Património Artístico 1Revelação do património
Património Artístico
Panorama do património artístico da Madeira, sobretudo da pintura religiosa flamenga e portuguesa dos séculos XV e XVI, revelada pelos estudos de Manuel Cayola Zagalo a partir de 1933. Enumera as principais obras por igreja e assinala a fundação do Museu de Arte Sacra em 1940.
1Revelação do património
Em varias obras estrangeiras que se ocupam da Madeira, nos livros «Cartas Sem Moral Nenhuma» de Teixeira Gomes e «Ilha da Madeira» do marquês de Jácome Correia e em diversas publicações periodicas do Funchal, encontram-se algumas referencias encomiásticas a certas obras de arte, existentes em algumas igrejas desta ilha e especialmente representadas por pinturas de superior factura artistica sôbre motivos de caracter puramente religioso. Essas referencias, porém, feitas geralmente em passageiras descrições e nem sempre emitidas com perfeito conhecimento do assunto, não impressionaram o grande público e sòmente despertaram as atenções de um restrito numero das pessoas mais cultas do nosso meio social. Foi sòmente em 1933 e nos anos seguintes que o distinto conservador do Museu de Arte Antiga, de Lisboa, dr. Manuel de Almeida Cayola Zagalo, em varios relatorios, em uma comunicação feita no Congresso Nacional de Turismo, em interessantes artigos no «Arquivo Historico da Madeira» e sobretudo no valioso trabalho «A Pintura dos Séculos XV e XVI da Ilha da Madeira», nos revelou com o mais profundo conhecimento de causa, com a mais devotada admiração e com o mais desinteressado carinho a existencia de um rico patrimonio, tanto pelo numero como pela superioridade artística, que caracteriza essas preciosidades dignas de figurarem em um bem apetrechado Museu. O ultimo trabalho citado é um aturado e proficientissimo estudo historico e descritivo, que se fica devendo ao zêlo e à competencia de Cayola Zagalo e que de modo particular merece a gratidão de todos os madeirenses, que prezam o bom nome do seu torrão natal.
«... Deve-se registar e divulgar, diz-nos Cayola Zagalo, é que a revelação do Patrimonio Artistico da Madeira, adentro do Patrimonio Nacional forma umas das suas nobres parcelas.... Igual abundancia se verifica em não menos belas peças de ourivesaria escultura, ceramica, tapeçaria e mobiliario... A preponderancia das escolas de Bruges e Antuerpia e da escola portuguesa manifesta-se de tal forma, que só posso indicar uma excepção:–o quadrinho de S. Jerónimo, de presumivel proveniencia holandesa, pertencente ao Paço Episcopal do Funchal. Gérard David, Jean Provost, Jean Gossart e outros mestres por identificar, mas de mérito equivalente, são os autores dos formosos retábulos flamengos da Ilha; alguns dos painéis cuja filiação artística é por enquanto ignorada, são executados no estilo dos grandes pintores tais como Van der Weyden, Hans Memling, Quentin Metsys, etc. A justificação da existencia de tão avultada percentagem de quadros, oriundos da Flandres e do Brabante, aliada á de múltiplos exemplares de similar origem, na sua maior parte perdidos, entre os quais esculturas, móveis, tapeçarias, e a maioria das campas mortuarias revestidas de laminas de bronze, baseia-se quasi exclusivamente na cultura sacarina...»
Motivos de sobra existem para a criação de um Museu de Pintura no Funchal, sendo de presumir que em breve se proceda à sua instalação. No entretanto, criou-se um pequeno Museu de arte sacra em uma das dependencias da Sé Catedral, dando-se dele e do museu projectado uma mais desenvolvida noticia no prosseguimento deste artigo.
