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Arco da Calheta (Freguesia do) 1Origem e capela de São Braz
Artigo Nº 0265 Freguesia Calheta Vol. I · pp. 154–157 8 min de leitura

Arco da Calheta (Freguesia do)

Freguesia do concelho da Calheta, na Madeira, criada em 1572 em torno da Capela de São Brás. O artigo aborda os primeiros povoadores e as propriedades açucareiras, a igreja, as capelas e os morgadios, os tumultos locais de 1834 e 1887 e a geografia da freguesia.

Arco da Calheta (Freguesia do)

No estrangeiro

Mapa: Madeira (25)

1Origem e capela de São Braz

A Calheta foi povoação importante desde os tempos primitivos da colonização e emprestou o seu nome a outras localidades que se constituíram nas suas mais proximas imediações. Tais foram o Estreito e o Arco da Calheta. A denominação de Arco provém da especial conformação semi-circular dos seus montes. Estas condições orograficas, como também acontece em outros pontos da ilha, explicam com inteira propriedade o nome que lhe foi dado pelos primitivos povoadores. Data de 1572 a criação desta freguesia. Foi estabelecida a sua sede na capela de São Braz devendo notar-se que já anteriormente àquele ano ali se fazia o serviço religioso com seu capelão primitivo, a exemplo doutros lugares, pois ao tempo era o Arco uma povoação de relativa importância e com um numero apreciável de moradores. Dá-se Braz Ferreira, um dos mais antigos povoadores desta paróquia, como o fundador da capela de S. Braz segundo ele próprio diz no seu testamento feito em 1493, mas João Fernandes de Andrade, considera-se também como aquele que a mandara construir, pois nos seus testamentos feitos em 1520 e 1523 a isso se refere claramente. João Pedro de Freitas Drumond e o anotador das Saudades da Terra, notam esta flagrante divergência, dizendo o segundo que Braz Ferreira deixara em legado a construção da capela, mas que a edificação dela só foi levada a cabo por João Fernandes de Andrade. Este morreu a 9 de Abril de 1527 e foi sepultado na referida capela, encontrando-se algures que na sua sepultura se lia o seguinte epitáfio: Aqui jaz João Fernandes e Beatriz de Abreu sua mulher, que foram os primeiros fundadores deste Arco.

Foi o alvará régio de 18 de Junho de 1572 que autorizou a criação dum beneficiado curato com as atribuições de vigário, sendo-lhe fixado o vencimento anual de 13$000 reis, a que o alvará de 10 de Julho do mesmo ano acrescentou 110:000 reis com a nomeação do primeiro pároco que foi Fr. Pedro Delgado, tendo ainda o alvará de 20 de Abril de 1589 feito o novo acrescentamento de meio moio de trigo e de um quarto de vinho. Parece que ainda outros diplomas régios aumentaram posteriormente a côngrua do respectivo pároco. O prelado diocesano D. Fr. Antonio Teles da Silva, pela autorização concedida pelo alvará de 28 de Dezembro de 1676, criou um curato nesta freguesia com o ordenado anual de 12$000 reis em dinheiro, um moio de trigo e uma pipa de vinho, custeado pelo “terceiro beneficiado supérfluo de Câmara de Lobos”. Diz um antigo livro do arquivo paroquial que este curato era um dos melhores de todo o bispado.

Antes da criação desta paróquia, pertenciam os seus moradores á freguesia da Calheta, onde cumpriam as suas obrigações religiosas, que em parte passaram a ser observadas na capela de São Braz quando esta começou a ter o seu capelão privativo. Em época que não podemos determinar, acrescentou-se o corpo da igreja á capela de São Braz, que ficou sendo a capela-mor do novo templo. Com o desenvolvimento da população, tornou-se a igreja de acanhadas dimensões, determinando o prelado diocesano que se pedisse ao rei a construção duma nova igreja. Por mandado do Conselho de Fazenda de 30 de Outubro de 1744 se deu de arrematação a Cristovão Gomes, pela importância de 9.350$000, a edificação dum novo templo, que não sabemos quando começou a construir-se, mas que foi dado por concluído em Dezembro de 1754. A bênção solene da nova igreja realizou-se no dia 1 de Janeiro de 1755. Outras obras suplementares se fizeram com o decorrer do tempo, tendo a respectiva torre sido construída em 1830.

2Povoadores, fazendas e morgadios

Foi o Arco da Calheta dos primeiros lugares desta ilha sujeitos a uma larga exploração agrícola após o descobrimento. Entre os primeiros povoadores contam-se João Fernandes de Andrade (V. Andrade), a que acrescentou o nome de Arco, pelas vastas terras que aqui teve de sesmaria, seu irmão Diogo Fernandes de Andrade, Pedro Gonçalves da Câmara, neto de João Gonçalves Zarco, Gonçalo Fernandes e ainda outros, formando-se ali grandes fazendas povoadas, com suas casas nobres, capelas, engenhos e terrenos cultivados.

