Proclamações do Governo Constitucional 1A Carta de 1826 e o regresso do regime liberal
Proclamações do Governo Constitucional
Descreve como a Carta Constitucional de 1826 e o regime liberal restaurado em 1834 foram proclamados na Madeira, com destaque para os acontecimentos de 3 a 6 de junho de 1834 no Funchal. Regista as pessoas envolvidas e as comemorações anuais posteriores.
1A Carta de 1826 e o regresso do regime liberal
A pág. 301 e seguintes do I vol. desta obra demos noticia do modo como neste arquipélago foi proclamada a primeira Constituição e para lá remetemos o leitor que quiser ter conhecimento do assunto.
Em 1823, foi restabelecido o Governo absoluto, e por morte de D. João VI, em Março de 1826, outorgou D. Pedro a Carta Constitucional com a implantação do Governo representativo. A solene proclamação da Carta fez-se nesta ilha com grande brilho e entusiasmo nos dias 6, 7 e 8 de Agosto de 1826, sendo o ultimo destinado ao juramento de fidelidade á mesma carta. No Funchal e em outras localidades, houve ruidosas manifestações de regozijo pelo advento do Governo constitucional. No mes de Outubro seguinte, realizaram-se as eleições de deputados, saindo eleitos o dr. Lourenço José Moniz, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar, o dr. padre Caetano Alberto Soares e Luís Monteiro.
De novo restabelece D. Miguel o Governo absoluto em 1828, tendo-se em 1834, pela convenção de Evora-Monte e terminação da guerra civil, arvorado novamente o sistema representativo, em harmonia com as disposições da Carta Constitucional de 1826. Foi a 5 de Junho de 1834 que nesta cidade se fez a proclamação solene do novo sistema de governo, cujo aniversário se celebrou durante muitos anos com o mais fervoroso entusiasmo.
Eram então os alunos do nosso liceu que imprimiam sempre a esses festejos um cunho de característica animação e lhe emprestavam todo o calor e entusiasmo da sua ardente e irrequieta mocidade. Com que enternecida saudade nos lembramos nós, os velhos, da alvorada tocada á porta da residência dos professores, do Te-Deum na igreja do Colegio, do préstito de estudantes com o pendão de sêda azul e branco á frente, da recitação de algumas estancias dos Lusiadas, num coreto do antigo Passeio, pelo octogenario sargento Ferro, da nossa comoção ao ver o velho par do reino e antigo ministro José Ferreira Pestana içar no mastro da Fortaleza a bandeira azul e branca, feita já num farrapo, mas que fôra a mesma que ali se desfraldara no dia 5 de Junho de 1834!
2Os acontecimentos de Junho de 1834
Pela tarde de 3 de Junho de 1834, entrava vagarosamente na nossa baía a escuna de guerra Amélia, comandada pelo distinto oficial de marinha o madeirense António Teixeira Doria, trazendo no topo da vela grande içado o pavilhão azul e branco. Foi indescritível o entusiasmo que logo se despertou entre os partidarios do constitucionalismo. A escuna trouxera a notícia da convenção de Evora-Monte, celebrada a 26 de Maio, e da subsequente e imediata terminação da guerra civil, com o absoluto triunfo dos partidários da causa liberal.
D. Pedro IV comunicou oficialmente ao governador e capitão general da Madeira D. Álvaro da Costa de Macedo a noticia dos acontecimentos políticos que mudaram o sistema governativo do país, e impunha-lhe a completa submissão do arquipélago ao novo Governo, sob pena de o considerar rebelde, e tornava-o responsável pelas consequências que pudessem resultar de qualquer tentativa de resistência que porventura pretendesse fazer.
D. Álvaro de Macedo não só não pensou em oferecer a mais pequena resistência, mas até se preparava para aderir publicamente á nova ordem de cousas, quando foi procurado por um grupo de cidadãos, representantes de alguns milhares de habitantes desta ilha, pedindo que imediatamente e da maneira mais publica e solene se procedesse á proclamação do novo soberano e da nova forma de Governo.