Interessante seria seguir «pari passu» todo o trabalho de investigação realizado por Cayola Zagalo e o seu estudo crítico e descritivo de um tão avultado numero de quadros de superior pintura artística dispersos por toda a ilha e deixar deles, neste lugar, uma rápida menção se o espaço, o tempo e a competência de que dispomos o permitissem fazê-lo. Vamos, pois, limitar-nos a uma sumária comemoração dos quadros que em reproduções fotograficas se encontram no primoroso livro «A Pintura dos Seculos XV e XVI da Ilha da Madeira», acima citado:
2Relação dos quadros
Sé Catedral: «Retábulo do Altar-Mor» pintado sôbre madeira com quinze compartimentos, Escola Portuguesa, principios do seculo XVI; quatro quadros no altar de Santo Antonio e vários quadros no altar do Bom Jesus.
No Museu de Arte Sacra, em uma das salas capitulares:
- «Nossa Senhora do Amparo», de Jean Grossart, 1526, obra notavel
- triptico representando os apostolos «S. Pedro», «S. Paulo» e «Santo André», Escola Neerlandesa, século XVI
- «S. Nicolau», Escola Portuguesa século XVI (2.° quartel)
- «Descida da Cruz», Escola Portuguesa
- «Santiago Maior», séculos XV-XVI
- «Santa Maria Madalena», Escola Neerlandesa seculo XVI
- «Calvario», meados do seculo XVI
- «S. Bernardino de Sena e São Luís», meados do século XVI, Escola Portuguesa
- «Deposição», primeira metade do século XVI.
Na Igreja do Recolhimento do Bom Jesus: «Anunciação», principios do século XVI, Escola Neerlandeza.
Igreja Nova de São Martinho: «N. S. da Incarnação», «Natividade» e «S. Joaquim», tríptico, primeiro têrço do século XVI, Escola Neerlandeza.
Igreja do Socorro: «Santiago», «S. Filipe» e os «doadores», triptico, primeira metade do século XVI, Escola Portuguesa; «Apostolos», representando seis apostolos, 1.° têrço do século XVI, Escola Portuguesa.
Capela da Consolação (Levada de Santa Luzia): «Monografia de Jesus e Anjos», principios do século XVI.
Paço Episcopal: «S. Jeronimo», 1.ª metade do século XVI, Escola Neerlandesa e «Santana e São Joaquim», primeira metade do século XVI, Escola Neerlandesa.
- «Dois Anjos adorando a Cruz», primeira metade do século XVI, Escola Portuguesa
- «Nascimento de S. João Baptista», segunda metade do século XVI, Escola Portuguesa
- «Aparição de Cristo à Virgem», primeira metade do século XVI, Escola Portuguesa
- «Aparição de Cristo a Maria Madalena», 1.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa
- e «Ecce Homo».
Igreja de São João Evangelista (Colégio): «Aparição de Cristo a São Pedro», 2.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa.
Capela do Corpo Santo: «S. Pedro Gonçalves Telmo», «Santo Antonio», «Nossa Senhora», «S. Pedro», «Um Rei e uma Santa», «S. Vicente», «S. Paulo», «S. Lourenço» e ainda outros, todos dos meados do século XVI, Escola Portuguesa.
Igreja Paroquial da Ribeira Brava: «Descida da Cruz», «Maria Madalena» e «José de Arimateia», tríptico dos principios do século XVI; «Adoração dos Magos», 1.º têrço do século XVI; e «Natividade», Escola Neerlandesa.
Igreja Paroquial da Ponta do Sol: «Santa Maria Del Populo», «Santa Barbara» e «Santa Catarina de Alexandria», tríptico do 1.º têrço do século XVI.
Igreja Paroquial de São Brás do Arco da Calheta: «S. Brás e os Doadores», 2.° quartel do século XVI, Escola Portuguesa; «Apresentação do Menino no Templo» 2.° quartel do século XVI, e ainda outros quadros. Capela dos Reis Magos (Estreito da Calheta): «Adoração dos Reis Magos» e «Veronica».
Igreja do Espirito Santo (Calheta): «O Anjo e a Virgem», «Santo Antonio» e «S. Francisco», tríptico, cujos quadros são classificados de «valiosissimos», primeiro têrço do século XVI, Escola Neerlandesa.
