Calheta (Freguesia de) 1Origem do nome e primeiros povoadores
Calheta (Freguesia de)
Entrada sobre a freguesia da Calheta, na costa sudoeste da Madeira, uma das povoações mais antigas da ilha. Aborda a origem do nome, os primeiros povoadores, a igreja, as capelas, o clero, o motim de 1834 e os seus sítios.
No estrangeiro
1Origem do nome e primeiros povoadores
É muito de presumir que a origem do nome desta freguesia provenha da pequena baia ou enseada, que lhe serve de porto, pois é esse o verdadeiro significado da palavra calheta. A Encyclopedia Portuguesa, de Maximiliano de Lemos, referindo-se a esta freguesia, diz que tem uma praia ou calheta desabrigada, que lhe dá o nome. Gaspar Frutuoso, ao descrever a primeira exploração feita por Zarco através da costa, afirma que “correndo a costa a bem duas léguas sem achar onde desembarcar, foram dar em uma grande abra, onde, desejosos de saber a terra, desembarcaram entre huns penedos, fazendo ali á mão hum desembarcadouro, a que o capitão poz nome Calheta”. Num antigo manuscrito encontrámos a seguinte informação, que achamos interessante: “correndo a costa sem achar onde desembarcar, foram dar em huma abra grande e ahi desembarcarão, fazendo á mão hum desembarcadouro entre huns penedos, e a esta calhe que fizeram poz o o capitão o nome de Calheta”. O vocábulo caíu em desuso, mas era frequentemente empregado no tempo das nossas descobertas marítimas. Nos arquipelagos dos Açores e Cabo Verde há diversos portos e enseadas com o nome de calheta, estendendo-se também esta denominação ás povoações que lhes ficavam contíguas. Deve, pois, ser esta a verdadeira origem do nome desta freguesia.
É das mais antigas desta ilha e uma das primeiras que começaram a ser exploradas pelos primitivos colonizadores. O descobridor tomou nela uma grande lombada para seu filho João Gonçalves da Câmara, e vastos terrenos na margem direita da ribeira para sua filha D. Beatriz Gonçalves, que casou com Diogo Cabral. A este foram por seu sogro doados outros terrenos em sesmaria, e neles fez construir a capela de Nossa Senhora da Estrela, onde instituiu um morgadio e onde foi sepultado (V. Cabral e Nossa Senhora da Estrela).
Entre os mais antigos povoadores desta paróquia contam-se o Dr. Pedro Berenguer de Lemilhana (V. Berenguer), que deu o nome ao sítio que ainda hoje conserva a denominação de Lombo do Doutor, Luiz de Atouguia, que teve terras de sesmaria no lombo que se ficou chamando do Atouguia, João Rodrigues Mondragão (V. Mondragão), natural da Biscaia, e Francisco Homem de Gouveia, instituidor do morgadio dos Reis Magos (V. este nome), no Estreito da Calheta, além de outros que ali fundaram capelas com instituições vinculares anexas. Também foram antigos povoadores desta freguesia o cavaleiro napolitano Afonso de Aragão, a quem já nos referimos no artigo Aragão, e João Assuna Teixeira e João Salviato, que ali tiveram muitas terras de sesmaria. Ainda Gaspar Frutuoso se refere a João Rodrigues Castelhano, a propósito do qual diz: “... que se chamou assim por falar castelhano, sendo elle genovez de nação; que he fazenda grossa de canas, com seu capellão. Este João Rodrigues casou no Funchal duas filhas muito ricas, e são dellas agora as melhores fazendas da ilha: teve muitos escravos, cinco dos quais lhe mataram hum feitor; elle os entregou à Justiça, e foram enforcados na Villa da Calheta.
2Igreja, clero e capelas
Data de 1430 a criação desta freguesia, que teve primitivamente sua sede na Capela da Estrela, onde parece não ter permanecido largos anos. O seu orago passou depois a ser do Espírito Santo, na igreja deste nome, não tendo encontrado qualquer referência ao ano da sua primitiva construção, sabendo apenas que foi reconstruída em 1639.