Tendo o governador concordado com o pedido, imediatamente foi arriada no chamado baluarte do castanheiro a bandeira branca de D. Miguel e arvorada em seu lugar a bandeira bicolor, salvando as fortalezas da cidade ao içarem a mesma bandeira e sendo a constituïção aclamada alegremente por toda a parte. No dia 6, teve lugar nos Paços do Concelho a cerimonia do juramento da Carta e da aclamação da rainha D. Maria II, assistindo à cerimonia, o governador, o bispo, as demais autoridades militares e civis, e muitos cidadãos, resolvendo-se finalmente enviar felicitações ao regente D. Pedro por se achar implantado o regimen liberal no país.
Os constitucionais que se dirigiram ao palacio de São Lourenço afim de reclamar a imediata proclamação do novo governo, foram Antonio Barnabé Soares, Candido de Freitas Abreu, Luís Antonio de Ornelas, Marceliano Ribeiro de Mendonça e Paulo Emilio de Ornelas, existindo um quadro na loja maçonica Liberdade, em que se acha reproduzido o glorioso papel que estes cinco madeirenses desempenharam no dia 5 de Junho.
Ao dirigirem-se da rua de João Tavira para a fortaleza, com bandeiras bicolores nas mãos, a força que guardava a cadeia reuniu, e conta-se que se preparava para fazer fogo sobre os cinco constitucionais e o povo que os seguia, quando acudiu o oficial da ronda, que mandou retirar os soldados, evitando que o atentado se consumasse.
A escuna Amelia veio encontrar perto da Madeira a fragata D. Pedro, comandada pelo capitão de mar e guerra Henrique de Price Bertrand, que desde 28 de Maio bloqueava a ilha. Tendo este oficial enviado no mesmo dia 28 um parlamentario a D. Alvaro, recusou-se este a recebê-lo, bem como a correspondencia de que ele era portador.
A quadra seguinte faz parte duma música patriótica que era muito cantada em 1834 no seio das famílias liberais:
D. Álvaro de Macedo depois de prestar e haver feito prestar o juramento de fidelidade á Carta e á Rainha, continuou a governar o arquipélago até 13 de Julho, embarcando neste dia para Lisboa, a bordo da fragata D. Pedro. Sucedeu-lhe um governo interino composto do provisor do bispado, visto o bispo se achar ausente, do corregedor da comarca e do capitão de mar e guerra Henrique de Price Bertrand que, nos termos do alvará de 12 de Dezembro de 1770, administrou a província até o dia 6 de Agosto seguinte, em que chegou de Lisboa o prefeito Luis da Silva Mousinho de Albuquerque.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 04-
A revolução da Vila-Francada, de 27 de maio de 1823, levou D. João VI a dissolver as Cortes e a restaurar o governo absoluto em Portugal em 3 de junho.
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A Carta Constitucional foi solenemente proclamada e jurada no Funchal, durante o governo de D. Manuel de Portugal e Castro, com festejos e iluminações.
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A Madeira elegeu os seus deputados às Cortes ao abrigo da Carta Constitucional, entre eles Lourenço José Moniz e o Padre Caetano Alberto Soares.
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D. Miguel dissolveu as Cortes, convocou os três estados e foi proclamado rei absoluto, restaurando o absolutismo.
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A fragata liberal D. Pedro começou a bloquear a Madeira, e o governador miguelista recusou receber o seu emissário.
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A escuna Amélia chegou à Madeira com a notícia da Convenção de Évora-Monte.
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O governo constitucional (liberal) e a Carta Constitucional foram proclamados no Funchal, pacificamente na cidade, embora com violência em algumas freguesias, estabelecendo as instituições liberais na Madeira.
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A Carta foi jurada e D. Maria II foi aclamada rainha nos Paços do Concelho do Funchal.
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O governador D. Álvaro da Costa de Sousa Macedo partiu da Madeira para Lisboa, sendo substituído por um governo interino.
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Mousinho de Albuquerque chegou à Madeira e tomou posse como prefeito e governador militar em 6 de agosto de 1834, exercendo o governo até setembro de 1835.
Lugar
Lugares mencionados · 08No estrangeiro
- Baluarte do Castanheiro
Funchal. Baluarte onde a bandeira branca de D. Miguel foi substituída pela azul e branca.
Baluarte onde a bandeira branca de D. Miguel foi substituída pela azul e branca.
- Évora Monte
Portugal. Local da convenção de 1834 que pôs fim à guerra civil.
