Aguiar (Manuel Caetano Pimenta de) 1O precursor do teatro nacional
Aguiar (Manuel Caetano Pimenta de)
Biografia de Manuel Caetano Pimenta de Aguiar (1765–1832), autor de tragédias nascido no Funchal, considerado por alguns um precursor do Visconde de Almeida Garrett na criação de um teatro nacional português e deputado pela Madeira às Cortes liberais.
1O precursor do teatro nacional
É um nome pouco menos do que desconhecido entre nós. Há alguns anos que a Câmara Municipal do Funchal, querendo salvar de inteiro esquecimento a memória deste distinto madeirense, deu o seu nome à travessa que liga as ruas da Carreira e Cruzes, mas nem por isso a grande maioria dos funchalenses ficou conhecendo melhor as qualidades ou méritos que porventura o tornaram ilustre.
Todavia, Pimenta de Aguiar, sem ser um desses escritores que assinalam uma época ou ficam imorredouros nos anais da literatura dum país, deixou no entretanto um nome bastante distinto nas páginas da nossa história literária, sendo até considerado por alguns como o verdadeiro precursor de Almeida Garrett na criação do teatro nacional. Sem possuir o prodigioso e maleável talento do autor do Frei Luiz de Sousa, a beleza inimitável da sua linguagem e as suas raras e excepcionais qualidades de dramaturgo, teve contudo a intuição de que entre nós não havia um verdadeiro teatro e tentou, seguindo principalmente a orientação dos trágicos franceses, despertar o gosto por este género de literatura, escrevendo muitas tragédias, que no seu tempo tiveram grande voga e que eram reveladoras das suas notáveis aptidões como escritor dramático. Os seus trabalhos literários continham os defeitos próprios da época, mas revelavam incontestavelmente uma grande originalidade, afastando-se dos moldes até então seguidos, e por isso, a pesar de todas as suas imperfeições, o público corria a ouvir as tragédias de Pimenta de Aguiar e aclamava entusiasticamente o seu autor.
O Visconde de Almeida Garrett com as suas admiráveis produções dramáticas, criando o verdadeiro teatro nacional relegou para o esquecimento os incontestáveis méritos do nosso ilustre patrício, não deixando todavia de reconhecer os críticos que Pimenta de Aguiar merece ocupar um lugar distinto nos nossos anais literários.
2Vida, obras e acção política
Manuel Caetano Pimenta de Aguiar nasceu nesta cidade a 16 de Maio de 1765 sendo filho de Bartolomeu Luiz Pimenta de Aguiar e de D. Maria Felicia de Carvalho. Seu pai, que era doutor em direito pela Universidade de Coimbra, veio para esta ilha exercer o lugar de curador geral dos orfãos e teve aqui a administração duma casa vinculada.
Em 1778, tendo 13 anos de idade, partiu Pimenta de Aguiar para Lisboa, a fim de se matricular no Colégio dos Nobres, não se sabendo se concluiu ou não ali os seus estudos. Em 1785 dirigiu-se a Paris e durante alguns anos seguiu nesta cidade o curso de artes e ciências, abandonando depois os estudos para se entregar aos azares da guerra, tomando parte nas revoltas internas do país pelos anos de 1790 ou 1791. Mostrou sempre grande denodo e coragem, tendo alcançado por isso o posto de capitão e a Cruz da Legião de Honra. Terminada a guerra e obtida a demissão do serviço militar, regressou à pátria, entregando-se principalmente ao estudo e ao cultivo das suas predilecções literárias. Em 1816 publicou a sua primeira tragédia a que deu o título de Virgínia, dando à luz o seu último trabalho em 1820. Foi de uma notável fecundidade, pois que em tão curto período de tempo imprimiu dez tragédias, todas elas de relativa extensão. Intitulam-se elas, pela ordem da sua publicação, Virginia, Os Dois Irmãos Inimigos, D. João I, Arria, Destruição de Jerusalém, D. Sebastião em Africa, Conquista do Peru, Eudoxia Liciana, Morte de Socrates e Carácter dos Lusitanos. Depois de 1820, e após um período de tanta actividade literária, não consta que tivesse publicado outros escritos, não sabendo nós a que atribuir esta imprevista e absoluta interrupção nos seus trabalhos. Ignoramos se se teria dedicado a outros géneros de literatura, além da tragédia, constando apenas, segundo o testemunho do Inocêncio, que deixou algumas obras inéditas. Como é próprio da tragédia e imitando os trágicos gregos e franceses. Escreveu Pimenta de Aguiar todas as suas composições em verso, revelando-se um inspirado poeta, que à alteza dos conceitos juntava a beleza da forma.
Apesar de haver residido fora da Madeira a maior parte da sua vida, não eram desconhecidos para os patrícios de Pimenta de Aguiar os seus raros dotes de talento e ilustração e por isso o escolheram para seu representante nas cortes gerais que funcionaram de 1822 a 1823, sendo também eleito deputado por esta ilha para a sessão legislativa de 1826 a 1828. Da sua acção como parlamentar e representante deste arquipélago em cortes, apenas sabemos, pelo que dizem as Actas das sessões públicas na primeira sessão anual extraordinária da primeira legislatura da câmara dos senhores deputados que, na sessão de 1826 a 1828, foi assíduo às reuniões, fez parte de algumas comissões parlamentares e apresentou um projecto permitindo a livre exportação do vinho da Madeira.
O estabelecimento do governo absoluto obrigou-o a homiziar-se para escapar às perseguições dos emissários miguelistas, que não poderiam poupar quem fora partidário entusiasta da Constituição de 1820 e da Carta Constitucional de 1826.