O pároco teve desde a criação da freguesia a côngrua anual de 8.000 réis, que, por sucessivos alvarás régios, foi gradualmente aumentando, sendo o último de que temos conhecimentos o de 20 de Abril de 1626, que fixou este vencimento em 18.000 réis em dinheiro, quatro moios de trigo e uma pipa de vinho. O curato foi criado por alvará régio de 27 de Agosto de 1589, com a côngrua de 20.000 réis anuais.
Teve uma antiga colegiada com 4 beneficiados, tesoureiro e pregador, além do pároco e do cura. A dar credito ao que não há muito lemos num jornal, esta colegiada andou durante alguns anos numa constante peregrinação, mudando a curto intervalo de igreja para igreja e de capela para capela, tendo sua sede de 1811 a 1815 na igreja do convento dos franciscanos, de 1815 a 1821 na capela de Santo Antonio e alguns meses do ultimo ano na capela da Misericórdia, e de 1821 a 1834 na igreja matriz.
Merecem uma referência especial o tecto da capela-mor da igreja paroquial, construído como o da nossa Sé Catedral, e muito particularmente o sacrario, que é uma obra de raro valor artístico, feito em ébano, com primorosas incrustações em prata, e que é uma oferta do rei D. Manuel I. Pena é que esta preciosa peça de arte religiosa do século XVI, tenha sido algum tanto descurada no seu estado de conservação, pois a sua antiguidade, valor histórico e notáveis primores artísticos que encerra, impunham o mais esmerado e atento cuidado em prevenir e evitar, quanto coubesse no possível, a acção corrosiva e destruídora do tempo.
Foi uma das freguesias da Madeira que teve maior numero de capelas, das quais podemos enumerar as seguintes: S. José, Santa Quiteria, Jesus-Maria-José, S. Pedro de Alcantara, Nossa Senhora da Piedade, S. João Baptista, Nossa Senhora da Boa Morte, S. Francisco Xavier, Nossa Senhora da Penha de França, Nossa Senhora da Estrela, Nossa Senhora da Vida, Nossa Senhora de Monserrate, Almas, Nossa Senhora do Bom Sucesso, Nossa Senhora da Nazaré e Santa Catarina. Já poucas existem e eram quasi todas de instituição vincular. Nos artigos consagrados ás capelas, delas nos ocuparemos.
Teve esta freguesia o convento de S. Francisco, da ordem seráfica, do qual nos ocuparemos em artigo especial.
Houve aqui uma misericórdia, com sua casa e capela, da qual falaremos no artigo consagrado ás misericórdias deste arquipelago.
Foram filhos muito distintos desta freguesia os sacerdotes drs. Antonio Veloso de Lira e Antonio João de França Bettencourt, dos quais nos respectivos logares nos ocupamos com mais largueza.
3Tumultos de 1834 e outras notícias
No dia 10 de Julho de 1834, pouco mais dum mês depois da implantação do governo constitucional na Madeira, deram-se graves tumultos nesta freguesia, que tiveram como causa oculta o protestar contra a nova ordem de cousas publicas embora ostensivamente o não parecesse. A pretexto de que os povos iam ser vexados com pesados impostos, um numero avultado de indivíduos amotinou-se, praticando distúrbios e cometendo violências, de que resultou serem mortos três homens e ficarem outros com ferimentos mais ou menos graves. A sublevação prometia alastrar-se e a autoridade tratou de a sufocar com energia, enviando para esta paróquia um destacamento de infantaria e uma força de marinha da fragata D. Pedro, que então se achava surta no nosso porto. Os populares não se intimidaram com a presença da força armada, e até lhe ofereceram alguma resistência, vendo-se esta violentada a usar de extremo rigor, caindo varados pelas balas alguns homens do povo, em numero que não podemos precisar. Procedeu-se em seguida a uma larga devassa e efectuaram-se inúmeras prisões, realizando-se o julgamento em Janeiro de 1836 e sendo condenados sete réus a degredo perpetuo para Angola, alguns a degredo temporário e o padre João
Rodrigues Pestana a degredo perpetuo para Moçambique, onde morreu.