Capela da Madre de Deus (Caniço): Retabulo representando «Santiago Maior», «São João Baptista», «Santa Catarina de Alexandria» e «Santo Antonio», posterior a 1536, Escola Portuguesa.
Igreja Paroquial da Vila de Santa Cruz: Seis quadros que guarnecem a capela-mor, representando a «Anunciação», a «Natividade», a «Adoração dos Magos», o «Calvario», a «Descida da Cruz» e a «Ressurreição», 1.ª metade do século XVI, Escola Portuguesa.
Igreja Paroquial da Vila de Machico: «Adoração dos Reis Magos», principio do século XVI, classificado como esplendido retabulo que tem sido objecto da maior admiração por parte de abalizados criticos de arte, e ainda «Cristo e os Apostolos», 2.° quartel do século XVI, Escola Portuguesa.
3Museu de Arte Sacra
No artigo «Monumentos Nacionais» (II-394), fez-se menção dos edifícios e obras de arte existentes neste arquipélago e classificados como «monumentos nacionais» e como «imoveis de interesse publico», á maioria dos quais se faz referencia na relação que acima fica exposta.
A revelação da existencia de todo esse abundante e precioso patrimonio artístico criou um ambiente favoravel á organização e instalação de um pequeno, mas interessante e valioso museu de arte sacra, devido particularmente ás diligencias do governador José Nosolini e incondicional apoio do prelado diocesano, havendo-se aproveitado para esse fim duas salas do corpo capitular da Sé Catedral e contiguas a este templo, desde há muito classificado como monumento nacional, e cuja inauguração solene se realizou no dia 6 de Outubro de 1940.
Queremos ainda deixar aqui acentuado que a obra de Cayola Zagalo se ocupa com relativo desenvolvimento dos quadros que ficam enumerados, não somente sob o aspecto do seu valor artístico e das mais salientes caracteristicas que os distinguem, mas também da sua historia, da sua conservação e da imperiosa necessidade da criação de um Museu de Pintura, constituindo um valioso e interessantissimo estudo do rico e abundante patrimonio que se encontra espalhado em muitas localidades do nosso arquipélago, como já acima ficou ligeiramente referido.
Acerca deste importante assunto e ainda de outros interessantes especimenes de diversas modalidades artisticas, le-se com proveito os elementos de informação recolhidos nas paginas do segundo volume da apreciada obra «Ilhas de Zargo» da autoria do padre Eduardo Clemente Nunes Pereira.
Neste artigo
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Anos mencionados · 03Lugar
Lugares mencionados · 20No estrangeiro
- Antuérpia
Belgium. A sua escola de pintura está bem representada na Madeira.
Antuérpia é a cidade estrangeira onde foram impressas seis edições das Decisiones do Dr. António da Gama, o poema Insulana e o livro de missas de Duarte Lobo (1639). A sua escola de pintura está bem representada na Madeira.
- Arco da Calheta
Calheta. A Igreja de São Brás conserva pinturas do século XVI.
O Arco da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás, cuja igreja conserva pinturas do século XVI. O Elucidário aborda os seus primeiros povoadores, como os Andrade, as propriedades açucareiras, as capelas, os morgadios, os tumultos de 1834 e 1887 e a irrigação pelas levadas do Rabaçal e do Pico da Urze.
- Bruges
Belgium. A sua escola de pintura predomina no património artístico da Madeira.
Bruges é uma cidade flamenga fora do arquipélago. A sua escola de pintura predomina no património artístico da Madeira, e era a cidade natal dos irmãos Leme.
- Capela da Consolação
Funchal. Conserva uma pintura do início do século XVI.
Conserva uma pintura do início do século XVI.
- Capela da Madre de Deus
Santa Cruz. Conserva um retábulo posterior a 1536.
Capela da Madre de Deus, na freguesia do Caniço, classificada como de interesse público. Conserva um retábulo posterior a 1536.
