Açúcar 1A indústria sacarina primitiva
Açúcar
Percorre a história da produção de açúcar na Madeira, desde o auge nos séculos XV e XVI e o posterior declínio perante a concorrência brasileira e americana até à recuperação após a doença da vinha no século XIX e ao regime de proteção da década de 1930. Apresenta preços, impostos, valores de produção e legislação aplicável.
1A indústria sacarina primitiva
A indústria sacarina prosperou bastante entre nós nos séculos XV e XVII não obstante os vexames e pesadíssimos impostos a que estava sujeita. O açúcar madeirense era conhecido então nos principais mercados europeus, e, ao Papa Leão X, enviou uma vez o Capitão Simão Gonçalves da Câmara, bem conhecido pelas suas liberalidades, vários presentes valiosos, entre os quais avultavam o Sacro Colégio, fabricado com aquele produto, e os cardeais em tamanho natural, todos feitos de alfenim.
Nos tempos primitivos, as canas eram espremidas em alçapremas (prensas manuais) ou em engenhos muitos rudimentares, sendo os cilindros destes engenhos construídos algumas vezes de grossos troncos de til, convenientemente preparados.
Em 1496, havia açúcar de uma cozedura e açúcar de duas cozeduras, este do preço de 600 reais e aquele do preço de 350 reais cada arroba. Antes disso, era de 339 reais o preço de cada arroba de açúcar, provavelmente da segunda qualidade.
O proprietário do engenho dava ao Infante, Senhor da Ilha, um terço do açúcar fabricado; o proprietário da alçaprema dava somente arroba e meia daquele produto, mensalmente.
Pouco depois de 1452, havia apenas um engenho movido a água no Funchal, ao passo que o número de alçapremas era considerável, em razão de ser menos pesado o imposto que as onerava.
O primitivo foral, dado talvez por Afonso V, além da exigência do terço para os engenhos, obrigava a dar metade da cana que não fosse reduzida a açúcar.
Como a área destinada à cultura sacarina aumentasse com o andar dos tempos, mercê da construção de levadas para irrigação das terras, e por outro lado descesse a um quarto e depois a um quinto dos açucares a contribuição dos engenhos, resultou daí crescer o número destes estabelecimentos, os quais, conjuntamente com as alçapremas, fabricavam pelos tempos de 1498, mais de 120:000 arrobas, e no meado do século XVI, mais de 300:000 arrobas de açúcar.
Este açúcar era consumido na Madeira, em Portugal e em muitos países estrangeiros, tendo o alvará de 26 de Agosto de 1503 acabado com as restrições a que antes estava sujeita a exportação.
O alvará de 22 de Março de 1498 permitiu aos estrangeiros a residência permanente na ilha, a qual lhes fora negada pelo regimento de 7 de Outubro de 1496, e a carta de 21 de Janeiro de 1511 concedeu aos mesmos estrangeiros o fazerem carregamentos de açúcar destinado à exportação.
Este açúcar pagava despacho nas alfândegas, despacho que, de 1512 em diante, passou a ser feito unicamente na alfândega do Funchal.
2Decadência e restabelecimento
O preço do açúcar, em 1507, era de 315 reais por arroba e, em 1511, de 300 reais. A afluência dos açúcares do Brasil e das colónias espanholas da América aos mercados europeus foi a causa principal da decadência da indústria sacarina na Madeira. Em 1612, ainda a Madeira exportava algum açúcar, mas, em 1649, estavam já em ruínas muitos dos seus engenhos, poucos existindo em 1730.
Em 1736, começou a Madeira a importar, este género do estrangeiro, não deixando mais de o fazer, em maior ou menor escala, até o restabelecimento da cultura sacarina, após a destruição dos vinhedos pelo Oidium Tuckery.