O engenheiro de minas Eugène Arckermann, no seu livro L’Ile de Madère considerée au point de vue scientifique, a pag. 60 e seguintes, refere-se com alguma largueza aos vestigios de petroleo encontrados no sítio da vila desta freguesia, a 300 metros aproximadamente da agência dos vapores costeiros. Fizeram-se algumas explorações no local, que não deram resultado apreciável.
Os principais sítios desta freguesia são: Lombo da Estrela, Lombo do Salão, Lombo do Brasil, Lombo do Doutor, Lombo do Atouguia e Vila.
Tem duas escolas oficiais, sendo uma para cada sexo.
Esta freguesia dista da cidade, pela Estrada do litoral, aproximadamente 38 quilómetros, e pela mesma estrada fica distante da Ponta do Sol, sede da comarca, cerca de 11 quilómetros. Tem 4665 habitantes.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 08-
Foi criada a freguesia da Calheta, com sede inicial na Capela da Estrela.
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Cartas régias criaram curatos em várias freguesias, incluindo Porto Santo (20 000 réis por ano), Calheta, Santa Cruz, Santa Maria Maior e São Pedro.
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Um decreto régio fixou a côngrua do pároco da Calheta em 18 000 réis, além de trigo e vinho.
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Foi reconstruída a Igreja Paroquial do Espírito Santo, na Calheta.
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O cabido da colegiada da Calheta reuniu-se na igreja do convento franciscano.
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O cabido da colegiada da Calheta reuniu-se na igreja paroquial.
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Deflagrou na Calheta um motim contra o novo governo constitucional, reprimido por tropas e fuzileiros navais.
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Os participantes no motim da Calheta foram julgados; sete foram condenados a degredo perpétuo em Angola e um padre a degredo em Moçambique.
Lugar
Lugares mencionados · 21- Calheta · Assunto
Freguesia descrita nesta entrada.
A Calheta é uma vila, freguesia e concelho na costa sudoeste da Madeira e um dos povoamentos mais antigos da ilha. O Elucidário aborda o seu nome, os primeiros povoadores, como Pedro Berenguer, a igreja e numerosas capelas, incluindo uma de um antigo convento franciscano, e o motim de 1834.
- Açores
Portugal. Arquipélago com vários lugares chamados Calheta.
Os Açores são um arquipélago atlântico que partilha espécies vegetais com a Madeira. O Elucidário regista a fixação de famílias madeirenses, como os Bettencourt, no arquipélago, a proibição dos vinhos açorianos na Madeira em 1801 e a importação de tabaco açoriano. Refere ainda a vinda de agricultores açorianos à Madeira para ensinar métodos de cultivo do milho.
- Angola
Local de degredo dos participantes no motim de 1834.
Colónia portuguesa do ultramar que serviu de local de degredo para os condenados pelos distúrbios de 1668 e 1834 na Madeira e pela Alçada de 1823. Foi governada por Vasco Guedes, Sebastião Xavier Botelho e D. Lourenço de Almada. Foi também a principal origem das variedades de cana-de-açúcar P.O.J. importadas a partir de 1933.
- Biscaia
Spain. Terra natal do povoador Mondragão.
A Biscaia é uma região estrangeira referida como terra natal de Mondragão, povoador da Calheta. Foi também aí que Caldeira foi atraído e preso por motivos relacionados com o saque francês.
- Cabo Verde
Cape Verde. Arquipélago com vários lugares chamados Calheta.
Cabo Verde é um arquipélago e antiga colónia portuguesa que serviu de lugar de exílio e deportação para madeirenses, incluindo liberais na década de 1820, manifestantes contra os decretos relativos aos lacticínios e participantes nos motins de 1936. Lowe visitou-o em 1864 e 1866. Partilha com a Madeira uma espécie de planta com flor.
- Capela da Misericórdia da Calheta
Calheta. Sede da colegiada durante um breve período em 1821.
Foi, por pouco tempo, sede do cabido colegial em 1821.
