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Ocupação da Madeira pelas Tropas Miguelistas 1A resistência e o primeiro bloqueio
Artigo Nº 2648 Acontecimento histórico Vol. III · pp. 10–12 5 min de leitura

Ocupação da Madeira pelas Tropas Miguelistas

Relato da ocupação miguelista da Madeira em 1828, desde a resistência do governador Travassos Valdês até ao desembarque em Machico e à entrada das tropas absolutistas no Funchal. Assinala a queda do regime constitucional na ilha.

Ocupação da Madeira pelas Tropas Miguelistas

1A resistência e o primeiro bloqueio

Como se sabe, D. Miguel, regente do reino, dissolveu as cortes e reuniu os três estados a 3 de Maio de 1828, proclamando-se rei absoluto. A 12 do mesmo mês, chegou á Madeira a noticia destes acontecimentos e logo o governador e capitão-general José Lucio Travassos Valdês se preparou para a resistência e para conservar-se fiel aos princípios consignados na Carta Constitucional, doada por D. Pedro IV.

No dia 25 de Junho de 1828, apareceu em frente do nosso porto a fragata portuguesa Príncipe Real, trazendo o novo governador miguelista José Maria Monteiro e um corregedor para esta comarca, munidos de poderes discricionários. A bordo da fragata achava-se o vice-almirante Prego, que se dirigia para os Açores como governador e capitão-general daquelas ilhas.

José Lucio Travassos Valdês enviou um emissário ao comandante do navio de guerra miguelista, dando-lhe conhecimento do estado dos espíritos neste arquipélago e da resistência que oporia ao desembarque do novo governador, e intimidando-lhe ao mesmo tempo a saída imediata das aguas da Madeira.

No dia 27 desapareceu a fragata, mas no dia 28 surgiram na nossa baía uma corveta e um brigue, do Governo usurpador, e, pela comunicação feita ao cônsul inglês Henrique Veitch, se soube que os absolutistas estavam no propósito de manter o bloqueio em todo o arquipélago, contra o que o cônsul imediatamente protestou em nome do seu Governo.

A atitude enérgica e resoluta do governador e capitão-general Travassos Valdês obstou ao desembarque das forças miguelistas, tendo a esquadra abandonado as aguas da Madeira, sem ter realizado os intuitos de conquista que animavam o seu comandante.

2Desembarque em Machico e entrada no Funchal

A 16 de Agosto de 1828, apareceu de novo em frente da baía do Funchal a esquadra realista, que se compunha de uma nau, duas fragatas, duas corvetas, dois brigues e duas charruas. Vinha comandada pelo vice-almirante Henrique da Fonseca Prego e trazia a seu bordo, além das equipagens, cerca de mil homens comandados pelo coronel José António de Azevedo e Lemos.

Ao alvorecer do dia 22 de Agosto, tomava a esquadra o rumo da baía de Machico, e às 11 horas da manhã o brigue Infante D. Sebastião rompia o fogo contra o forte do Ancoradouro, e em seguida contra a bataria do Amparo, que ofereceram uma fraca e pouco demorada resistência, tendo as respectivas guarnições fugido desordenadamente quasi aos primeiros tiros dados pela esquadra inimiga. Realizou-se em seguida o desembarque das tropas miguelistas «sem a menor resistência e com toda a comodidade», segundo o insuspeito testemunho dum contemporâneo dos acontecimentos.

José Lucio Travassos Valdês, que era sem duvida um bravo e tinha qualidades de estratégico, de que deu tão eloquentes provas nas campanhas da liberdade, tinha preparado a defesa da Madeira, mas dispunha de fracos elementos para isso, não só pelo numero e aptidões dos oficiais mas ainda pelos mal disciplinados e bisonhos soldados milicianos que compunham a guarnição do arquipélago. É certo que poucos dias antes tinham vindo de Inglaterra alguns oficiais nossos compatriotas, mas chegaram já tarde e só se podia contar com o seu valor e competência militar, o que não bastava para a organização duma defesa que tinha de ser enérgica e talvez demorada, em atenção ao numero e qualidade dos atacantes. Travassos Valdês organizou alguns núcleos de resistência desde Machico até ao Funchal, especialmente no Seixo, em Santa Cruz, no Porto Novo e Palheiro do Ferreiro, que tinham como comandante o tenente-coronel Schwalback. No Seixo, estavam 200 homens comandados pelo capitão Brito, que, ao aproximar-se o inimigo foi o primeiro a fugir, seguindo-lhe o exemplo toda a força militar que ali se encontrava. Schwalback, á vista destes sucessivos desastres e reconhecendo a inutilidade da resistência que preparara em Santa Cruz, resolveu concentrar as suas forças no forte do Pôrto Novo que estava bem artilhado, e aí, dominando as íngremes ladeiras que o inimigo forçosamente teria que subir, poderia causar grandes perdas nas tropas realistas e obrigá-las até a retroceder.