- Capela do Corpo Santo
Funchal. Conserva pinturas portuguesas de meados do século XVI.
A Capela do Corpo Santo é uma capela do século XV situada no Funchal, muito alterada ao longo do tempo e uma das mais antigas da diocese. Foi construída por homens do mar e dedicada ao seu padroeiro, São Pedro Gonçalves Telmo, conhecido como Corpo Santo. Acolheu uma confraria de pescadores que prestava auxílio mútuo, conserva pinturas portuguesas de meados do século XVI e assinalava o antigo limite oriental da cidade.
- Capela dos Reis Magos
Calheta. Conserva uma Adoração dos Reis Magos.
Esta Capela dos Reis Magos foi fundada cerca de 1529 no Lombo dos Reis por Francisco Homem de Gouveia como sede de um morgadio; os seus fundadores estão ali sepultados. Está classificada como imóvel de interesse público e alberga uma representação esculpida da Adoração dos Reis Magos do século XVI.
- Convento de Santa Clara
Funchal. Conserva várias pinturas da escola portuguesa.
Convento no Funchal fundado entre 1492 e 1497 pelo segundo capitão-donatário, João Gonçalves da Câmara, junto à igreja da Conceição de Cima. É local de sepultura da família Câmara e conserva um documento de 1447 em que o nome aparece grafado «Zargo». Em 1912, foi cedido para a instalação de um novo hospital e, mais tarde, escolhido para acolher o museu arqueológico.
- Igreja de São Martinho
Funchal. Conserva um tríptico flamengo.
A Igreja de São Martinho é a igreja da freguesia de São Martinho, no Funchal, e alberga um tríptico flamengo. O seu adro serve de miradouro, e a igreja assinala uma das extremidades da Estrada do Morgado Esmeraldo. Foi ali pregado um dos sermões do Padre José Cupertino.
- Igreja do Colégio
Funchal. Conserva uma pintura do século XVI.
A Igreja do Colégio (São João Evangelista) é a igreja do colégio dos Jesuítas na freguesia da Sé, no Funchal, construída após 1508. Foi ponto de partida de várias procissões, palco das cerimónias de ação de graças de 1776 e dos Te Deum comemorativos, e local de sepultura de D. Francisco Henriques. Alberga uma pintura do século XVI.
- Igreja do Espírito Santo da Calheta
Calheta. Conserva um tríptico flamengo de grande valor.
A Igreja do Espírito Santo é a igreja paroquial da Calheta, reconstruída em 1639. Alberga um tríptico flamengo de grande valor.
- Igreja do Socorro
Funchal. Conserva pinturas de apóstolos da escola portuguesa.
A Igreja do Socorro, no Funchal, conserva pinturas da escola portuguesa, entre as quais um painel de Santiago classificado, um tríptico e um painel dos Apóstolos.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 11- Eduardo Pereiran. 1887
Autor de Ilhas de Zargo, obra recomendada para aprofundar o conhecimento da arte madeirense.
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Pintor flamengo apontado como autor de retábulos flamengos da Madeira.
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Mestre flamengo em cujo estilo foram pintados alguns painéis madeirenses.
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Pintor flamengo a quem é atribuída «Nossa Senhora do Amparo» (1526), no Museu de Arte Sacra.
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Pintor flamengo apontado como autor de retábulos da Madeira.
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Governador da Madeira cujos esforços levaram à abertura do Museu de Arte Sacra em 1940.
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Conservador do Museu de Arte Antiga de Lisboa cujos estudos, publicados a partir de 1933, revelaram a pintura madeirense dos séculos XV e XVI.
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Autor de Cartas Sem Moral Nenhuma, obra em que elogiou algumas obras de arte das igrejas madeirenses.
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Autor do livro Ilha da Madeira, no qual se referiu a obras de arte madeirenses.
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Mestre flamengo em cujo estilo foram pintados alguns painéis madeirenses.
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Mestre flamengo em cujo estilo foram pintados alguns painéis madeirenses.