- Capela de Nossa Senhora da Estrela
Calheta. Capela construída por Diogo Cabral, primeira sede da paróquia.
A Capela de Nossa Senhora da Estrela, na Calheta, Madeira, já desapareceu. Foi planeada pelo descobridor Zarco e construída pelo seu genro Diogo Cabral, que ali foi sepultado. Era a sede do morgadio de Cabral e tornou-se mais tarde a primeira sede da paróquia da Calheta.
- Capela de Santo António
Calheta. Sede da colegiada entre 1815 e 1821.
Sede do cabido colegial entre 1815 e 1821.
- Convento de São Francisco da Calheta
Calheta. Convento franciscano que acolheu a colegiada entre 1811 e 1815.
Pequeno convento franciscano da Calheta, construído com esmolas cerca de 1670 em terrenos comprados por Pedro Bettencourt de Athouguia. Era o convento mais modesto da Madeira e acolheu o cabido colegial de 1811 a 1815. Entretanto extinto, foi mais tarde vendido pelo Estado a particulares; pertencia-lhe a capela de Santa Apolónia.
- Estreito da Calheta
Calheta. Localização do morgadio dos Reis Magos.
O Estreito da Calheta é uma freguesia do concelho da Calheta, no oeste da Madeira, delimitada pela Ribeira de São Bartolomeu e pela Ribeira Funda. A sua igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça foi fundada pela família França, e o verbete aborda os primeiros proprietários, as capelas, os sítios, as escolas e a irrigação pela Levada Nova do Rabaçal; os Prazeres foram separados da freguesia em 1733.
- Funchal
Cidade onde João Rodrigues Castelhano casou as filhas.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja do Espírito Santo da Calheta
Calheta. Igreja paroquial, reconstruída em 1639.
A Igreja do Espírito Santo é a igreja paroquial da Calheta, reconstruída em 1639. Alberga um tríptico flamengo de grande valor.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 19-
Cavaleiro napolitano entre os primeiros povoadores da Calheta.
- António João de França Bettencourt1827–1882
Sacerdote distinto nascido na freguesia da Calheta.
- António Veloso de Lira1616–1691
Sacerdote distinto nascido na freguesia da Calheta.
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Filha de Zarco, a quem foram dadas terras na margem direita da ribeira da Calheta; mulher de Diogo Cabral.
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Rei que ofereceu à igreja paroquial o seu sacrário de ébano e prata.
- Diogo Cabralm. 1486
Genro de Zarco que construiu a Capela de Nossa Senhora da Estrela, aí instituiu um morgadio e nela foi sepultado.
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Engenheiro de minas que descreveu vestígios de petróleo perto da vila da Calheta no seu livro sobre a Madeira.
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Primeiro povoador que instituiu o morgadio dos Reis Magos no Estreito da Calheta.
- Gaspar Frutuoso1522–1591
Cronista citado a propósito do nome que Zarco deu à Calheta e do povoador João Rodrigues Castelhano.
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Primeiro povoador que detinha muitas terras de sesmaria na Calheta.
+ 9 mais
- João Gonçalves da Câmara1414–1501
Filho de Zarco, para quem foi tomada uma extensa lombada de terra na Calheta.
- João Gonçalves Zarcom. 1467
Descobridor da Madeira que deu o nome de Calheta ao lugar de desembarque e concedeu ali terras aos filhos.
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Plantador genovês de cana-de-açúcar na Calheta, cujos escravos foram enforcados na vila após matarem o seu feitor.
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Natural da Biscaia e um dos primeiros povoadores da Calheta.
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Padre condenado em 1836 a degredo perpétuo em Moçambique pelo motim de 1834 na Calheta; morreu no exílio.
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Primeiro povoador que detinha muitas terras de sesmaria na Calheta.
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Primeiro povoador com terras de sesmaria na lombada mais tarde chamada Lombo do Atouguia.
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Editor da Enciclopédia Portuguesa, citado a propósito da origem do nome Calheta.
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Primeiro povoador que deu nome ao sítio do Lombo do Doutor.