Quando Schwalback ordenava naquele excelente ponto estratégico os elementos de resistência que tinha á sua disposição e de outros que vinham chegando do Funchal, deu-se uma explosão nas munições, de que resultou ficar gravemente ferido aquele oficial e outras praças da guarnição. Os soldados abandonaram então o forte em precipitada fuga e Schwalback dificilmente conseguiu reunir alguns homens que o conduzissem ao Funchal.

Travassos Valdês saindo da cidade em reforço da guarnição do Porto Novo, encontrou Schwalbach na estrada do Caniço, ferido e em direcção ao Funchal, e pôde então reconhecer que tudo estava perdido, sendo inútil qualquer resistência e restando apenas poupar a vida aos seus soldados e subtrair a população ás represálias das tropas miguelistas.

O governador e capitão-general José Lúcio Travassos Valdês, que tanto se distinguiu nas lutas da liberdade e também na politica, com o nome de Conde de Bonfim, acolheu-se á protecção da Inglaterra, refugiando-se a bordo da corveta de guerra Alligator (V. este nome, vol. I, pag. 46) na tarde do dia 22 de Agosto, e seguindo poucos dias depois para Londres com outros emigrados.

As tropas realistas, pela manhã do dia 23 de Agosto, saíram de Santa Cruz em direcção ao Funchal, não encontrando a mais pequena resistência, e entraram na cidade na tarde daquele mesmo dia.

José Maria Monteiro (V. êste nome, vol. II, pag. 390), o novo governador miguelista, desembarcou no dia 24 de Agosto e nesse dia tomou posse do seu novo cargo.

Neste artigo

Tempo

Anos mencionados · 01
  1. D. Miguel dissolveu as Cortes, convocou os três estados e foi proclamado rei absoluto, restaurando o absolutismo.

  2. A notícia da proclamação de D. Miguel como rei absoluto chegou à Madeira.

  3. A fragata Príncipe Real chegou ao Funchal com o governador miguelista José Maria Monteiro, cujo desembarque o governador Travassos Valdez impediu.

  4. A esquadra miguelista comandada por Henrique da Fonseca Prego apareceu ao largo do Funchal.

  5. A esquadra miguelista bombardeou Machico, desembarcou tropas e ocupou a Madeira, entrando no Funchal sem oposição em 23 de agosto; o Forte de São João Baptista disparou contra o brigue Infante D. Sebastião.

  6. D. Miguel foi proclamado na Madeira, e José Maria Monteiro desembarcou no Funchal e tomou posse como governador miguelista.

Lugar

Lugares mencionados · 11

No estrangeiro

Mapa: Madeira (11)
  1. Açores

    Portugal. Destino de Prego, para exercer o cargo de governador.

  2. Bataria do Amparo

    Machico. Bateria de Machico que ofereceu pouca resistência.

  3. Caniço

    Santa Cruz. Estrada onde Valdês encontrou Schwalback ferido.

  4. Forte do Ancoradouro

    Machico. Forte de Machico bombardeado pelo brigue Infante D. Sebastião.

  5. Forte do Porto Novo

    Santa Cruz. Forte bem armado onde uma explosão de munições pôs fim à resistência.

  6. Funchal

    Capital onde as tropas miguelistas entraram a 23 de agosto de 1828.

  7. Londres

    United Kingdom. Cidade onde Valdês se exilou.

  8. Machico

    Baía onde as tropas miguelistas desembarcaram a 22 de agosto de 1828.

  9. Palheiro Ferreiro

    Santa Cruz. Um dos postos de defesa organizados por Travassos Valdês.

  10. Santa Cruz

    Local de um posto de defesa que foi abandonado; daqui, as tropas marcharam para o Funchal.

  11. Seixo

    Santa Cruz. Posto de defesa cujos 200 homens fugiram.

Pessoas

Pessoas mencionadas · 09
  1. Capitão que comandava 200 homens no Seixo e foi o primeiro a fugir quando o inimigo se aproximou.

  2. Regente de Portugal que se proclamou rei absoluto em 1828, precipitando a ocupação da Madeira.

  3. Rei que outorgou a Carta Constitucional defendida por Travassos Valdês.

  4. Vice-almirante que comandou a esquadra realista que ocupou a Madeira em agosto de 1828.

  5. Cônsul britânico na Madeira que protestou contra o bloqueio miguelista em 1828.

  6. Coronel que comandou cerca de mil soldados miguelistas desembarcados em Machico.

  7. Governador e capitão-general constitucionalista da Madeira que resistiu aos miguelistas em 1828 e fugiu para Londres; mais tarde, Conde de Bonfim.

  8. Governador miguelista que chegou em junho de 1828 e tomou posse a 24 de agosto de 1828.

  9. Tenente-coronel que comandava as defesas constitucionalistas e ficou gravemente ferido numa explosão no Forte do Porto Novo.

Na folha O

Vistos recentemente

    As páginas que ler aparecerão aqui.