Diz Gaspar Frutuoso: “Da Magdalena hum quarto de legoa está a Lombada que foi de Pedro Gonçalves da Camara, marido de D. Joanna de Eça, camareira-mór da rainha: he muito grossa fazenda, tem engenho de assucar e muitas térras de canas e grandes aposentos de casas e egreja com seu capelão. Um quarto de legoa desta Lombada... está outra que se chama o Arco ou Lombada do Arco, que foi de João Fernandes, irmão de Gonçalo Fernandes, fazenda tambem muito grossa, que tem engenho e muitas terras de cana e grandes aposentos de casas, egreja e capellão”.

João Fernandes do Arco teve larga descendência, merecendo especial menção Antonio de Abreu, o descobridor das Molucas, de quem já atrás nos ocupámos e que provavelmente nasceu nesta freguesia. É também filha de João Fernandes a celebre protagonista do rapto feito por Antonio Gonçalves da Câmara, a que nos já referimos sob o nome de Isabel de Abreu.

Teve residência e sesmaria nesta freguesia Gonçalo Fernandes, personagem misterioso a que se referem as antigas crónicas madeirenses e de quem falaremos em artigo especial. Tem esta freguesia as capelas de Nossa Senhora do Loreto, Nossa Senhora da Nazaré, Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Vida. Das antigas capelas de Nossa Senhora do Desterro e de Nossa Senhora da Boa Hora só restam hoje alguns montões de escombros. Outras ermidas existiram, que totalmente desapareceram e que foram as de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora da Consolação, Nossa Senhora da Visitação, Nossa Senhora da Conceição, Santo Antonio e Santa Maria Madalena.

Quasi todas estas capelas eram de instituição vincular e algumas delas a cabeça e sede de diversos morgadios, que não poucos houve nesta paróquia. Entre eles mencionaremos o do Píncaro, instituído por Braz Ferreira, o primitivo fundador da capela de São Braz que, diz um antigo manuscrito, “principiava na fazenda que cerca a egreja parochial e se vae continuando nesta corda direito do mar á serra, até o Pinheiro. . .”; o morgadio instituido por Iria Pires, que depois foi acrescentado pelo administrador Pedro Barreto e «que está na corda da Ribeira do Ledo, que o confronta pelo norte, e assim se continúa até á Cova do Arco»; o vinculo da Consolação, que hoje pertence á casa Torre Bela e que parece se juntou ao do Pincaro; o importante morgadio instituído por Gonçalo Fernandes, encabeçado na capela da Conceição da Serra de Água; o do Loreto, criado por D. Joana de Eça; o morgado que tinha por sede a capela da Nazaré e que fora instituído por Antonia de Cristo e sua irmã Leonarda do Horto; o das Florenças, fundado por João Homem de El-Rei e ainda outros.

3Motins, levadas e sítios

A sublevação popular que em 1834 se deu na freguesia da Calheta, e que teve tão funestas consequências (V. Calheta), também se repercutiu na paróquia do Arco, amotinando-se o povo e juntando-se ao daquela freguesia, não sabendo nós dizer se entre as vitimas se contaria algum paroquiano do Arco da Calheta. Em 1887, os tristes e celebres acontecimentos das juntas de paróquia (V. este nome), que em muitos pontos da ilha levaram os povos ás mais extremas violências, tiveram também seu eco clamoroso na freguesia do Arco, sublevando-se o povo, que ameaçou romper em excessos lamentaveis e que aproveitou o ensejo para exigir o direito do pagamento do terço aos senhorios, e não da dimidia como então pagava e que a pesar de tudo continuou a pagar. Foi necessário a intervenção da força armada, que parece ter ali cometido excessos condenáveis. Esta freguesia tem três escolas oficiais, sendo uma do sexo masculino, no sítio do Ledo, uma do sexo feminino, no sítio da Ladeira e Lamaceiros, e uma mixta, no sítio da Lombada.

O Arco da Calheta é principalmente irrigado por um ramal da importante levada do Rabaçal e pela levada chamada da Madre Grande, que tem sua origem no Paul da Serra.

Tem como limites confinantes as freguesias da Madalena do Mar, Canhas e Calheta. Dista desta ultima, que é a sede do concelho, cerca de 4 quilómetros, ficando distante da Ponta do Sol, sede da comarca, aproximadamente 7 quilómetros, e 34 do Funchal.

Os seus principais sítios são Fajã, Ledo e Vinhatico, Fonte da Bugia e Luzirão, Ladeira e Lamaceiros, Fonte do Til, Fajã do Mar, Pombal e Fazenda Grande, Chada, Palheiros, Amoreiras, Paredes, Cova do Arco, Corujeira, Pomar Velho, Bagaceiro, Maçapez, Cales e Chada, Lombada do Loreto, Florenças e Pinheiro, sendo os últimos três em extremo pitorescos e donde se disfrutam belos panoramas, devendo ainda especializar-se o lugar do Rochão, que oferece ao visitante uma encantadora paisagem e uma das mais vastas e surpreendentes vistas de todo o concelho.

O seu orago é São Braz que a igreja venera a 3 de Fevereiro. Ha uma romagem anual á capela do Loreto, com grande e concorrido arraial, que se realiza nos dias 7 e 8 de Setembro. A população desta freguesia é de 4639 habitantes.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 09
  1. Brás Ferreira fez testamento, no qual se declarou fundador da Capela de São Brás, no Arco da Calheta.

