulados os activos cultivadores pela exuberante fertilidade do solo e pela excelente benignidade do clima.
Foi na segunda metade do século XV que o povoamento tomou um mais largo incremento, tanto de povoadores vindos do continente português e de inúmeros escravos africanos, como ainda de muitos estrangeiros de vários países europeus, alguns dos quais oriundos de antiga familia, que vinham procurar nesta nova terra da promissão o que a própria pátria não poderia dar-lhes.
Seria de bastante interesse a organização duma estatistica da população deste arquipélago desde os tempos primitivos da sua colonização até ao presente, mas poucos elementos possuímos para um trabalho completo desta natureza, sobretudo com relação ao século XV e á primeira metade do século XVI. A partir dos meados do século XVI, não seria então impossivel a organização dessa estatistica, com resultados muito aproximados da verdade, aproveitando-se os arquivos das igrejas paroquiais, pois em tôdas ou quasi tôdas se encontra o lançamento regular dos assentos dos baptismos, casamentos e obitos nelas ocorridos desde o terceiro quartel daquele século. Não é muito dificil esse estudo acêrca de cada freguesia e facil depois seria realizá-lo com respeito a todo o arquipélago. Á parte as epidemias ou outras calamidades públicas, mantinha-se geralmente nessas epocas uma proporção uniforme entre o numero de habitantes duma certa localidade e o numero de nascimentos e obitos nela ocorridos, sendo deste modo possivel organizar-se uma estatística regular da população.
Azurara conta que «ao tempo da feitura» havia na Madeira «C L moradores», «afora outras gentes que hi avya, assy como mercadores, e homees e molheres solteiros, e mancebos».
Quanto ao Porto Santo, diz o anotador das Saudades que em 1529 tinha aquela ilha mais de 800 habitantes, e afirma Frutuoso que em 1590 havia ali uns 400 fogos, em que portanto habitavam cêrca de 1600 habitantes. Acêrca desta afirmativa de Frutuoso, diz o dr. Alvaro de Azevedo: «comquanto pareça haver nisto exageração, por constar dos Annais da Ilha do Porto Santo que em 1850 a população era de 1799 pessoas, isto é uns 450 fogos, e do censo feito em 1864 que os fogos eram 363 com 1425 habitantes, cremos ser exacto o dito de Frutuoso; a ilha do Porto Santo só progrediu nos primeiros cento e cincoenta anos desde o descobrimento; depois, a escassez dos seus meios naturais de produção, as amiudadas invasões dos corsarios, e o abandono em que a deixaram os donatarios, os seus mais opulentos moradores, e até os governos, salvo o marquês de Pombal, a condemnaram ao estado decadente em que até agora tem jazido.»
2Mapas da população
A população atribuída á Madeira e Porto Santo em diferentes épocas, consta do mapa seguinte, aproveitando-se os elementos fornecidos pelo estudo Madeira do «Dicionario Portuguez Ilustrado», por artigos dispersos em diversos jornais e pelos ultimos censos da população. Anos Habitantes
| Anos | Habitantes |
|---|---|
| 1500 | 16 000 |
| 1572 | 19 172 |
| 1580 | 21 800 |
| 1590 | 29 548 |
| 1614 | 28 345 |
| 1679 | 40 000 |
| 1750 | 59 143 |
| 1754 | 51 143 |
| 1767 | 64 624 |
| 1779 | 70 000 |
| 1781 | 70 443 |
| 1794 | 83 115 |
| 1797 | 97 390 |
| 1805 | 84 364 |
| 1813 | 92 382 |
| 1818 | 96 297 |
| 1819 | 96 752 |
| 1825 | 102 000 |
| 1835 | 113 828 |
| 1839 | 114 147 |
| 1843 | 117 372 |
| 1849 | 108 274 |
| 1851 | 110 340 |
| 1854 | 107 088 |
| 1858 | 98 620 |
| 1864 | 110 349 |
| 1871 | 116 706 |
| 1878 | 130 473 |
| 1890 | 132 088 |
| 1900 | 148 263 |
| 1911 | 167 783 |
| 1920 | 179 002 |
| 1930 | 211 601 |
| 1940 | 249 771 |
A população dos onze concelhos do arquipélago, segundo os dados fornecidos pelos três ultimos recenseamentos é a seguinte:
1920 1930 1940
| Concelho | 1920 | 1930 | 1940 |
|---|---|---|---|
| Funchal | 51 996 | 68 630 | 87 140 |
| Camara de Lôbos | 17 535 | 21 806 | 24 500 |
| Ribeira Brava | 14 149 | 16 394 | 19 382 |
| Ponta do Sol | 11 519 | 13 290 | 14 911 |
| Calheta | 19 760 | 21 990 | 23 996 |
| Porto do Moniz | 4 552 | 5 062 | 8 170 |
| S. Vicente | 9 146 | 9 684 | 11 549 |
| Santana | 9 778 | 10 908 | 14 074 |
| Machico | 17 286 | 17 936 | 19 749 |
| Santa Cruz | 21 038 | 24 852 | 26 076 |
| Porto Santo | 2 243 | 2 490 | 2 701 |
O movimento populacional das cinqüenta freguesias em que está dividido o distrito e relativo ao mesmo periodo de tempo, conforme os dados estatísticos já conhecidos, é o seguinte:
1920 1930 1941
| Freguesia | 1920 | 1930 | 1941 |
|---|---|---|---|
| Sé | 2 767 | 3 127 | 3 888 |
| S. Pedro | 8 212 | 10 594 | 13 220 |
| Santa Maria Maior | 7 592 | 10 147 | 12 833 |
| Santa Luzia | 5 667 | 7 484 | 9 617 |
| S. Martinho | 6 198 | 9 439 | 11 631 |
| Santo Antonio | 9 915 | 11 688 | 13 567 |
| S. Roque | 3 241 | 4 104 | 5 576 |
| Na Sra do Monte | 4 085 | 5 397 | 7 467 |
| S. Gonçalo | 4 319 | 6 023 | 9 341 |
| Camara de Lôbos | 8 749 | 11 116 | 11 692 |
| Curral das Freiras | 1 476 | 1 919 | 2 168 |
| Estreito de Camara de Lobos | 6 248 | 7 294 | 8 575 |
| Quinta Grande | 1 062 | 1 485 | 1 615 |
| Campanario | 4 048 | 4 852 | 5 856 |
| Ribeira Brava | 5 830 | 6 959 | 8 346 |
| Serra de Agua | 1 783 | 1 867 | 2 097 |
| Tabua | 2 488 | 2 665 | 3 083 |
| Ponta do Sol | 6 190 | 7 153 | 7 789 |
| Canhas | 5 329 | 6 037 | 1 386 |
| Madalena do Mar | |||
| Arco da Calheta | 4 951 | 5 765 | 5 824 |
| Calheta | 3 894 | 4 380 | 5 067 |
| Estreito da Calheta | |||
| Jardim do Mar | 4 343 | 4 925 | 481 |
| Prazeres | |||
| Paul do Mar | 1 483 | 1 723 | 2 143 |
| Fajã da Ovelha | 2 562 | 2 459 | 2 581 |
| Ponta do Pargo | 2 527 | 2 708 | 3 054 |
| Achadas da Cruz | 430 | 500 | 528 |
| Porto do Moniz | 2 410 | 2 812 | 3 412 |
| Ribeira da Janela | 571 | 748 | 911 |
| Seixal | 1 141 | 1 148 | 1 319 |
| S. Vicente | 5 426 | 5 444 | 6 383 |
| Ponta Delgada | 1 521 | 1 792 | 2 033 |
| Boaventura | 2 199 | 2 427 | 3 133 |
| Arco de S. Jorge | 651 | 667 | 870 |
| S. Jorge | 2 240 | 2 522 | 3 441 |
| Santana | 3 123 | 3 424 | 4 517 |
| Faial | 2 844 | 3 235 | 3 809 |
| S. Roque do Faial | 920 | 1 062 | 1 410 |
| Porto da Cruz | 5 814 | 4 388 | 4 944 |
| Caniçal | 657 | 824 | 996 |
| Machico | 8 619 | 9 884 | 10 820 |
| Santo da Serra | 2 301 | 2 378 | 3 111 |
| Agua de Pena | 1 242 | 1 416 | 1 613 |
| Santa Cruz | 7 472 | 8 856 | 8 511 |
| Gaula | 3 335 | 3 629 | 3 753 |
| Camacha | 3 965 | 4 530 | 5 066 |
| Caniço | 4 899 | 6 265 | 7 011 |
| Anos | Habitantes |
|---|---|
| 1864 | 17 677 |
| 1878 | 19 752 |
| 1890 | 18 778 |
| 1909 | 20 844 |
| 1910 | 24 687 |
| 1920 | 24 238 |
| 1930 | 31 352 |
3Excesso de população
A pletora populacional que actualmente se observa na Madeira não é um fenomeno exclusivo dos nossos dias. Em diversas épocas tem-se verificado esse excesso de população, que conjugado com outras graves circunstancias ocasionais determina o aparecimento de temerosas crises, provocando o forçado recurso da emigração. Seria útil e interessante a elaboração de um pormenorizado trabalho, em que fôssem estudadas as causas dessas crises, os meios adoptados para as combater e os efeitos salutares que deles resultaram. Não pode duvidar-se que essas voluntarias expatriações, apesar dos inconvenientes que as acompanham, são geralmente de benéficas conseqüencias, devendo especializar-se a que em larga escala se fez para a Guiana Inglêsa em meados do século passado, traduzindo-se em apreciaveis elementos de prosperidade para esta ilha. Vid. Emigração.