A Madeira produzia, entre 1823 e 1826, uma quantidade insignificante de açúcar, mas, em 1861, era a produção de 275:802 quilogramas, passando, entre os anos de 1870 a 1873, a ser de 800:000 a 900:000 quilogramas anualmente. Em épocas mais recentes, a produção do açúcar deu-se nas seguintes quantidades:
| Ano | Quantidade |
|---|---|
| Em 1898 | 648:500 quilog. |
| Em 1899 | 442:000 " |
| Em 1900 | 442:000 " |
| Em 1905 | 800:000 " |
| Em 1906 | 1:053:000 " |
| Em 1908 | 1:823:350 " |
| Em 1910 | 2:973:000 " |
| Em 1911 | 3:204:000 " |
| Em 1912 | 4:161:550 " |
| Em 1913 | 4:260:928 " |
| Em 1914 | 4:796:725 " |
| Em 1915 | 4:917:113 " |
| Em 1916 | 4:943:675 " |
O açúcar colonial que a ilha importou não está compreendido nestes algarismos. Entraram no consumo local 1.102:545 quilogramas de açúcar em 1908; 837:500 em 1912; 1.656:310 quilogramas em 1916, sendo exportado para Portugal o excesso da produção; e 3.069:143 quilogramas em 1938, sendo exportado para o Continente 399.780 quilogramas.
Segundo o Dr. Azevedo, a exportação do açúcar madeirense nos tempos modernos começou em 1854; cresceu rapidamente desde 1858, até chegar ao maior grau nos anos de 1871 e 1872, no primeiro dos quais chegou a 561:837 quilogramas, e no segundo a 567:526 quilogramas, decaindo logo por metade em 1873, e de mais em mais até 1881. Diziam os antigos fabricantes que 100 quilogramas de cana Bourbon, que era uma cana riquíssima, produziam cerca de 7 a 9 quilogramas de açúcar, a pesar dos sistemas de fabrico adoptados serem muito rudimentares; hoje, sabe se que a percentagem média da cana Yuba, em rendimento de açúcar, varia entre 9 e 101, devendo atribuir-se este facto, principalmente, ao aperfeiçoamento dos sistemas de fabrico empregados.
3Preços e regime sacarino
Na estrutura do regime sacarino da Madeira, o preço do açúcar é estabelecido em função do preço da cana. O açúcar de primeira qualidade que, em 1914, era vendido ao preço de 29 centavos, passou, no ano imediato, para 31 centavos e, depois, sucessivamente, até atingir o preço de 36 centavos por quilograma. Em 1900, vendia-se esse açúcar à razão de 26,5 a 27,5 centavos, tendo o seu preço, muitos anos antes, regulado entre 20 e 24 centavos por quilograma. Em 1939, é de 4$20 na Fabrica e 4$40 no comércio retalhista.
O açúcar de segunda qualidade, que era vendido ao preço de 24 e 25 centavos por quilograma em 1910, estava, em 1914, a 28 centavos, passando depois a 30 e finalmente a 33 centavos. Antes da guerra, era esse açúcar vendido às refinarias de Lisboa a 18 e a 19 centavos por quilograma.
O fabrico de açúcar é feito pela Fabrica do Torreão, estabelecendo o decreto n.º 23.847, de 14 de Maio de 1934, com referência ao decreto n.º 16.003, de 29 de Outubro de 1928, que, até 1953, ou enquanto o aumento de consumo o não justifique, não é permitido construir novas fabricas de açúcar e álcool, nem elevar a capacidade produtora da existente, nem adaptar-se ao fabrico de açúcar a que só é destiladora, podendo, porém, todas fazer, nos termos da lei, os melhoramentos necessários de maquinismos.