Pimenta de Aguiar casou com D. Micaela Antónia de Sá Betencourt de quem teve sete filhos, sendo um Luiz Pimenta de Aguiar, que foi desterrado para Moçambique por liberal e lá morreu, e outra D. Isabel Betencourt de Aguiar, que casou com o morgado António João da Silva Betencourt Favila.
Pimenta de Aguiar viveu na casa da antiga rua da Carreira, onde hoje reside a respeitável família Vieira, e que fica um pouco abaixo da Travessa que tem o nome do distinto poeta e dramaturgo. Nessa casa, segundo informações que temos por fidedignas, escreveu ele algumas das suas tragédias.
Vitimado por um ataque apoplético, sucumbiu em Lisboa, na rua Direita da freguesia de S. Paulo, a 19 de Fevereiro de 1832, tendo sido sepultado na igreja paroquial da mesma freguesia. Morreu com 67 anos de idade incompletos.
O Dr. Ernesto Gonçalves publicou dois artigos no Arquivo Histórico da Madeira acerca de Manuel Caetano Pimenta de Aguiar, que trazem novas e interessantes informações para a biografia deste ilustre madeirense.
Neste artigo
Tempo
Anos mencionados · 09-
Manuel Caetano Pimenta de Aguiar nasceu no Funchal.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar partiu para Lisboa para ingressar no Colégio dos Nobres.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar foi para Paris estudar artes e ciências.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar participou nas revoltas internas de França e alcançou a patente de capitão.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar publicou a sua primeira tragédia, Virgínia.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar publicou a sua última tragédia.
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O Dr. João Francisco de Oliveira e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar foram deputados pela Madeira às Cortes.
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Lourenço José Moniz e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar foram deputados pela Madeira às primeiras Cortes constitucionais; Aguiar propôs a livre exportação do vinho da Madeira.
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Manuel Caetano Pimenta de Aguiar morreu de apoplexia em Lisboa.
Lugar
Lugares mencionados · 07No estrangeiro
- Funchal
Cidade natal do dramaturgo, cuja Câmara Municipal deu o seu nome a uma travessa.
Capital do arquipélago e sede da principal capitania, onde teve início o povoamento; foi elevada a vila por volta de 1451–1452. A sua baía, a mais ampla do arquipélago, situa-se entre a Ponta do Garajau e a Ponta da Cruz e oferece um ancoradouro abrigado, embora o seu porto nunca tivesse sido estudado do ponto de vista oceanográfico. O Elucidário aborda o Funchal como estância de saúde, com dados climáticos, e regista os distúrbios de janeiro de 1906, a visita do príncipe dinamarquês em maio de 1846 e a existência de cones vulcânicos recentes na zona.
- Lisboa
Portugal. Cidade onde estudou no Colégio dos Nobres e onde mais tarde morreu.
Capital portuguesa, sede do tribunal da Relação e da Misericórdia cujos privilégios e estatutos foram estendidos ao Funchal. Henrique Franco de Sousa estudou na sua Academia Real de Belas-Artes, e Luiz José Baiardo mudou-se para a cidade em 1821.
- Moçambique
Mozambique. Local de desterro e morte do seu filho Luiz.
Moçambique foi uma colónia portuguesa governada por Sebastião Xavier Botelho, onde Mousinho de Albuquerque exerceu o cargo de comissário régio e Manuel de Sousa Brasão prestou serviço em 1916–1917. Foi um lugar de exílio onde morreram o Padre Pestana e Luiz Pimenta de Aguiar, e estava prevista a instalação de uma estação de telegrafia sem fios Marconi.
- Paris
France. Cidade onde estudou artes e ciências a partir de 1785.
Capital francesa onde Franco de Sousa se estabeleceu e pintou «Ar livre», e onde Juvenal Honório de Ornelas se doutorou em Medicina em 1834. O Padre Luiz Gonçalves da Câmara estudou ali e conheceu Loyola; o Barão de Ornelas formou-se, exerceu a profissão e morreu na cidade.
- Rua da Carreira
Funchal. Rua à qual se liga a travessa com o seu nome e onde ficava a sua casa.
A Rua da Carreira, oficialmente Rua do Dr. Vieira, é uma das ruas mais antigas do Funchal e constitui um limite da freguesia da Sé. O seu nome provém das corridas de cavalos que ali se realizavam; em 1508, era a rua mais larga da vila. Nela se encontravam casas de famílias nobres, capelas e o cemitério britânico, e a partir de 1934 albergou o edifício da polícia.
- Rua das Cruzes
Funchal. Rua ligada à Rua da Carreira pela Travessa Pimenta de Aguiar.
A Rua das Cruzes situa-se no Funchal. Encontra-se no outro extremo da Rua Pimenta de Aguiar e liga-se à Rua da Carreira pela Travessa Pimenta de Aguiar.
- São Paulo (Lisboa)
Portugal. Freguesia de Lisboa onde morreu e foi sepultado.
Freguesia de Lisboa onde morreu e foi sepultado.
Pessoas
Pessoas mencionadas · 09- Manuel Caetano Pimenta de Aguiar1765–1832
Autor de tragédias nascido no Funchal, capitão do exército francês e deputado pela Madeira, a quem esta entrada é dedicada.
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Morgado que casou com Isabel, filha do dramaturgo.
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Pai do dramaturgo, doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, que exerceu na Madeira o cargo de provedor-geral dos órfãos.
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Autor de dois artigos sobre Pimenta de Aguiar no Arquivo Histórico da Madeira.
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Bibliógrafo citado por atestar que Pimenta de Aguiar deixou obras inéditas.
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Filha do dramaturgo, casada com António João da Silva Betencourt Favila.
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Mãe do dramaturgo.
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Mulher do dramaturgo e mãe dos seus sete filhos.
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Autor de Frei Luís de Sousa, a quem se atribui a criação do teatro nacional que eclipsou Pimenta de Aguiar.