Oferece particular interesse a noticia que nos fornece o «Archivo da Marinha e Ultramar» referente ao ano de 1762, dando-nos a informação de que o então governador e capitão-general José Correia de Sá, em comunicação feita ao governo da Metropole a 23 de Julho desse ano, participava a «partida para Lisboa de diferentes individuos, que pelo excesso da população não logravam encontrar meios de subsistencia».
É a simples menção de um facto, que através do tempo e com maior ou menor intensidade se vem verificando entre nós. O mal agrava-se dia a dia e reveste as mais assustadoras proporções, tendo despertado na imprensa local uma bem orientada campanha, que deve provocar as mais atentas preocupações de «governantes e governados».
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 06-
A Madeira e o Porto Santo tinham cerca de 16 000 habitantes.
-
O Porto Santo tinha cerca de 820 habitantes, o primeiro número de habitantes da ilha de que há registo.
-
Segundo Frutuoso, o Porto Santo tinha cerca de 400 fogos, correspondentes a cerca de 1600 habitantes.
-
O governador José Correia de Sá relatou a emigração da Madeira para Lisboa devido à sobrepopulação.
-
Um recenseamento contabilizou 363 fogos e 1425 habitantes no Porto Santo.
-
O censo de 1940 registou cerca de 250 000 habitantes no Arquipélago da Madeira (são apresentados os valores de 251 798 e 249 771).
Lugar
Lugares mencionados · 05No estrangeiro
- Funchal
Concelho mais populoso; a população da cidade também é apresentada em tabela.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Guiana Inglesa
Guyana. Destino da emigração madeirense em larga escala em meados do século XIX.
A Guiana Inglesa foi uma colónia britânica que atraiu uma emigração madeirense em grande escala em meados do século XIX, inspiradora do poema A Guyaneida. Era também o destino de uma viagem planeada por António Nobre por motivos de saúde.
- Lisboa
Portugal. Destino dos emigrantes referido em 1762.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Porto Santo
Ilha cuja população inicial e declínio são analisados.
Ilha do arquipélago, povoada a par da Madeira e que constituiu uma das três capitanias. Formou sempre uma única freguesia, dedicada a Nossa Senhora da Piedade, cuja igreja foi saqueada várias vezes. O Elucidário regista o ataque de piratas mouros em 1617, a Misericórdia da ilha e um canal para águas pluviais construído nesta ilha sujeita a secas.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 06- Álvaro Rodrigues de Azevedo1825–1898
Anotador das Saudades da Terra, citado a propósito da população e do declínio do Porto Santo.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista açoriano, autor das Saudades da Terra, citado a propósito dos primeiros povoadores e da população do Porto Santo em 1590.
-
Cronista português que registou a existência de 150 chefes de família na Madeira no seu tempo.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor e primeiro capitão-donatário do Funchal, de quem se diz que recusou trazer condenados por heresia, traição ou roubo.
-
Governador e capitão-general da Madeira que, em 1762, relatou a emigração para Lisboa causada pela sobrepopulação.
-
Ministro português do século XVIII, apontado como a única figura governativa que não descurou o Porto Santo.