Desde 1935, que a produção do açúcar ficou restrita, em princípio, ao consumo local, e, estando esta limitação conjugada com o encargo da compra obrigatória de toda a cana de certa graduação, daqui resultou ser garantido a indústria, pelo regime vigente, o mercado da Madeira. Se, em qualquer ano industrial, houver açúcar em excesso, poderá ser introduzido no continente até ao limite máximo de 200 toneladas, sem pagamento de direitos, tendo já sido porém permitidas excepcionalmente maiores exportações, por razões especiais de interesse da agricultura e da indústria.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 14-
Diogo de Teive celebrou um contrato com o Infante D. Henrique para construir o primeiro engenho de açúcar movido a água da Madeira, atribuindo ao Infante um terço do açúcar produzido.
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O açúcar de uma e de duas cozeduras foi tabelado, respetivamente, a 350 e 600 réis por arroba.
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Um regimento proibiu aos estrangeiros a residência permanente na Madeira.
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A Madeira produziu mais de 120 000 arrobas de açúcar.
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Por alvará, D. Manuel I autorizou os estrangeiros a residir permanentemente e a comerciar livremente na Madeira.
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Um alvará pôs fim às restrições à exportação do açúcar madeirense.
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Os estrangeiros foram autorizados a embarcar açúcar madeirense para exportação.
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O despacho das exportações de açúcar ficou limitado à Alfândega do Funchal.
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Com muitos engenhos de açúcar madeirenses já em ruínas, uma carta régia ofereceu prémios e empréstimos para a sua reconstrução.
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A Madeira começou a importar açúcar do estrangeiro, sinal do declínio da sua produção açucareira.
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Segundo o Dr. Azevedo, teve início a exportação moderna de açúcar madeirense.
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A produção de açúcar da Madeira atingiu 275 802 kg.
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A produção de açúcar madeirense atingiu 4 943 675 kg.
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O Decreto n.º 16.003 regulamentou as fábricas de açúcar e álcool da Madeira.
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O Decreto n.º 23.847 regulamentou o regime açucareiro da Madeira, proibindo novas plantações de cana e novas fábricas de açúcar até 1953 e restringindo a destilação direta do sumo da cana.
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A produção de açúcar na Madeira ficou limitada ao consumo local.
Lugar
Lugares mencionados · 04No estrangeiro
- Brasil
Brazil. O seu açúcar inundou os mercados europeus e provocou o declínio da produção açucareira da Madeira.
O Brasil é referido no Elucidário como um dos principais destinos dos emigrantes madeirenses, entre os quais vários clérigos e escritores. Foi também um mercado para o vinho e a aguardente da Madeira e produzia artigos de vime com vergas madeirenses. Ficou ligado à Madeira pelo cabo telegráfico de 1874 e é o país de origem do araçá.
- Fábrica do Torreão
Funchal. A única fábrica de açúcar autorizada pelo regime da década de 1930.
A Fábrica do Torreão é uma fábrica de açúcar e álcool perto da ponte, na freguesia de Santa Luzia, no Funchal. Fundada por William Hinton, foi descrita como o mais importante estabelecimento industrial da ilha. Detinha o monopólio e era a única fábrica de açúcar sob o regime da década de 1930; um projétil não detonado caiu nas proximidades em 1917.
- Funchal
Local do único engenho movido a água pouco depois de 1452 e, a partir de 1512, da única alfândega autorizada a despachar açúcar.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. As suas refinarias compravam açúcar madeirense de segunda qualidade antes da guerra.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 05-
Autor citado por situar em 1854 o início da exportação moderna de açúcar madeirense.
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Rei de Portugal que, segundo o Elucidário, provavelmente concedeu o primeiro alvará a fixar os direitos sobre o açúcar.
- Infante D. Henrique1394–1460
Senhor da Madeira, a quem os proprietários dos engenhos pagavam um terço do açúcar que produziam.
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Papa que recebeu de Simão Gonçalves da Câmara sumptuosas ofertas feitas de açúcar madeirense, incluindo cardeais em tamanho natural.
- Simão Gonçalves da Camara1579–1580
Capitão-donatário do Funchal, conhecido pela sua generosidade, que enviou ao Papa Leão X esculturas em açúcar representando o Sacro Colégio.