Évora Monte é uma localidade de Portugal onde foi assinada a convenção de 1834 que pôs fim à guerra civil entre liberais e absolutistas.
- Funchal
Principal cenário das proclamações.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Igreja do Colégio
Funchal. Igreja onde se cantou o Te Deum comemorativo do aniversário.
A Igreja do Colégio (São João Evangelista) é a igreja do colégio dos Jesuítas na freguesia da Sé, no Funchal, construída após 1508. Foi ponto de partida de várias procissões, palco das cerimónias de ação de graças de 1776 e dos Te Deum comemorativos, e local de sepultura de D. Francisco Henriques. Alberga uma pintura do século XVI.
- Lisboa
Portugal. Destino do governador que partiu.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Palácio de São Lourenço
Funchal. Palácio-fortaleza do governador onde foi hasteada a bandeira e os cinco cidadãos apresentaram a sua exigência.
O Palácio de São Lourenço, palácio-fortaleza dos governadores no Funchal, foi palco de cerimónias de beija-mão, receções, bailes e jantares, bem como da exposição de 1861. O Elucidário regista ali um grande incêndio em 1699, um museu de história natural em 1850 e uma tentativa de entrada de soldados em 1829. O Teatro Grande ficava em frente.
- Passeio Público
Funchal. Antigo passeio cujo coreto foi utilizado nas celebrações.
Antigo passeio público do Funchal, designação da posterior Praça da Constituição antes de 1821, com um coreto utilizado em festejos. A guarnição declarou ali o seu apoio à revolução em 29 de abril de 1847, e partidários populares tentaram ali matar o Dr. Trindade e Vasconcelos. O Teatro de Bom Gosto também tinha acesso pelo passeio.
- Rua de João Tavira
Funchal. Rua de onde os constitucionalistas partiram em marcha para a fortaleza.
Rua do Funchal onde funcionaram vários clubes e associações, a redação do Diário de Notícias, a Escola Industrial e uma loja de bordados. Figura também num motim popular e na marcha dos constitucionalistas até à fortaleza.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 19-
Governador e capitão-general da Madeira que aceitou o regime liberal em junho de 1834 e partiu para Lisboa em 13 de julho.
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Um dos cinco constitucionalistas que exigiram a proclamação em São Lourenço, em 5 de junho de 1834.
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Oficial da Marinha madeirense que comandava a escuna Amélia, a qual trouxe a notícia da vitória liberal em 3 de junho de 1834.
- Caetano Alberto Soares1790–1867
Padre eleito deputado pela Madeira em outubro de 1826.
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Um dos cinco constitucionalistas que exigiram a proclamação em 5 de junho de 1834.
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Rainha aclamada no Funchal em 6 de junho de 1834.
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Restaurou o absolutismo em 1828, derrubado em 1834.
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Outorgou a Carta Constitucional de 1826 e, como regente, ordenou em 1834 a submissão da Madeira ao governo liberal.
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Sargento octogenário que recitava estâncias de Os Lusíadas nas comemorações anuais de 5 de junho.
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Capitão da fragata D. Pedro, que bloqueou a Madeira a partir de 28 de maio de 1834, e mais tarde membro do governo interino.
+ 9 mais
- João VIm. 1826
Rei de Portugal cuja morte, em março de 1826, precedeu a outorga da Carta Constitucional.
- José Ferreira Pestana1795–1885
Par e antigo ministro que içou na fortaleza a bandeira original de 1834 durante as comemorações do aniversário.
- Lourenço José Moniz1789–1857
Eleito deputado pela Madeira em outubro de 1826.
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Um dos cinco constitucionalistas que exigiram a proclamação em 5 de junho de 1834.
- Luís Monteiron. 1773
Eleito deputado pela Madeira em outubro de 1826.
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Prefeito que chegou de Lisboa em 6 de agosto de 1834 para governar a província.
- Manuel Caetano Pimenta de Aguiar1765–1832
Eleito deputado pela Madeira em outubro de 1826.
- Marceliano Ribeiro de Mendonça1805–1866
Um dos cinco constitucionalistas que exigiram a proclamação em 5 de junho de 1834.
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Um dos cinco constitucionalistas que exigiram a proclamação em 5 de junho de 1834.