  2. João Fernandes de Andrade (do Arco) morreu e foi sepultado na sua capela no Arco da Calheta.

  3. Uma carta régia autorizou a criação da curato que deu origem à freguesia do Arco da Calheta.

  4. Na sequência da resolução do príncipe regente de outubro de 1676, cartas régias de D. Pedro II, datadas de 28 de dezembro de 1676, criaram várias freguesias e curadorias, incluindo as do Paul do Mar, Prazeres, Santa Luzia, Camacha, Serra de Água, Arco de São Jorge, Achadas da Cruz, Estreito e Arco da Calheta; foram extintos benefícios da colegiada de Câmara de Lobos para financiar algumas delas.

  5. Foi adjudicada a construção da nova igreja paroquial do Arco da Calheta.

  6. A nova igreja paroquial do Arco da Calheta foi solenemente benzida.

  7. Foi construída a torre da igreja paroquial do Arco da Calheta.

  8. Uma revolta popular na Calheta alastrou ao Arco da Calheta.

  9. Os tumultos da «Parreca» contra as juntas de paróquia espalharam o terror pela Madeira em 1887–1888, e foram enviadas tropas para restabelecer a ordem. No Arco da Calheta, recorreu-se à força armada; em 22 de novembro de 1887, os amotinados ocuparam a igreja do Caniço, onde as tropas dispararam e mataram quatro pessoas. Morreu também um soldado.

Lugar

Lugares mencionados · 25
  1. Arco da Calheta · Assunto

    Calheta. Freguesia a que o artigo é dedicado.

  2. Calheta

    Freguesia de origem e sede do concelho, que deu nome ao Arco.

  3. Câmara de Lôbos

    Câmara de Lobos. Um benefício eclesiástico excedentário desta freguesia financiou o curato do Arco.

  4. Canhas

    Ponta do Sol. Freguesia limítrofe.

  5. Capela de Nossa Senhora da Nazaré

    Calheta. Capela ainda existente e sede de um morgadio.

  6. Capela de Nossa Senhora do Loreto

    Calheta. Capela, sede de um morgadio e local de uma romaria anual.

  7. Capela de São Brás

    Calheta. Primeira sede da paróquia, mais tarde transformada na capela-mor da igreja paroquial.

  8. Cova do Arco

    Calheta. Sítio que assinalava o limite de um morgadio.

  9. Estreito da Calheta

    Calheta. Povoação vizinha cujo nome também deriva da Calheta.

  10. Florenças

    Calheta. Morgadio e sítio pitoresco.

  11. Funchal

    Capital, situada a 34 km da freguesia.

  12. Ledo

    Calheta. Sítio onde ficava a escola masculina.

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Pessoas

Pessoas mencionadas · 21
  1. Cofundadora, com a irmã, do morgadio sediado na Capela de Nossa Senhora da Nazaré.

  2. Descendente de João Fernandes do Arco e descobridor das Molucas, provavelmente nascido nesta freguesia.

  3. Nobre que raptou Isabel de Abreu.

  4. Mulher de João Fernandes de Andrade, identificada no epitáfio de ambos como uma das primeiras fundadoras do Arco.

  5. Primeiro povoador que, no seu testamento de 1493, declarou ter fundado a Capela de São Brás; instituiu também o morgadio do Píncaro.

  6. Empreiteiro a quem foi adjudicada, em 1744, a construção da nova igreja paroquial por 9 350 000 réis.

  7. Bispo do Funchal que criou um curato na freguesia ao abrigo de uma carta régia de 1676.

  8. Filha de João Fernandes, lembrada por ter sido raptada por António Gonçalves da Câmara.

  9. Irmão de João Fernandes de Andrade e um dos primeiros povoadores da freguesia.

  10. Gaspar Frutuoso1522–1591

    Autor de Saudades da Terra, citado aqui pela sua descrição das propriedades açucareiras da Lombada e do Arco.

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  1. Enigmático primeiro povoador que recebeu terras na freguesia e fundou o morgadio ligado à Capela da Conceição, na Serra de Água.

  2. Fundadora de um morgadio junto à Ribeira do Ledo.

  3. Mulher de Pedro Gonçalves da Câmara e fundadora do morgadio do Loreto.

  4. Povoador fundador do Arco, também chamado João Fernandes do Arco, que recebeu grandes extensões de terra nesta zona e construiu a Capela de São Brás, onde foi sepultado em 1527.

  5. Descobridor da Madeira, aqui referido como avô de Pedro Gonçalves da Câmara.

  6. Cronista madeirense que assinalou as versões contraditórias sobre a fundação da Capela de São Brás.

  7. Fundador do morgadio das Florenças.

  8. Cofundadora, com a irmã, do morgadio sediado na Capela de Nossa Senhora da Nazaré.

  9. Administrador que ampliou o morgadio de Iria Pires.

  10. Primeiro pároco do Arco da Calheta, nomeado em 1572.

  11. Neto de Zarco e primeiro povoador que possuía a propriedade da Lombada, com o seu engenho de açúcar.

Na folha A

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